De Volta ao Vale das Flores

By Dama 9


Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah é uma criação única e exclusiva minha para essa saga.


Boa Leitura!


Capitulo 10: Conversas entre amigos.

I – Partidas.

Estreitou os braços em torno do bebe, enquanto caminhava até o templo próximo ao Ganges. Sentiu as lágrimas caírem por sua face, a cada passo que dava para frente, desejando retroceder.

-"Vai ser melhor assim"; ela pensou, vendo um monge aproximando-se para recebê-la.

-Ele nos disse que viria; um senhor de idade falou, com aparência pacifica e compadecida da dor estampada nos orbes azuis da jovem.

-...; Astréia assentiu.

-Venha comigo; o monge falou, indicando-lhe o caminho. –Há muitos anos que esperamos pela criança enviada pelos deuses, que veio a Terra para mantê-la em paz, nos momentos mais conturbados.

-Esse é o destino dele; ela falou, sem esconder o pesar que isso representava, por saber que era exatamente esse o motivo de terem de se separar.

-Por mais que doa, algumas coisas precisam ser como são. Um dia ele ainda fará muitas coisas boas e que mudarão o mundo, não completamente, mas ajudara em sua transformação; o monge falou, sorrindo ao ver a criança despertar.

Andaram poucos minutos pelo interior do templo, encontrando vez ou outra com monges e aprendizes, chegaram em uma sala, cujas portas enormes tinham entalhes de fartos nenúfares e o cheiro suave de almíscar chegava até eles, vindo de dentro da sala.

As portas abriram-se, revelando a eles uma grande estatua de Buda, mal deu um passo, parou fitando os orbes da criança que parecia cada vez mais agitada, provavelmente sentindo sua hesitação.

-Vai ficar tudo bem; ela sussurrou, continuando a andar.

Próximo a estatua, existia um pequeno berço, rodeado de almofadas com ricos bordados e velas aromáticas que acalmam a todos que ali permaneciam. Abaixou-se com cautela, colocando-o no berço.

-Durma meu anjo; Astréia pediu num sussurro, sentindo uma lagrima solitária pender dos orbes azuis, antes de se afastar.

-Já deu um nome a ele? –o monge perguntou, vendo-a levar a mão aos lábios, tentando aparar um soluço.

-Shaka;

II – Conversa entre amigos.

Estava distraído, não que aquela conversa fosse chata ou algo do tipo, apenas sentia sua mente longe. Fazia muito tempo que não saia desse jeito, normalmente preferia ficar o tempo todo trancado em seu templo, meditando ou simplesmente fazendo qualquer coisa lá dentro para que não precisasse sair.

-Shaka; Aaliah chamou, tirando-lhe de seus pensamentos.

-Uhn? –ele murmurou piscando, antes de voltar-se para ela. –Sim;

-Eu estava lhe perguntando se vive há muito tempo em Atenas? –Lisa falou, vendo o cavaleiro sem graça pelo momento de distração.

-Muito tempo; Shaka respondeu, lembrando-se que desde que se tornara cavaleiro, deixara Atenas apenas uma vez para retornar a Índia, mas isso não valia, pois fora justamente no meio da guerra contra os titãs.

-Mas você não é grego, não é? –Rebeca perguntou, curiosa.

-Não, nasci na Índia; o cavaleiro respondeu, com ar pacifico.

-Índia, mas você é loiro; a garota de cabelos alaranjados falou, confusa.

Realmente, uma das coisas que mais se perguntou quando era pequeno, era o porque de ser tão diferente dos nativos hindus. Era loiro, olhos azuis e tinha pele alva. Completamente diferente dos demais; ele pensou, lembrando-se do monge responsável pelo templo em que vivia, apenas lhe dissera que era filho de uma estrangeira com um nativo, mas que ambos já não estavam mais vivos e graças a Buda ele fora parar lá.

-Minha mãe era estrangeira; ele respondeu.

-Ah sim; Rebeca murmurou, envergonhada pela indiscrição.

-Vai se acostumando, ainda não sei porque ela fez botânica, já que se da melhor como jornalista; Aaliah brincou.

-Hei! –Receba resmungou, indignada.

-Não tem problema; Shaka respondeu, sorrindo.

-É, pelo visto não se trabalha aqui; uma voz sarcástica falou atrás deles.

Aaliah serrou os orbes perigosamente, sentindo o cavaleiro pousar a mão sobre a sua com um olhar como se dissesse 'A minha proposta ainda esta em pé'.

-Para atender alguém como você, não; Rebeca falou, levantando-se irritada.

-Rebeca; Lisa pediu com um olhar que tivesse paciência.

-Olha só quem está aqui; Melissa falou, com um olhar de desdém.

-Como vai Melissa? –Aaliah perguntou, mantendo-se impassível, porém educada.

-Bem; ela respondeu seca.

-É uma pena, eu estava torcendo para que você nos deixasse feliz, se matando ao engolir o próprio veneno; Rebeca vociferou.

-Oras, sua; Melissa resmungou, voltando-se fuzilante para ela.

-Não é por nada, mas a senhorita poderia fazer a gentileza de ser mais objetiva quanto ao fato do porque esta aqui nos incomodando? –Shaka perguntou, polidamente, embora as palavras soassem doces a quem ouvia era uma promessa velada de morte lenta e dolorosa.

-Uhn? –ela murmurou, voltando-se para ele.

-Pois caso não tenha percebido, esta nos incomodando por ser tão ridiculamente inconveniente, que me obriga a pedir que se retire; ele continuou, com os orbes cintilando perigosamente ao se levantar.

-Melissa; uma voz soou irritada atrás dela, que a fez estremecer.

-Ai vem o Capachão (1); Rebeca desdenhou.

-Rafael; Melissa falou, ao vê-lo com os orbes serrados.

-O que esta fazendo? –Rafael perguntou irritado.

-Nos incomodando, caso não tenha percebido; Shaka respondeu por ela.

-Desculpem pelo inconveniente, mas acho que Melissa ainda não aprendeu a controlar a língua, nem o veneno que escorre dela; ele respondeu, fitando-a com seriedade.

Foi com surpresa que as três garotas ouviram o que ele falou. Era tão estranho ver Rafael agindo de maneira tão agressiva daquele jeito, ainda mais quando sempre fora tão gentil; Aaliah pensou confusa.

-Com licença e desculpem novamente o incomodo; Rafael falou, puxando Melissa pelo braço. –Vamos logo, quer matar a todos de vergonha com uma cena ridícula dessas; ele reclamou, enquanto se distanciavam.

Arqueou a sobrancelha, enquanto sentava-se de novo. As três mulheres mantinham-se caladas, depois do que viram.

-Como é irritante; Rebeca foi a primeira a se manifestar.

-Certas coisas não mudam; Lisa falou, suspirando cansada.

-É sempre assim? –Aaliah perguntou, mal notando que enlaçara o braço do cavaleiro, apoiando a cabeça sobre o ombro dele, com ar cansado.

-Pior, acredite; Rebeca falou, recostando-se na cadeira menos tensa. –Essa garota fica pior a cada dia;

-É uma pena que exista uma pessoa tão amarga assim; Shaka comentou, chamando a atenção da jovem.

-Como? –Aaliah perguntou, confusa.

-Uma pessoa que cresceu rodeada de inveja, arrogância e tornou-se alguém tal qual foi criada para ser. Que não pode ver outras pessoas felizes que isso se torna a sua amargura e irritação. Definitivamente, esse é o pior veneno para a alma de alguém; ele completou, com ar enigmático.

-...; Aaliah assentiu.

-O pior é que ela sempre foi assim Shaka, talvez nós agora já estejamos acostumadas com isso, mas quando pequena Melissa era um verdadeiro diabinho, era cruel e tinha prazer com isso; Rebeca falou, lembrando-se das inúmeras coisas que ela e Aaliah haviam passado desde a pré-escola ao colegial.

-Bem, é melhor falarmos de coisas mais agradáveis; Shaka falou, mudando de assunto, ao sentir uma aura de tristeza em volta de Aaliah. –Vi que tem um quiosque de sucos ali, não gostariam de tomar alguma coisa? –ele sugeriu.

-Eu quero; Aaliah falou, animando-se. –E vocês? –ela perguntou, não notando o olhar trocado entre elas e o cavaleiro.

-...; Rebeca e Lisa assentiram.

-Vão querer do que? –Shaka perguntou.

-Laranja; Lisa respondeu.

-O mesmo pra mim; Rebeca respondeu.

-Aaliah?

-Limonada Suíça; ela respondeu, vendo-o se levantar.

-Eu já volto; ele falou, levantando-se, optando por deixa-las sozinhas para que conversassem sem se reprimirem por sua presença.

Viu-o se afastar e deu um baixo suspiro, recostando-se na cadeira e cruzando as pernas.

-O que foi Aaliah? –Lisa perguntou, vendo-a seguir o cavaleiro com o olhar.

-Estava pensando; Aaliah começou, voltando-se para as duas. –Porque o Rafael esta agindo daquele jeito? –ela perguntou, voltando-se para as duas.

-Nem nós sabemos; Rebeca respondeu. –Antes de você ir embora, lembra que eles já haviam anunciado o noivado?

-...; A jovem assentiu.

-Desde que começaram a namorar é assim, mas piorou depois do noivado, é que você sempre se mantinha alheia a isso. Só não entendo porque estão juntos se não se dão bem; Rebeca completou.

-Talvez eles se dêem, a maneira deles; Lisa falou, calmamente.

-Sei lá, maneira estranha de gostar não; Rebeca comentou.

-Cada um tem a sua maneira; Aaliah murmurou, pensativa.

-Mas como esta seu pai, Aaliah? –Lisa perguntou, mudando de assunto.

-Bem, com as encrencas normais dele, mas esta bem; ela respondeu, lembrando-se do que Shaka lhe contara mais cedo.

-E quando pretende dar um neto a ele? –a tia perguntou, com o típico sorriso nos lábios que dizia 'E agora começa a seção de conversa familiar que a parte mais fraca, sempre sai constrangida';

-O QUE? –Aaliah gritou, quase engasgando.

-Oras, pense só. Como diz a Rebeca, 'Aproveita que a genética é boa'; Lisa comentou sorrindo, apontando para o local onde o cavaleiro estava.

-Tia; Aaliah falou em tom de aviso, porém com a face em chamas.

-Mãe, eles são só 'amigos'; Rebeca falou, com um sorriso malicioso.

-Sério? Mas eu pensei que...; Lisa parou fitando Aaliah com confusão.

-É a modernidade, mãe; a jovem alfinetou.

-Rebeca; Aaliah falou em tom de aviso.

-É sério, acha que me engana. Amigos, puff! Que amizade mais colorida; ela falou, displicente.

-Somos só amigos, não confunda as coisas; ela falou, veemente.

-Ah ta, e o beijo Hollywoodiano na frente loja da Flora foi o que? Só pra sair da rotina? –Rebeca alfinetou, com um sorriso carregado de segundas, terceiras se não quartas intenções.

-Meninas; Lisa falou, rindo. Vendo que elas estavam prestes a discutir.

Antes que pudesse responder, parou sentindo uma energia estranha no ambiente. Franziu o cenho, olhando para todos os lados. Poderia estar enganada, mas era como se estivessem sendo vigiados.

-Aqui esta; Shaka falou, chamando-lhe a atenção.

-Obrigada; elas agradeceram quando ele lhes entregou os copos.

-O que foi? –Shaka perguntou, vendo-a séria.

-Nada, não; Aaliah apressou-se em responder.

-Aaliah; ele falou em tom de aviso, sabendo que ela estava mentindo.

-Senti um cosmo estranho; ela respondeu, ficando emburrada, por não conseguir omitir nada dele.

-Veio de onde? –o cavaleiro perguntou, ignorando o olhar surpreso das outras duas.

-Não sei, parece que vêm de todos os lados, mas é uma vibração só; ela explicou.

-Não se preocupe, não é hostil; Shaka respondeu calmamente, vendo-a se acalmar.

Também sentia um cosmo diferente no ambiente, mas sentia que não precisava se preocupar com isso. Então, se fosse algo realmente importante ele se revelaria na hora certa.

III – O Retorno.

Sentou-se em um canto mais afastado do alpendre no ultimo templo, esperando pelo noivo, mas sentiu um outro cosmo se aproximando. Sorriu de canto ao ver uma forma materializar-se próxima a estatua de Athena.

-Há quanto tempo? –Aishi perguntou, sem voltar-se para trás.

-Muito minha amiga; uma jovem de melenas douradas falou, aproximando-se.

-Pensei que não fosse mais retornar a Terra; a amazona comentou, voltando-se para ela.

-Digamos que não consegui agüentar; ela respondeu, com um meio sorriso, já imaginando o que iria ouvir.

-Sente falta dele, não é? –Aishi perguntou, de maneira enigmática.

-O tempo todo; Astréia respondeu, com um olhar vago.

-Deveria contar a ele que esteve todos esses anos velando por ele. Agora não estamos mais em tempos de guerra;

-Eu sei, mas depois de tudo que ele passou, não acho certo surgir em sua vida novamente; a divindade falou, com um olhar triste.

-Mudar o destino só depende de você, Astréia; Aishi falou, veemente. –Uma hora, ele terá de saber a verdade e seria melhor que fosse por você; ela completou, com ar sério.

-...; A jovem assentiu.

-Mesmo porque, creio que ele ainda vai precisar muito de você; ela falou com um olhar enigmático.

-O que esta acontecendo? –a Deusa da Justiça perguntou, voltando-se para ela.

-Acredite, nem os deuses estão imunes a certos sentimentos, nem mesmo aqueles que foram treinados para nunca tê-los; Aishi completou, quase num sussurro.

Assentiu, sabendo sobre o que ela se referia. Embora muitas duvidas ainda perdurassem sobre quais seriam os caminhos certos a seguir a partir de agora.

IV – Chocolate das Cinco, ou quase isso...

Já eram quase cinco horas quando se despediram das duas mulheres e deixaram a floricultura, sob a promessa de retornarem logo. Agora vinha a parte mais difícil do dia, retornar a loja de chocolates e enfrentar Dona Flora e seu estigma de casamenteira; Aaliah pensou, engolindo em seco.

-Shaka; Aaliah chamou, estreitando mais os braços sobre o dele e apoiando a cabeça sobre seu ombro.

-Sim; ele falou, voltando-se para ela.

-Sobre aquele cosmo, você sabe a quem pertencem? –ela perguntou, ainda confusa quanto ao que acontecera.

-Não; o cavaleiro respondeu, sério. –Mas creio que não precisamos nos preocupar, as guerras já acabaram há muito tempo e duvido que ainda exista algum louco que se meta a andar fora da linha agora; ele comentou, com um sorriso doce para tranqüilizá-la;

-Se você diz; Aaliah balbuciou, dando-se per vencida.

-Finalmente, já estava ficando preocupada com vocês; Flora falou, escancarando a porta da loja, antes mesmo que eles entrassem. A senhora vinha enxugando a mão em um guardanapo preso a cintura e parecia bastante agitada.

-Algum problema? –Shaka perguntou, vendo Aaliah afastar-se rapidamente de si, diante do olhar nada inocente da senhora.

-Oras! Ouvi dizer que aquela Melissa Carter andou dando seus showzinhos novamente; a senhora respondeu em desagrado.

-Não se preocupe dona Flora, não aconteceu nada de mais; Aaliah falou, lembrando-se do que conversara mais cedo com Shaka, sobre problemas de cidade pequena, mal aconteceu o negocio e todos já sabiam.

-Bem, vamos esquecer isso e entrem, Dario já esta lhes esperando; ela falou, dando-lhes passagem.

Com um aceno, afastou-se para que Aaliah entrasse primeiro, recebendo um doce sorriso da jovem como resposta, mas antes que entrasse, sentiu como se um vulto passasse correndo atrás de si.

Virou-se rapidamente com o cenho franzido, sob o chão da rua, conseguiu ver uma sombra vinda do céu. Deu alguns passos para fora do toldo que cobria a frente da loja, procurando pela origem da sombra.

-Shaka; Aaliah chamou, tencionando se aproximar, mas ele ergueu a mão, pedindo que ficasse onde estava.

Andou mais alguns passos se aproximando da beira da calçada. Era estranho, mas havia outro cosmo diferente no ar. Poderia ser só impressão a sua, mas o cheiro que sentia naquele ambiente não era proveniente do chocolate, muito menos de tinta vindo de uma confecção do outro lado da rua. Era um cheiro que tinha certeza que já sentira antes; ele pensou.

-Algum problema, rapaz? –a voz de Dario soou atrás de si, fazendo-o sobressaltar-se.

-Uhn? –Shaka murmurou, voltando-se para ele, desanuviando a expressão.

-Parece que viu alguma coisa que lhe perturbou, esta se sentindo bem? –o senhor insistiu, fitando-o com um olhar enigmático.

-Não, esta tudo bem; o virginiano respondeu, balançando a cabeça levemente para os lados. Desde quando estava ficando tão paranóico? –ele se perguntou, tentando ignorar a conclusão que tivera quanto ao cheiro misterioso.

-Tem certeza? –Dario insistiu.

-...; Shaka assentiu, sentindo-se estranhamente inquieto.

-Então vamos, antes que o chocolate esfrie; ele falou, com um sorriso amigável, apoiando o braço sobre o ombro do cavaleiro e puxando-o de volta para a loja.

Ainda lançou um ultimo olhar para trás, buscando a origem daquela sombra e cosmo, mas nada. Deu um baixo suspiro, era melhor esperar para ver; ele pensou, intimamente desejando que isso não demorasse e que estivesse preparado para enfrentar o que fosse.

-o-o-o-o-o-

Passaram uma tarde realmente agradável, se não levassem em consideração as investidas veementes de Flora para chamar um padre e casá-los ali mesmo, que era rapidamente impedida por Dario, que justificava ao casal que a esposa havia batido com a cabeça, ou era efeito da idade mesmo.

Caminhavam calmamente agora de volta ao carro, com uma infinidade de sacolas nas mãos, mas o cavaleiro ainda se indagava sobre o porque não ter ido buscar o carro e depois, voltado para pegar Aaliah, entretanto a jovem recusara-se a deixa-lo andando sozinho por ai, então, não houve outra alternativa.

-Espero que quando voltarmos, não sejamos barrados por contrabando de chocolate no aeroporto; Shaka comentou, enquanto guardavam as coisas no porta-malas.

-Não se preocupe, acredite, quando for a hora de voltarmos, eu já vou ter voltado aqui, umas duas vezes mais; ela brincou, com um sorriso maroto.

-Se você diz; ele respondeu, dando um baixo suspiro.

Deu a volta por trás do carro, abrindo a porta do passageiro para a jovem, antes de voltar e tomar o seu lugar, como motorista.

-Amanhã quero te mostrar a muralha; Aaliah falou, assim que ele entrou.

-Como? –Shaka perguntou, voltando-se para ela, enquanto dava a partida.

-A Muralha de Visby, conhecida também como 'Muro em Anel', é um dos poucos monumentos que sobreviveram intactos até hoje; ela explicou.

-...; Shaka assentiu, teriam mais um dia longo pela frente, era melhor nem pensar que ainda lhes restava um mês.

-Você não parece animado, o que foi? –Aaliah perguntou, enquanto o carro andava numa velocidade razoável pelas ruas que levavam ao Vale das Flores.

-Não é nada; ele desconversou.

-Shaka; ela falou em tom de aviso. –Até o Dario percebeu que você não estava bem, vamos, me conta; a jovem falou, com os orbes brilhando de tal forma que o fez suspirar, dando-se por vencido. Ela sempre conseguia o que queria mesmo; ele concluiu.

-Não sei, acho que é paranóia minha, mas...; Shaka ponderou. –Só tive a impressão de sentir um outro cosmo diferente no ambiente. Só isso; ele tentou se justificar.

-Diferente daquele que sentimos quando estávamos na floricultura? –Aaliah perguntou.

-...; O cavaleiro assentiu, enquanto estacionava o carro em frente à casa.

-Temos que nos preocupar com isso? –Aaliah perguntou, incerta.

-Não; Shaka mentiu, não querendo preocupá-la com isso agora. –Mas é melhor entrarmos, aquela garoa da tarde parece que vai aumentar agora; ele desconversou, saindo rapidamente do carro e abrindo a porta do passageiro para que ela saísse.

-...; Aaliah assentiu, ajudando-o a pegar as coisas no porta-malas, para que entrassem.

-o-o-o-o-o-

Saiu do banho alguns minutos depois, sabia que Aaliah estava em seu quarto e de certa forma estava evitando encontrar com a garota, já que sabia perfeitamente que a desculpa que dera sobre o segundo cosmo, não fora suficiente para convencê-la.

Deu um baixo suspiro, enquanto passava a toalha felpuda pelos cabelos dourados. Aproximou-se da janela, antes de joga-la sobre uma cadeira qualquer.

A noite lá fora estava sem estrelas, daquela janela que estava conseguia ver perfeitamente a lua, mesmo que encoberta pelas nuvens de chuva, refletida no lago atrás da casa.

Era estranho pensar em quantos séculos de história aquela casa tinha. Quantos conflitos, quantos momentos não foram vividos ali, que ficariam para sempre gravados na mente daqueles que conhecem a história. Quantas histórias de amor não se desenrolaram ali, como a de Afrodite e Aimê; ele pensou, balançando a cabeça levemente para os lados, tentando não pensar no que aquilo implicava.

Mas era difícil, sempre se perguntou como as pessoas conseguiam manter intocáveis alguns sentimentos, mesmo quando tudo a volta estava em caos. Ainda se lembrava dos árduos treinamentos no templo próximo ao Ganges, onde aquilo que era mais pregado, era o desprendimento material, isso queria dizer, jamais se apegar emocionalmente a alguém.

Agora entendia que boa parte daquilo que aprendera no período de treinamento, não passava de besteira; ele pensou, fechando a cortina e afastando-se da janela.

-Um monte de besteiras; ele completou num sussurro, apagando as luzes e indo se deitar.

Afinal, ninguém era intocável... Nem mesmo ele.

Continua...

Nota:

(1) Capachão - cachorro de pelucia, bajulador e puxa-saco, personagem do antigo programa da TV Globo, chamando 'Tv Colosso'.