AVISO: este capítulo é um spoiler do Livro 7

A TEIA DA ARANHA

Capítulo 6 – Falso Epílogo

Depois de tudo aquilo, me perdi em horas intermináveis de dor... Talvez muito mais emocionais do que físicas. Chorei por horas em minha cama, desejando ter o carinho da minha mãe, mas sabia que era melhor assim. Eu precisava ficar só para pensar em minha vida e em minhas escolhas.

Foi então que decidi escrever esse diário. Alguém sem mais nada o que fazer havia me dado um desses de presente... Nem me lembro quem foi... Somente que eu odiei. Mas agora estou aqui diante dele tentando deixar registrado o que fiz e senti, para que algum idiota não venha dizer mentiras sobre mim se eu morrer.

Aquele homem horrível não voltou a me procurar após aquela noite, talvez ocupado demais em seus planos para matar o Harry e obter o poder absoluto. Mas mesmo que ele consiga, nunca será como Dumbledore.

Ontem minha tia Bella esteve aqui, mas não parecia feliz. Não que lamentasse meu castigo, mas... Não sei. Até parecia que ela me odiava por ter conseguido algo que ela tanto desejava. Credo! Agora eu fui maldoso de verdade! Quem poderia querer ser tratado dessa forma? Pelos olhos dela eu sabia... Todos os comensais já estavam cientes do que aconteceu comigo e... Imagino que os filhos deles também. Já posso até ver os olhares daqueles fuinhas quando eu voltar a Hogwarts. Na verdade, eu não pretendia retornar dos feriados, mas ela veio me falar sobre os novos planos do Lorde e que eu estava incluído neles. Que droga!

Eu devo voltar e ficar atento à Sala Precisa, pois nosso 'amado' mestre sabe que o Harry vai ir até lá mais cedo ou mais tarde. Parece que tem algo escondido lá. Mas dessa vez devo capturar o inimigo ou as conseqüências para os meus pais podem ser desastrosas. E Ele sabe como esse é o pior castigo para mim. Se fosse comigo... Já ando tão cansado de tudo que ficaria feliz com a morte. NOSSA! Nem parece coisa minha, mas... Depois daquela noite já não me importo mais. Ele pegou tudo de bom que ainda me restava e arrastou na lama. Não consigo mais sonhar com o Harry, apenas com cada detalhe do que o Lorde me fez. Nem isso me restou.

Harry... Estou saindo daqui a alguns instantes para cumprir a missão de entregá-lo para o meu mestre... É mais uma das coisas duras que já me vi obrigado a fazer. Mas se você sobreviver a tudo isso e conseguir derrotá-lo... Espero que um dia possa ler esse diário e me perdoar. Por mais que você não acredite... Te amo tanto que nem consigo lembrar-me do tempo em que não sentia isso. Bom... ADEUS!

Novamente Draco procura a cabine mais afastada e vazia do trem. O antes lotado e agitado transporte para a escola, de uns tempos para cá sempre tem pelo menos uma cabine vazia. Vai sozinho até a estação, pois não quer despedidas. Pouco falou com os pais, ainda envergonhado demais com o que aconteceu, as marcas evidentes em seu rosto. Os poucos slytherins que o encontram olham para o seu rosto inchado e o lábio cortado com uma expressão estranha. Agora ele é menos respeitado que um elfo doméstico. E as marcas pelo corpo ainda doem demais... Não mais do que as marcas em sua alma.

Decide não participar do banquete e vai direto para sua Casa. Prefere não enfrentar mais gente que sabe tudo que lhe aconteceu. Fica sabendo por alguém de quem não lembra o nome que a Weasley não voltou dos feriados... Não pode conter um sorriso satisfeito...

"Aquela aguada ia adorar ver a minha desgraça!" – Uma ponta de ciúme surge ao pensar que ela possa estar com o Harry.

Entra na sala comunal e vê Crabbe e Goyle sentados no sofá. Estranho, pois esses jamais perderiam um banquete. Resolve apenas ignorar a presença deles e se enfurnar em seu quarto. Mas percebem sua entrada e logo percebe a razão de estarem por ali. Crabbe se levanta, um sorriso incomum em seu rosto, sendo seguido por Goyle, e se aproximam devagar.

- Não vai participar do banquete? – Crabbe diz com a voz carregada de malícia.

- Por acaso isso é da sua conta? – Draco não gosta do tom de suas palavras.

Crabbe circula o loiro com um olhar vitorioso, olhando-o de cima a baixo como se o medisse. Goyle parece sem graça com a atitude do amigo, a expressão raivosa no rosto de Draco o preocupando profundamente.

- Nossa! – Crabbe encara o loiro. – Que foi isso em seu rosto?

Se Draco pudesse teria fulminado o rechonchudo rapaz, pois sabe exatamente do que ele está falando. Empurra-o, pois se colocara entre ele e a porta do seu quarto. A irritação vai aumentando ainda mais cada vez que olha para o rosto cheio de satisfação.

- Como eu disse antes... Por acaso é da sua conta? – Caminha para a porta, mas antes de entrar se volta para o outro. – É... Quem tem uma vidinha medíocre como a sua tem que ficar preocupado com a vida dos outros.

E fecha a porta no rosto vermelho do rapaz. Sabe que suas ordens são para trabalhar junto com os dois na captura do Harry... Mas vai ser complicado. Pela primeira vez percebe uma faceta de Crabbe que nunca imaginou. Sempre o achou um idiota... Agora tem certeza que ele era o espião. Vai ter que colocá-los a par dos planos do Lorde, essas são suas ordens, mas...

"Se esse sujeito continuar com a provocação..." – Pensamentos malignos passam por sua cabeça. – "O rosto dele vai ficar mais inchado que o meu."

Joga-se sobre a cama, pensando na sua missão, sabendo que dessa vez não há como fugir. Seus pais são reféns e precisam dele mais do que nunca. Dessa vez não pode falhar com o dois, mesmo que isso seja terrível. Olha para o teto tentando lembrar-se dos momentos bons dele com Harry, refugiar-se nestes instantes em que foi feliz, mas não consegue. Vira de lado, frustrado e cansado demais... Seus olhos acabam se fechando, o sono chegando rápido.

ooOoo

Os três rapazes usam de um feitiço de desilusão e ficam ocultos próximo da porta da Sala Precisa, assim que a escola começa a ficar agitada, e os alunos de todas as Casas são evacuados. O coração de Draco está disparado, sabendo o que tem que fazer, mas nem por isso satisfeito. Crabbe parece excitado demais com a tarefa, cada vez tornando sua presença mais desagradável.

- Você sabe qual a recompensa que o Lorde vai nos dar por entregar o Potter? – Pergunta ao loiro pela enésima vez.

- Esquece isso e se concentra na sua missão! – Diz já irritado com o novo Crabbe.

- Nem tente proteger o seu namoradinho, ouviu? – O rapaz parece ter perdido qualquer respeito por ele.

Draco o agarra pelo colarinho, fazendo com que Goyle se coloque entre eles, temendo que Malfoy perca a compostura e acerte o outro. Mas alguém se aproxima e os coloca novamente em alerta. Gina pára diante deles, acompanhada de mais duas mulheres que o loiro conhece de vista, a visão da garota ruiva o enervando, ainda mais quando Harry chega e se aproxima dela. A preocupação dele é clara com a segurança da Weasley e por mais que não tente demonstrar, isso mexe demais com os olhos cinza que desviam dos dois. Esperam que Potter e os amigos entrem na Sala e os seguem logo em seguida.

- Onde eles podem ter ido? – Crabbe se assusta ao ver as dimensões daquela sala abarrotada de objetos escondidos.

- Usa sua inteligência prodigiosa e procura! – Malfoy já está completamente sem paciência.

- ...! - Não há resposta, apenas um olhar furioso na direção do rapaz.

Os três caminham em silêncio, ouvindo as vozes de seus alvos claramente, seguindo a direção de onde vem a de Potter. Vislumbram sua imagem diante de um armário, observando um velho busto coberto por uma peruca horrorosa e um diadema velho.

O loiro avança devagar, o coração aos pulos, a respiração ofegante. Seus dois companheiros vão a sua frente, decididos a cumprir sua missão. Observa o rosto de Harry, mais magro e com um aspecto cansado. Seu ano também não foi dos melhores e essas dificuldades cobraram-lhe um alto preço. Quase recua ao ver como o moreno inocentemente ignora a presença deles, mas pensa nos pais, já feridos em punição pela fuga dos prisioneiros.

- Pare Potter. – Draco diz para alertá-lo, não quer em absoluto que seus companheiros o peguem de costas.

Harry se volta e os vê; as varinhas dos dois brutamontes apontadas para ele, entrevendo o loiro por trás deles. Consegue ver as marcas em seu rosto, apesar de já terem se passado dois meses. A palidez e a magreza ainda mais acentuadas. Seus olhares se cruzam por alguns instantes e ele consegue perceber que dessa vez Draco está encurralado, completamente sem saída.

- É a minha varinha que você está segurando, Potter. – Procura imprimir firmeza em suas palavras, pois Harry precisa entender a gravidade da situação e levá-lo a sério.

- Não é mais. – Percebe que agora o rapaz não tem como ajudá-lo. As marcas... O sonho... Sabe muito bem como a última vez lhe custou caro. – Ganhou, guardou Malfoy. Quem lhe emprestou essa?

- Minha mãe. – Ele responde sem muita vontade, pois percebe o leve sorriso irônico de Crabbe a sua frente.

E a provocação e as ameaças continuam, com Crabbe assumindo a discussão com Harry, sentindo-se cada vez mais no comando. Ele tem algo preparado e Draco teme isso, pois ainda continua sendo o mesmo estúpido de antes, apenas mais confiante. E essa é uma combinação perigosa. E a voz de Rony a procura do amigo começa a desencadear a série de eventos que pode levar ao desastre. O antigo capanga de Malfoy simplesmente tenta esmagá-lo com as pilhas de objetos da sala.

- Não! – Segura o braço do rapaz para que ele pare e pense na conseqüência desse seu ato. – Se você desmontar a sala, talvez enterre o tal diadema!

- E daí? – Ele se desvencilha, praticamente empurrando o loiro. – É o Potter que o Lorde das Trevas quer; quem se importa com um dia-D?

Sente que precisa acalmar a situação, pois tem uma missão a cumprir e o enorme rapaz está fugindo completamente ao controle.

- Potter entrou aqui para apanhá-lo. – Sua paciência já se esgota com tanta imbecilidade. – Então deve significar...

- Deve significar? – Crabbe se volta para ele nervoso, um grande desprezo em seus olhos. Lança um rápido olhar para Harry e depois novamente para o jovem aristocrata. Ele sabe de tudo e isso o faz não ter qualquer respeito. – Quem se importa com o que você pensa? Não recebo mais ordens suas DRACO. Você e seu pai já eram.

O pior de tudo são as palavras não ditas, o conceito que existe entre os comensais de que seu pai é um pária e ele um traidor... O amante de Harry Potter. E neste instante fica claro que mesmo que o Lorde seja o vencedor dessa guerra, conseguindo o poder absoluto que tanto almeja, cedo ou tarde a família Malfoy será exterminada. Ou coisa pior! Seus pais podem se tornar escravos, apenas para contentar o ódio que todos parecem nutrir por sua posição social privilegiada... Sua fortuna ser dilapidada, e para ele... Quem sabe o que estaria planejado?

Mais um chamado de Rony distrai momentaneamente Crabbe, dando tempo a Harry para tentar alcançar o diadema, que pelo visto é a coisa desbotada e feia sobre a cabeça do busto emperucado. O enorme rapaz tenta atingir Potter com uma cruciatus, errando e atingindo o busto, o que faz o diadema voar e se perder entre uma porção de objetos.

- PARE! – Sabe que precisa detê-lo, pois as coisas começam a se complicar. – O Lorde das Trevas quer ele vivo...

- Então? Eu não estou matando ele, estou? – Ele o empurra com força, deixando claro que acredita que Malfoy segue suas segundas intenções, não as ordens do mestre. – Mas, se eu puder, é o que farei, o Lorde das Trevas quer ele morto mesmo, qual é a dif...?

Hermione então surge, tentando estuporar o principal atacante, que responde lançando um Avada Kedavra, provocando uma reação de Potter. O duelo entre eles se inicia com isso. A varinha de Draco voa quando Crabbe esbarra nele, fugindo de um dos ataques. O loiro então se vê novamente desarmado no meio da luta, o que não o desagrada de todo, pois se torna a desculpa perfeita para se manter de fora.

- Não o mate! NÃO O MATE! – Grita tentando evitar que aqueles dois idiotas matem o Harry.

O grito de Draco os distrai por alguns segundos, o suficiente para Harry esquivar-se do ataque e Goyle ser desarmado. A posição totalmente exposta em que o loiro se colocara o torna um alvo, jogando-se atrás de uma pilha de objetos após quase ser atingido. Tudo se torna um caos, ele tentando se proteger dos ataques de um e de outro lado, podendo ver de sua posição o corpo pesado de Goyle caindo estuporado. Enxerga por uma brecha que Potter perigosamente se coloca em risco ao tentar encontrar o diadema. Tem vontade de estapeá-lo por ser tão imprudente... Como sempre. Mas essa sua determinação só pode significar que esse objeto deve ser importante para vencer o Lorde.

- Abaixa essa cabeça rachada! – Sussurra para si mesmo, mas percebe que Harry o ouve e olha em sua direção.

Aquele olhar faz Draco tremer, pois há algo nele que não sabe explicar. É como se ele soubesse de algo e quisesse fazê-lo saber... Mas o que? Será que o Lorde realmente o fez ver tudo que aconteceu? Lança-lhe um olhar desesperado, sentindo vergonha por exatamente ele, a pessoa que mais importa, ter visto tudo pelo que passou.

Mas esse momento entre eles dura pouco, pois chamas avançam em sua direção, criadas pelo imbecil do Crabbe, que aprendeu algo tão complexo sem saber controlar. Draco pensa em correr, seguindo os passos dos demais, mas olha para o corpo inerte de Goyle e paralisa. Ele está estuporado e será engolido pelo fogo, sem qualquer defesa. Sai de seu esconderijo, pensa mais uma vez em fugir, mas...

"Que droga! Não posso deixá-lo aqui!" - Agarra o braço do rapaz e o puxa, já sabendo que não tem forças para carregá-lo. – "Eu mato esse Crabbe quando o encontrar."

O fogo avança cada vez mais rápido para eles, assumindo formas monstruosas, fechando sua passagem para a fuga. Precisa subir, mesmo sabendo que talvez seu esforço não adiante muito. Pensa então que não deseja morrer, pelo menos não desse jeito. Harry e os outros não estão mais a vista, não podendo contar com eles para escapar. Sobe uma gigantesca pilha de objetos com grande dificuldade, o peso de Goyle sendo o maior obstáculo.

- Você precisa aprender a comer menos! – Diz, mesmo sabendo que o rapaz não pode ouvi-lo.

Chega ao topo, a pilha já se encontrando cercada pelas chamas. Agora é o fim de tudo. Nunca pensou que seria assim. E tem que partir sabendo que a pessoa que ama ainda pensa que foi enganado, que Draco nunca o amou, e ainda viu as atrocidades que o Lorde fez com ele.

- Talvez seja melhor assim... – As chamas subindo o apavoram. - Harry!

Em instantes consegue perceber uma sombra avançando por entre a fumaça, vindo em sua direção com rapidez. Mesmo sem conseguir ver quem se aproxima, sente que é o seu moreno, estendendo o braço para que possa puxá-lo, mas sem largar do corpo inerte de Goyle. A mão forte segura a sua, mas o peso do outro rapaz e sua mão suada pelo calor faz com que escape. Os olhos dos dois se encontram novamente, desespero no rosto de Harry, pois não quer deixá-lo para trás. Draco sorri para ele, deixando claro que entende e sabe que a cada instante que a vassoura sobrevoa as chamas torna o perigo para Potter ainda maior.

- Vai... Pode ir... – Sussurra para ele, vendo as lágrimas em seus olhos.

Mas outra vassoura avança e agarra o corpo de Goyle, levando-o para longe dali. O loiro escala a vassoura, com a ajuda da mão protetora, agarrando-se a Harry como se não quisesse jamais separar-se. Mas uma labareda alta quase os atinge e ele se dá conta da proximidade do perigo.

- A porta, vão para a porta, a porta! – Grita apavorado no ouvido do moreno.

Eles fogem em meio às chamas que parecem querer agarrá-los, fazendo-o segurar ainda mais firme na cintura de Harry, aconchegando o rosto assustado em suas costas. Infelizmente se dá conta que estão voando na direção errada e se apavora com a loucura insana dele.

- O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? A PORTA É PARA O OUTRO LADO! – Entende ao vê-lo agarrar o diadema que era jogado ao ar pelas chamas. Por mais maluco que isso tenha sido, reforça a idéia de que isto é de suma importância.

São engolfados pelo fogo e pela fumaça, fazendo crer que este é o fim, mas que vão encontrá-lo juntos. As chamas que passam por sobre sua cabeça o apavoram, fazendo-o gritar ainda mais, segurando em Harry com tanta força que escuta um leve gemido deste. Mas de repente o ambiente esfumaçado desaparece, o ar puro enchendo seus pulmões de forma até dolorosa. Cai da vassoura sem forças, de bruços, dominado pela tosse e pela dificuldade de substituir a fumaça por ar. Olha para o lado, vendo Potter sentado ao seu lado, também sufocado e sorri, ainda não acreditando que estejam vivos.

- C-Crabbe. – Diz após ver o corpo inconsciente de Goyle em segurança. – C-Crabbe...

- Ele está morto. – Rony diz sem qualquer tato.

Draco sente-se de certa forma culpado, pois não soube controlar o garoto que sabia estar ultrapassando os limites. Ninguém merece morrer assim. Só que aquele momento dura pouco, os ruídos da batalha que se desenrola no castelo se aproximando rapidamente, fazendo os griffyndors se levantarem, enquanto ele se esforça por arrastar Goyle para um canto, deixando-os relativamente seguros nesse momento. Sabe que a luta é extremamente perigosa para os dois, principalmente para ele, pois ambos os lados o desprezam, qualquer um deles pode matá-lo. Abaixa a cabeça e se encolhe... Ouve o sofrimento e a revolta que a morte de alguém querido provoca, discernindo que é a voz do Weasley, mas não se atreve a olhar. Seu maior desejo é sobreviver... Sair dali e encontrar seus pais.

Logo a luta já deixa esse corredor, decidindo deixar Goyle seguro naquele canto e sai à procura dos pais. Talvez eles estejam no castelo e pretende tirá-los dali. Passa por um corpo inerte, vendo o rosto de um dos gêmeos Weasley, sem saber qual deles, entendendo a dor que ouviu há poucos instantes. Corre pelo corredor, escondendo-se dos duelos que fazem o ambiente ficar iluminado com cores das mais variadas. Seria até bonito se não significasse morte. Desvencilha-se de uma série de ataques, chegando à escada depressa. Ouve então uma voz grave por trás dele, fazendo-o voltar-se.

- Então aí está você pequeno traidor. – O homem fala como se o procurasse, mas deve estar enganado.

- Sou Draco Malfoy, sou Draco, estou do seu lado! – O loiro desespera com o olhar de desprezo do comensal, entendendo que ele havia sido mandado para matá-lo.

- Eu sei... – O homem sussurra com prazer marcando sua expressão. – Ela vai me pagar bem por isso.

A varinha do homem mascarado aponta para ele, sendo certo que não há como errar a essa distância. Começa a fechar os olhos, sem escapatória com o comensal tão próximo, mas o vê sendo estuporado, caindo a sua frente. Olha para os lados, a procura de seu salvador, mas algo dentro de si diz que somente alguém neste castelo se importaria em salvar sua vida. E do nada sente um soco, que o acerta diretamente na boca, abrindo seu corte quase cicatrizado, fazendo-o cair para trás, sobre o corpo do seu atacante inconsciente.

- E essa é a segunda vez que salvamos sua vida hoje à noite, seu filho da mãe de duas caras! – A voz do Weasley soa raivosa.

Mas mesmo a dor somente confirma quem o salvou... O que vale a pena. Sente que os olhos verdes o observam de algum lugar e decide que se o Potter se deu ao trabalho de salvá-lo... Precisa manter-se vivo. Corre para um canto no salão principal e ali se refugia esperando para ver qual o fim dessa história.

"Espero que o Harry acabe com aquele lunático." – Já não se importa mais. – "E que o faça sofrer bastante."

ooOoo

Sabendo o que deve fazer, como seu sacrifício pode salvar a vida de seus amigos e trazer a paz, Harry se revela diante de Voldemort e seus comensais. A clareira está iluminada de forma fantasmagórica. Seu olhar é decidido, apesar da ironia destilada por seu inimigo, risos e zombarias vindos de parte dos bruxos que rapidamente o cercam. Seus olhos se voltam por um instante para os Malfoys, ambos assustados demais, mas é Narcissa que o observa de forma estranha.

A mulher admira sua coragem... Já entendeu o seu sacrifício... Tem finalmente um vislumbre daquilo que levou seu filho a se apaixonar por ele. A determinação, a força de caráter, a impulsividade... Essas suas qualidades a fazem lembrar-se de James. Não daquele rapaz que gostava de perturbar Snape quando estavam na escola... Mas do pai que enfrentou o Lorde de frente, mesmo sabendo que seria incapaz de detê-lo.

Há medo nos olhos verdes, pois mesmo para ele o instinto de sobrevivência ordena que fuja ou se defenda. Os comensais não se movem, ofegantes, na expectativa de vê-lo morrer. Potter procura controlar a própria respiração, desejando não dar essa satisfação ao sorridente homem de aparência ofídica. Pensa em Gina, em seu olhar radioso e em seu beijo... A garota lhe traz segurança... E paz. Sua presença o deixa tranqüilo, como se essa loucura fosse apenas um pesadelo. Mas nesse momento a tranqüilidade perde a batalha para o fogo da paixão, para o amor proibido, para o calor dos lábios doces e deliciosos do loiro que povoa suas noites.

Mas todo esse sentimento intenso se apaga com um simples brilho verde, que o atinge e o envolve, apagando a vida em seus olhos. Mas ao contrário do que todos pensavam há tanto tempo, o momento de glória e triunfo cai ao chão junto com o Lorde das Trevas. Bella corre, ajoelhando-se ao lado dele, enquanto o pânico se instaura entre os demais. Alguns ficam paralisados pelo medo, outros pensam em se aproximar, mas se acovardam diante da surpresa. Não era isso que eles planejavam... O que ele prometia.

E o tempo parece se arrastar, como em câmera lenta, Narcissa segurando o braço do marido, sem conseguir tirar os olhos do corpo inerte de Potter, depois para o Lorde, desejando ardentemente que ele tenha perecido junto, conseguindo a sua vingança. Mas a figura sinistra começa novamente a se mexer, dando sinais de que está se recuperando, mas ninguém se atreve a comemorar o que parece a vitória. Esperam ouvir dele a confirmação, confusos e aturdidos com o acontecimento inesperado. Decepcionada por vê-lo vivo, ela olha para o rapaz caído, esperando que também se levante, mas não há qualquer movimento.

- O garoto... Está morto? – Voldemort diz, afastando Bellatrix que tenta ampará-lo.

Nenhum comensal tem coragem de aproximar-se de Harry Potter, estáticos, como se o temessem ainda mais depois da morte. Apenas a mulher loira avança dois passos à frente, desvencilhando-se da mão do marido que tenta segurá-la. Quer que o Lorde a veja e pense nela para verificar se ainda há vida no corpo do inimigo...

- Você... – Aponta sua varinha para Narcissa, lançando-lhe um choque que a faz soltar um gemido. – Examine-o. Me diga se está morto.

E enquanto caminha na direção do rapaz ela somente pensa naquela noite em que seu filho foi ferido, sem piedade, sentindo toda a intensidade de seu próprio ódio. Deseja vingança... Sabe que sua família cedo ou tarde perecerá em suas mãos. Treme ao pensar em Draco, que talvez já esteja morto em meio à batalha. Se Potter veio sozinho... Significa que a missão suicida de seu filho falhou...

Fica de pé ao lado do corpo, observando qualquer sinal de vida, mas não há um arfar ou movimento dos olhos. Ajoelha-se, tocando seu rosto delicadamente, impressionada com a semelhança dele com o pai. Escorrega a mão sobre seu peito, sentindo o coração pulsar forte, mais do que o normal, talvez nervoso por ser descoberto. A respiração dela também fica ofegante, curvando-se ainda mais, quase encostando o rosto no dele. Seus cabelos longos e dourados os envolve, tocando seu ouvido com seus lábios trêmulos.

- Draco está vivo? – Ela sussurra amedrontada. – Está no castelo?

Harry pensa nesse instante na própria mãe, em como ela perdeu a vida tentando defendê-lo, e percebe que a senhora Malfoy não é diferente dela. Esse seu movimento poderia colocá-la em risco, mas a única coisa em que pode pensar é na segurança do filho.

- Está. – Sussurra, desejando que isso a tranqüilize.

As mãos dela se contraem sobre seu peito, crispando as unhas em sua pele. Por alguma razão sabia que Potter não o deixaria morrer e sente em sua voz sinceridade. Sabe que é verdade, não um artifício para fazê-la de alguma forma ajudá-lo.

- Está morto! – Anuncia para os comensais que explodem em comemoração.

Ela se levanta e se junta aos demais, estreitando o olhar na direção do Lorde exultante. Despreza-o ainda mais, mas não deixa transparecer nem para Lucius o que sente. Nesse instante sabe que fez sua escolha, aquela que nunca tivera a oportunidade, sempre submissa. Recorda-se da noite em que viu os pais de Harry Potter morrerem e sente como se essa fosse sua redenção. Como mãe entende Lily melhor neste instante e espera que tenha feito o melhor para a sua família.

ooOoo

Draco permaneceu em seu esconderijo por um bom tempo, observando a batalha se desenrolar, muitas vezes diante de seus olhos, desejando que acabe logo. Está aterrorizado pela possibilidade de em algum momento alguém o descobrir e dar fim a sua vida, mas também com seus pais, e, principalmente com Harry. Desde o instante em que foi salvo, não soube mais dele. Ouviu muitos de seus companheiros perguntando uns para os outros onde ele estaria; apenas Longbottom dizendo que o vira de passagem perto da porta de entrada do castelo. Isso lhe causa um frio na espinha, pois seus amigos não se dão conta do que isso significa. Talvez por estarem preocupados demais em não morrer. Mas ele que está ali refugiado... Ele que sente algo inexplicável por aquele idiota cabeça dura... Seu coração lhe diz exatamente que 'o salvador do mundo bruxo' decidiu dar uma de mártir para salvar seus amigos.

"Eu o odeio por isso! Sempre se achando o herói de plantão!" – Mas sabe que é exatamente por isso que também o ama, infelizmente.

Terminado o prazo dado pelo Lorde para que ele se entregue, Draco até tem esperanças que tenha sido esperto pelo menos uma vez e fugido, mas ouve um alvoroço vindo da floresta, aproximando-se cada vez mais da escola. Ele congela, instintivamente andando para a porta de entrada, como se algo lhe dissesse que tudo isso só pode ter um sentido: Harry Potter está morto! As palavras de vitória propagadas por Voldemort pela escola o fazem gelar, constatando que estava certo. E conforme vislumbra a figura de Hagrid se aproximando do castelo, vê o corpo inerte em seus braços. Dobra-se, seu estômago ardendo em fogo, o coração dilacerado por uma dor que não entende, mas que ameaça matá-lo. As lágrimas descem aos borbotões, sem controle, sentindo como se toda a esperança o tivesse abandonado para sempre... Toda a felicidade que guardava dentro de si encerrada para sempre. Morto... Morto... Morto... Não quer acreditar... Não pode acreditar.

A voz da professora McGonagall corta o silêncio como uma faca, trazendo consigo os amigos mais leais de Harry, aqueles que sempre o apoiaram. Passam por Draco como se não o vissem, mas sente que alguém propositalmente o empurra para longe da porta, como se o considerasse indigno de dividir com eles a dor da perda.

- Chorando de felicidade, seu falso? – A voz feminina soa carregada de ressentimento. – Harry está morto.

Levanta os olhos e encontra Gina, a ruiva insossa, que o encara rapidamente com raiva, para depois voltar-lhe as costas com desprezo. Ele se afasta então... Talvez realmente não seja digno... Estava ali pensando na própria sobrevivência, enquanto os olhos verdes encaravam a morte. E conforme o séquito entra no castelo, a visão do rapaz sem vida se tornando mais nítida, resolve recuar. Ninguém o quer ali... Mesmo Harry rejeitaria sua presença. Vira as costas para todos e caminha cabisbaixo para o seu esconderijo, encolhendo-se nele, ainda aturdido demais.

Sua mente apenas vasculha as suas próprias profundezas atrás das lembranças felizes, dos momentos em que os dois se tornavam um, tentando esquecer como tudo começou como algo ruim e terminou em algo pior. Teria que viver daqui para frente apenas com esse pouco tempo... Aqueles em que fora feliz...

Pode ouvir que os defensores do castelo não aceitam simplesmente que seu líder está derrotado, eles reagem, demonstram que não se sentem vencidos. Para o loiro nada mais disso importa. Seja lá quem vencer... Sua vida acabou no instante em que viu aquele corpo completamente imóvel nos braços de Hagrid. Mas o ruído se torna ainda mais forte, um ataque pesado vindo de fora, o clamor da luta voltando ao saguão de entrada, um berro horripilante do Lorde, sendo seguido pela voz do mestiço de gigante ecoando pelos corredores.

- HARRY! – Bradou aterrorizado. – HARRY... ONDE ESTÁ HARRY?

O caos então toma conta novamente do castelo, a luta se atropelando e seguindo para o saguão principal, invadindo-o como uma tempestade. Não há covardia naqueles que se negam a aceitar a derrota. Se Harry está morto... Eles lutarão para que sua morte não tenha sido em vão.

Mas em meio à luta Draco vislumbra algo que o faz se erguer. O brilho de uma varinha que lança feitiços se destaca para seus olhos... Pois vem do nada. Alguém invisível protege e ataca, vislumbrando às vezes um tênis que surge da invisibilidade.

- Harry! – Sussurra para si mesmo, pois ninguém mais poderia estar usando esse ardil.

Fica ali de pé, esquecendo-se de que pode se tornar um alvo, apenas se concentrando em sua descoberta. Sabe que está desarmado, que nada pode fazer, que não pode tomar qualquer partido... Mas o que importa é que Harry está vivo. E isso o faz sorrir como nunca, aliviado de tal forma que nem sente quando seus pais o encontram e arrastam para um canto protegido. Eles se colocam diante dele, Lucius segurando a varinha em proteção. Para Draco tudo o mais é invisível, vê apenas aquele que ninguém mais enxerga.

Não pode negar que a luta da ruivinha sem graça o atrai momentaneamente, seu ciúme fazendo com que deseje meio sem querer que sua tia a derrube, mas lembra das palavras do comensal que quase o matou, que uma mulher o queria morto e se arrepende. Somente Bellatrix seria capaz disso. Mas no lugar da 'coisinha' Weasley surge sua mãe, o que causa risos na bruxa que a enfrenta, mas que logo cessam. A matriarca da enorme prole ruiva se mostra mais habilidosa do que todos poderiam supor fazendo o loiro sorrir satisfeito. Ver a orgulhosa senhora Lestrange ser derrotada pela simplória Molly Weasley... Isso é ótimo. Mas se lembra que ela é irmã de sua mãe e volta os olhos para ela, que não demonstra qualquer pesar. Não basta o sangue... É preciso haver afeição verdadeira.

E para defender a corajosa senhora Weasley do ataque de Voldemort que Harry revela sua invisibilidade. Gritos de horror e alegria se misturam quando o rapaz se desfaz da capa e encara seu inimigo frente a frente. Tudo parece surreal, apesar de ser aquilo que todos, de ambos os lados, sempre esperaram. A realidade está ali. As palavras de enfrentamento deles gelando a alma dos presentes, pois Harry parece confiante demais, como se soubesse algo que o outro desconhece.

Draco não poderia repetir qualquer palavra, como se uma força magnética o mantivesse preso ao garoto moreno, de olhos verdes. Teme por ele, mas dessa vez sente que ele já venceu Voldemort e não sabe dizer a razão dessa certeza. Levanta-se e avança, desvencilhando-se da mão do pai que tenta detê-lo, ficando de frente para o duelo que se afigura como certo. Na verdade, ele acaba sendo aquele que está mais próximo mesmo consciente do risco que isso pode lhe trazer. Sabe que Potter vai ser vitorioso e quer que ele saiba disso.

O duelo de palavras vai se sucedendo, mas quando eles falam da morte de Dumbledore o loiro fica abalado. Não consegue ainda esquecer aquele último olhar na sua direção, mas...

- Dumbledore está morto, sim. – Harry diz, lançando um olhar para Malfoy, como se soubesse o drama pessoal que essa morte é para ele. – Mas não foi você que mandou matá-lo. Ele escolheu como queria morrer, escolheu meses antes de morrer, combinou tudo com o homem que você julgou que era seu servo.

A resposta do Lorde lhe passa despercebida, pois sua mente começa a ligar os fatos, a reconhecer melhor os sentimentos de Snape e suas intenções ao assumir a morte de Dumbledore. Então ele queria realmente protegê-lo... O diretor sabia que ele iria matá-lo, por isso havia aquela tranqüilidade em seu rosto. Os dois homens lutaram naquele instante para resgatar sua alma. E o peso da culpa parece sair de suas costas, as lágrimas de alívio correndo por seu rosto.

Mas o duelo verbal ainda não termina neste ponto, os méritos de Snape e Dumbledore sendo postos em dúvida pelo homem que não gosta nada de ter sido enganado. A Varinha das Varinhas é seu maior triunfo, pois tomou sua posse das mãos do túmulo do diretor e matou aquele que tinha sua fidelidade. O velho bruxo falhara ao tentar mantê-la longe do seu poder.

Harry, ao contrário do que Voldemort poderia pensar, se diverte com sua atitude vitoriosa, quase rindo de sua ingenuidade. Todo seu corpo parece debochado, fazendo o homem tremer de raiva. Draco nunca vira essa faceta do 'santinho' da escola, considerando que reconhece esses meneios...

"Esse miserável está me copiando!" – Sorri surpreso.

- A varinha não está funcionando corretamente para você, porque você matou a pessoa errada. – Os olhos cinza se voltam para Harry enquanto diz isso.

Por mais que as vozes continuem falando, distanciam-se enquanto ele começa a pensar sobre isso. Snape o matara sim, portanto a varinha deveria dedicar sua fidelidade a ele, mas... Não foi Severus que o desarmou! Outra pessoa tirou a posse da varinha das mãos de Dumbledore... Por Merlin!

- O verdadeiro senhor da Varinha das Varinhas era Draco Malfoy. – Fala orgulhoso por ver Voldemort completamente aturdido.

Draco não consegue se mexer, ainda em choque ao pensar que sempre fora o obstáculo que impedira o Lorde de ter o poder absoluto que essa varinha pode trazer. E todo esse tempo estivera perdido entre seus comensais, sendo tratado como o pária sem valor, a vítima de sua fúria... Humilhado da forma mais vil que essa criatura poderia tratar alguém. Sente-se satisfeito por ver-se redimido, o ódio de Voldemort por ele nesse momento apenas fazendo-o ter na boca o doce sabor da vingança.

- Que diferença faz? – Olha para o loiro ali presente, seus olhos faiscando de rancor, sentindo-se um idiota por nunca ter pensado nesse mínimo detalhe. – Mesmo que você tenha razão, Potter, não faz a menor diferença para você nem para mim. Você não possui mais a varinha da fênix: duelaremos apenas com a perícia... E depois de tê-lo matado, posso cuidar de Draco Malfoy...

Um sorriso malicioso surge em sua boca quase inexistente, sabendo o quanto estas suas últimas palavras podem atingi-lo. Mais do que ninguém ele sabe como Potter pode sofrer com a morte dele, reconhece seus sentimentos com uma nitidez que talvez até o menino intrometido não consiga.

Infelizmente para Voldemort somente um risinho irônico surge nos lábios rosados, os olhos verdes brilhando. Draco reconhece isto, sabendo que a última cartada vem neste instante, pois há certa maldade naquele rosto que já fora tão inocente. Percebe então a resposta... Tão óbvia que ninguém teria pensado nisso...

"Nem a Granger!" – A maldade tomando conta também de sua expressão pálida.

- Mas é tarde demais. Você perdeu sua chance. Cheguei primeiro. – Lança um olhar rápido para Malfoy. – Subjuguei Draco faz semanas. Arrebatei a varinha dele.

Somente então Draco percebe como o restante da platéia acompanha cada novo detalhe desse duelo com o máximo de atenção. Expressões surpresas, horrorizadas, todas convergindo para o centro do salão principal e para os dois homens que se enfrentam.

- Então, a questão se resume a isso, não é? – Há um profundo prazer em suas palavras. – Será que a varinha em sua mão sabe que o seu último senhor foi desarmado? Por que se sabe... Eu sou o verdadeiro senhor da Varinha das Varinhas.

Isto sela o destino dos dois. O ataque de Harry desarma Voldemort, mas não antes que ele lançasse uma maldição da morte, que volta e o derruba fulminado. A Varinha jamais mataria o seu Senhor. Nem mesmo os olhos verdes podem crer que tudo está terminado e a profecia se concretiza. Seu olhar se fixa no homem morto, sentindo-se satisfeito ao pensar naquilo que seus pais passaram, mas com um sentimento confuso de pena rondando seu coração. Ele poderia ter se tornado como o Lorde, pois também tivera uma infância solitária e triste, também encontrara em Hogwarts o único lar verdadeiro, também tivera em Dumbledore um segundo pai. A diferença é que soubera amar e ser amado, coisa que Tom Riddle jamais conseguiu, sendo consumido eternamente pelo rancor e pelo orgulho.

Todos cercam o rapaz intimidado por toda essa atenção. Ele parece ter deixado de lado a 'péssima imitação de Draco Malfoy' e voltado a assumir sua verdadeira personalidade. Gina o abraça apertado, beijando-o suavemente, em meio às congratulações e choros emocionados.

O loiro decide afastar-se. Esse é o momento dos vitoriosos e os Malfoys são apenas sobreviventes, tendo que contar com a bondade do novo ministro para conseguirem manter sua fortuna e posição social... E para evitarem ir para Azkaban. Um grande peso toma conta de seu ser. Nunca sentiu tanta distância entre eles como agora, uma profunda solidão se apossando de seu coração. Os pais vêm em sua direção e o abraçam, mas isso não diminui aquilo que sente. Sente o olhar de Harry sobre eles e isso é ainda pior. Espera que todos se esqueçam dele, Lucius e Narcissa sendo chamados para interrogatório pelos homens do Ministério. Resolve sair. Vai para o único lugar neste castelo onde pode sentir algum alívio, saindo solitariamente pela porta de entrada, sem nem sequer olhar para trás.

ooOoo

- Essa é a única coisa imutável nesse lugar, não é? – A voz de Harry soa cansada.

Draco, sentado na pedra onde tudo começou, volta os olhos e vê o moreno se aproximando. O lago permanece plácido, o sol lançando sua luz sobre as águas escuras.

- Nada mais será o mesmo... – Malfoy fala olhando novamente para a água. – Pensei que você estivesse comemorando com seus amigos.

Harry se encosta a uma árvore, ficando de frente para o loiro. Está nervoso como no primeiro dia em que realmente tentaram se conhecer.

- Achei que precisávamos conversar... – Diz ainda tremendo. – Na verdade, já devíamos ter feito isso há muito tempo atrás.

Draco olha para ele, mas sua expressão diz tudo. Ele sempre desejou essa conversa e tudo poderia ter sido diferente se Potter não fosse tão teimoso. Mas reconhece sua parcela de culpa, sabe que aquilo que fez, para si mesmo, seria considerado imperdoável. Sente remorso demais, que o vem corroendo todo esse tempo em absoluto segredo.

- Você nos deu o maior susto, seu idiota. – Não sabe por que, mas sente a necessidade de mudar o rumo da conversa. – Mas no fim encurralou o Lorde das Trevas com maestria.

- Não devia ter ficado tão próximo... Quase evitei falar do seu papel involuntário nessa trama. – Os olhos verdes se sentem meio perdidos pela mudança brusca de assunto. – Voldemort podia ter te atacado naquela hora.

- Eu tinha certeza que você o tinha nas mãos... – Percebe que teme as palavras de Harry. Ele sabe... O Lorde mostrou o que aconteceu, com todos os detalhes. Além disso... E se o Potter lhe disser que não o ama? – Queria que você tivesse tanta certeza disso quanto eu.

Harry senta na grama, diante do outro, seus olhos brilhando ao encará-lo. Ali estão as esmeraldas carentes de respostas, fazendo Draco tremer.

- Preciso saber... – Tenta tocar as mãos finas e pálidas, mas estas se afastam de seu toque. – O que você sentia por mim... De verdade?

Por mais que tivesse ansiado por essa pergunta antes, agora ela lhe parece tão difícil de responder. Dessa vez, são suas mãos que tocam as pequenas e quentes. Não quer ser mal interpretado, por isso procura as palavras certas, aquelas que possam definir bem o que sente.

- Não vou mentir pra você. No início tudo era um plano, do qual tive que participar, sem muito direito de escolha. Mas... – Lembra daqueles momentos decisivos. – Aos poucos você se tornou a única pessoa que me ouvia e compreendia. Tentei me convencer que era parte do plano, contudo logo percebi que havia ultrapassado o limite e não tinha mais volta. Eu estava perdidamente apaixonado por você e... Sei lá. Tudo saiu do controle.

- Mas... Então... Por que continuou com o plano? – A voz de Harry transparece toda a mágoa que guardou por todo esse tempo. – Poderia ter desistido... Ter me contado tudo. Poderíamos ter...

- O que dois adolescentes de quinze anos poderiam fazer? – Há uma crueza dura em suas palavras. – Eu tentei afastá-lo... Fingir que falhei. Infelizmente, meu pai tinha um espião... E eu me vi encurralado entre o seu amor e a segurança da minha família. O que você teria feito em meu lugar?

- ...! – Não há como responder assim, de chofre.

- O mundo em que eu cresci sempre foi cruel... Meu relacionamento com meu pai... O orgulho do sangue puro... A honra familiar. – Falando da sua vida Draco parece tão maduro... Tão realista. – E a volta do Lorde das Trevas tornou-o ainda mais perigoso... Todos vivendo sobre o fio de uma navalha.

- Mas sempre há a oportunidade de escolher... – Por mais que tente entender, Harry procura uma maneira de demonstrar o erro cometido pelo outro.

- Você teve essa oportunidade? – A pergunta do loiro faz os olhos de Harry se arregalarem. – Por acaso você não foi fadado a um destino do qual sempre desejou fugir, mas nunca conseguiu?

A sina do 'menino que sobreviveu' lhe aparece neste instante como um fantasma, do qual nunca teve direito a escolha. Percebe que talvez o loiro tenha razão, apesar de seu lado emocional continuar em luta com o seu racional. Então se vê diante da realidade... Da culpa que agora carrega dentro de si. Poderia ter evitado todo o sofrimento da pessoa que ama se tivesse lhe dado a oportunidade de falar, como faz agora. E com isso o entregou de bandeja nas mãos do carrasco.

Toda a cena do estupro volta a sua mente, com tanta força que faz a expressão de Draco mudar. Ele sente a revolta e a culpa vindas dele, levantando-se depressa e caminhando até o lago. Essa sensação desperta a vergonha... Como conviver com a idéia de que Harry viu tudo... Toda sua humilhação. Toca o lábio ainda com a marca do ferimento.

O jovem Potter também se levanta, aproximando-se dele por trás, tentando tocar seus ombros, dar-lhe conforto, mas é repelido. Draco se afasta e o observa com os olhos cheios de lágrimas.

- Você sabe... Ele fez questão de te mostrar, não é? – As palavras quase não saem.

- Isso não importa! – Sabe que mente, pois a incapacidade de ter impedido... Pior... Sua culpa por não tê-lo protegido... Tudo o queima como fogo. – Não muda o que sinto...

- Como não muda? Não tente me enganar. – Olha diretamente em seus olhos. – Eu vejo no seu rosto... O que aconteceu mexe demais com você! Sente... Pena de mim...

- Não! – Como explicar que sente pena de si mesmo por ter sido um idiota completo? Parece que sempre diz a coisa errada.

- É pena sim... – O orgulho Malfoy surge por entre todas as emoções conflitantes que o assolam nesse momento. – E eu não preciso da pena de ninguém... Muito menos de você.

- Eu estou aqui tentando dizer que te amo... – Teme que a dor obscureça a capacidade de Draco ouvi-lo. – E que sei que você sente o mesmo...

- Se você me ama... Por que foi rapidamente se consolar nos braços da insossa da Weasley? – O ciúme quase doentio o faz sentir raiva. – É fácil dizer todas essas palavras bonitas, mas ficar trocando beijinhos com aquela...

- Deixa a Gina fora disso! – Harry não gosta de ouvi-lo falar mal da garota. – Ela não tem nada a ver com o que aconteceu com a gente. Você quer perdão por ter me enganado e... Vem me acusar de traição?

- Perdão!? – O sangue lhe sobe à cabeça e não consegue conter toda a mágoa que represou por tanto tempo. – Se você não fosse o estúpido cabeça dura... O 'santinho' que nunca comete erros... Talvez tivesse me ouvido e evitado toda essa tragédia. Você e sua mania de ser o centro das atenções... O sofredor injustiçado...

- Olha quem fala! – Potter também perde o controle. – Você se acha no direito de me acusar? Você teria me perdoado se eu tivesse participado de um plano pra te matar? Não... Mas o orgulhoso riquinho metido a besta sempre tem que ver somente a culpa dos outros... Nunca olha pra própria.

- Não sei por que perco meu tempo tentando falar com você. – Draco dá as costas para ele e caminha na direção da escola, mas Harry segura seu braço. – Me larga, seu mestiço!

- Nada disso! Pra depois você ficar choramingando que eu não te ouvi? – A raiva fazendo seu rosto ficar vermelho. – Vamos... Fala tudo... Confessa que aquilo não foi um estu...

Depois que começa a falar percebe o absurdo do que vai dizer, mas o estrago já está feito. Draco sente claramente onde vai chegar e isso é algo que não pode aceitar.

- Eu não... Desculpa... Não queria... – Harry tenta tocar seu rosto, demonstrar arrependimento, mas o loiro puxa o braço com ódio no olhar.

- Pode ficar com a ruivinha... Vocês se merecem. – Contém o ímpeto de bater nele. – E não precisa mais me procurar.

Ele corre para longe de Harry, imensamente magoado por suas palavras, uma dor imensa tomando conta de todo o seu corpo. Poderia ouvir isso de qualquer um, menos dele... Do único que viu tudo o que passou. As lágrimas descem por seu rosto de forma avassaladora, mas nem tenta contê-las. Sabe que ainda ama demais o idiota, mas ainda é um Malfoy e decide que nunca mais quer voltar a vê-lo.

Os olhos verdes acompanham o rapaz se afastar, sem coragem de impedi-lo. Deixou-se levar e acabou fazendo aquilo que mais temia, dizendo a única coisa que sabe não ser verdade. Infelizmente já é tarde demais para mostrar arrependimento. Mas a culpa também não é totalmente dele... Draco buscou em Gina uma desculpa para brigarem novamente... Talvez não o ame tanto quanto pensa... Seja mais uma parcela grande de remorso.

"Eu realmente acredito nisso?" – Sabe que não. – "O que aconteceu está entre nós... Eu não sei lidar com isso... Ele não consegue enfrentar..."

Senta na pedra, observando o horizonte mais uma vez. Essa briga apenas prova que não há futuro para eles. Encarar todos e viver o que sente pelo loiro é difícil... São diferentes demais... Existem coisas demais no passado que sempre estarão entre eles. E o que Harry mais deseja nesse momento, depois de toda a tempestade ter passado, é paz e tranqüilidade. Quer ter uma vida normal, como sempre ansiou. Agora não quer ser mais o 'o menino que sobreviveu', mas apenas o Harry. Suspira, sentindo uma profunda tristeza. Apesar de tudo isso, o ama ainda mais do que nunca, deixando as lágrimas sofridas descerem.

- Adeus Draco! – Joga essas últimas palavras ao vento, levanta-se e volta para o castelo.

ooOoo

Pensei que nunca mais tocaria neste diário, mas... Mexendo na minha antiga escrivaninha, para o meu filho usar agora que vai para a escola, me deparei com essa coisa velha... Repleta de sentimentos antigos. Sentei na biblioteca e li... Bem... Talvez esses sentimentos não sejam tão ultrapassados assim.

Depois daquela nossa briga eu me fechei dentro de mim por um longo tempo, tentando entender o que houve, por que nos agredimos no momento em que tínhamos a chance de conversar sinceramente. Depois percebi o quanto nós estávamos com medo. Eu não conseguia encarar o que aconteceu... O que aquele maluco me fez. E por não conseguir lidar com todos os sentimentos conflitantes, vi apenas pena nas palavras de Harry, mesmo quando dizia que me amava. Ele, por sua vez, sentia-se culpado e incapaz de lidar com esses meus sentimentos. Hoje sei que dois adolescentes diante de uma coisa dessas... Somente a maturidade poderia nos fazer enfrentar isso juntos.

E a troca de insultos... Típica de nós dois, tão acostumados que estávamos em viver nos insultando. Mas eu sei que era o momento... Nós dois nos arrependemos. Mas as palavras dele me mantiveram magoado por tempo demais. Eu o amava demais e meus pais viram o quanto eu sofri. Meu pai ficou por muito tempo insistindo para me arranjar um casamento, para que eu esquecesse, pois intimamente ele jamais aceitou. Também... Seria demais querer que Lucius Malfoy aceitasse que seu único filho amava outro rapaz, um mestiço e Harry Potter.

O duro foi enfrentar a notícia do casamento... Não sabia o que fazer com tudo que sentia, me vi sem esperanças, pouco ligando para todo o resto. Foi então que aceitei mais uma das garotas puro sangue que meu pai me ofereceu. Casei com Astoria, quase sem nem conhecê-la, mas deixava meu pai feliz... Pelo menos alguém era.

Tivemos um filho, que me traz muita alegria, mas não posso dizer que sou feliz. Eu levo um dia após o outro. Eu e Astoria temos uma relação cordial. Ela é doce, uma ótima mãe e uma boa companheira, mas... Amor somente existe para uma pessoa... Mesmo depois de dezenove anos.

Amanhã eu sei que nos veremos de novo. Evitei esse encontro por todos esses anos. Sabia que não conseguiria continuar a viver a minha mentira se o visse. Mas na estação será inevitável. Respiro fundo tentando criar coragem, as memórias mais doces de nós dois ainda gravadas com ferro quente na minha alma. Acho que levo para o túmulo comigo.

Mas eu gostaria que ele pelo menos soubesse toda a verdade... Tudo o que senti... Talvez haja uma forma... Talvez...

O casal Malfoy entra na estação se destacando entre todos. O homem loiro lembra por demais o pai, apenas que os cabelos continuam curtos, como ele sempre preferiu. Veste um sobretudo preto, todo abotoado até o pescoço, que contrasta com sua pele branca como porcelana. Sua esposa é pouco mais baixa que ele, de aparência pouco interessante, com os cabelos presos em um coque. Seu filho Scorpius é parecido com o menino esnobe que tomou esse trem a primeira vez há tantos anos atrás, mas com uma expressão menos arrogante que a sua. Também por causa da mãe. Astoria é a pessoa mais calada, sem graça e sem personalidade que já conheceu. Pena... Gosta dela de verdade...

Saindo da bruma que se forma na plataforma ele vê a família Potter, acompanhada dos Weasleys. A visão de Harry o faz congelar. Ele continua praticamente igual, o rosto ainda bonito, os olhos verdes sem aquele brilho que o fascinava. Está feliz, com três filhos que o amam, mas há algo que o diferencia daquele garoto teimoso e impulsivo do passado. Está tão apagado...

"Mas pode ser que eu esteja vendo isso por querer que ele esteja tão infeliz quanto eu..." – Pensa isso, disfarçando o olhar para que ninguém perceba.

É que... Harry era do tipo quente e fogoso, que mesmo diante do perigo de serem descobertos, roçava em sua mão ou a pegava com força no meio da multidão. Quantas vezes se agarraram nos corredores? Nem consegue lembrar. E agora o vê lado a lado com a... Ruiva insossa. Mas não há um toque físico sequer... Como se não houvesse mais dentro do moreno o calor que o caracterizava.

Percebe então que todos o olham, disfarçando, mas sendo pouco eficiente, acenando com a cabeça para os ex-colegas de escola. Com o tempo passou a gostar da Granger. Encontrou com ela algumas vezes durante esses anos... Um dia até entraram em um café e conversaram.

"Dava até pra pensar que ela sabia de tudo, mas..." – Reflete sobre a inusitada ocasião. – "Harry nunca iria contar pra ninguém!"

Gina Weasley o fica encarando por um bom tempo, mesmo depois de Harry desviar o olhar abruptamente, como se o evitasse. Há um fogo estranho em seus olhos, ainda aquilo que percebia no passado cada vez que os dois cruzavam seus olhares. Resolveu concentrar-se em seu filho e deixou de lado a mulher que parece cada vez mais com sua mãe... Um pouco mais magra.

Embarca Scorpius, que o abraça forte antes de partir, coisa impensada entre ele e seu próprio pai. Estreita o garoto nos braços, pois há entre eles um carinho e entendimento que tem preenchido seus dias. Teme como será agora que o menino vai pra escola. Depois que o trem parte, segura no braço da chorosa Astoria e anda rápido para deixar a estação. Passa por trás de Harry e esbarra levemente nele. Os olhos dos dois se encontram, mas não trocam nem sequer uma palavra. A ruiva toca na mão do marido para que também se afastem. Mas o loiro sente os olhos verdes acompanhando sua saída.

"Pronto!" – Sorri satisfeito enquanto chega à rua. – "Está feito."

ooOoo

Ao chegarem à casa do Largo Grimmauld Harry continua calado, como esteve desde que voltaram da estação. O reencontro com Draco o abalou e Gina sabe disso. Oferece-lhe um chá, mas em sua introspecção ele apenas agradece e anda até a sala da tapeçaria. Depois que se casaram a casa passou a ser o seu lar, uma reforma ampla deu uma aparência nova ao local, todas as relíquias da família jogadas no sótão, em respeito ao leal Monstro que ainda os serve, mesmo depois de ter recebido a liberdade. Essa sala em especial se tornou o canto particular de Potter, onde estão as coisas queridas do passado, como fotos e recordações das pessoas que já se foram.

Acomoda-se na confortável poltrona, acendendo a luminária próxima, pensando em como se sentiu afetado pela presença do loiro. Ele continua sendo um belo homem, de porte aristocrático, com a mesma aparência que o deixava tão excitado e o fazia ser mais imprudente do que normalmente era. Mas notou algo nele que o preocupou... Um aspecto melancólico, quase infeliz. A esposa ao seu lado não combinava com ele, de forma alguma, sendo obscurecida pela presença imponente que assumira, lembrando muito o próprio Lucius.

Quando seus olhares se encontraram sentiu algo que há muito deixara de existir em sua vida, como se a chama estivesse adormecida por todos esses anos e se reacendesse no instante em que o viu. Não quis demonstrar, mas sabe que Gina percebeu, ficando mal humorada pelo restante do caminho de volta. Não pode culpá-la...

Sua mente então volta às memórias que guardou somente para si, tentando rapidamente afastá-las, mas sendo em vão. E aquele dia em que brigaram... O último dia em que se viram... Continua presente na sua mente, como sempre esteve. Temia isso quando soube que o filho dele também entraria na escola, na mesma turma que Albus. Não queria encontrá-lo, pois sabia que seria esse o efeito.

Depois daquela briga Harry decidiu tirá-lo da cabeça, pois aquilo que dissera jamais seria perdoado. Considerava-se um idiota e sabia que a culpa da separação era toda sua. Podiam ter conversado finalmente, mas deixara se levar pela cabeça quente e acabou dizendo exatamente o que não devia.

"Eu sempre tive a boca grande demais!" – Pensa dando um tapa de leve na própria cabeça.

Acabou deixando como as coisas estavam, retomando seu namoro com Gina, que lhe trazia a normalidade que tanto desejava. Eles se entendiam bem, havia atração entre eles, mas jamais pode dizer para si mesmo que a amava. Depois as coisas foram ficando cada vez mais complicadas, tornando qualquer movimento de término da relação impossível. Preferia cortar um braço a magoar os Weasleys. Eles eram e sempre seriam sua família. E assim casou-se com ela, notícia que se tornou mais do que pública pelos jornais. O que mais o chateava é que Draco iria saber... O restante ele decidiu deixar correr.

Os filhos chegaram e o amor que devotava a eles o tornava feliz. Como casal, ele e Gina levavam uma vida tranqüila e pacífica. Ela era dedicada e geniosa, mas os dois conversavam muito, o que tornava o casamento agradável. Mas sempre lhe faltava algo. Não havia aquele fogo que o tornava tão intenso... Tudo era calmo demais.

"Não era paz e tranqüilidade que eu tanto queria? Eu não queria ser normal?" – Fazia-se essa pergunta sempre que sentia a falta daquele Harry fogoso, aquele que atacava Malfoy em todos os lugares que pudessem, mesmo que fosse perigoso.

Na verdade, nessa tarde na estação de trem percebeu que continua sendo o mesmo Harry de sempre. Quem despertava esse seu lado selvagem era o loiro de olhos cinza, pois pode sentir aquilo tudo voltando como uma avalanche. Algo que jamais sentiu por Gina... Em nenhum momento.

Levanta-se para tirar o casaco, sentindo-se desconfortável, mas então percebe que há algo em seu bolso. Um pequeno livro, capa de couro preto, parecido com aquele que pertencera a Tom Riddle.

"Mas como..." - Lembra então do esbarrão do loiro e corre olhar o nome do dono do diário. – "Draco Malfoy! Mas por quê?"

Decide sentar e ler. Malfoy não teria tido o trabalho de lhe entregar o diário se não fosse importante. Por alguma razão, depois de tantos anos, ele desejava que lesse e que o conhecesse finalmente, e não pode decepcioná-lo. Abre na primeira página e treme. O relato data do dia posterior ao estupro... Um desabafo de um garoto de dezessete anos que se viu ferido e sozinho.

Por um longo tempo Harry esteve grudado ao relato do garoto, conhecendo as condições do acordo que o levou a aceitar o plano do pai, a sedução, a paixão avassaladora, a tentativa de salvá-lo, culminando com a noite em que Lucius tentou matá-lo. Pode testemunhar todo o sofrimento que se seguiu, o suplício do plano para assassinar Dumbledore e o desespero daquela noite terrível.

Seu coração fica disparado ao perceber a dimensão de sua culpa ao não ouvi-lo. Claro que estava magoado demais, sentindo-se ferido e traído. Mas como sempre pensou, através desse relato, fica sabendo como a paixão por Harry tornou-se uma maldição para Draco, colocando-o sob o foco de Voldemort.

Cada detalhe sórdido do ano decisivo da guerra tornou-se conhecido, a forma como a armadilha foi se fechando até que chegou ao estupro, fazendo-o recordar de tudo que o inimigo lhe mostrou, ficando ainda pior por saber exatamente o que o loiro sentiu. Toda a dimensão de sua solidão clara pela primeira vez.

Todo o relacionamento dos dois está ali, escrito com a letra fina e elegante do garoto que conheceu. Uma dor incrível toma conta dele, sentindo que a história não foi justa com nenhum dos dois. Os dois se amavam demais... Na verdade, ainda se amam. E tudo que houve lhes roubou a felicidade, fazendo-os viver como zumbis, apenas aceitando a realidade, como fizeram a vida toda.

Recosta a cabeça na poltrona, finalmente entendendo que a culpa não foi deles. As circunstâncias da luta pelo poder os aproximaram, mas também os afastaram para sempre. Jovens demais, presos por um turbilhão de sentimentos que nem adultos estariam prontos a enfrentar, acabaram se separando definitivamente.

Antes de ler o diário Harry pensava de forma conformista, pois tem uma família. Sua esposa e filhos o mantém quieto em sua casa confortável, em sua vida 'agradável'. Mas como fazer isso depois de ler um relato tão doloroso, após ver-se retratado ali naquelas páginas, percebendo como sentem e sempre sentirão o amor do qual tiveram que abrir mão?

- Harry... – A voz de Gina o assusta, tirando-o do quase transe em que se colocara, trazendo-o de volta à realidade. – Você está bem?

- Um pouco cansado... – Ele fecha os olhos, ainda recostado, temendo que seus olhos o traiam.

- Vim chamá-lo para o jantar. – A expressão dela se fecha, pois sabe em quem os pensamentos dele se perdem

- Já vou. – Sua mente continua distante.

Ela sai sem nada dizer, fazendo-o sentir-se mal com isso, mas decidido a tomar uma atitude, como faria nos velhos tempos. Jamais se conformara com o destino, com aquilo a que se está fadado. Por isso Dumbledore sabia que ele poderia enfrentar Voldemort. O velho bruxo sempre confiou em sua capacidade e inconformismo. Por que se esquecera dessa sua característica e se tornou o tipo de pessoa que sempre condenou? Igual às pessoas que preferiam deixar as coisas como estavam apenas para não enfrentar aquilo de que tinham medo. Resgata dentro de si o espírito da 'Brigada de Dumbledore' e toma sua decisão.

Levanta-se e anda até a escrivaninha. Escreve em um pergaminho e anda até o pequeno corujal. Envia a mensagem com o coração apertado, sem saber como será recebido. Desce as escadas com tristeza, pois não deseja ferir Gina, mas... Está na hora de deixar de ser vítima do destino... Vai tomar as rédeas de sua vida pela primeira vez.

ooOoo

Um homem loiro aparata diante do pequeno chalé. Olha em torno e vê o sol se pondo no mar próximo. Pode ouvir o ruído das ondas se quebrando nas pedras no fundo do abismo formado pelo promontório e o oceano. A pequena casa rústica está perigosamente próxima, como se desafiasse essas forças da natureza combinadas, com uma das janelas voltada para o poente, enquanto a outra está localizada na direção do nascente. Coisa que somente Harry Potter pensaria... Ele e sua fixação leonina pelo sol.

Draco caminha até a porta, atravessando um pequeno jardim, sinal de que a família usa a casa, provavelmente no verão. O pensamento de entrar no lar dos Potter o incomoda e quase decide partir, mas como dizia o bilhete de Harry... 'Já é hora de termos aquela conversa'. Bate na porta, sendo prontamente atendido.

O rosto do moreno surge tão tímido quanto o seu, pois foram dezenove anos sem se verem. Nada dizem, Harry abre caminho para que Draco entre e o conduz até a pequena sala aconchegante.

- Não está quente pra esta lareira acesa? – O loiro tenta quebrar o silêncio.

- Á noite faz muito frio por aqui, mesmo no verão. – Por mais que não queira, Harry sente-se preso pelo constrangimento. Está mais sem jeito que um adolescente.

- Gostei do chalé... Bem confortável. – Parece que não consegue abandonar o medo de falar sobre o que realmente desejam.

- Eu o comprei como meu refúgio... – Há uma nota de tristeza em sua voz, como se a utilizasse mais do que gosta de admitir. – Mas as crianças vêm aqui de vez em quando.

Um refúgio... Draco sabe o que isso significa. A realidade é difícil de viver o tempo todo, então tanto Harry quanto ele precisam afastar-se dela ocasionalmente. Ele mesmo veste uma roupa simples e vai até a cidade mais próxima da mansão... Incógnito... E bebe bastante quando deseja fugir da vida que leva. O esconderijo de Potter pelo menos é mais saudável.

Os dois se sentam em grandes cadeiras ladeando a lareira, observando o fogo crepitar, o que os relaxa, os olhos cinza se voltando devagar na direção do outro e encontrando as esmeraldas concentradas nele.

- Faz muito tempo, não é? – Harry tenta iniciar a conversa.

- Demais! – O loiro não consegue evitar a ênfase nessas palavras. – Procurei evitar te encontrar.

- Sei que você ainda está magoado comigo, mas... – A voz do moreno soa envergonhada.

- Não! Eu entendi sua 'idiotice' há tempos... – Os dois sorriem, apesar de machucar demais pensar nas duras palavras que colocaram uma pedra em sua última chance de ficar juntos. – Eu somente temia sentir... O que senti naquela estação... Mesmo depois de dezenove anos.

- Se você entendeu... Por que não me procurou? – Potter projeta seu corpo para frente, mas sem tirar os olhos do rosto pálido e endurecido.

- Parece que você não me conhece! – Draco recosta a cabeça no espaldar da cadeira, desviando o olhar daqueles que desejam uma resposta. – Eu e meu miserável orgulho... Depois você casou...

Harry também desvia o olhar, concentrando-se no fogo novamente. Casar com Gina não foi uma decisão fácil, envolvendo coisas demais, menos a imprescindível... Amor. Não que se arrependa totalmente, pois dessa união surgiram seus filhos... Sem os quais já não consegue viver, mas... Talvez tenha se levado demais pela necessidade de normalidade... Ou de esquecer Draco.

O loiro se levanta, caminhando até a janela, observando o sol descer no mar, a escuridão se apossando de todo aquele espaço. Não quis tocar no assunto do casamento de propósito, como se quisesse acusá-lo de algo, mas é a realidade... Ele o abalou ainda mais do que as palavras ditas por Potter naquele dia.

- Eu achei que você tinha me esquecido... – Tenta disfarçar a emoção em sua voz.

Mas quando se volta se depara com Harry tão próximo que seus pêlos se arrepiam. A respiração dele fica ofegante, o coração disparando como quando ainda eram adolescentes.

- Jamais... – Suas mãos tocam os cabelos loiros tão bem arrumados, sentindo toda sua maciez. – E por mais que eu quisesse... Nunca consegui deixar de te amar.

As palavras despertam toda a saudade e a carência que sentem; os lábios rosados de Harry tomando os do loiro com fúria apaixonada, um choque percorrendo a pele dos dois com o contato. Os corpos se aproximam ainda mais, os braços agarrando um ao outro com necessidade, temendo que isso se acabe, que algum deles resolva fugir, motivado pela fidelidade à família. Mas não há nem sequer um vislumbre dessa dúvida entre eles. Harry e Draco querem estar ali, juntos, como sempre desejaram, deixando de lado as palavras que sempre os traem e os atropelam. Importa apenas o que sentem nada mais.

Há urgência em seus movimentos, uma ânsia de ter contato com a pele, de sentir a maciez dos cabelos e a doçura dos lábios, portanto não há meias-medidas. Os dois se agarram com força, explorando-se como nos seus sonhos mais secretos. Harry abre o sobretudo e a camisa de Draco desajeitadamente, sem afastar-se do beijo, que cada vez mais se aprofunda, as línguas se encontrando desejosas de demonstrar toda a saudade. E logo as duas peças de roupa caem aos pés deles, os dedos finos fazendo o mesmo com a camisa do moreno, que se junta com as outras peças.

Potter se afasta... Precisa observar o corpo que há tanto tempo não via, reparando em como Draco continua o mesmo, talvez um pouco menos magro, mas sempre bonito, sorrindo ao pensar na preocupação vaidosa que ele sempre teve com a própria aparência. Isso o faz levar as mãos sobre o próprio tórax, pois sabe que também é alvo dos olhos cinza. E se Malfoy o achar envelhecido? Afinal, os dois já têm trinta e seis anos, não têm mais o frescor da adolescência.

O loiro se aproxima e o segura pela cintura, afastando os braços que o escondem de seus olhos, tocando sua pele com a mão delicada. Os dedos finos percorrem o pescoço, a curva dos ombros, o peito, os mamilos, fazendo a pele branca se arrepiar. Quer que ele saiba o quanto ainda é lindo, mais adulto, mas repleto daquele calor que sempre o atraiu.

Isso excita o moreno ainda mais, puxando o corpo de alabastro para si, tomando seus lábios novamente, tocando a pele pálida, passeando por suas formas. Quer tê-lo para si, descendo da boca para o pescoço, deixando seus lábios úmidos pelos beijos percorrerem um caminho descendente, provando a cútis saborosa, mordendo-a de leve. Chega aos mamilos, sugando e mordiscando, fazendo a cabeça loira projetar-se para trás. Sobe novamente, lentamente, chegando à orelha, tomando o lóbulo entre os dentes.

- Eu sonhei com esse momento... Noite após noite... – A língua explorando a orelha inteira, entre um sussurro e outro. –Tomar o teu corpo... Te fazer gemer...

- A lembrança das nossas noites me fez sobreviver. – A respiração profunda do loiro quase o impede de falar. – Eu te quero... Dentro de mim mais uma vez... Me possui...

Harry o conduz até o sofá confortável no canto da sala, recostando-o delicadamente sobre as almofadas, descendo seus lábios sobre a pele sensível, fazendo-o gemer baixinho. Passa mais uma vez pelos mamilos, circulando-os com a língua, continuando o caminho por seu abdômen, chegando ao umbigo, onde se demora ainda por alguns instantes. Delicia-se com as reações a esse seu movimento, levantando os olhos e sorrindo para o loiro que o observa. Toca então o botão da calça, sem tirar os olhos do rosto bonito, vendo novamente a inocência do adolescente que amou a primeira vez, enquanto desce o zíper. A tristeza desapareceu, o brilho naqueles olhos fazendo-o esquecer de tudo que passaram para estarem ali neste momento. E quando o despe, revelando a ereção proeminente, sabe o que deseja, tomando em sua boca sem demora, sugando-o com força, para depois tocá-lo com a ponta da língua. As mãos do loiro se agarram aos cabelos sedosos, o quadril se levantando do sofá em busca da boca do moreno. Draco não consegue controlar a ansiedade depois de tanto tempo de espera. A língua insinua-se por toda a extensão do pênis, em volta dele, os dentes se fecham nos pêlos e os puxam, provocando-o ainda mais.

- Harry... Não... Não me tortura... – O moreno sorri com a pressa dele, sente que o puxa pelos cabelos e faz o que exige, deitando-se sobre seu corpo, beijando-o apaixonadamente.

Draco delicia-se com o sabor daquela boca, com o roçar de seu pênis na calça do outro, no contato das peles, que se arrepiam cada vez mais. Desliza suas mãos pelas costas fortes, puxando-o mais para si, deixando claro que deseja mais, com uma urgência que o torna ainda mais tentador. Mas a cada movimento que faz para despi-lo, o loiro sente que o sofá o limita e isso o irrita. Afasta-o de leve e escorrega até o grosso e macio tapete preto diante da lareira.

Potter, ainda surpreso pelo movimento dele, quase perde o fôlego ao vê-lo sobre o tapete, contrastando a pele de alabastro sobre os espessos pêlos pretos, as mãos estendidas o chamando para si. Toca os dedos frios e delicados, que seguram com firmeza suas mãos, puxando-o até que fique de joelhos a sua frente. Abre o botão e o zíper, empurrando-o de volta para o sofá, fazendo-o ficar com as costas totalmente apoiadas nas almofadas, puxando a calça e a cueca juntas, com força, tomado pelo desespero.

Seus lábios percorrem o corpo recostado, com beijos e lambidas, sem sutileza nenhuma, sedento para tomá-lo na boca e sentir seu gosto novamente, sentir o seu sabor que nunca conseguiu esquecer... Lambe o pênis da base à ponta, gemendo de prazer ao senti-lo pulsar sobre sua língua... E não se cansa de lamber de novo e de novo, ouvindo os gemidos que chegam aos seus ouvidos, sentindo seu próprio membro se endurecer ainda mais com aquele som. Seus lábios se fecham sobre a glande, e ele suga lentamente, inebriado... Quer ir mais devagar, para aproveitar mais daquilo que almejou por tanto tempo, mas não consegue... Coloca-o inteiro na boca e chupa forte, massageia com a língua fazendo pressão sobre ele...

- Não... Pára... – Harry diz em murmúrios roucos, olhos cerrados perdidos de excitação. – Não vou agüentar... Eu... Quero te possuir... Com calma.

O loiro sente seu corpo arrepiar. Pára e se afasta do sofá, segurando uma das mãos pequenas e puxa-o para si, enquanto deita novamente no tapete, seu corpo iluminado pelas chamas da lareira.

- Vem Harry... – A voz suave sussurra. - Vem me possuir, retomar o que sempre foi seu...

Harry desce sendo guiado pelo loiro para o seu corpo... Braços e pernas o envolvendo, o apertando... O quadril se esfregando no seu, provocando seu corpo que está no limite da razão.

- Espera Draco... - A boca procura a sua afoitamente, beijando e chupando seus lábios com sofreguidão. A língua invade-lhe a boca, procurando a sua, se esfregando nela, tal qual faz com o quadril, mostrando exatamente o que quer e quer já. - Faz muito tempo, não... Não quero machucar você!

- Não quero esperar... - Beija-o pelo rosto todo... - Já esperei demais... Vem...

Morde seu ombro com força, aproximando-se de sua orelha, mordendo seu lóbulo. Passa uma das pernas por sua cintura, forçando-o a se aproximar ainda mais de seu corpo.

- Me toma... - Sussurra no seu ouvido. – Eu te desejo... Agora...

- Mas me deixa pegar... - Tenta se desvencilhar das pernas que o prendem.

- Não vai pegar nada... - Impacienta-se com o sempre certinho Potter, segurando-o firme com o próprio corpo. - Faz... Faz com a língua... Como na primeira vez... Faz...

Sua voz sai manhosa, como sabe que Harry tanto gosta, passando a língua sobre um de seus mamilos, se aproveitando da posição em que o outro se colocara para levantar. Os olhos verdes se voltam então para ele, um sorriso surgindo nos lábios rosados diante da lembrança.

- Você... Ainda se lembra... – As pupilas verdes brilham enquanto seus dedos passam por seu rosto pálido. – Estava tão nervoso... Nem sei como...

Um suave beijo o cala, surgindo o mais lindo sorriso nos lábios do loiro quando se afasta também admirando o rosto que agora lhe parece tão juvenil quanto há vinte e um anos atrás, na primeira vez em que estiveram juntos por completo.

- Eu estava com medo... – Passa os dedos finos, seguindo o contorno da face de traços marcantes. – Mas essas esmeraldas...

As bocas ansiosas novamente se apossam uma da outra, desejosas de demonstrar como o amor os domina, as mãos passeando pelos corpos, sentindo seus pequenos detalhes, seus tremores, o calor que os atiça a continuar. Já não há mais temor, entregues que estão a um sentimento que não tem barreiras, apenas a do tempo que os manteve separados. Mas isso rapidamente é esquecido, como se aquela primeira noite tivesse sido ontem.

Harry se levanta ligeiramente, fazendo o loiro deitar-se de bruços, percorrendo a pele macia com os lábios, sentindo seu perfume, sua textura, seu sabor doce. Vai descendo ao longo da coluna, sorrindo ao vê-lo estremecer. Chega devagar às nádegas, distribuindo pequenas mordidas por elas, divertindo-se ao perceber que a pele pálida se torna rosácea, não acostumada a esse tipo de tratamento. Passa um de seus braços por baixo de seu abdômen e o faz ajoelhar-se, ficando completamente exposto, sua respiração tornando-se ainda mais profunda, mas não tentando em hipótese alguma resistir a seu assédio. Ataca, primeiro lambendo e sugando com intensidade os testículos, aproveitando-se de sua maciez, aliada a certa resistência, testando essa com a boca, arrancando pequenos gemidos que o incitam ainda mais. Sobe lambendo pela região do períneo, talvez a parte mais sensível, percebendo que a expectativa fizera o loiro parar de respirar. Coloca as mãos sobre suas ancas, apoiando-se enquanto adentra com a língua o orifício que tanto procura, os gemidos tornando-se cada vez mais altos quando ela o penetra. É seguida de um, dois e três dedos, sucedendo-se e tocando-o por dentro, sentindo sua resistência natural se entregar aos poucos, o moreno continuando esse movimento enquanto se encaixa sobre ele, distribuindo beijos, mordidas e lambidas por suas costas.

Draco está excitado demais, desejando com urgência ser possuído, mas como uma criança aproveita cada brincadeira, cada carinho, reconhecendo nesse cuidado aquilo que afastou seu medo, aquilo que diferencia Harry dos outros que o tiveram. Para o Potter ele nunca foi um objeto sexual a ser usado, ele se importa, quer que compartilhe o momento, seja seu de verdade. Quase cai quando uma das mãos pequenas toca seu pênis, rígido ao extremo, massageando-o, uma leve dor sendo substituída pelo prazer imenso, enquanto os dedos brincam dentro dele, chegando ao ponto em que tudo sai de foco, onde se perde na onda de luxúria que o domina.

Abruptamente muda de posição, forçando a saída dos dedos intrusos, deitando-se de costas sobre o tapete preto, enlaçando o pescoço de Harry, que continua surpreso com seu movimento.

- Chega... Você está me enrolando... – Sorri de forma maravilhosa, deixando claro que apenas o provoca. – Eu te quero... AGORA!

O outro rapaz se deita gentilmente sobre seu corpo, acomodando-se entre suas pernas, sentindo que elas se encaixam a seu quadril. Seus olhos se encontram, levando a mais um beijo profundo e arrebatador, que os tira completamente daquele chão, daquele lugar... É como se estivessem novamente na sala onde se encontravam, no colchão improvisado que os unira.

- Draco... – Diz encarando-o diretamente nos orbes prateados. – Eu te amo...

E com essas palavras ainda ecoando, penetra-o devagar, vendo apenas uma leve mudança em sua expressão, como se a dor fosse irrelevante. Os olhos do loiro se fecham, desejoso de apreciar cada movimento, os quadris se agitando ritmados sobre ele, o abdômen roçando em seu pênis altamente excitado, provocando ainda mais sensações. Tudo assume uma aura mágica, quase onírica, onde os dois se perdem em cada reação do próprio corpo e nas do companheiro.

O ritmo vai aumentando, as bocas se procurando com ânsia, o desespero do reencontro se tornando coisa do passado, o momento sendo apenas eles e mais nada. As estocadas se intensificam, acompanhadas de gemidos quase gritados, por entre beijos estonteantes e mãos percorrendo os cabelos já suados e as peles arrepiadas. A cada toque se expande a imensidão do que sentem; a excitação chegando ao auge, um gemido do loiro sendo seguido pelo líquido que se coloca entre seus corpos, com as estocadas mais fortes, até que Harry também geme e goza dentro dele.

Uma sensação quente os envolve, trazendo um conforto gostoso, uma harmonia e felicidade que há muito ansiavam. Ficariam perdidos nisso eternamente, ansiosos por se terem sempre que desejem. Harry beija novamente os lábios já avermelhados, abraçando-o novamente como se temesse perdê-lo. Separa-se do beijo, mas continua sobre seu corpo, observando o rosto de formas finas, os olhos brilhantes, a boca sensual, percorrendo cada detalhe para nunca mais esquecer... Como se tivesse esquecido algum dia! Todas as suas noites repletas desse rosto e desse corpo... Mesmo nos instantes em que era Gina que estava em seus braços.

- Ah... Como eu senti sua falta... – Há uma profunda tristeza em seus olhos.

- Eu sei muito bem o que sentiu... – As mãos finas também passeiam por seus cabelos castanhos, ajeitando os óculos tortos em seu rosto. – Doeu demais ver que essa chama tinha desaparecido...

- Ela somente existe pra você... – Os lábios se tocam delicadamente. – Pior foi ler tudo aquilo no seu diário... E ver o tempo que perdemos...

Draco o empurra de leve, fazendo com que se sente encostado ao sofá, enquanto ele mesmo continua sobre o tapete. Seus olhos inquisidores pousam sobre o moreno, uma aura triste tomando conta de sua aparência quase etérea em contraste com os pêlos escuros.

- E como vamos ficar? – Baixa os olhos temendo que este seja definitivamente o fim.

- Eu... Nem pensei nisso direito... – O Harry certinho volta, em sua expressão, transparecendo como neste momento pensa em todos os demais envolvidos. – Nossos filhos... E esposas...

- Eu sabia! – Malfoy se levanta e fica de costas para ele, diante da janela. A lua alta tomando conta da imensidão do mar. – Nem sei por que vim aqui! Há tanta coisa entre nós... E você seria incapaz de magoar a... Aquela sua esposa ruiva.

Sente os braços o envolverem por trás, o calor de um beijo depositado em sua nuca o arrepiando por completo. O queixo de Harry se coloca sobre seu ombro, os rostos se colando, enquanto os dois pares de olhos se perdem na noite iluminada.

- Não pretendo abrir mão de você nunca mais! – Sua voz sai em um sussurro. – Podemos continuar nos encontrando assim... Por enquanto... Até nossos filhos crescerem... Depois eles terão de entender.

- E a... – Draco sabe do compromisso moral que existe entre Harry e Gina Weasley.

- Ela também... – Não gosta muito do que diz, mas é o que decide ser o melhor... Por enquanto. – E até lá a Gina não precisa saber. Isso é algo nosso... De mais ninguém.

O loiro se volta para ele e o abraça apertado. Não importa de que forma seja, apenas não quer perdê-lo novamente. Nem que seja um amor clandestino... Escondido... Proibido... Como sempre foi.

ooOoo

E por meses a situação continua dessa forma. Harry e Draco se encontram furtivamente, principalmente no refúgio, sentindo-se cada vez mais repletos do sentimento que sempre os uniu. Apesar de toda essa alegria, a vida conjugal de ambos se torna ainda mais penosa, sendo difícil disfarçar que algo mudou. Lucius está cada vez mais desconfiado, mas incapaz de fazer qualquer coisa, pois Narcissa o proíbe terminantemente de interferir na vida do filho.

Gina, apesar de o marido continuar atencioso, sabe que algo surgiu daquele encontro casual na estação e decide descobrir o que. Tenta segui-lo, saber o que anda fazendo, dividindo com Hermione sua preocupação. A amiga se abstém de dizer qualquer coisa. Sabe o que os dois sentem e prefere não tomar partido. A decisão que Harry tomar será apoiada por ela, mesmo que depois tenha que consolar a cunhada. Melhor do que ninguém sabe o quanto ele sofreu... E chega de viver para agradar os outros. Ele merece ser feliz.

Mas isso se torna uma obsessão para a ruiva, que não consegue se conformar com a menor possibilidade de ser trocada. Ainda mais sendo... Nem pensar! Lutou muito para manter seu casamento de pé, mesmo vendo como não havia alegria nos olhos de Harry, mas ainda assim eles têm coisas demais juntos... Coisas que ela lutou demais para conseguir.

Lembra-se do tempo de escola e como sempre soube dos dois... Algumas vezes pegara inadvertidamente eles se agarrando pela escola e esperou pacientemente até o momento certo de mostrar ao garoto que sempre amou o quanto seria melhor para ele. E não seria agora que deixaria aquele traidor roubá-lo. Nem que tivesse que destruí-lo o impediria de arranhar sua felicidade.

Depois dos feriados do natal, em uma noite particularmente fria, disfarça com indiferença toda a sua desconfiança quando Harry sai dizendo que voltará somente no dia seguinte. Ele sempre fizera isso... Sempre que tinha um de seus ataques de melancolia. Aprendera a aceitar isso como uma forma de mantê-lo consigo, mas agora percebe que é diferente. Há ânsia naqueles olhos verdes, como se mal conseguisse conter a excitação por poder sair. Assim que ele sai, a mulher checa as chaves, vendo que as do refúgio não estão ali. Decide esperar um tempo e segui-lo até lá... Assim pode pegar os dois juntos e confrontá-los.

Gina chega por volta da meia-noite diante da cabana, a neve cobrindo-lhe completamente os pés, mas revelando dois pares de pegadas se aproximando da porta. O frio é quase insuportável. Tira a chave do bolso, sorrindo por ter sido esperta e ter feito uma cópia. Abre a porta com cuidado para não alarmá-los. Entra na pequena casa, o calor contrastando com a temperatura de fora. A decoração a surpreende, pois nunca estivera ali, nem mesmo quando Harry levava as crianças no verão. Tudo combina com o estilo do marido, aconchegante, mas limitado a poucas peças, contrastando com sua necessidade de ter a casa cheia de coisas. Talvez algo herdado de sua mãe.

Caminha pelo pequeno corredor, chegando à sala, onde a lareira acesa mantém o ambiente acolhedor. Passa pelas duas cadeiras que a ladeiam e pelo sofá encostado na parede, com almofadas espalhadas pelo chão de forma desordenada. Ali vê o primeiro sinal... Algo que a irrita profundamente. Os sobretudos jogados ao lado do móvel de aparência macia, seguidos por uma trilha de roupas que vai seguindo o corredor, até chegar a uma porta fechada, que deve ser o único quarto da casa.

Estremece à visão daquilo, parando diante da porta por longos minutos, procurando ouvir... Atenta a qualquer ruído que venha do lado de dentro. Encosta o ouvido na porta, odiando-se por rebaixar-se tanto, mas ao mesmo tempo pensando que é a única forma de por um fim nessa... Traição. Gemidos passam pela madeira, fazendo-a ajoelhar no chão, lágrimas de raiva correndo por seu rosto. Pode nitidamente ouvir a voz do loiro, gemendo alto, acompanhada pela rouca e suave de Harry... Uma voz que ela mesma nunca ouviu soar dessa maneira. Assim que acabam, ela se levanta, limpando as lágrimas do rosto, decidida a ser forte e enfrentar a situação de frente.

- Você é tão delicioso... – Ouve a voz de Harry sensual e quente. – Nem parece que tem a idade que tem.

- Seu... Seu... – A resposta é falsamente indignada, manhosa como Malfoy sempre foi. – Vou te mostrar quem é velho... Da próxima vez vou te fazer gemer como um gatinho... Seu leão metido!

Os dois riem, o ruído sendo interrompido pelo som de beijos e pela respiração levemente ofegante, que revela que se não se apressar vai ter que testemunhar mais uma sessão de agarramento dos dois naquela cama. Decide agir... E já. Bate na porta sem delicadeza, seu coração parecendo que vai saltar da boca.

- Harry... Você está aí? – Diante da falta de resposta, começa a esmurrar a porta. – Vamos... Abra... Eu exijo que você abra essa maldita porta... AGORA!

Os dois amantes olham surpresos para a porta, os corações disparados, assim como as respirações. Harry ainda está sobre o loiro, tentando se concentrar no que fazer, totalmente pego desprevenido. Draco está de olhos fechados, contendo o aperto no peito que o sufoca. Temia por isso, sabendo que Potter não o escolheria se tivesse que optar... Abrindo mão dele em nome da 'família feliz'. O corpo do moreno escorrega para a cama, sentando de um pulo, parado cabisbaixo, perdido em pensamentos profundos. Volta-se para trás, os dois se encarando, um meio sorriso irônico deixando claro que o loiro tem certeza de qual será sua decisão.

- Preciso conversar com ela. – Puxa o lençol e o enrola em sua cintura, cobrindo-se, mas não por completo. – Você pode abrir a porta... Por favor?

- Claro... – Draco levanta sem vontade, veste a calça, fechando o zíper, mas deixando o botão aberto. – Tudo o que o senhor desejar...

Caminha contrariado até a porta, virando a chave e abrindo-a. Ele e Gina se encaram, o rosto dela transtornado de raiva, uma expressão de nojo em seus olhos. Malfoy pouco se importa com essa cara, já tendo visto isso no passado, concluindo que ela nada mudou. Quando a mulher entra no quarto, o empurra, fazendo com que esbarre na parede, deixando-o ainda mais nervoso, esperando que Harry peça que saia, mas atendendo apenas ao pedido dele.

- Quero falar com você... – Está chocada por vê-lo ainda na cama, envolto apenas por um lençol. Lança um olhar fulminante na direção do loiro. - Em particular.

- Não... Você perdeu o direito de falar comigo em particular sobre esse assunto no momento em que me seguiu... Bateu nessa porta e exigiu que eu a abrisse. – Sua expressão é fria e calma, como se não houvesse nenhum motivo para sentir-se constrangido diante da situação. - Você sabia o que ia encontrar aqui dentro, não é mesmo?

Draco sorri sarcasticamente com a resposta atrevida de Harry, agora sim interessado em ouvir essa conversa. Senta-se nos pés da cama, de frente para ela, cruzando as pernas sensualmente e apoiando o peso do corpo em uma das mãos. Assume decididamente uma postura desafiadora, quase provocadora diante da rival. Mas evita sorrir, pois ainda não sabe qual a decisão de Potter, seu coração apertado pela possibilidade de ser preterido. Apenas precisa demonstrar claramente que não gosta dela.

- Como você teve a coragem de fazer isso comigo? Deitando-se com esse... Traidor! – Gina quase espuma de raiva. – Ele foi um comensal... Tentou te matar... Participou da morte de Dumbledore... Sei que vocês tiveram algo na escola... Que você se apaixonou por ele, mas...

- Você sabia? – O moreno a interrompe abruptamente, ainda aturdido por descobrir que Gina sempre soube sobre o sentimento que nutria pelo inimigo.

- Sim... Eu vi... – Ela perde o ritmo de seu discurso indignado, mas tenta se recompor. – Sempre soube que você o amava... Mesmo quando já estava comigo. Mas... Ele o enganou... Eu sei disso... Sempre foi um falso... Um nojento... Nunca mereceu o seu sofrimento destes últimos anos.

- Então... Por todo esse tempo me viu infeliz, mas... O que importava pra você era me ter ao seu lado? – Uma revolta se apossa dele. Egoísmo... Puro egoísmo da parte dela. Começa a pensar que Gina não vale toda a consideração e dedicação que lhe ofertou por todos esses anos. – Algum dia parou pra pensar que eu poderia ser mais feliz ao lado de quem eu amo?

- Não tente reverter à situação e dar uma de vítima! – Ela sequer entende o sentido da revolta de Harry, apenas pensando no sofrimento que sua atitude lhe está provocando. – Você ficou chorando por esse traidor sujo... Enquanto ele e os seus amigos mataram o Fred, o Sirius, o Remus, a Tonks... E tantos outros que amávamos.

Ele olha para o loiro, que está sério, mas vermelho com as palavras dela. Harry então se enraivece pela primeira vez com a mulher que conviveu com ele por tanto tempo e mal o conhece. Ela está tão distante da garota corajosa do passado, e mesmo da mãe com quem tanto parece. Ali, na sua frente, está apenas uma mulher egoísta se sentindo traída, nada mais.

- Você não sabe de nada o que ele passou... Então não se atreva a insultá-lo! – Deseja levantar, confrontá-la diretamente, mas suas pernas fraquejam diante do nervosismo. – E ele sofreu tudo isso por minha causa... Por me amar. Algo que você é incapaz de fazer.

Malfoy se sente envergonhado com a lembrança passando por sua mente, sabendo que isso também está contido nas palavras de Harry, mas ao mesmo tempo feliz por se ver defendido dessa maneira.

- Se ele fez algo... Foi por ter algum interesse. – As palavras dele ainda não parecem atingi-la. – Vai acreditar nas palavras dele? Naquele diário idiota...

Os olhos cinza se enchem de vergonha por saber que algo tão pessoal, tão sofrido, é conhecido por alguém que jamais poderia entender pelo que passou. Abaixa o rosto temeroso de se ver sozinho novamente, tendo de enfrentar esse pesadelo sem o apoio de ninguém, como antes.

- Você... – Um nó na garganta impede Harry de falar. Não consegue acreditar que ela vasculhou suas coisas, que leu o diário e ainda assim se apega nessas palavras vazias que continua pronunciando. – Eu vi muito do que ele sofreu... Vi pelos olhos daquele pervertido... E... Mesmo que não tivesse visto... Acredito em cada palavra... Apenas por que sei que ele está sendo sincero.

Draco não consegue tirar os olhos do rosto indignado que o defende de maneira tão veemente. Jamais alguém se importou dessa forma, ao ponto de se colocar em risco por ele.

- Você é um idiota mesmo... – Essa observação dela sai quase inaudível. – Pense bem no que está fazendo, no que está falando... Temos uma vida juntos... Nossos filhos...

- Não use as crianças para me chantagear! – A voz dele soa perigosamente calma. – Somente piora sua situação.

- Eu não vou aceitar viver assim. – Decidida a terminar essa discussão e essa traição de uma vez. – Ou ele ou eu. Você escolhe.

O ultimatum de Gina faz o sangue de Draco gelar. Sabia que a ruiva insossa chegaria a esse ponto e que agora é a hora da verdade. Encara Harry com tanta ênfase quanto ela. Também quer saber quem ele escolhe e, se a chatinha for a escolhida, tudo termina entre eles nesse momento. Pelo menos nisso ela está certa...

- Quem disse que preciso que você aceite alguma coisa? – O tom fica ainda mais calmo, quase sereno, como se um grande peso saísse de cima dele. – Não tenho que escolher... Sempre foi ele... Somente ele.

O sorriso de Draco se abre, brilhando como se custasse a acreditar nessas palavras. Seus sentimentos o atropelam em turbilhão, com mais intensidade do que tudo que já experimentou, seus olhos passando do rosto tranqüilo do moreno, para o vermelho e raivoso da ruiva.

- A gente conversa em casa. – Gina já faz menção de sair. – Não adianta falarmos com a cabeça quente.

- Acho que você não entendeu... – Harry levanta a voz, evitando que fuja da resposta. Gina se volta. – Minha casa é ao lado dele... Não vou voltar.

- Você não se atreveria... Sei muita coisa... – Olha para o loiro e depois para ele, deixando claro que pode jogar ao público tudo que leu no diário. – Harry Potter tem uma reputação a zelar. Imagine o que as crianças vão pens...

- Não acabe com o afeto que ainda tenho por você... Apenas pra alimentar seu orgulho ferido. Pense nas crianças, por favor. – Diz isso segurando seu braço, percebendo nos olhos dela que há finalmente entendimento, lágrimas escorrendo por seu rosto.

- ... – Ela nada diz, apenas acena com a cabeça.

Draco se levanta, segurando a porta do quarto para que ela saia. A esposa puxa o braço, desvencilhando-se da mão do marido.

- Sinto que tenha terminado assim... – Há um real pesar na voz de Harry. – Mas é o melhor... Não quis te magoar.

Ela nada responde, odiando-o tanto que lhe faltam palavras. Passa pela porta e se depara com o rosto vitorioso de Malfoy, aquele sorriso patenteado de sarcasmo que sempre usou na escola. Agarra a maçaneta, batendo a porta com força.

O loiro fica alguns minutos ainda de costas para Harry, que segura sua mão, o puxa e o faz parar diante dele. Os dois se olham enternecidos, sem saber exatamente o que dizer tal a intensidade deste momento.

- Você tem certeza? – Draco pergunta de chofre, querendo uma resposta forte e sincera. – Não vai se arrepender depois e ficar choramingando?

- Depois de tanto tempo... Tenho certeza pela primeira vez. – Puxa-o para si, tocando seus lábios delicadamente. – Nossa história começa agora...

Abre a calça dele, deixando-a cair no chão, puxando-o para a cama e se colocando sobre ele.

- Eu te amo... – Seu beijo quase sufoca o loiro, envolvendo-o com a certeza que está mais que presente nas esmeraldas. – Ainda tenho saudades...

FIM

É o fim! Sinto algo estranho... Um alívio por conseguir concluir algo a que dediquei um grande trabalho, mas uma tristeza por saber que esta história pela qual tenho tanto carinho acabou. Espero ter conseguido a minha intenção de demonstrar que os bastidores escondiam muitos segredos, talvez explicando melhor os porquês de muitas perguntas sem resposta.

Agradeço de coração à criadora desse universo envolvente, muito rico, e aos maravilhosos personagens, que deram permissão para contar suas histórias, principalmente Draco Malfoy. O loiro merecia ter sua voz ouvida, seus sentimentos desnudados, seu papel na história do mundo mágico reconhecida. Ele deve estar adorando essas minhas palavras.

Só tenho palavras de profundo carinho ao agradecer novamente a minha amiga e beta Samantha Tiger Blackthorn por ter dedicado seu tempo a discutir, ler e betar essa fic exaustivamente comigo. Você é a madrinha dela! E a seu esposo, Felton Blackthorn, a quem presenteei com essa fic. Espero que esteja do seu gosto e satisfaça suas expectativas. Te amo, amigo.

Também estendo os agradecimentos a todos que leram e acompanharam a história até agora, especialmente aquelas que tiveram um tempinho para deixar um delicioso review, como JayKay-chan, Nyx Malfoy, Nanda W. Malfoy e Mukuro Yagami. Esses comentários incentivam demais a autora a continuar sempre escrevendo.

Espero que gostem e COMENTEM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

01 de Março de 2008

02:36 PM

Lady Anúbis