AVISO: este capítulo é um spoiler do livro sete e contém uma cena de darklemon
A TEIA DA ARANHA
Capítulo 5 – Enredado
Não posso dizer quantos dias fiquei completamente aéreo, fora de mim, deitado na cama sem conseguir pensar em nada. Aqueles olhos que se voltaram para mim antes de morrer... Por mais que eu tentasse esquecê-los, eles me assombravam, ainda mais por ter consciência da razão deste último olhar. Minha alma estava em jogo, mais do que tudo, e apenas Dumbledore conseguira entender isso.
A morte do grande bruxo trouxe o caos ao mundo bruxo, tudo o que o Lorde mais desejava. O medo se instalou e a oposição se tornou cada vez mais perseguida. Mas tudo isso já não tinha mais significado nenhum para mim. Eu sentia apenas medo das conseqüências da minha falha, pois eu sabia que Ele não seria assim tão magnânimo como quis demonstrar. Agradecia imensamente a possibilidade de ficar bem longe dele, ainda hospedado na mansão Lestrange.
Mas eu ainda não conseguia tirar Harry da minha cabeça, por mais que estivesse enredado na teia da maldade. Naquele momento em que minha vida mais se deteriorava mais me apegava aos únicos momentos em que me senti seguro. Dormia abraçado ao meu travesseiro, desejando estar nos braços dele... E o amor que me consumia se tornava cada vez mais perigoso, pois a minha oclumência não surtiria efeito diante de todos os comensais... Principalmente diante do Senhor das Trevas.
Minha mãe vivia seus dias agora agarrada a mim, temendo cada reunião, cada encontro dos comensais... Sempre temendo que em algum momento o meu destino fosse decidido. Apenas a notícia de que meu pai seria solto trouxe alento para o seu coração dilacerado. Então eu percebi o amor que os unia... Ela realmente amava aquele homem tão arrogante... Tão diferente dela mesma. Eu só esperava que fosse recíproco. Afinal, as coisas que ele me fazia... E ao pensar nisso decidi que não deveria estar presente quando ele voltasse. Eu o traíra e... Falhara com a família. Não tinha o direito de continuar vivendo sob o teto dos Malfoy.
Draco entra na biblioteca e vislumbra a figura magra da mãe diante da janela. Colocara-se ali há dias, sempre a espera da chegada do marido. Aproxima-se dela e a abraça por trás, surpreso por achá-la tão frágil, como nunca sentira. Ela se recosta em seu peito, mas seus olhos não deixam de observar o portão principal.
- A senhora tem comido? – A voz dele soa preocupada.
- Como eu poderia... Mergulhada nesse pesadelo. – Narcissa parece com o pensamento distante.
O rapaz se afasta cabisbaixo. Sente-se culpado, pois suas falhas colocaram a família nessa situação complicada. Somente ele é o responsável pela desgraça deles e... Sua tia nunca o deixa se esquecer disso.
- Me perdoa por isso... – A mãe se volta para ele, percebendo a dor no corpo contraído do filho. – Eu sou o culpado.
Os olhos carinhosos percebem então a mala depositada no chão, próxima da porta. Nota as roupas de viagem do filho e anda até ele, temerosa de perdê-lo. Abraça-o como se o tentasse segurar, impedi-lo de partir.
- Não é culpa sua! – As lágrimas surgem em seus olhos profusamente. – É minha.
- Mãe... Eu falhei. – Essas palavras quase não saem.
Narcissa se afasta um pouco dele. Seus olhos estão vidrados no passado, como se guardasse um grande segredo. Draco teme pela sanidade da mãe, nunca viu em seu rosto aquela aparência assustada e sofrida.
- Você o ama, não é? – Ela o encara com carinho, sem qualquer julgamento.
- Do que está falando? – O loiro recua, suas pernas fraquejando, forçando-o a sentar-se.
- Eu sentia a intensidade dos seus sentimentos, mas sem nitidez... Sabia que algo de ruim tinha lhe acontecido, mas... – Ela sorri para ele. - Ao mesmo tempo maravilhoso.
- Maravilhoso?! – Os olhos cinza evitam os dela. – Só me faz sofrer.
- Amar é assim mesmo... Mas é a melhor experiência que temos. – O sorriso dela se abre ainda mais. - É o que nos fortalece para isso... Essa coisa horrível que estamos vivendo hoje.
Ela o abraça, pois sente com toda a força o que o filho guarda apenas para si.
- Quando o Lorde falou do plano de seu pai... – A mãe levanta o rosto dele, encarando-o diretamente nos olhos tristes. – Foi então que eu entendi o que você sentia... Soube por que você o traiu.
- Estamos nessa situação por minha... – O choro contido fica claro na voz embargada.
- Por minha causa. – Ela insiste.
Narcissa solta o filho e anda até a janela, de costas para ele, decidida a contar ao filho aquilo que nem Lucius sabe... Aquilo que tornou a família Malfoy o alvo de toda a raiva do Lorde das Trevas.
- Eu estava com Ele naquela noite. – A mulher reúne todas as suas forças para conseguir falar sobre isso.
- Do que está falando? – Draco se levanta e toca no ombro da mãe, que se volta para ele, os olhos carregados de lágrimas.
- O Lorde sabia que eu amara James Potter... Queria pôr a prova minha lealdade. – Surpreende-se por não haver qualquer reação do filho à menção desse nome. – E me levou no esconderijo deles naquela noite.
- O que?! – Essas palavras o fazem estremecer.
- Eu devia matá-los, mas... Não pude. – As imagens passam por seus olhos como se estivessem acontecendo. – E graças a minha falha... Lily pôde correr até o quarto do filho para protegê-lo.
Um silêncio aterrador se instala entre eles, os fantasmas do passado percorrendo a mente da mulher e se instalando na biblioteca dos Malfoy, como se ela tivesse se tornado aquela casa... O túmulo dos Potter.
- E enquanto eu fiquei minutos intermináveis observando o corpo sem vida do homem que fora minha antiga paixão... Ele subiu e a matou. – Há uma incrível dor em seus olhos. – E eu entrei no pequeno quarto bem no momento em que ele apontava a varinha para o bebê... Não havia medo naqueles olhinhos. Eles me observavam e não ao homem assustador que o encarava com ódio... E quando o brilho o atingiu... Eu pude ver aquele homem poderoso desaparecer no ar, como uma assombração, e... Nada fiz. Na verdade... Eu avisei anonimamente a Ordem de que os Potter tinham sido mortos e que o garotinho estava sozinho.
- Mãe... – Todos os anos de silêncio e submissão de Narcissa se tornam claros.
- Por isso ele faz de tudo para nos destruir... – Ela volta a observar a janela. – Seu pai nunca soube... Estava em outra missão naquela noite e... Dobby ficou com você. E eu prometi que nunca mais faria algo que colocasse em risco nossa família e o nome dos Malfoy.
Draco abaixa a cabeça, entendendo o porquê de sua mãe ter se omitido por tantos anos em que o pai o fizera sofrer. Ela se culpava de tal forma que se fechou em seu mundo idílico da família perfeita, jamais questionando as ações do marido, jamais deixando transparecer qualquer sentimento negativo... Como se Narcissa Black tivesse deixado de existir e somente restasse à senhora Malfoy.
- É ele! – Narcissa corre da janela, saindo da biblioteca e pulando nos braços de Lucius quando este entra pela porta da frente.
O marido corresponde ao abraço com força, aconchegando o rosto pálido na maciez do pescoço alvo e esguio. Respira profundamente, sentindo com prazer o perfume da mulher que adora. Contém as lágrimas, mas fica claro em seu corpo, na forma como a estreita entre seus braços, que há um amor imenso que os une.
O rosto do pai se levanta devagar e encara o filho, que permanece parado diante da porta da biblioteca. Draco parece ainda mais magro e pálido, seus olhos se encontrando temerosos. Essa é a primeira vez que se vêem desde a noite em que o filho o traiu... Desde o momento em que o pai colocou suas mãos em torno de seu pescoço com a intenção de matá-lo. O marido então desfaz o abraço em torno da esposa e anda na direção do filho. Os dois ficam segundos intermináveis se encarando.
- É bom tê-lo de volta. – Draco diz isso com absoluta sinceridade, apesar de temer sua reação.
Lucius puxa-o para si e o abraça apertado, sentindo como o filho resiste, mas logo se soltando e retribuindo. Os dois se perdem nessa proximidade inédita entre eles, sentindo o medo de ambos se desvanecendo.
- Me perdoa pai... Eu te decepcionei. – A voz do rapaz deixa claro que as lágrimas correm por seu rosto.
- Na prisão eu pude pensar... – Lucius aperta ainda mais o abraço. – Eu me tornei o que mais odiava... Fiquei como o meu pai.
- O senhor soube que eu... – O pai precisa saber que o filho piorou ainda mais a situação da família.
- Nós damos um jeito... – Lucius se afasta e o encara. – Vamos sobreviver... Como sempre.
ooOoo
E antes que nós três tivéssemos tempo para respirar, logo nos vimos no centro de toda a tempestade. Nossa casa se tornou a base dos comensais, o local de onde o Senhor das Trevas comandava sua trajetória rumo ao poder absoluto. E cada um dos comensais que tanto adulavam meu pai, a partir daí se compraziam com sua desgraça. E para mim... Todos pareciam saber o que houvera entre eu e Harry e se satisfaziam em me provocar... Mas o Lorde parecia guardar o detalhe principal para si, eventualmente deixando isso claro. E isso me amedrontava.
Eu ansiava saber de Harry... Temia por ele, mas... Isso me colocava ainda mais em perigo... Mais do que podia imaginar. E saber que ele me odiava e que estava com a insossa garota Weasley... Deixava-me maluco. Apesar de ainda nutrir muita mágoa, me apeguei a ele e a tudo que vivemos juntos como uma forma de manter minha sanidade.
Todos os comensais se reúnem na sala de visitas, que perdera o charme aristocrático de antes. Agora é dominada por uma enorme mesa, com todos os leais servidores de Voldemort em torno dela. E cada um deles deseja estar mais perto do Lorde, ter o privilégio de ser um de seus favoritos. Lucius não fica muito distante, mais próximo do que os outros acham que deveria, sentado entre a esposa e o filho. Narcissa assumira uma atitude fria e distante desde que se apossaram de seu lar, o que parece irritar sua irmã e, o seu mestre, ainda mais. Pai e filho estão claramente temerosos por seus destinos, tendo de se conformar com sua nova posição humilhante dentro do grupo. No canto da sala se encontra uma mulher, inconsciente depois de ter sido torturada por horas pelo Lorde, que acaba de deixar o recinto. Draco não consegue tirar os olhos dela, uma sensação ruim corroendo seu estômago. Segura a náusea, lançando um olhar para o pai.
- Eu conheço ela... – Sussurra bem próximo do pai. – É uma professora de Hog...
O Lorde entra triunfante na sala, uma expressão de satisfação por ver o efeito que sua entrada provoca em todos. Eles parecem segurar a respiração por alguns segundos, observando-o, mais por medo do que por respeito. Senta-se na cabeceira da mesa, sorrindo maldoso ao ver como alguns cobiçam o lugar vago a sua direita.
- Alguma notícia deles? – Diz inquisidoramente.
- Estão atrasados, meu Lorde. – Bella se adianta aos outros, desejosa por criar animosidade entre o mestre e seu novo 'queridinho'. – Uma falha imperdo...
- Se Severus ainda não chegou... – Há um tom de provocação em sua voz. – Deve ter um bom motivo.
Quando ele concentra seu olhar na sua maior fã, percebe como o jovem Malfoy não tira os olhos do corpo inerte no canto da sala, divertindo-se com sua expressão de terror. Volta sua atenção para a mulher, apontando-lhe a varinha. Instantaneamente ela flutua no ar, ficando dependurada sobre a mesa, logo a frente de Draco, como se correntes invisíveis a mantivessem ali.
E os olhos cinza se fixam ainda mais, temendo pelo destino da pobre vítima. Qualquer um deles poderia estar em seu lugar... Desviam-se apenas por alguns segundos ao ver Snape entrar acompanhado de Yaxley, a quem o rapaz conhece de vista. Ele trabalha no Ministério, então o assunto é de suma importância, não apenas mais uma das reuniões para discutir o futuro do mundo bruxo sem a existência dos sangues-ruins.
Os dois homens caminham na direção do Lorde, mas os olhos de todos recaem sobre o ex-professor de poções. Draco não o via desde a noite fatídica, mas sente que sua presença causa um forte estremecimento em todos, principalmente em sua tia. Mas o Senhor das Trevas parece profundamente satisfeito em vê-lo, indicando-lhe a cobiçada cadeira a seu lado direito, provocando pequenos ruídos insatisfeitos nos demais. Somente seus pais não demonstram qualquer sentimento negativo, percebe que há neles apenas temor.
E esse sentimento também o aflige, pois sabe que seu castigo ainda está por vir. Volta novamente seus olhos para o corpo inerte dependurado sobre a mesa e se imagina ali também, sob o olhar maldoso de todos os comensais. Mas então algo na conversa que se seguira entre o Lorde e Snape lhe chama a atenção. As palavras 'remover' e 'Harry Potter' ecoam em sua mente, fazendo com que se concentre novamente no destino deste.
Os olhos do mestre se tornam fogo, voltando-se para ele de relance, provavelmente pressentindo sua preocupação. Draco então se policia, fecha sua mente para tudo isso que o invade, mas sendo incapaz diante da discussão que se segue sobre o mérito da informação trazida por Snape e a de Yaxley. Torce inconscientemente para que o Lorde escolha a errada, mas novamente sente que os olhos vermelhos recaem sobre ele, a força de seu desejo de ver Harry seguro chegando até a mente ofídica mesmo que tente evitar.
- Cuidarei do garoto pessoalmente. Cometeram-se erros demais com relação a Harry Potter. Alguns foram meus. – Seus olhos, que estão fixos sobre o corpo da prisioneira, rapidamente descem sobre o rosto pálido do jovem Malfoy, encarando seus olhos por alguns segundos. – Que Potter ainda viva deve-se mais aos meus erros do que aos seus êxitos.
Um mal-estar geral percorre a mesa, pois essas palavras atingem a todos. De uma forma ou de outra a grande maioria dos comensais teve seu papel nas seguidas vitórias pessoais do inimigo de seu mestre. Mas o loiro é o único que não lamenta e isso também não passa despercebido ao homem que é o centro do temor de todos. Mas ele realmente parece estar emitindo um lamento pessoal, uma reprovação de seus próprios erros.
- Por ter sido descuidado, fui frustrado pela sorte e pela ocasião, essas destruidoras de planos, a não ser os mais bem traçados. Mas aprendi. Agora compreendo coisas que antes não compreendia. Eu que devo matar Harry Potter, e assim farei.
Uma forte sensação ruim percorre o corpo e a mente do rapaz, fazendo com que seu pai toque em sua mão por baixo da mesa. A intensidade de seus sentimentos também fora captada por ele, assim como pelos mais atentos dos presentes, mesmo que não tivessem noção da precisão do que sentiam. Sabe que precisa se controlar, mas não consegue evitar esse desejo de que falhem novamente. Mas um grito vindo da masmorra tira a atenção que já começava a se voltar para ele, inclusive a do mestre.
Infelizmente esse momento passa depressa demais, fazendo com que o Lorde volte a sua atenção a um novo assunto, ainda mais perigoso. Ele parece insatisfeito com os resultados obtidos por sua varinha diante dos embates com Harry.
-... Lucius, não vejo razão para você continuar a ter uma varinha. – Isso é dito com um desprezo venenoso.
Os Malfoys congelam, como se tudo que temessem começasse a acontecer de forma sutil, mas decisiva. Algo dentro de Lucius parece se quebrar, uma revolta contida transparecendo em seus olhos, de uma forma que apenas o filho poderia reconhecer. Os seus músculos se tornam tensos como cordas de violino quando questiona as palavras do Lorde. Mas os dedos finos de Narcissa o contêm tocando em seu pulso, temendo que tal humilhação o faça tomar uma atitude impensada, apesar de em momento algum isso modificar a expressão impassível em seu rosto. E tudo que é dito sobre o assunto em seguida vem carregado da necessidade de Voldemort testar os limites a que essa orgulhosa família pode chegar, causando risos entre os presentes, exceto em Snape.
- Dei-lhe a liberdade, Lucius, não é suficiente? Mas tenho notado que você e sua família ultimamente parecem menos felizes... – Há desafio em sua voz, como se desejasse que o homem loiro reagisse. – Alguma coisa na minha presença em sua casa os incomoda, Lucius?
- Nada... Nada, milorde. – Malfoy não consegue evitar a leve hesitação em sua voz.
- Quanta MENTIRA, Lucius...
Mas o silvo de Nagini vindo sob a mesa muda o foco da conversa, fazendo com que os Malfoys consigam voltar a respirar por alguns segundos, mas que rapidamente passa, pois os olhos de Voldemort se voltam de novo para Lucius e sua família, enquanto acaricia a cobra que se acomodara em seu ombro.
- Por que os Malfoys parecem tão infelizes com a própria sorte? – Há uma profunda maldade em seus olhos, seu rosto, em todo o seu corpo. – Será que o meu retorno, minha ascensão ao poder, não é exatamente o que disseram desejar durante tantos anos?
- Sem dúvida, Milorde. – Sua voz soa trêmula, enquanto enxuga o suor sobre seus lábios. – É o que desejávamos... Desejamos.
Narcissa acena com a cabeça, mas sem conseguir olhar para o homem terrível que os encara. Teme a ele mais do que tudo, mas seu medo é muito mais pelo marido e pelo filho, do que por si mesma. Draco o encara muito brevemente, aterrorizado com o rumo da conversa, temendo ter detonado tal reação com os pensamentos que teve com relação à segurança de Harry. Esses seus sentimentos podem estar causando a desgraça da família mais uma vez, mas... Não consegue evitar.
Mas o desejo de Bellatrix em manter seu próprio status junto do Lorde a faz reagir, deixando claro que ele é mais do que bem vindo na mansão. Por mais que essa não seja sua casa, o parentesco com a família em desgraça pode atingi-la, por isso precisa defender a fidelidade destes, por mais que não ligue em nada para o destino deles. E isso parece desviar a atenção do Lorde, passando para a mulher morena, que inicialmente parece ser coberta pela gratidão deste, mas logo se vê confrontada pelos erros cometidos por sua outra irmã e o casamento amaldiçoado de sua sobrinha Ninfadora. Nunca desejou tanto ter sido filha única.
As risadas ecoam pela sala, pois a grande maioria dos comensais sente um profundo prazer ao ver os antes favoritos de Voldemort em tal estado de humilhação. Bella reage às risadas, justificando-se, deixando claro que nada tem de proximidade com Tonks e o desprezo que tudo isso também lhe provoca.
- E você Draco, o que diz? – Diz claramente provocativo, como se quisesse dizer muito mais com essas palavras. – Vai bancar a babá dos filhotes?
As risadas aumentam ainda mais de intensidade, principalmente entre aqueles que sabem o que motiva tal desprezo do Lorde com relação ao rapaz. Os olhos cinza se voltam aterrorizados para o pai, procurando nele o que deve dizer, pois está emudecido pelo medo. Mas este encara o chão, como se procurasse nele uma forma de sumir para sempre. É a mãe que lhe lança um olhar compreensivo, dizendo-lhe com um aceno de cabeça de que o melhor a fazer é manter-se calado.
O próprio Senhor das Trevas se cansa de tudo isso, percebendo que tem mais o que fazer... Já se divertiu o suficiente. Decide deixar sua pequena vingança pessoal para um momento mais oportuno, sorrindo ao pensar no que planeja para eles. Volta seu olhar para a vítima letárgica sobre a mesa e dá um fim dramático à vida da professora Burbage. Não sem antes provocar o jovem Malfoy, que já não consegue mais olhar para a pobre mulher desesperada, implorando para Snape ou qualquer um que a possa salvar. E com um movimento da varinha está tudo terminado, seu corpo caindo pesado sobre a mesa. Todos pularam para trás com o estrondo, apenas Draco caiu da cadeira, os olhos horrorizados encarando o rosto sem vida voltado para ele.
Um silêncio mortal se instala na sala, apenas o silvo de Nagini se movendo na direção do corpo. E ninguém tem coragem de sair, mesmo quando a imensa cobra começa a repugnante tarefa de engoli-lo. E enquanto alguns lutam contra a vontade de vomitar, outros se deliciam com a pura maldade de seu mestre.
Draco se levanta devagar, permanecendo de pé enquanto o quadro dantesco se desenrola. Algo o imanta ao chão, seus olhos presos à visão terrível. E o Lorde se diverte com isso, levantando-se devagar e se colocando por trás dele, passando o braço por seus ombros e se aproximando de sua orelha.
- Isso o perturba? – Diz em um sussurro. – Já imaginou se fosse o seu pai?
Os olhos cinza se arregalam, o medo se apossando dele. Sabe que isso não é apenas uma brincadeira ou uma provocação, que Voldemort seria capaz de fazer isso.
- E o que eu poderia fazer pra evitar isso? – O loiro nem sabe de onde esta sua resposta saiu.
- Podemos pensar em algo... – O lorde sorri malicioso, mas poderia jurar ter visto um olhar furioso de Snape em sua direção. – Não é mesmo... Amante de Harry Potter.
O sangue de Malfoy gela, sem saber para onde olhar, neste momento em que todos passam a olhar da cobra para os movimentos do Lorde. Narcissa e Lucius evitam levantar os olhos, temendo irritá-lo ainda mais. Apenas Bella parece satisfeita, maravilhada com qualquer coisa perversa que seu mestre faça. Mas ele logo se afasta e se retira, precisando pensar nos planos para sábado... Ao alvorecer... Quando vai matar seu inimigo.
Os comensais vão saindo... Alguns enjoados com a visão de Nagini se alimentando... Outros rindo da desgraça dos Malfoys. Draco permanece de pé, paralisado, ao lado dos pais sentados como duas estátuas. Snape se prepara para sair, mas decide voltar e se aproxima do rapaz.
- Cuidado com ele. – Sussurra no ouvido do loiro, que consegue apenas lançar-lhe um olhar de relance, antes que este se retire.
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Preciso confessar que após a saída do Lorde e de seus asseclas no sábado me tranquei no quarto, desesperado com o desfecho do plano infalível. Algo dentro de mim sofria apenas ao pensar que Harry poderia ser morto ou capturado. Pela primeira vez, nos últimos meses, conseguia pensar sobre o que realmente sentia por ele. Com a maioria dos comensais fora em missão, não temia pensar... Permitia-me admitir para mim mesmo que a visão dele beijando a insossa Weasley mexeu demais comigo. Ainda sentia meus órgãos ferverem ao lembrar-me daquela carinha sardenta cheia de satisfação.
E por horas permaneci em suspense até ouvir a estrondosa chegada deles. Saí do meu quarto e do alto da escada observei-os. O Lorde das Trevas vinha esbravejando, gritando insultos para a varinha do meu pai em suas mãos, enquanto os demais comensais permaneciam afastados de forma segura, sabendo o quanto corriam perigo neste momento. Percebi que nem todos estavam presentes, talvez finalizando o serviço, mas... Algo estava claro... Harry Potter continuava vivo. Não pude deixar de sorrir ao chegar a essa conclusão e isso chamou a atenção do homem enlouquecido, que me encarou de repente com seus olhos vermelhos. Corri para o meu quarto, ainda ofegante e tranquei a porta.
Agradecia ao fato de não ter de voltar a Hogwarts, jamais seria aceito, e isso era bom, pois não veria as expressões acusadoras dos alunos que sabiam o que fiz. Não veria... Harry. Era melhor assim. Ele me odiava, sabia disso, e havia ainda mais ressentimento da parte dele... Para que? Já tinha dissabores demais por aqui.
Mas algum tempo depois dessa noite o Ministério caiu e Harry se tornou um proscrito, procurado por traição e outras mentiras que criaram. Queriam que as pessoas atemorizadas o entregassem para fugirem da 'caça aos sangues-ruins'. E ele quase foi capturado pelos comensais duas vezes, simplesmente porque o idiota se achava bom demais para deixar de pronunciar o nome do Lorde... Cada vez que o dizia... Sabiam exatamente onde ele estava.
Voldemort decide então que Draco deve voltar à escola, ser mais alguém trabalhando para eles do lado de dentro, já que o próprio Snape é o novo diretor. As despedidas dessa vez são breves, a privacidade quase deixando completamente de existir em sua própria casa. Toma o trem discretamente, isolando-se em um vagão, sem o alarde que sempre provocava em sua chegada. A maioria dos alunos passa sem se importar, mas alguns o reconhecem e tratam de se afastar, mesmo slytherins. Não que ligue... A porta se abre e Pansy entra com uma expressão incrédula no rosto.
- Pensei que você não voltaria. – Diz sem cerimônia, mas tentando sorrir diante dos olhos tristes do loiro. – Mas é bom que tenha vindo... Agora com Snape na direção tudo vai ser diferente.
- Estou cansado... – Ele já vai fechando os olhos, deixando claro que não deseja conversar.
E ao chegar ele procura discretamente fugir do banquete inaugural, mas ela o carrega para a mesa que lhes cabe. A sua entrada os rumores se espalham por todo o salão, principalmente na mesa dos griffyndors. É incontestável que sua presença não é bem aceita pela maioria, apesar de alguns garotos da sua casa o observarem admirados. É por causa da 'marca', agora não mais um segredo. Mas alguns de seus companheiros já não o olham mais da mesma forma, os filhos dos comensais parecem saber demais sobre a nova posição dos Malfoys na hierarquia e... Do que houve...
Seus olhos evitam todos, se fixando em um pequeno amuleto que segura na mão. Sente então que um par de orbes está preso de tal forma nele que não pode evitar levantar a cabeça e os encarar. Ali está a ruiva, olhando em sua direção com fogo. A atitude sem graça dele muda na hora, pois olhar para aquela menina desperta o ciúme, trazendo de volta o Draco sarcástico e sua eterna expressão de nojo.
"Ah... Como eu queria te transformar numa boneca de vodu, sua... Insossa!" – Pensa, enquanto lhe lança um sorriso falso. – "Você está se achando poderosa, não é?"
A raiva dele é tanta que precisa de se conter. Desvia o olhar, concentrando-se na mesa dos professores, mas se recordando da professora Burbage e de seu fim. Snape o encara, sabendo muito bem como a situação de ambos é altamente desconfortável. Mas os olhos da Weasley continuam sobre ele... Tem certeza que Harry jamais contaria pra sua 'queridinha' o relacionamento que tivera com o inimigo e como fora... Enganado. Então... Qual a razão desse olhar furioso? Todos de uma forma ou de outra o encaram, mas não com a intensidade dela.
Antes do final do jantar apressa o passo para sair sozinho e logo estar em seu quarto. Percebe que a ruiva também apressa o passo e o alcança no corredor. Volta-se para ela, decidido a tirar isso a limpo.
- Qual o seu problema? – Sua boca destila toda a raiva, não conseguindo tirar da mente a imagem de Harry a beijando. – Sua família está precisando de um empréstimo? Agora seu papai corre o risco de ser preso, não é?
- Você é um idiota! – Gina o empurra, pois o loiro se aproxima ameaçadoramente.
- Não sou eu que estou te seguindo... – Draco fecha ainda mais a expressão. – O que você quer sua... Pobretona?
- Queria saber por quê? – A garota está decidida a não deixá-lo sair sem responder.
- Não te devo nenhuma satisfação... – Ele se ofende com o tom acusatório. – Mas... É do Dumbledore mesmo que você quer saber ou...
Malfoy tem uma louca vontade de dizer a ela tudo que não sabe, tudo que Harry e ele sentiram um pelo outro, desfazer o sonho romântico dentro de sua cabecinha, mas desiste. Percebe que fazer isso tornaria tudo banal demais e... Para ele o que sente por Harry não é nada leviano.
"Essa menina estúpida não merece conhecer nosso segredo." – Volta as costas para ela, sem nem mesmo notar como o seu 'ou' fica no ar.
Gina fica parada ali ainda alguns minutos observando o rapaz seguindo pelo corredor. Aquele 'ou' ecoa em coisas que nunca comentou com ninguém, conclusões que tirou sozinha, mas guardou para si. Depois de algum tempo concluiu que fossem coisas de sua imaginação fértil, mas sentiu na voz de Draco que talvez sejam realidade. Na verdade, Harry também esconde algo ao falar do jovem crápula... Os olhos da garota se enchem de lágrimas. Procura afastar esses pensamentos, pois há muito mais em risco do que seu relacionamento, mas não pode negar que essa constatação dói demais.
ooOoo
Hermione continua emburrada com a partida súbita de Rony. Sabe que essa vida de fugitivo não é fácil, ela mesma tem vontade de voltar à normalidade, mas é impossível fazer isso. E...
"Como ele teve coragem de me abandonar?" – Sua vontade é de socá-lo.
- Não adianta ficar assim... – Harry já não agüenta a expressão pouco amigável de Hermione. É sua única companhia!
Ela responde apenas com um aceno, não demonstrando nenhuma paciência. Isso o irrita, pois no ano anterior a garota falava pelos cotovelos cada vez que o via de mau humor.
- Não vem com esses seus acenos... Eu tinha que te ouvir à força no ano passado. – A voz dele soa nervosa. – E eu estava certo...
- Que droga! Vou ter que ouvir de novo você falar do Malfoy e de como não ligamos quando nos avisou? – Ela responde com uma rispidez incomum. – Qual o seu problema com esse sujeito? Parece até marido traído!
Suas palavras o atingem como um raio, de tal forma que a amiga percebe e se arrepende do que disse. Nota claramente a nuvem escura que se apossa de seus olhos, aquele mesmo olhar triste que flagrou tantas vezes no ano anterior, mas que já era visível no final do quinto ano da escola. Algo de grave tirou algo importante de dentro dele e se relaciona com Draco Malfoy.
- Desculpa... – Ela se aproxima dele, que parece lutar com a necessidade de sair correndo da barraca. – Eu exagerei... Não devia... Sei o quanto isso te machuca.
Harry a encara tentando manter uma aparência descontraída, mas a garota o conhece bem demais para saber que está disfarçando, mas se afasta ao ver-se exposto nos olhos preocupados da amiga.
- Não sei do que está falando! – Evita o olhar compreensivo que o desnuda, deixando-o sem as proteções que usa contra o mundo.
- Estou falando dessa mágoa que está te corroendo por dentro... – Ela se aproxima, segurando de leve em seu braço e com esse toque forçando-o a encará-la de frente.
- Você está enganada... – Tenta desvencilhar-se, fugir da hora de contar a verdade para alguém, mas sabe não ser mais possível.
Hermione o força a sentar e se coloca a seu lado. Dessa vez não pretende simplesmente se omitir como já faz há dois anos. Antes desejava respeitar-lhe a intimidade, pois até Harry Potter tem direito à privacidade, mas agora é diferente. Percebe que por todo esse tempo ter guardado tal sofrimento somente para si provocou um mal que talvez jamais seja reparado.
- Olha... Sei que é difícil falar do que nos fere... – Os olhos dos dois se encontram. – Mas você não percebe como isso está te matando aos poucos?
- Eu... – Por mais que queira falar, não consegue.
- Quando estávamos no quinto ano, apesar da sua revolta e dos sonhos perturbadores, por algum tempo vi em seus olhos algo inédito... Você parecia... Não sei como melhor definir... Talvez possa dizer feliz. – A amiga respira fundo, mas não lhe dando a chance de fugir do assunto. – Mas ao mesmo tempo havia momentos em que vislumbrava uma profunda tristeza... Aquelas coisas que acontecem com a gente quando se está apaixonado.
- Apaixonado?! – Harry procura uma forma de contornar o rumo da conversa. – Era a Cho...
- Você nunca foi apaixonado pela Cho! E não queira me dizer o contrário, pois eu sou mulher e entendo essas coisas. Mesmo quando você a beijou... Não vi grande emoção quando você me contou. – Não gosta nem de lembrar-se da sem graça que a usou como desculpa para abandoná-lo. – Nada como o que vi depois daquele dia em que você quase matou o Malfoy no saguão.
Silêncio. Os olhos verdes novamente tentam fugir dela, mas apenas o traem ainda mais. A menção do slytherin começa a desencadear uma avalanche emocional que vinha represando. As velhas feridas mal cicatrizadas vão se abrindo como flores.
- E depois do dia dos namorados percebi que algo dentro de você havia se quebrado. Algo importante demais... – Sente-se omissa e tola por ter ignorado, as lágrimas teimosas começando a rolar por seu rosto. – E dali para frente o Harry ingênuo que eu conhecia deixou de existir. Você se tornou amargo e desconfiado...
- Foi a morte do Sirius... – Isso já não é uma tentativa de fuga, apenas a constatação de que essa perda terminou por matar as esperanças de que um dia se sentiria amado.
- Sei que essa morte o abalou demais... Mas seu espírito já estava quebrado. – Mione não consegue conter o choro, a emoção e a culpa se apossando dela. – E você-sabe-quem sentiu isso no Ministério.
Harry leva as mãos ao rosto, desesperado por sentir como todas as palavras de Hermione guardam uma profunda verdade. Sente a mágoa como um animal devorando seu interior. O toque dela em seus cabelos o traz de volta, sentindo que não está só...
- Eu fui omissa por não ter lhe estendido a mão... De verdade... Naquele momento. Deixei que a amargura tomasse seu coração completamente e tentei resolver isso de uma forma indireta, achando que seria o certo para curá-lo. – Pensa em como incentivou Gina a aproximar-se dele, mas agora acredita que possa ter sido um erro. – No fim, apenas mascarei o problema, pois ele continua intensamente vivo dentro de você.
- Pára, por favor! – Ele se levanta transtornado. Não quer dizer tudo que sente, mas precisa... Sua amiga tem toda a razão. Jamais sentiu que tivesse superado.
- Tem a ver com o Malfoy, não é? Aconteceu algo entre vocês que o feriu demais. – Também se levanta e o envolve em seus braços, sentindo que isso quase o faz desabar. – Por isso que você ficou tão obcecado por ele.
O rapaz retribui o abraço e o estreita ainda mais, suas lágrimas molhando a blusa de Hermione. E ficam assim por longos minutos, até que ele se sente aliviado o bastante para se abrir com ela. Afasta-se ligeiramente e a encara.
- Eu... Me apaixonei por ele. – Por mais que ela esperasse algo assim, essas palavras a fazem sentar. – E me senti correspondido... Como nunca imaginei que poderia me sentir. Posso dizer que me entreguei completamente a ele, mas... No dia dos namorados... Ele me traiu.
- O que houve? – Ela está decidida a perguntar o menos possível, não querendo invadir a privacidade mais do que ele deseje.
- O que ele sentia por mim... Era tudo falso... Uma armadilha. – Seus olhos se enchem com toda a revolta que sente ao lembrar-se disso. – E me entregou nas mãos do pai dele para que me matasse...
- E como você conseguiu escapar? – Se envolve na história, preocupada, pois algo lhe parece muito errado.
- Ele... Enfrentou o pai pra... Me salvar. – Nunca admitira isso para si mesmo, nunca permitira fazer-se essa pergunta. – Mas... Acha que eu acreditaria na velha desculpa de ter se apaixonado ao longo do plano ou de não ter tido opção?
- Claro... – Sente que ele até acredita, mas que a mágoa o tornou cego para tudo. – Então daí veio sua raiva no ano passado...
Ele se senta diante dela, vendo que seus argumentos tão irrefutáveis começam a soar fracos até para ele mesmo.
- Não era somente isso... Eu sabia que ele estava aprontando algo. – Sente-se indignado por parecer que sua obsessão era apenas coisa de alguém traído. – E eu estava certo.
- Mas... Você parou para pensar que... O fato de ter te defendido do pai possa tê-lo colocado numa situação sem escolha entre os comensais? – Mesmo que Hermione não simpatize nada com o loiro, não pode parar de pensar nisso. - Um erro desses seria certamente punido.
Essa pergunta o assola de tal forma que mal consegue respirar. Nunca se viu por tal ótica. Recusara-se a ouvir qualquer argumento do loiro e nunca pensara nas conseqüências do que fizera. E essa constatação lhe dá uma clareza que permite que veja os fatos do ano anterior com outros olhos. Como notara o definhar do orgulhoso aristocrata, os desabafos com a Murta, as lágrimas que surpreendeu no banheiro, a expressão quase feliz no momento em que quase o matou... Seus olhos tristes no episódio da morte de Dumbledore. Tudo o faz parecer mais com alguém encurralado do que maquiavélico, como o via então.
- O que eu fiz... – Leva as mãos à cabeça, algo ainda pior corroendo-o.
- Não se martirize... Nós ficamos cegos quando nos sentimos feridos. – Ela anda até ele, segurando seus braços. – Mas o que você sente por ele agora?
Por mais que ela não queira não pode deixar de pensar em Gina. Se os dois estão juntos foi com o seu incentivo. E agora teme que isso possa feri-lo ainda mais.
- Não sei... Tem a Gina... – Mas seus olhos o denunciam. Por mais que seu lado racional o faça pensar na sensação gostosa e segura de gostar da pequena ruiva, não consegue esconder de si mesmo que não sente por ela nem uma fração do que ainda sente por Draco. Ao pensar nele suas entranhas parecem pegar fogo, seu coração se contrai... Há uma sensação de plenitude ao pensar nos momentos em que estiveram juntos.
- Quero saber o que VOCÊ sente... – Teme que esta pergunta seja prematura demais.
- Gosto da Gina... – É o correto a dizer, pois realmente sente isso, apesar de não ser amor. E não pode simplesmente dispensar o afeto que ela e a família lhe dedicam. Além disso, o abismo que se criou entre ele e Draco é intransponível.
Hermione percebe que estas palavras encerram o assunto, pois Harry não parece disposto a falar mais do que isso. Talvez ele prefira se refugiar nessa negação do que sente, apenas para não ter de enfrentar a sua própria parcela de culpa no fato de ter perdido quem ama.
- Ok... Mas tenha certeza disso. – Como sempre a sua última palavra reserva a pílula mais amarga. – A pior coisa é se ficar com alguém porque é o mais seguro ou porque não se quer magoá-la. Não ser amada de verdade pode ser pior.
Ele nada diz... Há tanta coisa em que pensar... Seus sentimentos parecem tão insignificantes... Afasta-se, sentando sobre uma almofada em completo silêncio. Sua mente repassa tudo, bom e ruim, sentindo um aperto no peito. Sabe muito bem o que sente pelo loiro... É incapaz de negar... Seu corpo e sua mente não se enganam. Mas o que sente por Gina? Mesmo que houvesse a mínima chance de um dia 'reencontrar' Draco, teria coragem de deixá-la? E pensando na situação de Malfoy, nos seus olhos tristes, se preocupa demais com seu destino, ainda mais do que antes.
- Eu o amo... Mas estar com a Gina é mais seguro. – Nem tenta disfarçar a tristeza que se apossa de seu coração.
- Mas... – Hermione fica horrorizada com a sua lógica, mas sabe que além de seguro, há toda a afeição pelos Weasleys.
- Que adianta pensar no que sinto por ele agora? – Engole em seco ao encarar a infeliz verdade. – Você sabe que se um dia eu voltar a vê-lo... Estaremos de lados diferentes... E talvez tenha que matá-lo...
Diante da dura realidade Hermione se cala, também se isolando em seus próprios problemas, mas sem deixar de lançar um olhar pesaroso para o amigo, sem saber o que fazer para ajudá-lo.
ooOoo
Os Malfoys estão sentados diante da lareira da sala de visitas. É um dos raros momentos na atualidade que têm para respirar, desde que suas vidas foram invadidas pelo Lorde das Trevas e toda a loucura que o cerca. Mesmo com a presença de Bella e Rabicho, ainda sim Narcissa procura fazer da vinda de Draco para os feriados da Páscoa um momento familiar. Há tristeza entre eles, um silêncio quase perturbador. A situação deles é quase insustentável e ainda não sabem quanto tempo seu mestre os manterá vivos. Alguns comensais já foram dolorosamente punidos por muito menos, somente deixando evidente que a cada dia Voldemort se torna mais louco.
Mas alguém toca no portão, fazendo Narcissa dirigir-se para a porta de entrada, impaciente por ver sua rara paz ser tão abruptamente interrompida. Lucius e o filho nem se movem, acreditando que seja um dos grupos de caça voltando da infrutífera busca a Potter. Alguns minutos depois, porém, um grupo adentra a sala, empurrando alguns prisioneiros amarrados todos juntos. Um exultante Greyback está no comando, um incomum sorriso cheio de dentes iluminando sua face horrível. Os dois se movem, a pouca iluminação tornando difícil vislumbrar quem são as vítimas da vez.
Draco não tem muita vontade de envolver-se em mais um dos circos que se forma a cada chegada de prisioneiros, mas dessa vez é diferente. Sua mãe diz o nome de Harry e o chama, seu sangue congelando ao tentar vislumbrar se isso é realmente verdade. Levanta-se devagar, aproximando-se do grupo fortemente amarrado, temendo que dessa vez não seja mais um engano. Greyback move-os, deixando um rapaz diretamente abaixo do lustre, iluminando completamente seu rosto enquanto o loiro anda com o medo estampado em seu rosto pálido.
Harry não o via desde aquela noite e precisa confessar que a visão do rapaz se aproximando o abala. Ainda mais depois da conversa com Hermione. Só que não imaginava que o confronto que tanto temia acontecesse tão depressa. Apesar de questionar-se sobre os sentimentos do loiro, paira ainda sobre ele o medo de que estivesse certo sobre a falsidade dele. Então vê seu rosto se aproximar... Os cabelos loiros refletindo a luz que incide sobre eles, o rosto mais fino, mais abatido, olheiras escuras sob seus olhos cinza... E eles mostram que foi reconhecido, apesar do feitiço que deformou seu rosto. É um reconhecimento de amantes que conhecem cada traço do corpo, dos gestos, do olhar... Um reconhecimento cheio de pânico e medo...
- Então, moleque? – Greyback está sem paciência, desejoso por receber os louros por sua descoberta.
Procura disfarçar seu medo, pois no mais profundo de seu íntimo deseja que não seja ele, mas sabe que é Harry quem está a sua frente. Mas o que fazer? Sabe muito bem que se disser que o reconhece será o fim e... Não pode viver com isso. A vida da pessoa que ama em suas mãos... Sim... Apesar de estar magoado com ele... É exatamente isso o que sente... Que nunca deixou de sentir.
- Então, Draco? – A esperança brilhando nos olhos do pai. – É ele? É o Harry Potter?
O que dizer...! O que dizer...? Nunca foi muito bom em improvisos, mas precisa pensar em algo. Não pode identificá-lo em hipótese alguma. É claro que seu pai é incapaz de reconhecê-lo. Também... Deve ter sido idéia da Granger desfigurá-lo dessa forma... A droga da sangue-ruim é esperta demais... Isso precisa admitir.
- Não tenho... Não tenho certeza. – Pensa nas conseqüências de sua traição e isso o apavora, mas precisa fazê-lo.
- Mas olhe-o com atenção, olhe! – A voz do pai sai em um tom incomum. - Chegue mais perto!
A excitação quase sufoca Lucius.
- Draco, se formos nós que entregarmos Potter ao Lorde das Trevas... – Mas quando o filho volta seu olhar para ele... Treme ao perceber algo que temia. - ... Tudo será perdo...
A discussão que se inicia entre o pai e o lobisomem apenas tira o foco dele, que olha para a mãe. Ela também percebe que o filho está mentindo e sabe o que isso pode significar. Se qualquer um dos comensais ou... O próprio Lorde perceber sua intenção...
Os olhos de Lucius esquadrinham o rosto deformado à procura da cicatriz. Precisam dessa última chance de reconquistar sua dignidade. Não pode acreditar que simplesmente o filho novamente é capaz de arriscar tudo por Potter. Mas e se ele estiver falando a verdade? Sussurra palavras temerosas e quase sem nexo, observando a cicatriz, puxando o filho novamente para que se aproxime, dando-lhe uma nova chance.
Mas ao se aproximar Draco pode enxergar por entre o inchaço as esmeraldas que o fizeram se perder. Pela primeira vez em muito tempo os olhos de ambos se encontram o entendimento sendo claro do que existe de verdade por trás de toda a mágoa e medo. E é evidente o grande medo no rosto jovem, que reluta, mas evita dar qualquer sinal de reconhecimento.
- Não sei. – Diz isso já se afastando, colocando-se ao lado da mãe junto da lareira.
Para os seus pais a situação se torna explosiva, pois acreditam que o filho está mentindo, mas não podem em hipótese alguma se arriscar a errar novamente. Mais uma falha e estarão completamente condenados. Todos na sala, inclusive Fenrir, temem o que pode acontecer se chamarem o Lorde inutilmente. Voltam-se então para os demais prisioneiros. Talvez Draco possa identificar algum deles.
O loiro olha de relance para Hermione, que agora está sob o foco do lustre, claramente reconhecível. É óbvio que aquele rosto é conhecido demais para ele, que a vem atormentando desde o primeiro dia de aula, mas nesse momento em que tem a oportunidade de livrar-se dela de vez, algo dentro dele se aperta. Não quer reconhecê-la e não apenas porque seria o sinal de que Harry é o garoto de rosto deformado. Simplesmente, por algum outro motivo que ainda não compreende, não quer ver a Granger machucada. Mas quando sua mãe afirma que já a viu e lhe pergunta se é a garota Granger, se vê encurralado. Negar categoricamente quem ela é seria perigoso demais e seus pais já desconfiam. Volta as costas para os prisioneiros e olha para a mãe tentando disfarçar a má vontade.
- Eu... Talvez... É. – Sua voz claramente soa displicente e sem interesse.
Lucius e Narcissa se olham temerosos. Cada vez mais fica claro que Draco não deseja fazer o reconhecimento e isso os amedronta. Insistem, dessa vez colocando Rony sob a luz direta.
- É. – Sequer olha para o garoto em questão, continuando de costas. – Poderia ser.
Harry, apesar de estar de costas para ele, sabe muito bem o que o loiro está fazendo. Ele o reconheceu com certeza, mas mentiu para protegê-lo. Isso desperta algo intenso dentro de si, trazendo ainda mais dúvidas sobre a sinceridade dos sentimentos dele. Então ele realmente poderia ter se apaixonado por ele ao longo do plano de Lucius, talvez até a história do que ocorria entre ele e o pai fosse verdade... Se o tivesse ouvido não teria acontecido a desgraça do ano anterior e Draco não estaria na situação difícil em que claramente se encontra. E ao reparar nisso percebe o quão perigosa é essa postura, pois se descobrirem que ele mentiu as conseqüências podem ser desastrosas.
Então o que Draco mais teme acontece, sua tia Bella entra em um estrondo querendo saber o que acontece. Volta-se então e encara o rosto de Harry, vendo nele um imenso terror. Seu estômago se contrai quando a mulher exaltada se aproxima e reconhece Hermione, ouvindo de Lucius que o acompanhante disforme dela deve ser Harry Potter. Tudo então foge do controle, o rapaz mais nada podendo fazer. Ainda mais que se inicia a esperada luta pelo direito de entregá-lo ao Lorde. Lucius e a cunhada seguram no braço um do outro, tentando evitar que o chamado seja feito e seu autor leve o crédito, enquanto Greyback e seu grupo indignam-se por se verem excluídos.
A situação fica complicada, mas à visão da espada que Fenrir carrega Bella quase paralisa. Seus olhos brilham temerosos, como se a espada representasse um grave perigo para ela. Depois de um duelo pela posse da espada, onde a habilidosa bruxa derruba o grupo de captores, inclusive o lobisomem, chamar o Lorde se torna algo condicional à obtenção de respostas, fazendo Draco suspirar levemente aliviado. Pelo menos teria um pouco mais de tempo para pensar em uma forma de salvar Harry. De preferência algo que não levantasse suspeitas e não o colocasse em perigo.
Logo fica clara a gravidade do caso da espada, uma discussão entre as irmãs correndo o risco de sair do controle, deixando Lucius ainda mais temeroso. A mando da tia, Draco deixa a sala, levando um a um os bruxos do grupo de caça, jogando-os do lado de fora da casa, tendo que ouvir os insultos dela sobre sua coragem para acabar com os homens. Ele mesmo pouco liga para isso, apenas depositando-os no pátio, sua preocupação maior é o que fazer e como fazer isso sem se arriscar.
Quando volta os prisioneiros já não estão mais presentes, seu sangue gelando na hora, vendo que a Granger está ali, sentada no tapete, cercada por seus pais e sua tia. Os olhos da garota estão aterrorizados e Draco fica sem ação. Prefere não olhar para ela quando a tortura começa, Bellatrix está muito nervosa, o suor descendo por seu rosto tenso. Os gritos dolorosos o perturbam, fazendo com que recue e tente sair, mas Greyback se coloca entre ele e a saída, sorrindo maldosamente. Sua vontade é colocar as mãos nos ouvidos, mas sabe a impressão que isso causaria então se concentra em não ouvir, apenas temendo o que pode acontecer.
- Draco, vá buscar o duende... – A voz de Lucius o traz de volta de sua fuga para o vazio, fazendo-o voltar-se para a cena terrível, Hermione contorcendo-se de dor sobre o tapete. – Ele poderá nos dizer se a espada é ou não verdadeira!
Acena afirmativamente com a cabeça, passando pelo lobisomem evitando contato físico direto. Desce as escadas em pleno desespero, pois tem de entrar na cela e encarar Harry novamente. O loiro está com medo... Medo dos olhos acusatórios de Harry, daquilo que agora pensa dele. E ao chegar diante da porta sua coragem já minúscula desaparece quase completamente. Pensa em voltar para trás, mas pode ser punido.
- Afastem-se. Se enfileirem na parede do fundo. - Sua voz sai mais trêmula do que gostaria. – Não tentem nada ou mato vocês!
Empenha-se em ser ouvido no andar de cima, o volume de sua voz muito alto. Gira a chave, mergulhando na escuridão ao abrir a porta. Entra com a varinha em punho, sua mão trêmula, extremamente pálido. Agarra o duende pelo braço e o arrasta para fora, seus olhos cruzando por um instante com os verdes, mas não vendo nele nada mais do que medo, sem qualquer julgamento, como se o moreno não temesse somente por si e os amigos.
Ao entregar o duende, este não tem um tratamento muito melhor do que tivera Hermione. Coloca-se de costas novamente, concentrando-se no vislumbre que teve... Talvez mais uma das mentiras que aqueles olhos lhe pregam... Como naquele banheiro há menos de um ano. Mas mesmo isso o impede de simplesmente vê-lo morrer nas mãos do Lorde das Trevas. Além disso, quem sabe se Harry conseguisse cumprir seu destino... Se isso não é uma história qualquer inventada para dar esperança às pessoas... Talvez ele e a família tivessem alguma chance de saírem inteiros dessa guerra.
Bella então se considera satisfeita com a constatação de que a espada é falsa e um alívio quase orgástico toma conta dela. Puxa a manga do vestido e se prepara para chamar Voldemort. Draco percebe que nesse momento a sorte de Harry está selada. Engole em seco enquanto a mulher encosta o dedo indicador na 'marca negra'. E quando se volta para entregar Hermione para Greyback, Rony irrompe pela porta, desarmando-a. Sua varinha é apanhada com habilidade por Harry, que também entra correndo. Ele rapidamente derruba Lucius, que bate contra a lareira.
A sala se enche de jorros de luz, inclusive de Draco, que faz questão que todos vejam como está lutando, mas sua pontaria é terrível, tanto contra Harry como com Rony. Justamente ele que tem uma pontaria impecável. Um sorriso surge em seu rosto, confuso no calor da batalha entre o ímpeto de derrotar seu eterno rival e vê-lo fugir após vencer. O garoto moreno se joga atrás de um sofá, evitando os ataques bem mais certeiros de Narcissa e Greyback, até que Bella interrompe a luta usando Hermione inconsciente como refém. Todos paralisam diante dessa ação, as ameaças proferidas sendo legítimas nas mãos da malvada bruxa... E isso é claro em seus olhos carregados de ódio. Assim que os dois rapazes abaixam as varinhas, ela se volta para o sobrinho, novamente aterrorizado.
- Draco, apanhe-as! – Ela indica as varinhas dos dois, um sorriso vitorioso iluminando sua face. – O Lorde das Trevas está vindo, Harry Potter! A sua morte está próxima!
Draco se aproxima sem vontade. Toma a varinha de Rony, mas ao segurar a de Harry toca propositalmente sua mão. Seus olhares se encontram novamente, deixando claro para ambos que não desejavam em hipótese alguma encontrar-se nessa situação. Um leve sorriso triste surgiu no rosto do loiro, desejando mais do que tudo ter uma forma de ajudá-lo a fugir, mas não vendo uma resposta. Volta-se e sai correndo na direção da mãe.
Um estalo forte é ouvido enquanto Bella se vangloria de sua vitória, todos voltando seus olhos para o imenso lustre de cristal, que cai em um estrondo, transformando-se em uma bomba de estilhaços, que atingem Draco diretamente no rosto, fazendo-o dobrar-se de dor. Sente então que alguém toma as varinhas de sua mão, levantando os olhos e vislumbrando Harry saltando sobre a imensidão de cacos espalhados a sua volta e estuporando Greyback com tal força que este cai inconsciente.
Sente os braços da mãe o envolvendo, puxando-o para longe da ação que se desenrola e do cristal que pode feri-lo ainda mais. Ela age ao vê-lo seguro, mas sua varinha também voa no ar. Através do sangue que lhe cobre o rosto Draco entrevê Harry desaparatando, mas sente que enquanto mergulha na escuridão, o moreno lança um último olhar para a sala, um sorriso triste emoldurando seu rosto quando as esmeraldas encontram seus olhos cinza. A dor o incomoda, mas não consegue deixar de sorrir sozinho, feliz por ver Harry fugindo, mas sentindo que um olhar de recriminação pousa sobre ele... A tia sente seu alívio, pela primeira vez entendendo todos os boatos que ouve e que fazem o Lorde ter tal nível de aversão por sua família.
ooOoo
Voldemort irrompe pela porta excitado, esperando ter finalmente Harry Potter em suas mãos, mas ao se deparar apenas com Bella, Lucius e Narcissa o nível de sua irritação aumenta. Dissera categoricamente que somente deveria ser chamado se o garoto fosse capturado e agora encontra esses três inúteis assustados diante dele. Ainda pode ver milhares de cacos de cristal espalhados pelo hall de entrada, saindo da sala de visitas. Na verdade, encontrou alguns bruxos estuporados ainda caídos no pátio, deixando claro que algo realmente aconteceu nesta casa em sua ausência. A mulher morena se aproxima dele devagar, assustada demais para estar reportando apenas mais um engano.
- Meu Lorde... – Bella pensa se é melhor relatar a verdade ou não. - Desculpe tê-lo chamado dessa forma...
- Onde está ele? – O homem investiga as expressões aterrorizadas. – Sei que ele esteve aqui... Senti seu medo com minha aproximação.
Os três se olham sem saber como relatar a desastrosa ação que resultou na fuga de seu inimigo. Bella toca seu braço tentando acalmá-lo, mas isso apenas o exalta mais. Lança uma cruciatus nela, fazendo-a se contorcer de dor, olhos pregados na figura ofídica e raivosa ao seu lado. Os Malfoys se abraçam, pois sabem que também para eles está reservado algo.
- Infelizmente... Ele fugiu... – Ele pára a maldição, o corpo da mulher ainda arquejando, mas se levantando com grande esforço. – Mas não nos culpe... Nossa família está profundamente envergonhada...
- Do que você está falando? – Narcissa pressente pela expressão da irmã que esta prepara um 'bode expiatório' para justificar a própria falha.
- Ora, Cissa... Não podemos esconder dele! – Os olhos dela brilham ao encarar Lucius.
O Senhor das Trevas fica ainda mais irritado com as palavras não ditas e trocas de olhares entre os Malfoys e Bellatrix, mas esta parece decidida a limpar sua imagem diante dele e se aproxima novamente.
- A fuga dele foi facilitada por alguém da casa... – Sua voz maligna ressoa no hall.
- Não! – Narcissa fica quase histérica, sendo contida por Lucius, que já percebe nos olhos do Lorde o fogo do entendimento.
- Meu senhor... Ele não fez isso... – O pai fala de forma calma, tentando mudar o rumo que a cunhada deu ao relato. – Foi uma sucessão de erros de todos nós...
- CALEM-SE! – Voldemort está realmente nervoso.
Derruba Lucius com mais uma maldição da tortura agonizante, fazendo seu corpo se contorcer violentamente, arremessando-o em seguida contra a parede, seu rosto coberto de sangue quando cai.
– ONDE ELE ESTÁ? – Pergunta para Narcissa, aterrorizada.
- No quarto... – Bella diz próximo de seu ouvido.
- Ele foi ferido na fuga... – Narcissa se joga a seus pés, agarrando a barra de suas vestes. – Por favor... Poupe-o, meu mestre...
Voldemort simplesmente passa por cima dela, subindo a escada como um animal selvagem. Todo o ódio que sente por Potter transferido para aquele que ousou ser amante de seu inimigo e... Ainda atreve-se a amá-lo, apesar de ter lhe jurado lealdade. Anda pelo corredor escuro, abrindo a porta com força, encontrando Draco sentado junto à escrivaninha. Ele se levanta devagar, vendo nos olhos do Lorde que as conseqüências de seus atos finalmente o alcançam. A porta se fecha atrás do Lorde. Os olhos dos dois se encontrando diretamente, pois o rapaz sabe que não há como escapar.
- Eu soube que vocês tiveram uma visita ilustre... – O sarcasmo do homem escorre pela fenda que chama de boca, enquanto se aproxima dele devagar. – Você o trouxe para apresentar a seus pais?
- Meu Lorde... – Draco não sabe o que dizer. Nenhuma desculpa pode aplacar o ódio, a sede de vingança clara no rosto ofídico.
O homem então fica tão próximo que quase o derruba sobre a escrivaninha. Invadindo a mente relutante com a legilimência, causando dor ao entrar na mente do loiro dessa forma. Vai derrubando barreira por barreira, adentrando as lembranças mais secretas guardadas no ponto mais profundo dela. Chega ás noites onde Lucius abusou do garoto, a dor alimentando seu desejo de sangue, mas ao deparar-se com Harry, com os momentos que deviam ser um ardil bem executado se tornando uma paixão avassaladora... Seu nível de violência sobe ás alturas. Vê toda a dor por perdê-lo, como Draco pensou em traí-lo no castelo, delatar sua missão, e como o rapaz deliberadamente negou-se a reconhecer o amante. Tudo se torna nítido... O jovem Malfoy jamais deixou de amar aquela praga que se coloca em seu caminho para o poder absoluto.
- Então você se esconde sob a lealdade... – Uma raiva insana toma conta de sua expressão. – Mas me trairia sem pestanejar se o Potter o tomasse nos braços, não é?
- Não... – Mas a negativa sem convicção faz com que o homem apenas o estapeie com força, empurrando contra a parede.
- Vamos... Confessa! – Deseja humilhá-lo, fazê-lo sentir sua ira como jamais sentiu e o estapeia novamente. – Foi bom estar na cama com ele? O que ele fez que te excitou mais?
- Por favor... – Os olhos de Draco se enchem de lágrimas de medo. – Eu não...
Um novo tapa acerta seu rosto, fazendo com que o rapaz comece a chorar e sua fragilidade provoca ainda mais a fúria do homem. Vê em sua mente cada momento íntimo entre os dois e como esses foram verdadeiros para o jovem comensal. Empurra-o então com tal força que este bate com violência contra a parede, suas costas e cabeça fazendo um barulho oco, deixando-o tonto. Seu rosto ainda está levemente marcado pelos cortes dos estilhaços, a dor e o medo fazendo com que não consiga conter as lágrimas que correm agora em profusão.
- Pare de chorar! – O Lorde diz junto de seu ouvido, o hálito cadavérico enjoando sua vítima. – VOCÊ NÃO CHORAVA QUANDO ESTAVA COM ELE.
A mão pesada do Lorde pousa sobre seu ombro, forçando-o para o chão, fazendo com que o orgulhoso aristocrata sangue puro fique de joelhos diante dele. Os olhos cinza se voltam para ele suplicantes, mas o medo apenas torna sua necessidade de humilhá-lo maior ainda. Abre as próprias vestes e tira o membro rijo para fora, fazendo aqueles olhos se baixarem e fixarem-se no chão. Encosta seu pênis já úmido nos lábios do loiro, notando a expressão de nojo, fazendo menção de desviar o rosto. Ainda mais irritado o homem acerta seu rosto com um tapa violento, atingindo em cheio toda a sua face esquerda.
Imediatamente uma forte vertigem se apossa de Draco, afetado pela pressão que a bofetada fez em seu ouvido, mexendo com o labirinto e quase cai, tendo que colocar uma das mãos no chão para evitá-lo. Sente a dor reflexa espalhando-se por todo o rosto, o inchaço latejando e já correndo do canto da boca um fino fio de sangue. Deseja se levantar, lutar contra a sensação horrível que se apossa dele, mas a mão pesada continua a segurar seu ombro fortemente.
- ABRE A BOCA! – Diz enfurecido por perceber que mesmo neste momento Draco procura refúgio nas lembranças, nos olhos verdes. – Você fez isso pra ele e vai fazer pra mim. E vai fazer o boquete direitinho se quiser seus pais vivos... Ou podemos pedir pra sua mãe te substituir...
- Não... Por favor... – O tom choroso traz um grande prazer ao homem. – Faço o que o Lorde quiser.
Mal a boca machucada se abre e ele se enfia nela sem piedade, fazendo o garoto engasgar, machucando sua garganta com a estocada violenta, uma das mãos ainda no ombro e a outra em seus cabelos, segurando-o firme para que não possa desviar. As lágrimas escorrem pelo rosto jovem, repleto mais de medo que de humilhação, enquanto Harry continua a povoar seus pensamentos, como se sua imagem mantivesse o loiro inteiro diante da violência. Mas isso enfurece Voldemort ainda mais, odiando Potter por ter tal poder, que ele jamais teve. E o toque dos lábios quentes sobre seu membro o incita... O desejo de violência mesclado com a necessidade física de ver-se satisfeito sexualmente. Sempre teve quem quisesse e da forma que escolhesse, mas essa insistência de manter seu inimigo junto deles nesse quarto, dele estar mais presente do que se estivesse ali fisicamente, o leva a insanidade. Vai ter completamente o que é de Harry, até que ele desapareça.
Deixa a boca com rapidez, puxando-o pelo colarinho até que se levante e o jogando novamente contra a parede. Saca a varinha e com um movimento dela o paralisa, movendo-a novamente para deixá-lo nu. Os olhos cinza o observam quando se aproxima, colando-se a seu corpo, cravando os dentes em seu pescoço alvo como alabastro. Suas mãos passeiam indecentemente pelo corpo jovem, sentindo sua musculatura ainda firme, apertando os mamilos, o escroto, tomando o pênis em suas mãos sem cuidado. Não quer em absoluto que o rapaz sinta qualquer prazer, mesmo que seja involuntário, por isso dispensa qualquer delicadeza. Toma sua boca, enfiando sua língua viscosa dentro dela, sentindo que isso provoca ânsia no outro.
- Qual o problema? – Afasta-se de leve, encarando-o diretamente. – Está difícil se concentrar no seu amor enquanto eu te possuo?
Ele ri sonoramente, mas não por diversão, mas uma risada repleta de maldade.
- Vou invadir sua mente com estas lembranças... – Sussurra em seu ouvido. – Nunca mais você vai se esquecer...
Não precisa de qualquer resposta dele, apenas se compraz com a dor penetrando a mente de Draco, sentindo prazerosamente como todo esse sofrimento começa a afastar as memórias felizes das noites quentes em Hogwarts. Quer ser o dono de sua mente e... Será.
- Já imaginou o que o Potter vai pensar quando souber que você se tornou a 'puta' do Lorde das Trevas... – Ama cada lágrima que desce conforme as palavras saem de sua boca. – E ele vai saber... Vou passar pra ele cada momento em que possuir seu corpo, fazendo-o sentir como se você gostasse demais. Você gosta, não é?
- Go-gosto... – Há uma grande dificuldade nesta palavra.
Afasta-se e com a varinha o vira, ainda paralisado, contra a parede, transfigurando uma das almofadas em uma palmatória de madeira, deliciando-se com a expectativa do uso que fará dela. Então, com prazer, começa a desferir golpes violentos em suas costas, nádegas e pernas, deixando a pele branca profundamente marcada por vergões rubros. Os gritos de sua vítima apenas o incitam a querer mais, fazê-lo sofrer mais. Quando se cansa de bater, deixa a almofada cair no chão, encostando-se nas costas do rapaz, colando novamente em seu ouvido.
- Isso é pra você não esquecer quem é o seu mestre. – Sua voz sai em tom alto, quase um sibilo. – Quando você aceitou a 'marca' tornou-se meu. E isso significa que posso usar e abusar de você... Quando quiser... E vou te mostrar como eu tomo o que me pertence.
Levanta uma de suas coxas, se enfiando com brutalidade dentro dele, o sangue escorrendo por sua perna estendida. O grito de dor ecoa por toda a mansão, misturando-se aos soluços sofridos do lado de fora, fazendo a expressão de ódio e prazer iluminarem o rosto quase humano do Lorde.
- Isso... Grita... – Essas palavras o incitam ainda mais, o choro convulsivo de sua vítima tornando seu prazer ainda maior. – Assim que eu gosto...
Há um profundo desprezo nele, enquanto continua a penetrá-lo sem qualquer dó.
– Te vendo gritando como uma garotinha... – Sua excitação macabra aumentando ainda mais ao sentir-se em seu interior. – E vou voltar toda noite...
Seus movimentos se tornam ainda mais rápidos e dolorosos, forçando-se cada vez mais profundamente.
– Você vai apanhar e ser fodido do jeito que EU gosto...! – Até que chega ao êxtase e ejacula em profusão, sentindo escorrer pela perna do rapaz, misturando-se com o sangue. – E vai se sentir honrado...!
Sai dele apenas quando cessa seu ímpeto, totalmente satisfeito, libertando-o do feitiço. O corpo magro cai no chão, todo marcado e ferido, os gemidos soando como música para os ouvidos apurados do homem, para logo serem seguidos pela inconsciência.
Lorde Voldemort abre a porta e sai, encontrando os pais desesperados no corredor. Sente um profundo desprezo por eles e seus odiosos sentimentos.
- Ele está vivo. – Diz com fúria no olhar. – Mas se alguém se atrever a entrar e cuidar dele... Vou fazer mais uma rodada ainda esta noite. Ouviram bem?
Lucius e Narcissa paralisam diante de tal perspectiva, sabendo que o mestre fala sério. O pai observa a porta fechada, ainda sentindo muita dor no olho inchado, apresentando um gigantesco hematoma, voltando seu olhar então para Voldemort.
- Isso foi o castigo de um traidor... E culpa de vocês dois que sabiam de tudo e também me atraiçoaram ao acobertá-lo. – Sente por eles a raiva que sempre nutriu pelo pai e sua profunda arrogância aristocrata. – E eu o terei sempre que quiser... Quantas vezes quiser... Pois todos vocês me pertencem.
Ele sai sob o olhar dos dois, Narcissa sendo amparada pelo marido, seu sofrimento sendo claro, a vontade de se vingar presa na mente obscurecida pelo desejo de proteger seu filho.
ooOoo
- NÃO! – Harry acorda, suando em profusão, suas pupilas arregaladas pelo pavor.
Rony está sentado ao seu lado, ainda assustado com a violência do pesadelo do amigo. Pensa em perguntar o que aconteceu, mas aprendeu que lhe contaria se desejasse dividir com ele. Hermione entra no quarto, também sobressaltada, sabendo que esses sonhos ruins geralmente se relacionam ao inimigo. Vê a angústia em seus olhos, algo que não pode dividir com Weasley.
- Ron... Você pode buscar um copo de água? – Mione diz sem demonstrar sua intenção de tirá-lo do quarto.
- Claro! – Ele não percebe a sutileza. – Já volto.
O rapaz sai do quarto depressa, fechando a porta atrás de si, dando a oportunidade para que a garota se sente ao lado da cama. Toma a mão ainda fria e trêmula do amigo.
- O que aconteceu? – Ela se assusta com sua palidez. – Sonhou com você-sabe-quem novamente?
- Ele me mostrou o que fez com o Draco... – Sua voz sai fraca. – Depois da nossa fuga.
- O Malfoy sabia das conseqüências por não nos reconhecer... – Tenta acalmá-lo, mas percebendo que sem muito sucesso.
- Você não entendeu... – Ele se senta, pegando as mãos da amiga. – Ele foi punido por minha causa... Pelo que houve entre nós.
- Mas como... – Hermione paralisa, pensando em como Voldemort reagiria ao descobrir.
- Agora sei que ele sempre soube... – Harry parece se recuperar do pesadelo, mas não do peso de sua conclusão. – E agora entendo por que o Draco se viu obrigado a matar o Dumbledore... Não era confiança, mas... Uma punição. E a culpa é minha!
- A culpa é daquele homem... Não sua! – Deseja colocar na cabeça dura que há um limite para a auto-recriminação. – Você não poderia evitar o que...
- Poderia sim! – Ele a interrompe pensando em tudo que viveu nos últimos anos e nas pessoas que sofreram junto dele. – Agora começo a perceber que acima de tudo eu preciso crescer, reconhecendo como sou responsável pelas conseqüências dos meus atos... Mesmo em um caso como esse.
- Mas... – Tenta rebater seus argumentos, mas quase nada consegue dizer.
- Todos que se aproximam de mim acabam sofrendo, muitas vezes por causa da minha teimosia, impulsividade ou por não saber ouvir. – Ele se senta na cama, de frente para a amiga. – E no caso do Draco... Eu não quis ouvi-lo... Estava magoado demais para perceber o quanto ele se arriscou ao me salvar.
- E o que você poderia fazer por ele? – Sabendo que tem razão, de certa forma. - Mesmo que o ouvisse.
- Eu não o teria deixado voltar... Dumbledore teria me ajudado a protegê-lo. – Leva as mãos à cabeça por perceber como voltou suas costas para a pessoa que ama. – E assim ele foi jogado nas mãos do lobo... Sem defesa... Mesmo depois de toda a intimidade que partilhamos. Era óbvio que isso ia enfurecer aquela cobra.
- Vocês... – Surpresa surge em seu rosto, fazendo-a corar.
- Ora... Hermione Granger... Não seja inocente! – Harry sorri levemente ao vê-la tão vermelha. – Nós fomos muito além dos beijos e abraços!
- Eu... Não pensei sobre isso. – Imagina a fúria de Voldemort ao descobrir.
- Por isso ele foi punido tão barbaramente... – Sua voz soa com um tom doloroso, lembrando-se de cada detalhe de seu pesadelo. – Não por não ter nos reconhecido, mas por causa da nossa relação.
Ela o observa orgulhosa da maturidade que estas palavras demonstram seu melhor amigo se tornando um homem sob o peso de tanto sofrimento e tantas responsabilidades.
- Desculpa a demora. – Rony entra equilibrando um copo mais cheio que o necessário. – Não sei onde eles guardam os copos nessa casa.
Estende o copo para o amigo, que sorri meio sem graça para ele.
- Você sonhou com você-sabe-quem de novo? – Pergunta preocupado, apesar de ter prometido para si mesmo que não o faria.
- Eu vi como ele puniu os comensais que nos deixaram escapar. – Procura imprimir o mínimo de preocupação possível a suas palavras.
- Espero que ele tenha torturado bastante aquela mulherzinha. – Há uma raiva não disfarçada quando pensa em Belatrix Lestrange e no que fez com Hermione. – Não gosto dele... Mas vocês repararam como o Malfoy não nos identificou de propósito?
Um silêncio perturbador se instala entre eles, Hermione e Harry se entreolhando tristemente.
- Talvez ele esteja mergulhado nessa guerra até o pescoço... Mesmo que não queira. – A garota coloca o braço sobre o ombro do jovem ruivo. – E esteja com tanto medo quanto nós.
Harry olha para a janela, a lua alta fazendo-o pensar em como está Draco nesse momento e como os sentimentos entre eles podem ter selado seu destino.
ooOoo
Narcissa não consegue dormir, por mais que tente. Os gemidos abafados do filho a fazem tremer de preocupação e ódio. Por mais que o Lorde tenha saído novamente, ela jamais se arriscaria a desobedecer-lho. Bella está na casa, como um cão de guarda, traindo o próprio sangue em nome de uma lealdade que já não parece ter mais sentido. Decide então que não pode ficar mais parada e se levanta. Veste seu peignoir de seda cor de rosa e caminha até a porta, decidida a sair.
- Onde você pensa que vai? – Lucius se interpõe entre ela e a saída.
- Fazer aquilo que você não tem coragem de fazer. – A raiva é clara em seus olhos.
- Você ouviu muito bem o que o Lorde disse. – O marido deseja trazê-la de volta à razão. – Que adianta arriscar a vida dele ainda mais?
- Mas nós precisamos fazer algo... Você precisa fazer algo... – Decide deixar de se calar. – Pelo menos uma vez na vida dele você precisa ser o pai...
- Do que você está falando? – Tenta segurar o braço da esposa, mas ela se afasta, sentando-se em uma das cadeiras da pequena mesa próxima da janela.
Os olhos de Narcissa permanecem alguns minutos baixos, observando o vazio. Por tantos anos permaneceu em silêncio, simplesmente porque foi assim que foi criada. Sua mãe era incapaz de falar qualquer coisa e nem sequer levantava a voz diante do marido. E essa era a prática normal entre os Black. As filhas eram criadas para serem quase invisíveis dentro da própria casa, passando isso para os seus casamentos. E como a 'filha perfeita' sempre obedecia cegamente o pai e, depois, o marido. Bella sempre fora diferente e muitas vezes a invejara por isso. Mas agora percebe que é a hora de quebrar esse voto de submissão.
Lucius caminha devagar até ela, ficando diante da esposa, mas temendo aquilo que Narcissa tem a dizer. Por mais que tenha evitado, sempre soube que este momento chegaria. Teme ver sua atitude questionada, e é a opinião dela a que mais importa.
- Durante todos esses anos eu fui omissa... Sempre soube o que você fazia. – A voz dela começa fraca e vai aumentando de tom gradativamente. – E fechei meus ouvidos e meus olhos para não questioná-lo... Sou a maior culpada!
- Cissa... Eu... – Não sabe definir o que sente, as palavras não saindo de sua boca.
- Eu sempre procurei uma desculpa para os seus atos, usando toda a experiência negativa que você teve com seu pai como justificativa. – Seus olhos estão marejados quando finalmente o encara. – Mas eu errei quando pensei mais em você do que no nosso filho. E eu sei que ele sofreu... Apesar de nunca dizer nada contra você.
O marido fica de costas para ela, que em momento nenhum assume a postura acusadora que sempre esperou. Pelo contrário. É como se Narcissa se culpasse muito mais do que a ele, que sempre vira no que fazia uma forma de sentir-se menos impotente diante da própria vida, mais poderoso. No fim, seu pai continua a assombrá-lo, mesmo depois de morto, sempre com suas palavras depreciativas, suas frases destrutivas, suas agressões físicas e morais.
- E novamente fui culpada... – Continua falando, encarando-o, mesmo que tenha voltado-lhe as costas. – Quando você inventou aquele plano idiota...
- Não era idiota! – Isso o ofende, pois o considerava um plano fino e bem articulado. Volta a observá-la para mostrar sua indignação, tentando abrir o olho inchado.
- Você forçar o Draco a seduzir o Harry Potter...? Desculpe... Mas que pai pediria isso ao próprio filho? – Narcissa já perde a inibição e fala com a sinceridade normal nela, mas que a educação que recebera sempre tolhera. – Eu não sabia na época, na realidade, a natureza de seu planinho, mas...
- ...! – Lucius jamais pensou ouvir sua esposa falar com ele dessa forma.
- E a forma como você o tratava! Desde quando um pai decente faz isso? – Ela se levanta e o encara de perto. – Parecia ver em você o seu odioso pai e... Nessas horas tinha vontade de te bater.
- Narcissa! – Ele sente que está vendo a verdadeira pessoa com quem se casou.
- Eu sou culpada por nunca ter te recriminado, mesmo quando você era um completo crápula com ele. – Todo esse desabafo traz uma satisfação que a mulher nunca poderia imaginar. – E por causa do seu planinho ele sofreu... Demais... Por perder a pessoa por quem se apaixonou... Por sua culpa... Por se ver metido nessa guerra estúpida...
- Não fale assim! – O medo se apossa do rosto do homem. – Alguém pode te ouvir!
- Que ouçam! – A mulher já perdeu suas inibições. – O que pode acontecer comigo? Ser morta? Eu já estou completamente destruída por ter ouvido o que aquele louco fez com o meu filho e não ter feito nada.
- A conseqüência pode cair sobre ele... Não sobre você. – Lucius usa do bom senso que aprendeu ao lidar com o Lorde. – É isso que você quer?
Narcissa sabe que ele está certo. Da mesma forma que seu erro do passado atingiu toda a família, o Lorde das Trevas sempre atinge o que mais te fere. Essa incapacidade de fazer algo a desespera, começando a chorar sem controle. Lucius a enlaça, sentindo o mesmo que a esposa, mas sabendo que já é impossível escapar do destino que ele imprudentemente procurara em sua busca frenética pelo poder.
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Como prometido aqui está o novo capítulo, correspondente ao livro 7, que poderia ter posto em xeque toda a minha história, mas pelo contrário, encaixou-se tão perfeitamente que nem eu acreditei quando o li. E o que seria um capítulo, transformou-se em dois... Portanto, logo vocês terão o último capítulo postado por aqui. Está pronto, em fase de betagem. Muitos dos acontecimentos do livro estão aqui, vistos sob a ótica de Draco, que parece sempre um participante muito passivo da ação, mas... Nós não acreditamos nisso, não é mesmo?
O primeiro agradecimento deve ser para minha beta e amiga Samantha Tiger Blackthorn, que como sempre é o meu contraponto, discutindo cenas e dando sugestões que enriquecem o texto. Discutimos demais a darklemon, pois não foi uma cena fácil. Te amo, amore.
Novamente ofereço essa fic ao meu amigo Felton Blackthorn. Ele anda deprimido, com crises de identidade, mas saiba que você sempre será especial para mim.
Agradeço os reviews de JayKaychan, Nanda W. Malfoy, Nyx Malfoy e Ana Granger Potter (melhoras Aninha, estou torcendo por você), pois comentários sempre incentivam o autor.
E sem esquecer, estes personagens não me pertencem, foram criados por JKRowling, mas a trama é minha... Então... Apesar de ter virado moda plagiar... Peço que respeitem o trabalho árduo da ficwriter.
Espero que gostem também desse capítulo e COMENTEM!!!!!!
29 de janeiro de 2008
04:11 PM
Lady Anúbis
