She sun

Does nothing

She won't

Tell nothing

Sea change

She strange

São Petersburgo – 1905

A memória de Lily Evans a respeito daquele domingo estava desfeita em fragmentos, cacos vermelhos e brancos sobre o dia que a Rússia nunca esqueceu.

Ela era somente uma menina cuja maturidade começava a se desenvolver ao amanhecer daquele nove de janeiro. Despertou, irritada com o frio pavoroso de meia estação, os lábios pequenos roxos e inchados; sentou-se com dificuldade em sua cama humilde, enrolando seu magro corpo o máximo que conseguia no cobertor de lã. Trêmula, levantou sua mãozinha e empurrou as portinholas da janela com força, tentando fechá-las mais; o vento gelado trazia flocos de neve para dentro do casebre e salpicava de branco os vermelhos cabelos de Lily.

- Não adianta, meu bem. Está quebrada. – tossiu a voz cansada da Sra. Evans, remexendo um líquido fumegante numa panela enferrujada sobre a lareira.

O alvo dos fios de Sarah Evans não sairia se ela simplesmente balançasse sua cabeça; sua jovialidade ficara na Inglaterra, onde nascera e casara com Igor Kursk, o bravo soldado russo, ferido pelos efeitos da Guerra, de quem cuidara num hospital em Manchester e com quem fugira do ódio xenofóbico de seus pais para a Grande Rússia.

Lily sabia que toda vez que sua mãe suspirava, ela estava pensando em ter sido uma filha obediente e se guardado para um bom partido à sua altura. Sarah deixara de usar o sobrenome do marido a partir do momento em que deixara de amá-lo: no minuto seguinte à morte de sua filha mais velha.

Sarah tinha a certeza de que se não fossem considerados estrangeiros no país, camponeses miseráveis abandonados à força dos rigorosos invernos num casebre de dois cômodos, Petúnia teria tido uma chance de sobreviver. Por ter se voluntariado como enfermeira pela Inglaterra, para a mãe nada existiu de mais doloroso do que perceber os indícios da tuberculose em sua pequena flor e saber que a precariedade de sua situação a condenaria.

- Onde o meu pai está? – a menina perguntou, levantando-se com o cobertor sobre os ombros.

- Saiu. – a mãe respondeu, secamente. Embora ela e Igor dividissem o mesmo teto e a mesma sopa rala, Sarah tornara-se retraída e amarga em relação ao homem. O que só piorava suas relações com a filha mais nova, a eterna garotinha do papai.

- Isso eu percebi, mamãe. Ainda que o sol raiasse no nosso inverno, ainda não estaria no horário. Para onde meu pai foi?

Sarah deu as costas à filha e apoiou-se na parede vazia, cabisbaixa. Fungou com força e respondeu:

- O padre Gapone convidou seu pai a juntar-se aos trabalhadores que protestam contra o governo em São Petersburgo. A esta hora, eles devem estar marchando em direção ao Palácio de Inverno.

Os olhos de Lily, tão expressivos e brilhantes como o da própria mãe um dia fora, tão verdes quanto os bosques vivos e saudosos da amada Inglaterra, arregalaram-se de surpresa e seus pezinhos sujos de carvão pularam animados.

- Revolução? – ela exclamou, um sorriso ingênuo brotando em seu rosto.

- Pela reforma agrária e liberdade de crenças. – a mãe confirmou.

- Que maravilha! Quem sabe assim o Czar não abre seus olhos para as mudanças que precisa fazer, não é, mamãe? Aah, estou tão feliz que papai esteja participando disso. Ele é um homem inteligente; padre Gapone poderia chamá-lo para ajudar a conversar com o Czar Nicolau!

Uma risada tão fria quanto o próprio inverno russo ecoou na humilde casa dos Evans Kursk, vinda da garganta de Sarah.

- Mamãe? – Lily encarou-a, assustada com a mãe. – Mamãe, está tudo bem. Papai conseguirá o que pretende e nós mudaremos de casa, para uma maior!

A menina tentou abraçar a mulher, os bracinhos erguidos esperando ser acolhida, mas tudo que recebeu foi a rejeição de sua progenitora.

Lily engoliu em seco.

- Mamãe? Por que a senhora também não foi para a revolução? Foi por minha causa?

- Foi porque eu prezo pela minha vida! – Sarah explodiu, as lágrimas correndo pelo seu rosto. – Essa luta não tem sentido, esse esforço não tem valor, nossa vida não vai mudar! Tudo que pode acontecer é piorar! Esses homens só nos afundarão ainda mais nessa neve fria. Essa marcha é em direção à morte, à MORTE!

Lily sentiu-se tremer por inteiro, e teve a certeza que não era por frio.

- Papai...

- Seu pai não voltará desta manifestação! Ele será um homem morto ao fim do dia!

Sarah, as mãos vagando entre os cabelos desgrenhados e o rosto manchado, caiu em seu colchão duro, chorando alto pelo seu desespero, chamando miseravelmente pelos mortos.

- Petúnia... Petúnia...

Lily sentia as lágrimas forçarem em seus olhos, ardendo como areia, mas não se deixou abater. Fungou forte e andou até a mãe, pé ante pé, temerosa como nunca antes. Tocou seu ombro com delicadeza e, embora fosse apenas uma magérrima menininha de dez anos de idade, compreendeu que a mãe se entregara à própria desesperança ao fitá-la nos olhos aflitos.

- Quando uma mulher percebe que talvez sua mãe estivesse certa, ela geralmente terá uma filha que acha que ela está errada. – Sarah sussurrou, beijando as mãos da pequena Lily e aconchegou-se no colchão, repousando sua cabeça no colo da filha, acalentando a si mesma.A pequena Lily Evans acariciou os cabelos da mãe com tranqüilidade, sentindo como se tivessem invertido seus papéis. Permaneceu assim até certificar-se de que Sarah adormecera, quando cuidadosamente ajeitou-a e cobriu-a. Levantou-se de um pulo, correu em busca de seus sapatos e vestiu todos os agasalhos que encontrou.

À porta de casa, Lily deu uma última olhada na mãe. Ela ressonava calmamente, como se sonhasse com a Inglaterra e a filha mais velha.

- Vou atrás de papai e avisá-lo para tomar cuidado, mamãe. Nós voltaremos para o jantar.


Pobres ingleses feitos prisioneiros numa batalha de séculos passados, os Potters e seus descendentes não significavam nada para a Rússia dos Czares. O que significa que quando o Jimmy, é, o pequeno Jimmy, foi convocado para o Exército, a família entrou em polvorosa. Era a chance única de passarem a sobreviver os três com um pouco de dignidade. No entanto, como jovem de apenas dezesseis anos, estrangeiro e inexperiente, James Potter tornou-se um reles soldado cuja serventia exclusiva era acatar toda e qualquer ordem vinda de cima.

- O grão-duque foi muito claro! – gritava o capitão comandante da guarda do Palácio de Inverno, cedo naquele domingo. – Há uma multidão de camponeses revoltosos se aproximando; a previsão para sua chegada aos muros do Palácio é de vinte minutos. Nosso dever é impedi-los, pará-los antes disso, não importa a que preço!

- Capitão! Poderemos abrir fogo contra os manifestantes?

- A qualquer preço, eu disse! Estamos entendidos?

- SIM, SENHOR! – respondeu a guarda, num berro uníssono.

James engoliu em seco, os olhos no horizonte branco e as mãos seguras no fuzil. Sentia-se dividido em seus princípios, pois secretamente apoiava e muito torcia por aqueles camponeses e sua força de vontade para lutar por condições mais dignas. Entretanto, a própria sobrevivência do garoto e de seus velhos pais dependia da sua coragem para puxar o gatilho e disparar contra os trabalhadores.

Perdido em seus pensamentos, James não percebeu o começo da injusta batalha. O garoto só sentiu, como no despertar de um torpor, as dezenas de soldados russos avançando em direção à multidão, armados e preparados para matar, esbarrando violentamente em seu corpo magricela. Mais tarde, algum de seus companheiros o atualizaria, enquanto ele esperaria ao lado de uma cama de hospital, relatando que os convictos manifestantes se recusaram a dar meia volta e os guardas foram autorizados a disparar.

Estupefato com a crueldade, James apenas observou o suceder dos eventos. Pela neve pesada, os soldados caçavam e disparavam, tingindo a pureza do branco em pecado vermelho. Foi em praticamente um piscar de olhos que as redondezas gélidas da praça transformaram-se nos resquícios finais de um campo de extermínio.

O capitão designou um sargento para comandar as equipes de busca e limpeza nos arredores. James estava em um grupo de cinco soldados, embrenhado em corredores de cadáveres amontoados um por cima do outro, rezando para o Deus que a Rússia proibia que aquela chacina desumana tivesse poupado alguém.

Caminhou para longe dos outros, onde achou que a barbaridade não tivesse chegado. James estava nos portões suntuosos e festivos do Palácio de Inverno, suas pernas molhadas pela neve a trinta centímetros do chão. Ela quase resplandecia, brilhava sobre os entalhos dourados e monumentos erguidos. Expandia-se num branco mentiroso, enganador: aos olhos gratos pelo fim, a cor mostrava-se pacífica, conclusiva e cândida; no entanto, não passava de uma ilusão para o coração sofrido, a esconder manchas ensangüentadas na política russa.

James aproximou-se do enorme poço vermelho que desvirtuava o branco. Suas defesas caíram por completo e ele sentiu-se despedaçar.

O rubro em meio ao branco imaculado não era sangue de inocente; eram cabelos de uma criança, a única a permanecer pura e inteira naquela luta. Era uma menina, camponesa e pobre, de rosto sujo e machucado, pálida como a própria neve. Uma de suas mãos estava firmemente segura na mão de um homem de meia idade, cujos fios de cabelos tinham o mesmo tom de cobre dos da garota, espalhados como num leque. Ele ainda tinha seus olhos escuros abertos e vazios, a marca de uma bala de fuzil em sua testa protuberante.

Eram pai e filha, indiscutivelmente.

James, em um sentimento de agonia crescente no peito, aproximou-se para separá-los. No entanto, a menina pareceu pressenti-lo e apertou a mão do pai, com o frio da morte. Começava a sentir a perda, entreabrindo os olhos em sofrimento.

- Pequenina? Pequenina! Rapazes, ela está viva! –James Potter, o soldado, gritou feliz aos seus companheiros. – Pequenina, você está bem? Está machucada, dói alguma coisa?

- Dor não machuca quando é a única coisa que você já sentiu. – a pequena Lily Evans sussurrou para o seu salvador, antes de desmaiar novamente.

Nota da Autora: A música do capítulo é She Sun, da banda TheSubways. Só por curiosidade, eles serão a trilha sonora desta fanfic. Obrigada àquelas que mandaram reviews (Anya Black, Júúú, bbiia, Cams, Luhli e Tahh Halliwell) e aos que comentaram no fórum 3V (Lyla Evans Higurashi, Guta, Clah, Rodrigo e Nath Evans); incentivo é o que há!

Próximo Capítulo: Pelo menos, dez reviews! Nem é tão ruim, é?