The lines of light

They tell my mind I'm a child

Time passes by

And from it, I cannot hide

The seasons know

But they won't show, they won't let go

No matter now

No matter now, time is slow

Tebas – 1320 a.C.

Por entre os inúmeros corredores do Palácio do Faraó, uma menina de pés descalços e cabelos ao vento, acompanhada de um garoto magrelo e começando a espichar, corriam o mais rápido que seus pés conseguiam. Eles levavam-nos para longe, numa fuga desesperada para os esconderijos obscuros que só os criados conheciam.

Desviaram para a direita, derrapando e esbarrando-se nas paredes rústicas. A garota massageou o ombro ferido, as primeiras lágrimas rolando pelas bochechas avermelhadas de esforço. Os dois já resfolegavam, suados e de pernas falhas.

- James! Eu não... eu não consigo mais! James! – Lily chamou, a voz entrecortada pelo embargo na garganta e a falha nos pulmões.

- Não pare! Lily, não desista, nós estamos perto das cozinhas! – o garoto disse. Tentando apoiá-la, segurou sua mão e apertou-a, encorajando Lily. – Nós vamos conseguir!

De mãos unidas, as duas crianças corriam, esforçando-se para continuar em seu ritmo. Ao perceber que se distanciavam deles, James até conseguiu esboçar um sorriso. Porém, ele esvaiu-se quando os dois se depararam com as figuras altas e sombrias em suas faces carregadas, paradas ao fim do corredor. À espera.


James conhecera Lily em seu aniversário de treze anos. Ele imaginava que aquele seria um dos dias mais felizes de sua vida, já que o chefe dos empregados prometera-lhe apresentá-lo a um dos escribas do Faraó. O garoto aprenderia uma função digna, finalmente, Aton seja louvado.

Entretanto, naquele amanhecer, ao posicionar-se disposto e pronto a frente de Ramsés, o homem apenas acenou-lhe displicentemente com a mão, sem nem ao menos encará-lo.

- Hoje você e a menina mais nova cuidarão dos gatos do Faraó. Seja cuidadoso, moleque; aqueles animais são como deuses.

James assentiu com a cabeça e retirou-se. Ao achar-se sozinho no corredor, socou a parede, enfurecido.

- GATOS? – ele gritou, sufocado. – Gatos? E meu aprendizado como escriba? Os gatos me ensinarão a ler?

- Controle a língua, garoto. Ou sentirá a fúria de Anúbis.

James tornou o rosto na direção da voz; se não estivesse tão tomado pela ira, teria se assustado com a aparição da menina. Seus cabelos pareciam pegar fogo, como o inferno dedicado aos pecadores. Eles pareciam resplandecer na escuridão em que estavam.

Virou as costas para a garota e seguiu o caminho único, subindo as escadas e ascendendo ao nível dos nobres. Caminhava pelos corredores especiais aos criados com a experiência de uma vida inteira, acompanhado há alguns passos de distância pela menina dos cabelos de fogo.

Ambos chegaram a uma porta com entalhos, extremamente trabalhada. James respirou fundo, mas antes que ele sequer pensasse no que fazer, a garota suavemente bateu na madeira.

- Entrai. – ouviram a imponente voz de dentro do quarto.

Com uma reverência, ambos obedeceram. Como humildes e novíssimos servos, os dois jamais haviam vislumbrado tanto luxo num único lugar. As paredes do quarto eram totalmente pintadas, retratando a história de um deus demasiadamente poderoso, que ascendera ao sol. Os móveis eram entalhados em madeira escura, nobre e elitista, com maçanetas reluzentes de ouro puro. A cama era tão extensa que poderia abrigar uma família inteira de empregados.

Um miado os despertou de seu torpor. James virou o rosto e contemplou o jovem sentado ereto na suntuosa cama, de queixo retraído, dentes um pouco protuberantes e testa alongada. Os servos ajoelharam-se imediatamente no centro do aposento, em reverência ao seu senhor, ao seu deus, o Faraó Tutankhamon.

- Estes gatos a partir de agora valem mais do que suas vidas. – ele disse, a voz quase ecoando. – Valorizem-nos.

O Faraó levantou-se, arrastando sua veste branca atrás de si, e saiu de seu quarto, seguido de cinco outros empregados pessoais.

- Eu não sabia que ele era tão novo. – sussurrou James, ao ver-se sozinho com a garota no quarto.

- Em que mundo você vive? – ela retorquiu, incrédula, limpando a sujeira de suas roupas. – Venha, me ajude com esses bichos. Ramsés disse que deveríamos banhá-los e perfumá-los para a cerimônia de hoje à noite.

A menina pulou na macia cama do Faraó, aproveitando o raro momento de conforto. Disfarçava sua felicidade enquanto procurava pelos animais de estimação do grande Rei.

- Quantos anos ele tem? – James perguntou, andando pelo quarto.

- Dezesseis. Mas foi coroado aos nove.

- Ah. Eu era muito novo para perceber.

A garota entregou em suas mãos um gato preto, de grandes e brilhantes olhos azuis.

- Eu também. – ela disse. – Mas me interesso pela história de meu país. Vamos começar por esse; vou buscar água. Tome cuidado.

James acariciou a cabeça do bichano, com um dedo. Seus olhos azuis e arregalados o encararam com um brilho esquisito e o gato logo lhe deu uma patada, arranhando seu braço.

- AH, SEU BICHO IDIOTA! – o garoto berrou, soltando o animal. Ele assustou-se com o grito, arrepiou os pêlos e desatou a correr pela porta que a garota deixara aberta. – NÃO!

James parou de alisar seu machucado e, destrambelhado, atravessou o portal. O gato já se encontrava na dobra do corredor e o menino murmurava todas as maldições e palavras proibidas que conseguisse se lembrar.

- James? James o que está acontecendo? – a garota voltava, com uma bacia de água nas mãos.

- O gato fugiu! – ele respondeu, desesperado.

A menina boquiabriu-se.

- SEU ESTÚPIDO! IRRESPONSÁVEL!

Ela largou o vaso no chão e desatou a correr, seguida de perto pelo garoto.

- Para onde ele foi? – ela perguntou, já ofegante.

- Estava na esquina daquele corredor quando eu parei para falar com você.

- Merda! Torça para ele estar por lá!

Dobraram à esquerda e encararam o longo caminho. O gato estava brincando entretido, as patas dianteiras no ar, com o desenho macabro na parede; dois prisioneiros sendo mortos por enforcamento.

A menina caminhou, pé ante pé, até o felino e puxou-o pelo corpo, de surpresa. Ele nem sequer reagiu.

- Por que ele só gosta de você? – James se indignou.

- Escuta aqui! – a menina empurrou-o contra a parede, o indicador acusadoramente apontado. – Nunca mais, você me ouviu, James? Nunca mais deixe um desses gatos escapar.

- Quem é você para me dar ordens, garota?

- Lily, aquela que vai meter um pouco de responsabilidade na sua cabeça e evitar que o Faraó mande decapitá-la.

Ela abraçou o gato mais forte em seus bracinhos e virou o rosto para frente, deixando de encarar o garoto. Enquanto caminhavam em silêncio de volta ao quarto do Faraó, pararam subitamente ao ouvirem vozes alteradas vindas de uma sala.

- Ai, preste atenção no que estou lhe falando. – era a voz do general Horemheb, um verdadeiro herói de guerra do Egito. Parecia preocupado.

James e Lily aproximaram-se da porta entreaberta.

- Estarei pronto para ouvir no momento em que você disser algo inteligente. – retrucou a voz do vizir do Faraó, Ai, seu conselheiro de maior confiança.

Horemheb pareceu ignorá-lo. Bebeu um pouco da taça de vinho à sua frente e disse:

- É muito simples. Não entendo essa sua preocupação tão grande; acidentes acontecem, não?

- Acidentes não podem acontecer com um Faraó, ele é muito protegido para isso!

- Nada impede que Tutankhamon role por uma escada, caia de um carro real ou seja atingido por um vaso que despenca do alto. São calamidades.

- Calamidadesprovocadas, você quer dizer.

O general explodiu de raiva, levantando-se de sua cadeira e batendo o punho na mesa.

- Você quer ser o Faraó do Egito, ou não, Ai?

- Quero, maldição!

- Então Tutankhamon tem que morrer. E rápido.

Lily deixou o gato do Faraó cair, chocada com o que ouviu. Boquiaberta, virou-se para James; os olhos do garoto estavam arregalados de surpresa.

- Precisamos contar a alguém. – ela decifrou a frase no movimento dos lábios do menino.

A porta bateu, fazendo um estrondo. O felino entrara na sala do vizir e do general, alertando-os para a presença dos garotos.

- Corra! – James exclamou.


A menina sentiu seus pobres bracinhos, frágeis e finos como a porcelana vinda da China, serem torcidos para trás com força desmedida, enquanto era arrastada pelos corredores. As primeiras lágrimas rolaram, sem que Lily nem mesmo tentasse impedi-las. Seus máximos esforços estavam concentrados na tentativa de acertar seu captor, quer seja pelas mordidas que sua boca imprimia com ferocidade no vento, ou pelos chutes desesperados que nunca atingiam Ai, o vizir.

Sua visão embaçada encontrou o companheiro de fuga, ao seu lado. Surpreendeu-se ao ver James, desacordado e ensangüentado, carregado às costas do general Horemheb.

- JAMES! – Lily berrou, sem se controlar. Forçou seu pequeno corpo das mãos do vizir, tentando machucá-lo e libertar-se. Tudo que conseguiu foi um violento tapa no rosto.

- CALADA! – Ai vociferou, a saliva pulando de sua boca, suas feições enraivecidas. – Insolente!

Lily reconheceu o caminho que percorriam; estavam a caminho dos quartos de prisioneiros, as salas de castigo. Sentiu sua pulsação aumentar contra os punhos roxos da força do aperto.

James abriu um dos olhos, vagaroso, a pálpebra tremendo. Seu supercílio sangrava, assim como seu lábio inferior, que começava a inchar. Ao despertar por completo, o garoto finalmente percebeu a presença do general que o carregava e o desespero no olhar de Lily.

Chegaram a uma porta de madeira pútrida. O chute com que Horemheb a atingiu quase a desfez; o vizir encarou-o com repreensão.

- Seja mais discreto. – Ai sibilou. – Alguém pode ouvi-lo e decidir descobrir o que se passa.

O general fingiu não escutá-lo. Tirou James do apoio em seu ombro e jogou-o ao chão, displicentemente. O garoto arrastou-se pela palha suja, trêmulo. Apoiou-se na parede, recostando suas costas machucadas pela queda e a cabeça latejante dos golpes recebidos. Logo sentiu Lily ser atirada em sua direção, caindo pesadamente sobre si.

- Esses moleques atrevidos de cozinha aprenderão a não se intrometerem onde não devem. – grunhiu Horemheb, em fúria.

- James... – Lily sussurrou, assustada, contra o peito do rapaz. Suas mãos estavam geladas. – James, nós vamos morrer.

O garoto engoliu em seco e fitou os olhos frios do vizir. O general ao seu lado virava-se para os dois, a mão na bainha de uma espada.

- Aton não deixará impunes as obras malignas desses dois. – James disse a outra, surpreendendo a si mesmo pelo seu seguro e acalentador tom de voz. - E nós seremos protegidos por Ísis em seu tribunal. Lily, nós seremos mártires e heróis; não tema. Não tema.

Lily sentiu os braços protetores envolverem-na. Abraçou James fortemente pela cintura e aninhou sua cabeça no peito do garoto, fechando os olhos assustada. Ele a aproximou mais de seu corpo ao ver o brilho metálico da espada erguida.


Música do Capítulo: Lines of Light - The Subways.


Hora do Oscar: Thankyouverymuch to Thaty, Rose Samartinne, Donaboborinha, Cla.V, Lady Yuuko, Lika Slytherin, Clah, Nath Evans, Nicolle Müller e Luhli. Isso faz o coração da Dressa inflar feito o Super Mario, muito obrigada!

Nota da Dressa: Mais um capítulo pra vocês! Fiquei muito feliz por ter ultrapassado a quantidade que pedi, de verdade. É muito bom sentir o retorno dos leitores! Eu planejava terminar algum dos capítulos que não publiquei quando enviei para o Três Vassouras, mas minhas férias andam tão agitadas que realmente não foi possível. Então vai esse mesmo haha Quanto à Knock the Door and Run, estou fugindo dos seus tomates e da minha consciência. Continuem rezando, é só o que eu digo! HAHAHAHA

Próximo Capítulo: Quarenta e três reviews?