Cause I know just what to do
Keep her locked up
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Keep her locked up
All by myself
Delfos - 418 a.C.
Dorea sempre tivera muita fé em seus deuses. Fervorosa devota, ela dedicava uma hora durante todos os seus dias para agradecer e penitenciar-se aos Olímpicos.
- Se é assim, Senhor dos Senhores, ó Zeus Pai de Todos os Deuses do Monte Olimpo, por que me castigas? – Dorea chorava aos céus, ajoelhada defronte a um altar, em algum santuário da pólis. – Por que queres tirar de mim o único fruto que este ventre senil produziu?
- Mulher, não sejas tão atrevida. – ecoou a voz rasgada do sacerdote do templo. – Não questiones as decisões do Senhor dos Deuses, se não queres que Sua ira caia sobre sua cabeça.
- Mais do que já está caindo, senhor? – a mulher lamentava, no rosto marcado pelo tempo os resquícios das lágrimas de sofrimento. – Meu filho está sendo arrastado por Hades e ninguém consegue impedi-lo. Eu e meu marido já vagamos por toda a Grécia à procura de uma salvação; nem mesmo Dódona nos atendeu.
- Zeus virou-lhe as costas? – o velho homem surpreendeu-se, a mão pousada confortadoramente no ombro da senhora.
- Zeus pediu ao meu filho, que convulsiona e cospe sangue todos os dias, para esperar. Eu peço perdão por minhas ofensas ao Deus dos Deuses, mas isto é impossível para o meu James.
Com dificuldade, Dorea levantou-se de sua penitência. De olhos baixos e esperanças em fiapos, ela fitou o sacerdote.
- Ore por meu James, senhor. Peça a Zeus e a Apolo por piedade de uma alma tão jovem.
- Quantas primaveras seu filho já presenciou?
- Estou lutando para que ele veja a décima sétima.
- Pelos raios de Zeus! O arconte Potter ainda não recorreu a Apolo?
- Charlus teme que o Deus Sol nos castigue pelos atos ilícitos de nossos antepassados Black.
- Tolos! Não percebem que já estão sendo punidos? Não deixem seu filho único também pagar por pecados alheios. Eu tomei minha decisão e intercederei por sua família. Eu os levarei pessoalmente a Delfos. Tenho certeza que o Lírio ajudará o jovem James.
O dia amanhecera límpido, como se Apolo tivesse acordado de seu sono divino com um ótimo humor. Ou como se pressentisse a cor vibrante do sangue a ser em breve derramado em seu nome.
Dorea e seu filho já esperavam sentados nos degraus do templo há quase uma hora completa quando o velho sacerdote surgiu das montanhas. Outro homem, bem mais jovem, trajado em vestes negras, acompanhava-o cabisbaixo.
- Vós estais prontos e conscientes do que estão prestes a fazer? – sussurrou o sacerdote.
- É a última chance de meu filho. – disse Dorea, passando os dedos carinhosamente nos cabelos de James, negros como as noites gregas. O rapaz tinha uma aparência realmente doentia, pálido e de olheiras profundas, magro como uma Fiandeira do Destino. – Estou disposta a ir até as últimas conseqüências.
- Pudemos perceber. – falou o outro homem, que a mulher supôs também ser um sacerdote. Ele passava seus olhos para mãe e filho, os únicos presentes, com uma significância sinistra no olhar.
James sentou-se ereto, lentamente. Tentou esconder a ferocidade de sua tosse, mas foi em vão; os urros de seus pulmões ecoavam no vazio em que estavam. Ele ofereceu ao sacerdote mais velho uma bolsa de couro de tamanho médio, completa até a boca de moedas de ouro puro.
- A taxa está paga. – o rapaz falou, a voz rouca e difícil. – Somos pessoas de honra. Agora nos levem ao Oráculo.
- Que assim seja, jovem arconte. – respondeu o homem mais novo.
Ele caminhou por entre as altas e trabalhadas colunas de mármore do Templo de Apolo, seguido pelos outros três. A céu aberto, era uma cúpula de pedras frias e escuras organizadas circularmente de modo intimidador.
O grupo parou no meio do santuário. Os dois sacerdotes acenaram educadamente com as cabeças e retiraram-se, deixando Dorea e James sozinhos. Ou ao menos eles assim pensavam, até o momento em que perceberam as velas sendo acesas nas muretas, no chão, nos pequenos altares.
Era a Pítia, a Sacerdotisa de Apolo. Uma profetisa escolhida pelo próprio deus entre as virgens de sua cidade para ser sua intercessora entre os mortais, uma mulher cuja vida era propriedade exclusiva sua. Era a Dominada de Apolo, a menina de seus olhos e aquela em especial era conhecida como o Lírio Proibido.
A beleza da jovem Lily fora uma maldição do invejoso deus do Amor. Ele a presenteara com o vermelho de seus cabelos e o verde de seus olhos para que atraísse os mais diversos olhares apaixonados. Em seu debuto de quinze anos, fora escolhida pelo Deus Sol como a Única. E na ocasião inoportuna da consulta ao Oráculo de Delfos, as flechas de Eros acertaram em cheio o coração doente do imaturo arconte Potter.
A moça caminhava sobre as pedras mais altas, os olhos fechados e confiantes em Apolo. Ao chegar ao seu lugar numa espécie de tripé, sentou-se sobre os joelhos e purificou-se, bebendo da água da fonte de Delfos e mastigando as folhas do louro sagrado do Deus da Música.
- A Pítia está pronta.
Os sacerdotes reapareceram detrás de Dorea e James, acompanhados de cinco assistentes. O rapaz contraiu a face em desentendimento ao encarar o jarro e a espada que dois deles carregavam.
- Por que motivos trouxeram esta espada? – ele perguntou, da maneira mais imponente e imperativa que conseguiu.
Ninguém o respondeu. O sacerdote mais novo puxou Dorea para frente dos oito, empurrando suas costas e deixando-a curvada para a Pitonisa. Voltaram-se todos para a profetisa, de pé em seu pequeno altar, os braços abertos em seu estado de espera pela possessão divina, os olhos fechados na serenidade de seu espírito.
- Apolo, Deus do Sol! – o homem mais velho invocou. – O Oráculo de Delfos novamente o chama; um mortal honrado e leproso implora por sua compaixão e sua sabedoria. Deus Apolo, Senhor da Cura e das Doenças, será o jovem James, filho do arconte Charlus e da nobre Dorea, merecedor de suas respostas?
Ele então tomou o jarro em suas mãos e virou seu conteúdo de uma única vez sobre a mãe de James. A água frígida fez perpassar um arrepio pela pele da mulher, que tremeu perceptível e ininterruptamente por meio minuto.
- O QUE ESTÃO FAZENDO? – James urrou, indignado, correndo dificultoso para socorrer Dorea. Entretanto, um dos auxiliares impediu-o, puxando-o para longe.
- O deus aceitou a proposta! – exclamou o velho. – Mas Apolo exige seu sacrifício.
O homem mais novo ergueu a espada sobre o pescoço curvado de Dorea.
- NÃO! MÃE! NÃO! – berrou James, ainda seguro pelo ajudante.
Dorea virou seu rosto para o filho, um sorriso terno em seus lábios, amor de mãe brilhando em seus olhos.
- Não te preocupes, meu amor. Eu não tenho medo de morrer! Só temo um pouco o que vem depois, mas eu irei em paz, pois sei que Apolo é bom e acometer-se-á de você, pequeno James.
A mulher tornou a cabeça para frente e abaixou-a ao perceber o sacerdote ao seu lado. Fechou os olhos e unicamente ouviu a lâmina bater contra o seu pescoço; estava morta antes de sentir a dor de verdade. A alma de Dorea já pertencia a Hades, o Deus do Submundo.
O filho caíra de joelhos, em choque com o que presenciara, o sangue ainda escorrendo sobre as pedras de Delfos. No coração a angústia nascente e nos olhos a ardência forte das lágrimas.
- O Deus Apolo está satisfeito com sua honraria, James, filho do arconte. – disse o velho sacerdote. – Agora é sua vez. Escolha com cuidado as suas palavras e faça a sua pergunta única. O Lírio intercederá por você junto a Apolo.
Lily, a Pítia, estava sentada sobre a trípode sagrada, o ramo de loureiro seguro nas mãos. Mantinha os olhos fechados, mas James sabia que ela prestava atenção. O rapaz caminhou hesitante, as pernas bambas, fracas, o coração disparado pelo rancor que se espalhava vertiginosamente em seu ser.
- Ó Todo Poderoso Deus Apolo. Espero que o sacrifício realizado aqui tenha sido de teu agrado e regozijo. – ele começou, quase desafiando o Senhor das Curas e Doenças. Seu tom de voz era magoado e quase debochado. – Em troca de minha perda sem reparos, eu exijo saber: qual a cura da doença que tu me infligiste?
O silêncio ribombou aos ouvidos dos presentes, enquanto observam uma misteriosa fumaça ascender e envolver a Pítia, escondendo-a em sua bruma densa.
O Lírio abriu seus olhos; no entanto, em vez do verde intenso, sua cor era vermelha. Como os cabelos de Lily, como o sangue de Dorea.
- Tua salvação é escolher o impossível. – foi a voz máscula e imponente saída dos lábios carmim da Sibila que lhe respondeu; aquele era Apolo, Deus do Sol, Senhor das Curas e Doenças, cumprindo sua promessa.
No momento em que James parou para refletir sobre a resposta divina, a Pítia saiu de seu estado de êxtase e desfaleceu sobre o tripé.
- O que... o que isso significa? – o rapaz perguntou baixinho aos sacerdotes do templo.
- A interpretação é uma característica única e pessoal. – disse o mais velho. – Só tu saberás o que as palavras de Apolo querem verdadeiramente dizer.
Os homens abandonaram o templo, com uma reverência leve ao jovem. Aquele era o momento em que a Pítia utilizava suas habilidades de espírito puro para recuperar-se da experiência de inspiração divina. O santuário deveria ser somente dela.
Entretanto, James caminhou sobre as pedras altas da mesma maneira que ela fizera mais cedo e postou-se ao seu lado. Na trípode, o corpo da garota jazia curvado, os braços pendentes e o rosto angelical.
- Meu coração foi maculado duplamente neste dia: pela perda de minha mãe, minha segurança, meu motivo e pela inserção do Lírio em minha vida. Quão cruel podem ser os deuses? Eros é tão sádico! A maldição desta paixão fulminante acabará por me destruir por completo. Amar-te será como tentar tocar uma estrela: sei que nunca alcançarei, mas continuarei tentando. – James falou, infeliz no sentido mais amplo da palavra, curvado sobre a moça na chance única de aspirar o perfume dos deuses de néctar e ambrosia.
- E através do sofrer de seu coração pela impossibilidade de suas escolhas, Apolo dar-te-á a cura do veneno de teu corpo. Boa sorte, jovem arconte. – a bela Lily sussurrou ao seu ouvido, mais uma vez profetizando a sua triste sina.
Músicas do Capítulo: In Love -The Subways.
Hora do Oscar: Thankyouverymuch to Clah, LMP3, Lady Yuuko, Rose Samartinne, Larya-e-Phallan, Criika, Srta. Malfoy, Luhli e Donaboborinha. Ah, e é claro, para Piu, a Pink Fletcher, que desde que leu este capítulo quando eu ainda o escrevia utiliza o nick de Lírio Proibido.
Nota da Dressa: Feliz Natal, pessoas! Como não sei se vou aparecer por aqui até 2008, um Feliz Ano Novo também! Capítulo novo como presente do Papai Noel e a prévia de Oásis, fic mais focada nos Marotos com estréia prevista para o fim de janeiro.
Próximo Capítulo: Trinta e três reviews?
