-Milo…-chamou Camus em voz baixa,dando leves batidas na porta.-Milo!
O grego abriu os olhos e resmungou,abafando as orelhas com um travesseiro.
-Mas será que nem aqui esse francês me deixa em paz?-murmurou ele,levantando.Ainda sentado na cama,Milo se espreguiçou e coçou a cintura.
-Já vai!-disse ele em voz alta.Foi até a porta se arrastando e cerrou os olhos quando abriu-a,por causa da claridade matinal que entrava pelas janelas do corredor do hotel.Camus ficou na ponta dos pés e olhou dentro do quarto do amigo.
-Cadê a Moa?-perguntou ele.
-Venho me fazendo essa pergunta desde a noite anterior.-disse Milo.
-Como assim?-indagou o francês,entrando no quarto e fechando a porta.
-Ontem eu pedi a mão dela em casamento,e ela recusou,e eu não a vejo desde então.-explicou Milo enquanto abria as cortinas.-Ela simplesmente sumiu.
-Casamento?Não acha cedo demais?-perguntou Camus,recebendo um olhar ameaçador.-Desculpe,só quis dar minha opinião.Você não foi atrás dela?
-Olha pra minha cara,né,Camus!Posso até dar a minha vida pela Moa,mas correr atrás dela?Hã-hã,meu caro…nem da minha mãe eu corri atrás quando ela me expulsou de casa.Se ela não me quis,deve ter tido lá os seus motivos.-disse o grego com a voz sutilmente alterada.Camus riu.
-Posso falar uma coisa?-perguntou ele,sorrindo.
-Se não for nenhuma daquelas suas piadinhas em momentos inoportunos,pode.-disse Milo,escolhendo algumas roupas na mala.
-Você levou o troco na mesma moeda.-disse Camus tranquilamente.
-Como?-indagou Milo,despindo-se da camiseta que usava.
-Em cinco anos você dispensou mais de duzentas mulheres.Agora foi a sua vez de ser jogado de lado.-explicou o francês.Milo sorriu.
-Sabe que você tem razão,francês.Mas eu estou bem,quero dizer,pensei que fosse ficar realmente depressivo.Talvez eu fique quando voltar para o Japão…Acho que só vou entrar na linha no dia em que eu conhecer uma mulher de atitude,que conteste minhas idéias e seja fria,e…-a voz rouca de Milo sumiu de repente,e sua expressão foi substituída pelo choque.
-O que foi?-perguntou Camus.
-Camyu,você sabe onde fica o "Le Rouget"?
-Sei,por que?
-Quero que você me leve até lá.Vou tomar um banho,espere aí.-disse Milo,entrando no banheiro.
Camus dirigia em silêncio,olhando de vez em quando para o passageiro ansioso.
-O que você vai fazer num cabaré às 9 da manhã?
-Não sei ao certo…talvez uma loucura.-respondeu Milo.
-Não é uma besteira muito grande,é?-perguntou Camus,parando o carro em frente a um prédio de três andares com a pintura vermelha descascada e a marquise cheia de infiltrações.Um letreiro luminoso quebrado e apagado trazia a frase "Le Rouget".
-Ela me disse que não ficava aqui por falta de vagas,mas alguém deve saber onde fica o tal cortiço.-comentou o grego,caminhando até a grande porta de ferro.
-Quem exatamente seria ela?
-Gisty!-chamou Milo,batendo na porta.Uma mulher ruiva,com a maquiagem borrada e a roupa curta amarrotada,aparentando um extremo mau-humor abriu a porta.
-A Gisty não tá. -disse ela, com a voz esganiçada.Sorriu em seguida.-Mas temos garotas ótimas.
-Não quero nenhuma delas.-disse Milo,apagando o sorriso da moça.-Você sabe onde ela mora?
-A dois quarteirões velho,lembra um albergue.Fácil de achar.-respondeu ela.
-É pra lá que nós vamos.Obrigado.-disse ele,apertando o casaco contra o corpo.O dia estava palidamente ensolarado,mas ainda fazia muito frio.Os dois entraram novamente no carro.O que Milo não sabia é que havia mais alguém do outro lado da rua.
Camus deu a partida no carro alugado.Estava preocupado porque deixara Natássia dormindo,e não lhe dissera aonde ia.
-Não podemos demorar-disse ele a Milo.-Deixei Natássia sozinha.
-Não vamos demorar,prometo.-disse Milo.Camus parou o carro novamente,dessa vez de um prédio mais velho e despencado.-Pode ficar no carro se quiser.
-Oui.-concordou o francês.Milo foi até a velha portaria.Um homem de ar cansado e entediado estava sentado numa banqueta de alumínio.
-Com licença,poderia chamar a Gisty?-pediu Milo cordialmente.O homem deu uma risada seca.
-Vou chamá-la.-disse ele,abandonando a banqueta e sumindo por uma porta.
Enquanto isso,Camus esperava o amigo dentro do carro,perguntando-se se Milo estava variando das idéias.Olhou pelo retrovisor interno e divisou um caro e…alguém estava lá dentro.O sangue do francês gelou.
-Mon Dieu…-murmurou ele.
Milo esperava tranqüilamente,observando as paredes mofadas do recinto.
-Deplorável…-disse ele,de costas para a banqueta.
-Milo?
O grego girou nos calcanhares.Gisty vestia uma camiseta branca e uma calça jeans escura,e tinha nos pés um tênis de lona vermelho.
-Gisty!-disse ele.
-O que faz aqui?-perguntou ela,segurando Milo pelo braço e conduzindo-o para fora do prédio.-Está maluco?
-Eu…Gisty,eu…-gaguejou Milo.A italiana olhava para os dois lados da um suspiro de susto,a garota agarrou Milo pelo pescoço e o beijou com voracidade.Ele ficou meio sem reação,completamente encabulado,mas acabou correspondendo.
Dentro do carro,Camus estapeou a testa.
-Será possível?!-perguntou ele em voz alta.Tentava gesticular para o amigo,mas sabia que ele não o veria,que estava mais interessado em outra coisa.
Gisty abriu levemente os olhos enquanto beijava Milo.O cafetão ainda a observava do outro lado da rua,e também duas pessoas em carros diferentes.Sem se importar com esses dois estranhos,a garota agarrou o grego com mais força.
Camus suspirou e olhou mais uma vez pelo retrovisor.O carro continuava no mesmo lugar,e a pessoa que estava no banco do motorista parecia cada vez mais enjoada com o que via.
Milo já estava completamente sem ar quando Gisty o soltou.
-Você…ficou…louca?!-arfou ele,encostando-se na parede mais próxima,buscando o ar que lhe faltava.
-Vê se não me procura mais,tá legal?Se não fosse por esse beijo que eu te dei agora,eu ou você,ou talvez nós dois estaríamos sendo espancados!Eu já agradeci pela noite passada,agora vê se me deixa em paz!-disse ela em voz alta.Milo apenas olhou-a,assustado.
-Eu falei grego por um acaso?-perguntou ela,colocando as mãos na cintura.
-Se você tivesse falado,eu certamente entenderia.-disse ele.
Gisty abaixou a cabeça e riu.
-Eu tô falando sério!-disse ela.
-Eu também!-murmurou Milo.-Mas se é assim,vou te deixar em paz.Adeus,Gisty.-completou ele,sorrindo e dando as costas à ela.
-Adeus,Milo?-perguntou ela.O grego jogou levemente a cabeça pra trás.
-É você que está dizendo.-disse ele,sorrindo.Sem dizer mais nada,Milo foi para o carro,entrou e fechou a porta.
-Já?-perguntou Camus.O outro assentiu com a cabeça.O francês arrancou e olhou para Milo.O amigo estava pálido.-Não notou nenhum outro carro?
-Carro?
-Moa esteve te observando o tempo todo.-disse Camus.
-Me observando?Isso é loucura!-exasperou-se Milo.-Ela nem ao menos sabia onde eu estava!
-Primeiro: loucura é o que você acabou de fazer.Segundo: isso você resolve com a Moa,OK?-disse o francês,entrando na garagem do hotel.
-Já disse,Camus,não vou atrás dela!-disse Milo,demonstrando insegurança.
-Você quer me dizer por que fez aquilo?
-Eu não fiz nada!Aquela louca me beijou!-desesperou-se o outro.-Você acredita em mim,não é?
Camus não respondeu.
-Não é,Kyu?!-repetiu Milo,quase chorando.-Você sabe que eu amo a Moa,não sabe?
-Pare com isso,está parecendo uma criança!-bronqueou o francês.-É claro que eu acredito em você,e sei que você ama a Moa,quem não sabe disso?
-Sabe,Camus…nunca pensei que uma mulher me deixaria assim um dia.
-Não subestime elas.As mulheres são muito mais incríveis que nós homens,você fala delas como se elas fossem objetos.-disse Camus.
-Bom,de uma maneira ou de outra,aprendi umas lições.-murmurou Milo.-Aprendi que não se deve pedir uma mulher em casamento com dois meses de namoro,e que não se deve subestimá-las,como você mesmo disse.
-De algo isso lhe serviu,então…
E os dois continuaram o caminho conversando despreocupadamente.
