Vagando pelas ruas lotadas de Paris com o paletó sobre o ombro direito,Milo ria da própria desgraça.

-Que grande presente de grego!-murmurou ele,parando e olhando para o céu nublado.-E agora,o que vai ser?Vou ser atropelado?Vou ficar sozinho pro resto da vida,é?

Um grave trovão anunciou a chegada de um temporal.

-Ah,chuva,é claro.-resmungou ele,caminhando entre as pessoas apressadas que fugiam do aguaceiro.Não importava que estivesse encharcado dos pés à cabeça,na verdade o mundo poderia se dissolver em água que ele não estava preocupado.Ao contrário,se morresse agora,morreria numa hora oportuna.

Milo continuou andando sob a forte chuva até encontrar um banquinho numa praça deserta,onde sentou e afrouxou a gravata,pondo o paletó sobre o colo.Ficou sentado por um bom tempo,esvaziando a cabeça de tudo que lhe lembrava Moa.Não haviam terminado oficialmente,mas ia ser meio constrangedor continuar ao lado dela.

-Talvez ela não esteja pronta afinal…-murmurou ele.Só então percebeu que a chuva cessara e que alguém sentara ao seu lado.Era uma moça que não passava dos 20 anos,de cabelos muito longos e lisos,tão negros e brilhantes que pareciam ser feitos de seda,com uma franja que lhe cobria toda a testa.Era muito bonita,mas a expressão em seu rosto definia uma tristeza infindável.Milo não ia se atrever a perguntar o que ela tinha,afinal de contas ele também estava triste e…curioso.O grego lutou e relutou contra a própria curiosidade,mas acabou sendo vencido.

-Desculpe incomodar,srta.,mas sente-se bem?-perguntou ele,olhando-a com ar preocupado.

A moça o olhou com aversão antes de responder:

-Pareço bem pra você?Porque eu não estou.-disse ela com frieza.

Milo arqueou uma sobrancelha ,mas permaneceu calado.Pegou sua carteira de cigarros e acendeu um.

-Você fuma?-perguntou ele à moça.

-Não,é nojento.-respondeu ela sem interesse.O grego sorriu e jogou seu cigarro fora.

-Como você se chama?-perguntou ele.

-Se eu disser,você vai me deixar em paz?

-Depende do que você julga como paz.-disse ele,ainda sorrindo.Ela sorriu com o canto da boca.

-Gisty Mirazzi.-respondeu ela.

-Italiana?

-É…e você?O que faz aqui à uma hora dessas?-perguntou Gisty.

-Minha namorada acabou de recusar meu pedido de casamento.-respondeu ele.Falar sobre isso agora lhe parecia muito mais fácil.Já estava bastante conformado.

-Ah,eu lamento muito,Sr.-disse ela.

-Pode me chamar de Milo,se quiser.-murmurou ele.

-Bom,Milo,foi um prazer conhece-lo.-disse ela.-A gente se vê um dia?

-É,a gente se vê.-respondeu ele,observando ela se afastar.O jeito frio e forte dela despertava em Milo uma coisa engraçada.Ela tinha algo que Moa não tinha,mas o que era?

-Espera,Gisty!-ele gritou,correndo atrás dela.A garota parou e se virou.

-Hum?

-Sei que pode parecer loucura,mas você quer me acompanhar até o hotel?Sem nenhuma segunda intenção,é claro.-disse ele.Ela sorriu.

-Posso ir sem meus sapatos?Eles estão em matando.-perguntou ela.Milo sorriu.

-Pode.

Os dois caminhavam tranquilamente,conversando sobre coisas banais.Milo descobrira que ela viera da Itália para Paris porque um rapaz que dissera ser de uma agência de modelos iludira-a,dizendo que ela tinha vocação pro trabalho.

-Quando cheguei aqui,me enfiaram num cortiço velho,porque não havia mais vagas no cabaré.Depois disseram que eu ia começar a trabalhar hoje,mas eu não tive coragem de vender meu corpo.-completou ela.

-E seus pais sabem disso?-perguntou Milo.

-Não,na verdade você é a primeira pessoa a escutar essa história.-respondeu Gisty.

-E se…quero dizer,e depois de hoje?Você não pode ficar fugindo do cafetão pelo resto da sua vida,ele pode te matar!-disse Milo,a preocupação estampada em seus olhos.-É muito perigoso,não acha?

-Não posso fazer nada,Milo…é um emprego quase perpétuo.-murmurou ela.Haviam chegado ao hotel onde Milo estava hospedado.

-Escuta,você não pode voltar de mãos vazias.-disse ele,tirando a carteira do bolso e entregando U$300,00 à ela.-É tudo o que eu tenho.

-Não posso aceitar!-protestou ela,empurrando o dinheiro de volta.

-Mas vai.-afirmou Milo,recusando a devolução.-Eu vou ficar em Paris por mais dez dias,pode me procurar se precisar de ajuda.

-Está bem.-disse ela,guardando o dinheiro no decote do vestido.-Você foi um grande amigo pra mim esta noite.Espero que tenha sorte com a sua namorada.

-Obrigado.

-Bom…preciso ir.Obrigada e boa noite,Sr. Milo.

-Boa noite,Gisty.

A garota saiu pela noite.Milo não sabia qual seria o destino dela,mas alguma coisa nela o intrigava.

Cansado,ele subiu para o seu quarto.A sua primeira noite em Paris lhe rendera desventuras suficientes para um ano inteiro,pensou ele antes de abrir a porta.Era de se esperar que Moa não estaria lá,mas ele a procuraria pela manhã.Agora ele só desejava tomar um banho e dormir.