I think is time that I went on a holiday
I think it's time that my mind should take away
I take the things that my friends say I should take
I think it's time that I went on a holiday
Sobre o Oceano Atlântico – 1994
Ao encarar as poderosas nuvens negras e o pouco do céu sem estrelas através do vidro, Lily Evans assumia para si mesma que fora uma grande idiotice deixar a mãe comprar sua passagem de avião ao lado da janela.
Seus olhos fecharam-se com lentidão enquanto ela respirava profundamente, as mãos de unhas curtas apertando com força desmedida os braços da poltrona. Nos ouvidos, ainda restava o odioso e irritante barulhinho da diferença de pressão; ele a fazia sentir-se em um universo paralelo, andando sobre uma corda bamba ao zumbido de mosquitos.
- Hm... eu posso sentar aqui, moça?
"Controle-se, Lily", a garota pensava repetidamente. Engolia sua própria saliva com a voracidade de um sedento no deserto, mas de nada adiantava para aliviar sua pena. Pressionou os indicadores contra os ouvidos, a cabeça abaixada entre os joelhos, mas isso só fez sua dor aumentar.
- Moça?
Lily, de repente, sentiu como se tivesse sido jogada despreparada em uma piscina muito funda. Era uma sensação semelhante ao afogamento, parecia sentir a água em suas narinas, embora ela tivesse a plena certeza de encontrar-se com os pés bem firmes no chão.
"Ou não", a garota acrescentou mentalmente ao fitar a janelinha ao seu lado. Fechou-a violentamente, fazendo um barulho seco ao esconder totalmente a paisagem aterrorizante com o protetor. Lily passou a mão rapidamente pelos cabelos, afastando alguns fios de sua face. Suara de nervoso.
- Moça, você está bem?
O insistente rapaz já estava acomodado no assento ao seu lado, com as mãos posicionadas sobre os ombros da garota, virando-a para si. Seus olhos estavam arregalados de medo; ela realmente deveria estar parecendo uma maluca.
- Eu preciso de um copo d'água. – Lily conseguiu murmurar, apoiando-se no braço da poltrona.
O rapaz assentiu com a cabeça e levantou-se, logo sumindo no corredor.
No curto tempo em que o desconhecido que provavelmente salvaria sua vida estava longe, Lily procurou se acalmar. A velhinha do bloco de poltronas ao lado lhe encarava como se ela fosse psicologicamente instável e a garota tinha certeza que vira um garotinho de uns sete anos dar meia-volta no caminho depois de presenciar sua crise.
- Aqui está, moça. – o rapaz voltara com um copo de plástico transparente, cheio de água gelada, pingando em seus dedos e uma aeromoça loira de feições preocupadas.
- Obrigada. – ela respondeu, ainda tremendo um pouco ao recebê-lo.
O desconhecido observou-a beber a goles curtos todo o conteúdo do copo. Ele tinha mais ou menos a idade de Lily, embora fosse com certeza mais alto do que ela jamais sonharia em ser. Vestia calças jeans escuras e uma jaqueta marrom, que destacava seus olhos cor de folha seca (além de ombros muito bonitos, oh, sim). Usava charmosos oclinhos de aro redondo e seus cabelos negros pareciam ter acordado daquela maneira.
- Acho que ela já está melhor. – o rapaz disse, e a aeromoça acenou com a cabeça, se retirando com um suave "Com licença".
Ele voltou seus olhos para Lily e sorriu, iluminando até mesmo o rosto pálido daquela que há pouco passava mal.
- Sou James Potter. – ele lhe estendeu a mão, simpaticamente, esticando-se sobre a cadeira vazia.
A garota pareceu despertar de seu transe e puxou a bandeja na poltrona da frente, pousando nela o copo vazio. Limpou a garganta com um pigarreio e apertou a mão de James, tentando parecer mais segura de si do que aparentara na primeira vez.
- Lily Evans. – ela falou, simplesmente. Os dois se olharam fixamente por um tempo, por motivos que nem eles mesmos sabiam. "Pelo menos tenho olhos de que posso me orgulhar", a garota acrescentou mentalmente. – Er... obrigada. Por... pelo copo d'água, pela ajuda. Por me salvar. – ela adicionou, desajeitada.
- Não há de quê. Moça, você se importaria se eu me sentasse aqui? Meu verdadeiro vizinho tem idade para ser meu bisavô e está realmente babando enquanto dorme.
- Ah, claro que não. Fique à vontade.
Ele sorriu agradecido e colocou sua bagagem de mão, uma mochila normal de escola, no braço da poltrona. Abriu-a e remexeu em seu interior, que Lily imaginou estar realmente bagunçado. James começou a tirar seus pertences, procurando por alguma coisa. Jogou no assento um pacote aberto com vários chicletes sabor menta e uma caixa de CD com um gato de olhos extremamente azuis como capa, cujo vidro da frente exibia uma rachadura. Foi então que o achou, um discman brilhante de tão novo, preto e cinza.
O rapaz segurou tudo em uma só mão e jogou a mochila de qualquer jeito no bagageiro superior. Lily teve a certeza de ter ouvido o barulho de algo quebrando, mas achou melhor não comentar.
James jogou-se confortavelmente em sua poltrona, acomodando suas coisas sobre as coxas. Abriu a caixa, observando com remorso a lasca no vidro. Puxou o disco e ergueu-o contra a luz das lâmpadas, procurando arranhões; como não os encontrou, acabou por simplesmente limpar o CD com a barra de sua blusa e encaixá-lo cuidadosamente no discman.
O rapaz subiu mais em sua cadeira, acomodando-se melhor. Olhou para Lily e, como ela fingia que lia o folheto de segurança do avião, deu de ombros e colocou os fones nos ouvidos. Apertou o botão do Play e rapidamente fechou-se em seu próprio mundo, embora o som estivesse num volume tão alto que a garota podia escutar a música quase que perfeitamente.
A longa viagem de Lily Evans de sua pacata casa na Inglaterra (agora que finalmente, finalmente, Petúnia casara-se e saíra para morar com Vernon) para suas férias imprevistas no México estariam prestes a retomar seu curso normal e realmente tedioso se James Potter não insistisse em cantar.
E batucar um pouco também.
Certo, o cara salvara a vida de Lily ao socorrê-la em seu ataque hipocondríaco de asma nervosa, mas ele era muito desafinado. Mesmo. Até para os padrões do poppy-punk que ele ouvia.
- Er... com licença... – Lily cutucou o ombro de James, ainda incerta sobre o que estava fazendo.
- He has fun funfun and you might call him a whore, buuuuut just look where he's at 'cause… - deveria ser o refrão; James Potter estava realmente empolgado. Ele estava fazendo a dancinha do cabelo até!
- James! Você pode cantar mais baixo? – Lily exclamou, mais alto. – James! JAMES!
Talvez ela tenha passado dos limites quando arrancou os fones do rapaz, mas o que está feito, está feito.
- Oh. – ele fez, murchando ao perceber a falta da música. Suas bochechas estavam um pouco coradas quando ele disse: - Eu estava cantando?
- Sim. – suspirou Lily, com um aceno de cabeça.
- Alto?
- Com certeza.
- Desafinado? – James fez uma careta.
- Pode apostar nisso.
- Céus, me desculpe. Sério, perdão, moça. – o rapaz tomou suas mãos nas dele e pediu-lhe, constrangido. A própria Lily envergonhou-se.
- Tudo bem. Não tem problema; eles devem ser muito bons para você se animar dessa maneira.
- SIM! Eles são! Mesmo! Quer ouvir?
A maneira como ele pulou na poltrona, feliz como um cachorrinho prestes a passear, fez Lily pensar que aquela talvez fosse uma péssima idéia. No entanto, ela já estava pondo os fones sobre seus próprios ouvidos, clamando aos céus por piedade.
- Vou colocar no começo do CD. – James avisou, um sorriso estampado no rosto. – Você vai amar, moça.
- Contanto que você deixe o volume em um nível saudável...
James fez um careta incrédula.
- Moça, você não pode escutar Blink 182 neste discman fingindo que é a Sinfônica de Londres. Cadê seu espírito de rock'n'roll, jovem, idealista e um pouco pirado?
- Trancado na mala, desculpe. Então, é neste botãozinho aqui, né? Eu me viro, sem problemas.
Lily sorriu e tomou o aparelho de seu dono. James abriu a boca, prestes a revidar e fazer um grande escândalo, mas sua revolta passou assim que viu as suaves batidas das pontas dos dedos da garota no braço da poltrona, acompanhando o ritmo da música.
- Eu sabia que você ia gostar! – ele exclamou, abraçando-a de súbito pelos ombros. Como que percebendo o que fizera, James recompôs-se e procurou algo em seu bolso. Achou um daqueles chicletes de menta e ofereceu-o à garota. – Um prêmio pelo seu bom gosto musical, moça.
Lily sorriu e aceitou o doce.
- James. Você se lembra do meu nome? – perguntou, enquanto devolvia o discman e abria o pacote.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Lily Evans, certo?
- É. Se você sabe, por que continuar a me chamar de moça?
- Boa pergunta. Não sei como responder. Só sei que é divertido. – James sorriu como uma criança.
- Não, não é. É irritante! Moça isso, moça aquilo. Sério, pare, por favor. Consegue perturbar mais do que a sua voz. – ela riu, ao ver a feição falsamente ofendida do outro.
- Estou magoado. Moça.
Ambos gargalharam alto. Subitamente, James puxou a alavanca laranja ao lado de sua poltrona, reclinando o assento o máximo possível, assustando o passageiro de trás. Lily observou com atenção o rapaz fechar seus belos olhos, sorrindo tranqüilo e sem se importar com as reclamações do outro homem, e espreguiçar-se, esticando os braços a ponto de deixar entrever pedaços de seus pulsos saindo da jaqueta. Um deles exibia uma tatuagem em cor escura, embora a garota não tenha conseguido distingui-la.
- Doeu?
Ela, por vezes, odiava sua própria incapacidade de reprimir alguns pensamentos, geralmente os mais idiotas ou reflexivos. Em terças-feiras chuvosas, sextas-feiras 13 e domingos em aviões, costumava ser os dois tipos.
- Doeu? – James repetiu, num tom de quem não entendera, os olhos semi-abertos numa expressão de estranheza.
- Para fazer a tatuagem. – Lily explicou, cabisbaixa e apontando para o braço do rapaz.
- Ooh. – ele fez, compreendendo e logo sorriu abertamente. – Você é uma moça muito observadora. Até eu às vezes me esqueço disso às vezes, obrigado por lembrar. – ele brincou e ela mostrou a língua.
James arregaçou a manga esquerda da jaqueta até a altura do cotovelo, expondo a área marcada e pousando-a sobre o joelho de Lily.
- Dizem que o pescoço e o pulso são as partes do corpo mais dolorosas para se tatuar, mas eu não me incomodei tanto. Talvez tenha sido o meu propósito ao fazer o desenho, não sei.
- Sr. Pontas, dos Marotos. – Lily leu, torcendo um pouco o braço de James para conseguir. Ergueu a cabeça e alguns fios rubros vieram ao seu rosto; irritada, ela afastou-os com uma mão, a outra ainda tocando suavemente a tatuagem do rapaz. – O que significa?
- Longa história.
- Estamos sobrevoando um oceano, acho que tempo não é um problema.
James fez um sinal com seu indicador, concordando.
- Você tem um ponto, moça. – e sorriu. – Ainda que tudo que eu e meus amigos já passamos mais pareça um conto épico, eu farei um resumo.
- Então... esses Marotos são seus amigos?
- Os melhores que eu poderia ter. – James enfatizou e Lily não pôde deixar de acompanhá-lo em seu sorriso; era tão... verdadeiro. "Eles devem ser quase irmãos", ela pensou. – Sirius, Remus, Peter e James: os quatro Marotos que entraram para a história de Hogwarts como os maiores desordeiros que aquela escola já viu. Uma grande calúnia, realmente. Foram só algumas brigas com o Ranhoso, umas guerras de papel, umas peças em calouros, mais brigas com o Ranhoso... nada demais. Ele foi parar na enfermaria algumas vezes, mas é um exagero nos chamar de vândalos irresponsáveis.
- Ooh, com certeza. – Lily disse, debochada. – E se o cara realmente se machucasse algum dia, seria uma imensa difamação pôr a culpa em vocês por uma brincadeira inocente.
- Todos nós temos um lado selvagem, meus amigos e eu só deixamos o nosso vir à tona. – James disse, filosoficamente, arrancando algumas risadas de Lily.
- Você é o maior idiota do planeta, sabia?- Ao menos meu cabelo não me faz parecer um palhaço! - Isso foi seu insulto? - Eu posso morder, se você preferir.
Lily fez uma careta.
- Você é muito esquisito, James Potter.
- Também fiquei encantando em conhecê-la, Lily Evans.
Músicas do Capítulo: Holiday (The Subways) e Touchdown Boy (Blink 182).
Nota da Autora: Vocês não têm idéia da felicidade que foi ler (e reler umas quinze vezes) as reviews de bbiiaa, Rose Samartinne, amanda, gutinha, Mary M Evans, Mrs. Liss, p, Luhli, Lady Yuuko e Ysi. Muito obrigada!
Próximo Capítulo: Chegamos à marca de dezesseis reviews no capítulo dois; vinte e cinco para o três?
XI Challenge James e Lily: Trailers faturou o Prêmio Especial de Vizinho Mais Interessante (que infelizmente só aparece pelo último capítulo) e a Medalha de Prata. Banners no meu profile.
