Capítulo 7

A campainha soou,fazendo Milo acordar assustado.O grego olhou para o lado e viu que June ainda dormia tranqüilamente.Olhou para seu relógio-despertador sobre o criado-mudo.

-Sete horas da manhã?!Não está nem na hora de eu acordar pra trabalhar. Espero que não seja o Camus.-resmungou ele, vestido sua cueca boxer e indo atender a porta.

-Oi,Milo!–cumprimentou Moa ao ver o outro abrir a porta.-Espero não estar incomodando…

-Incomodando?Claro que não.–disse ele,sentindo o pescoço esquentar e abrindo passagem para que a moça entrasse.–Se importa se eu for vestir alguma coisa?

-Na verdade eu vou achar bem melhor…-respondeu ela,acomodando-se no sofá. Milo entrou no seu quarto e procurou a calça que havia usado na noite anterior.Vestiu-a rapidamente e voltou à sala puxando o zíper.

-Então,a que devo a honra?-perguntou ele gentilmente.

-Eu vim pedir desculpas por ontem.–disse ela,com o semblante sério.

-Não me lembro do que você fez.

-Na verdade eu vim pedir desculpas no lugar do Julian.–ela completou insegura.

-Bom… e o que exatamente ele fez?–indagou Milo, confuso.

-Ele te tratou com a maior frieza!Foi muita indelicadeza da parte dele.–exasperou-se ela.

-Então ele é quem devia vir pedir desculpas no seu lugar.

-É eu sei disso,mas você conhece o Julian e sabe que ele nunca faria isso!Por favor,Milo,aceite minhas desculpas…-implorou Moa.

-Ah,tudo bem então.–disse ele.

-Milo,quem está aqui há essa hora?–perguntou June,aparecendo na sala vestindo apenas calcinha e a camisa preta que ele usara no jantar.

-Essa não…-gemeu ele.

-Ah,eu não sabia que você tinha uma hóspede.Em todo caso…vou indo.-despediu-se Moa. Ao abrir a porta,a moça quase derrubou Camus no chão.–Bonjour, monsieur Camus!

-Bonjour, mademoiselle!Como vai?

-Muito bem, obrigada, mas já estou de saída.Vejo você mais tarde!–sorriu a moça, entrando no elevador.

-Vejo que eu também devia estar de saída,certo?–perguntou Camus, olhando para Milo e June.

-Ah,não se preocupe.Vou tomar um banho e me arrumar,eu tenho que trabalhar também.–disse a loira,deixando os dois sozinhos.

-Essa é a minha deixa pra me arrumar também.Vou tomar banho no banheiro do meu quarto.Me dá uma carona até o trabalho?A gasolina do meu carro tá na reserva.

-Pode ser…vê se anda logo,então.

Em menos de vinte minutos Milo e June estavam prontos.

-Então eu vou indo.Tchau Milo,talvez eu te ligue…Tchau, Camus!–disse June, saindo do apartamento.

-Espere um pouco.–disse Milo.–Dê um tempo até ela pegar o elevador. Quer comer alguma coisa?

-Não,já tomei café.–respondeu Camus,observando o amigo passar manteiga numa fatia de pão.

-Que horas são?–perguntou o grego.

-Sete e quarenta.

-Ah,que bom,hoje eu não chego atrasado.Vamos?

-Vamos.–respondeu Camus,levantando-se.

Os dois entraram no Peugeot 307 Sedan azul-marinho do francês.Antes mesmo que Camus desse a partida,Milo ligou o som.

-"Some people get squashed crossing the tracks, some people got high rises on their backs. I'm not broke but you can see the cracks, you can make me perfect again!"–cantarolou o grego.

-Que música é essa?!–perguntou o outro.

-"All because of you",do U2.-respondeu Milo.-Boa,não é?

-Prefiro outras músicas…-resmungou Camus.

-Ah,não venha com aquelas chatices clássicas e aquelas óperas horríveis.-disse Milo.

-São músicas de verdade!-ponderou o francês.-Mas não quero discutir esses assuntos banais agora.O que a June e a Moa estavam fazendo no seu apartamento?

-A Moa foi pedir desculpas no lugar do Julian.

-E a June?

-Estava mais do que óbvio,não?-respondeu Milo,sorrindo matreiro.

-Foi fazer um "reviver",é?Relembrar o passado?-indagou Camus,rindo.

-Digamos que sim…mas não sei,Camus…-disse o grego.

-Não sabe o quê?

-Ontem eu…não senti vontade de estar com a June.Na verdade eu pensei o tempo todo na Moa.-disse Milo,parecendo preocupado.

-Hum…o "grande escorpião" está apaixonado,é?-brincou Camus enquanto girava o volante para a esquerda para fazer uma curva.

-Ah,cala a boca!É claro que não estou!-disse Milo querendo bancar o durão,mas na verdade estava muito inseguro por dentro.-E você,como foi a noite com a Natássia?

-Mudando de assunto?Está bem…não teve nada demais.-respondeu Camus.

-Nem um beijinho?

-Não.

-Cara,como você é devagar!Ontem eu levei a June pra cama em menos de meia hora!Você precisa de umas aulas.

-Mas meu nome não é Milo Nakapoulos,é Camus Dorleac.-disse Camus enquanto estacionava o carro.-E chega desse assunto,já estou farto,monsieur.

-Olha,se você não der um jeito com a Natássia,eu vou ser obrigado a cortar relações por um tempo até você ficar mais sociável.-bufou Milo,acompanhando os passos apressados do amigo.A empresa ainda estava parcialmente vazia.As únicas pessoas que haviam chegado eram Eiri e Shura.

-Bom dia,Eiri!-cumprimentou Camus,ocupando sua divisória.

-Bom dia Eiri,como vai?-disse Milo,ocupando a divisória oposta.

-Vou bem,sr. Milo.-repondeu a jovem.

-Não parece.Você tá muito pálida e abatida.-intrometeu-se o francês.

-É,ele tem razão.O que houve?-perguntou Milo.-Algum problema com o Hyoga?

-Ah,não,está tudo bem entre nós.Vamos até nos casar!

-Casar?Você não é muito nova pra pensar nisso?

-Sou,mas acabei engravidando.Por isso eu tô tão pálida,os enjôos estão me matando!-sorriu Eiri.-Bom,tenho que voltar ao trabalho!Vejo vocês dois mais tarde!

-Grávida?-surpreendeu-se Milo,observando a jovem loira sair da sala.

-Que explosão demográfica!Primeiro a Shunrei,depois a Diana e agora a Eiri!-disse Camus,contando nos dedos.-Não é a toa que o Japão está superpopuloso.

-Milo,era você mesmo que eu queria ver!-disse Ikki,entrando na sala como um raio.

-E aí,o que me traz de bom,velho?-perguntou Milo.

-Vamos comigo até a minha sala,há duas pessoas importantes que querem te ver.-informou Amamiya.

-Importantes?Espero que seja o governador e o presidente.

-Quase isso!-disse Ikki com energia enquanto os dois seguiam para sua sala.-Sr. Solo,Sr. Yakamoto,apresento-lhes o Sr. Nakapoulos.

Milo entrou na sala sem entender muita coisa.Só então percebeu do que se tratava.

-Ah,acredito que os Srs. Receberam minha proposta?-disse ele,sorrindo e apertando a mão dos presentes.

-Sim,Sr. Milo,e devo confessar que me interessei muito por ela.-disse o governador.-Conversei com o Julian aqui e ele conseguiu agendar o nosso encontro para hoje!Por favor,sente-se…

-Mesmo?Foi muita gentileza,Sr. Solo!-fingiu Milo.-E então Sr. Yakamoto,quanto me oferece por ela?

Julian deu uma risada seca.

-Desculpe?-perguntou Milo,piscando os olhos na direção dele.

-Sr. Nakapoulos,vejo que é incapaz de fazer um bom negócio.-respondeu Julian.

-E eu não pedi a sua opinião.-rebateu o grgo.

-Qualquer negócio lucrativo que envolva parte da minha empresa diz respeito às minhas opiniões.-disse Solo sem perder a calma.Milo arqueou as sobrancelhas.

-Então resolva isso sozinho.-disse ele,dirigindo-se à porta.-E a propósito,foi muito gentil da parte de sua noiva pedir desculpas pela sua grosseria no restaurante.

-Do que você está falando?-perguntou Julian,alteando ligeiramente o tom de voz.

-Por que pergunta isso a mim?-respondeu o outro com um sorriso sarcástico.-Acredito que não precisam mais da minha presença.Tenham um bom dia,Srs.!

E dizendo isso,Milo saiu da sala.Seu sangue fervia de raiva.Entrou no primeiro banheiro que encontrou no caminho e abriu a torneira.

-Maldito!-gritou ele,sua voz ecoando pelo banheiro vazio.A cabeça dele doíamuito e ele se sentia mal.Fechou os olhos e achou que o chão sob os seus pés havia desaparecido.

FLASH

-Ele não pode morrer,Camus!-gritou uma mulher que chorava.

-Acalme-se,Moa!Milo vai ficar bem.

Então porque ele mesmo não conseguia ver nada já que estava bem?Por mais que tentasse falar ou enxergar,ele parecia incapaz.

-Ele precisa melhorar logo.-murmurou Moa.Ele sentiu alguém tocar seu rosto de maneira delicada.

FIM DO FLASH

-Moa…-murmurou ele,abrindo os olhos.Olhou ao seu redor e deduziu que definitivamente não estava mais no banheiro.-Onde estou?

-No hospital.-respondeu Camus,sentado na velha poltrona ao lado da cama do amigo.

-De novo?-resmungou Milo.-O que foi dessa vez?

-O médico disse que você teve uma espécie de crise nervosa,e que não estava completamente curado do coma.Isso fez você passar mal e desmaiar.-respondeu o francês.

-Que goras são?-perguntou Milo,fazendo uma careta quando sua cabeça voltou a doer.

-Oito e meia da noite.

-Já?!Vou ficar aqui até amanhã?

-É o que parece…-respondeu Camus.-Mas agora tem outra pessoa que quer te ver.

-Ah,que bom!Sem ofensas,mas eu não agüento mais a sua cara.-brincou o grego enquanto o outro abria a porta.-Espero que não seja nenhum médico.

-Bom,eu nunca pretendi ser.-disse Moa entrando no quarto.

-Olha,se um dia a gente resolver sair,não vou me perdoar se o encontro não for num hospital.-brincou Milo,fazendo a jovem francesa rir.-A que devo a honra de sua ilustre presença,srta. Solo?

-Não me chame assim…oficialmente ainda sou Moa Sorveau.-respondeu ela,sorrindo.-Fiquei preocupada com você.

-Vaso ruim não quebra assim tão fácil,Moa.-disse Camus.

-É,esse daqui ainda deve ter mais cinco vidas.

-Quem me dera…E como estão os preparativos para o casamento com o meu grande amigo Julian?

-Ah,vão bem…você sabe,têm lá suas dificuldades.-respondeu a moça,seu sorriso murchando de repente.

-Na verdade não sei,não,e você não me parece muito feliz com ele.-disse Milo sem rodeios.

-Imagina…vai tudo muito bem!-respondeu Moa sem convicção.

-Hum...você não me engana.Mas já que está dizendo,não insisto mais.-sorriu o grego.

-Vai sair daqui amanhã?

-Espero que sim.Não foi nada grave,só uma recaída.

-Bem,eu vou ali tomar um café.-anunciou Camus,deixando os dois sozinhos

-Não posso me demorar muito.-murmurou Moa,ocupando a poltrona de Camus.-Julian está me esperando em casa.

Aquelas palavras causaram em Milo um desconforto que não tinha nenhuma relação com seu desmaio.

-Você o ama muito,não é mesmo?-indagou ele inseguro.

-Não me casaria se não o amasse.-respondeu ela.

-Então o que posso dizer?Vá e seja feliz.-disse Milo,completamente amargurado.

-Não era isso que você queria dizer,era?Está na sua cara.

-E vai fazer alguma diferença se eu disser o que quero?-perguntou ele.

-Acho que você não me entendeu.Eu disse que não me casaria se não amasse o Julian.

-E o que muda?!Isso não é um conto de fadas,Moa!Eu não posso simplesmente entrar na Igreja e gritar "não se case com este homem" e depois a gente foge num cavalo branco…por mais que eu não goste do seu noivo,eu não tenho o direito de impedir a felicidade dele.E tem mais,você sabe a grana que ele deve estar gastando?Casar não é barato,sabe…e os sentimentos dele também estão em jogo.Eu não iria querer estar na pele dele,sinceramente.-explicou Milo.

-Então é só isso?

- isso?Pelo amor de Deus,Moa!-exasperou-se o grego.-O que mais você quer que eu diga,hã?Quer que eu diga que nenhuma mulher fez comigo o que você fez?Que eu finalmente assuma a maior novidade da minha vida?Eu estava muito bem antes de você aparecer!

Moa parecia à beira de lágrimas.Levantou e pegou sua bolsa sobre o criado-mudo ao lado da cama.Milo segurou seu pulso.

-Me solta!Você não disse que estava melhor antes de me conhecer?!

-Mas estou bem melhor agora.-murmurou ele,puxando Moa de maneira que seu rosto ficasse a centímentros do dela.

-Seu grande idiota!-sussurrou ela,as primeiras lágrimas ecorregando pelo seu rosto.

Milo não esperou ela falar mais nada,apenas puxou-a para o beijo mais devastador que já dera em toda a sua vida.