De Volta ao Vale das Flores

By Dama 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah é uma criação única e exclusiva minha para essa saga.

Boa Leitura!


N/a: Não percam 'Luthier – Uma Melodia para Sonhar (A Melody to Dream), o prólogo de 'De Volta ao Vale das Flores'.


Capitulo 16: No importa la distance.

Mas alem de toda gloria

De orgulho e de valor

O poder de um herói

Está em seu coração.

.I.

Ergueu os orbes para o céu à medida que caminhava pelo campo gramado, sentindo o cheiro de rosas azuis inebriar-lhe os sentidos, como sentia saudades dali; ela pensou.

A imponente mansão Bergman Ermond erguia-se a sua frente, mais alguns passos estaria em casa. Era tão estranho pensar naquela mansão como sua casa, sendo que os melhores anos de sua vida passara em lugares bem distantes dali.

Alias, o Brasil tornara-se sua casa, o país abençoado pelos deuses e bonito por natureza, como diriam.

Ouviu um som estranho vindo do lago e virou-se rapidamente ao ver um belo cisne branco pousar na beira do mesmo, para em seguida desatar a correr em sua direção. Era como se vários flashs de memória voltassem numa torrente inexorável em sua mente.

-Francis; Isadora sussurrou sentindo os orbes marejarem ao abaixar-se, deixando os joelhos tocarem o chão.

Abriu os braços e no momento seguinte, sentia o calor emanado pelas penas macinhas da bela ave. Ouviu-o grasnar, alongando as asas agitado com sua presença.

-Menina Isadora; ouviu alguém falar atrás de si, mas não precisava virar-se para saber quem era.

Abriu um largo sorriso, graças aos deuses pelo menos algumas coisas continuavam intactas ali, virou parcialmente a cabeça encontrando o olhar terno de uma senhora já de idade a lhe fitar.

-Marie; a jovem falou levantando-se e indo até ela.

-Você voltou; a antiga baba falou abraçando-a fortemente, enquanto lágrimas cristalinas corriam pelos olhos de ambas.

-o-o-o-o-o-

Deitou-a delicadamente sobre a cama, ouvindo-a suspirar, àquelas ultimas horas haviam sido demais para Aaliah, mesmo depois de tudo aquilo acabar ela ainda passara mais uma hora chorando, que não houve chocolate quente e chá de camomila a conseguir acalmá-la.

Haviam voltado para Vale das Flores assim que todos se dispersaram, Rafael e Alicia levaram Melissa para um hospital, embora ainda desacordada, eles queriam garantir que nenhum problema físico ocorrera com a garota, mesmo porque passar tanto tempo sendo hospedeiro de uma erinia iria realmente roubar-lhe as forças.

Henry e Emilia se propuseram a ficar com eles em Vale das Flores, mas Aaliah disse que ficaria tudo bem.

Agora ela dormia como um anjo, mas via-se que ela ainda não estava completamente relaxada; ele pensou, apoiando a mão com suavidade sobre a dela que jazia fortemente agarrada a sua camisa.

Devia ter lembrado-se que Aaliah nunca presenciara uma luta que não fosse os treinos na arena que ele e os demais faziam às vezes, agora assistir uma luta ferrenha como àquela travada com a erinia, alem de surpreendê-la, certamente a assustara demais.

Afagou-lhe as melenas azuladas, enquanto acomodava-se melhor na cama, sentindo-a aconchegar-se em seus braços.

Não havia notado até aquele presente momento o quão cansado estava, sentiu os orbes pesarem, suspirou calmamente, antes de fechar os olhos e cair num sono profundo e reparador.

-Durma meu anjo...; uma voz sussurrou em seu ouvido, acalmando-lhe os sentidos, apagando qualquer preocupação que poderia vir a nublar-lhe o coração, fazendo-o ir em paz para o reino dos sonhos.

.II.

Segurou-lhe a mão delicadamente, sentindo-a incrivelmente gelada, embora o ar quente daquele quarto estivesse deixando-lhe com calor, mas ela...; ele ponderou abaixando a cabeça por um momento, até senti-la tocar o lençol branco.

-Rafael; Alicia chamou, colocando a mão sobre o ombro dele.

-Uhn? –ele murmurou erguendo rapidamente a cabeça.

-É melhor ir tomar um lanche, você precisa comer; ela falou vendo-o abatido.

Alias, todos que presenciaram o acontecimento na praça de Visby estavam igualmente abalados, mas mais aqueles que estavam diretamente ligados com tudo.

Ainda se perguntava como apesar de tudo, Rafael jamais deixara Melissa, lembrava-se de ouvir a filha quando pequena falar ferina sobre a amizade que o via ter com Aaliah e Rebeca, tanto que como os outros pensava que o veria um dia subir ao altar com a herdeira de Lancaster, mas não... Por ironia do destino meses depois vira a filha de namorico com o garoto.

Era estranho pensar no relacionamento dos dois nos últimos anos, foram poucas as vezes que vira o casal em alguma troca de afeto desproposital, normalmente via as farpas que saiam de olhos e bocas de ambos quando discutiam sobre alguma futilidade da filha.

-Não, eu vou ficar aqui até ela acordar; Rafael respondeu veemente.

-Mas...;

-Pode ir para casa descansar Alicia, eu vou ficar com ela; ele completou.

Não adiantava contrariar, ele estava decidido a não deixar o lado dela, até vê-la acordar, ficar ali só iria ser perda de tempo, esperaria o momento certo para conversar então; ela pensou, assentindo.

-Me ligue se precisar de alguma coisa; Alicia avisou.

-Obrigado; Rafael respondeu voltando os olhos para a jovem de traços tranqüilos que dormia.

Era tão diferente vê-la com aquela expressão, era como se Melissa houvesse voltado a ser apenas uma garotinha frágil e delicada, como vira poucas vezes nos últimos anos.

Aquela garotinha de olhos tristes que tinha vontade de proteger, manter entre o calor de seus braços para que jamais sofresse. Como o destino é irônico; ele pensou, deixando a ponta dos dedos entrelaçar-se entre os fios castanhos que caiam sobre o lençol branco.

Todos tinham tantas perspectivas sobre os caminhos que escolheria quando fosse adulto, que a surpresa fora geral quando optara por caminhos extremos ao que lhe idealizaram; ele pensou dando um baixo suspiro.

Realmente... O destino é muito irônico...

-o-o-o-o-o-

Apertou as mãos fortemente no colo, logo veria as juntas dos dedos delicados tornarem-se brancas de tenta tensão empregada naquilo. Respirou fundo, olhando para os próprios pés, se sentia uma criança acuada daquele jeito; ela pensou.

Ergueu os orbes azuis na direção do vaso repleto de rosas vermelhas. As famosas rosas eternas; a jovem pensou dando um baixo suspiro, mesmo depois de tantos anos idealizando aquele momento, desejando aquilo, mas não conseguia deixar de ter medo.

Não poderia chegar para ele e falar 'Oi filho, eu sou sua mãe'; ela pensou irritada consigo mesmo, aquele não era o momento para ironias.

Ergueu os pés, encolhendo-se no sofá, como se para proteger-se de algum inimigo imaginário, pois só ela estava ali agora, temendo por o momento que logo chegaria.

Eles eram tão parecidos, aqueles olhos, hora doces, hora tão decididos e veementes; ela pensou suspirando. Embora ele houvesse herdado o dourado raro de seus cabelos, aquele olhar era de Seth, olhar para ele era como se visse o amado refletido ali.

Era um azul diferente do que podia definir, era como um dia de tempestade no mar, mas que logo as nuvens a nublar os céus, desaparecessem, dando lugar a um azul límpido e radiante, quando os raios do sol cortavam as ultimas nuvens e banhavam o mar com seu calor inebriante.

Sem duvidas, Seth se orgulharia de ver o que o filho se tornara; ela pensou, sentindo os orbes marejarem. Todos aqueles anos longe dele, não podendo estar a seu lado, vê-lo crescer. Tudo por causa daquela guerra, mas quando pode, estava a seu lado, velando-lhe o sono, os momentos de meditação, hora até arriscando-se a conversar com ele em pensamentos, como se fosse seu anjo da guarda.

Mas agora estava na hora daquelas vozes imaginárias tomarem forma para conversarem, o que seria o mais difícil.

.III.

Aquela casa parecia parada no tempo, com o mesmo cheiro de antes, a cada passo que dava pelo extenso corredor da mansão, via vasos de porcelana muito bem ornamentados, com as mais belas rosas azuis que já vira.

-Ela sempre gostou de ver a casa cheirando a rosas; Marie comentou, enquanto subiam as escadas.

-É, mamãe sempre foi apaixonada por rosas; Isadora comentou, deixando seus olhos correrem por tudo que tinha alcance, buscando absorver cada detalhe que via ali.

-Menina Isa; Marie começou quando pararam em frente a uma porta branca ricamente adornada por filetes dourados.

-Sim!

-Seu pai sabe que voltou? –ela perguntou incerta.

-Não, eu decidi de ultima hora, estava na região e resolvi dar uma passada aqui; Isadora respondeu sem entender o porquê da pergunta. –Por quê?

-Ele me disse ontem para que preparasse seu quarto, pois você chegaria hoje; a baba respondeu, lembrando-se da conversa que tivera com o senhor da mansão no dia anterior.

-Como? –Isadora perguntou surpresa.

Não havia como seu pai saber que estava ali, mesmo porque há poucas horas que decidira passar lá, pois seu plano era ir até Visby e voltar pra casa depois; ela pensou, parando por um momento com esse ultimo pensamento.

-Ele me pediu que arrumasse tudo, como a menina gosta; Marie completou abrindo a porta.

Isadora parou na porta, deixando os olhos correrem pelo quarto, nunca gostou de luxo algum, mas jamais reclamou da decoração que a mãe fizera ali.

Era como se estivesse em um dos quartos do castelo encantado da Bela e a Fera, as paredes eram brancas, porém emolduradas com dourado. As paredes continham pinturas incrivelmente belas, retratando passagens românticas da histórias, como o encontro de Psique e Eros, Romeu e Julieta, até mesmo Tristão e Isolda faziam parte daquele mundo encantado, que ficava alem daquela porta.

Os moveis eram brancos e a larga cama continha um dossel de véu azulado e no mesmo, pequenos pontos brilhantes, provenientes de cristais delicados que jaziam presos a ele, para quando as luzes se apagassem a noite, eles brilhassem como estrelas.

A mãe dizia que assim, ela não teria medo do escuro, e realmente, quando ela colocara aquilo, jamais voltara a dormir entre os pais por medo de fantasmas imaginários que habitavam um mundo secreto e macabro em baixo de sua cama.

Sorriu com esse pensamento, quando se é criança a imaginação é tão fértil e maravilhosa, é uma pena que muitos de sua geração tenham que ter perdido aquela inocência para tornarem-se adultos mais cedo e lutarem pelo mundo.

Num dos cantos do quarto, jaziam um conjunto de três poltronas, ali ouvia sua mãe contar-lhe historias maravilhosas, enquanto seu pai apenas ouvia. Do outro lado, um espelho oval, que agora conseguia fitar-se completamente nele.

Quando a mãe o colocara ali, ficara confusa, mesmo porque, não chegava à metade dele, mas ela lhe virou com aquele sorriso doce e cristalino e disse:

-'Mas você vai crescer um dia'...;

Isso foi o suficiente para que aquele espelho jamais deixasse o quarto...

As janelas estavam semi-abertas, mas podia ver as cortinas esvoaçarem levemente, fazendo o cheiro de rosas aumentar ainda mais ali.

Estava tudo como ficara da ultima vez; Isadora pensou, caminhando para dentro do cômodo.

-Onde papai está? –ela perguntou quase num sussurro, sentindo a mente embargada por lembranças.

-Foi até o centro comprar morangos; Marie falou, fazendo-a virar-se para si imediatamente.

-Como?

-Ele disse que, já que a menina gosta de torta de morangos, foi comprá-los no centro, para que eu a fizesse depois; ela respondeu calmamente.

Franziu o cenho, como Eliot poderia saber que estava voltando, era impossível; Isadora pensou intrigada.

-Deseja que prepare seu banho agora, ou pretende esperar o senhor voltar? –Marie perguntou.

-Não se preocupe Marie, eu mesma faço isso, pode ir descansar, não quero lhe incomodar; Isadora respondeu sorrindo.

-Não é incomodo menina, não sabe como todos estamos felizes com seu retorno; a senhora falou.

-Obrigada, mas pode deixar, eu me viro; ela brincou.

-...; a senhora assentiu, antes de afastar-se e fechar a porta.

Fitou a mesma fechar-se e suspirou, estava intrigada com isso, seu pai saber que estava de volta, antes mesmo de pensar em voltar, balançou a cabeça levemente para os lados, deveria ser coisa de sua imaginação; ela pensou, encaminhando-se para o banheiro anexo ao quarto.

-o-o-o-o-

Sentia o corpo tão mais leve, era como se fosse embalada pelos braços de um anjo, o seu anjo de longas melenas douradas; ela pensou dando um meio sorriso ao virar-se para trás e encontrar uma farta mexa dourada cobrindo os orbes azuis agora fechados, dando lugar a uma expressão tão tranqüila.

Tocou-lhe a face delicadamente, afastando alguns fios, ouviu suspirar e remexer-se um pouco na cama, estreitando os braços em torno de sua cintura.

Era tão bom acordar assim; Aaliah pensou sorrindo, deixando a ponta dos dedos correrem com suavidade pela face dele.

Ainda sentia o coração se apertar com o que vira, aquela sensação de que poderia perdê-lo a qualquer momento lhe assustava; ela pensou sentindo os orbes marejarem novamente, não queria mais ninguém importante saindo de sua vida.

-Isso não vai acontecer; Shaka murmurou, puxando-a mais para si, deixando a ponta do nariz roçar suavemente a curva de seu pescoço, fazendo-a estremecer.

-Uhn! –ela murmurou erguendo os olhos na direção dele.

-Descanse, não fique se preocupando com coisas desnecessárias; ele falou calmamente, abrindo os olhos.

-Mas...; Aaliah balbuciou.

-Eu estou com você e jamais vou lhe deixar; o cavaleiro falou veemente.

-...; ela assentiu, aconchegando-se novamente entre os braços dele e fechando os olhos.

Por mais difícil que fosse por hora não iria pensar em mais nada, apenas que estavam ali, juntos e é só isso que importa.

.:: A História dentro da Historia – Por quem lutamos ::.

Olímpia...

Tochas de fogo acenderam-se em torno do monte que erguia-se imponente entre as nuvens, todos tinham um bom motivo para estar ali. Há um século esperavam por aquele momento.

Os cavalos relinchavam, enquanto um por um, eles se posicionavam lado a lado. A noite caia, fazendo o céu ser tomado por um manto vermelho, proveniente da ira de Apolo que se espalhava pelo mundo.

Segurou com firmeza as rédeas do corcel branco, enquanto com a outra mão, mantinha uma reluzente espada dourada, cujo fio cintilava, esperando pelo momento que os inimigos cairiam sobre seu fio.

-PREPAREM-SE! –ouviu-se a voz do Deus da Guerra ecoar, fazendo terra, árvores e até mesmo o vento vibrar.

Dois jovens de rara beleza empunharam seus arcos, fazendo os cavalos em que estavam, recuarem alguns passos, para que assim protegessem as costas dos demais. A tensão era violenta, não pretendiam desistir, não depois de tudo.

-Esta noite mais uma vez, decidiremos o destino dessa terra; uma voz igualmente imponente soou ao lado do deus da guerra.

A jovem possuía longos cabelos dourados e seus orbes aos poucos deixavam de ser dourados e tornavam-se vermelhos como os do homem a seu lado.

-Todos estão presentes aqui por apenas um motivo; Harmonia continuou, contendo imponentemente o cavalo de empinar. –Todos temos uma herança mortal a qual desejamos proteger;

Um grito de assentimento foi dado pelos demais, via-se facilmente no olhar de cada um a determinação e veemência com que clamavam aos céus, que não iriam perecer naquela noite.

-Por isso, quando pensarem em fraquejar, lembrem-se de todos aqueles que dependem de nós. E como deuses COMETAM UM MILAGRE; ela completou em um grito.

As nuvens tornaram-se vermelhas e a terra tremeu, raios cortaram o céu, anunciando que eles haviam chegado.

Respirou fundo, sentindo alguém apoiar a mão em seu ombro, virou-se de lado encontrando o olhar calmo de uma jovem de orbes rosados e melenas douradas.

-Por aqueles que amamos; Aurora falou com um olhar confiante.

-Sim, por aqueles que amamos; Astréia respondeu, assentindo.

Olímpia tremeu aquela noite, muitos titãs caíram oprimidos pelo poder divino daqueles que jamais desistiriam de lutar. Eram tantos nomes, que séculos se passariam, sem que conseguissem contar quem tanto estava lá.

Mas o que importa é que aquela noite, justamente naquela, mais uma vez a terra sobreviveu ao ataque dos titãs, todos sabiam que a qualquer momento eles poderiam retornar, mas enquanto pudessem lutar, lutariam...

E se assim as Deusas do Destino quisessem, sairiam vitoriosos...

'Por aqueles que amamos e desejamos proteger... Sempre!'

O

OO

O

.IV.

Recostou-se melhor sobre o mármore branco, suspirando, sentindo a água quente cobrir seu corpo, que os poucos foi tomado por uma sensação agradável de tranqüilidade e relaxamento.

Fitou o teto como se tivesse realmente alguma coisa interessante para si ali, era estranho pensar que estava em casa. Alias, desde que chegara vinha pensando nisso... Nesse termo de voltar para casa.

Suspirou cansada, o que será que estava acontecendo no santuário agora? - ela pensou, passando a mão levemente pelas melenas esverdeadas. Certamente o Escorpião deveria estar louco da vida consigo por ter viajado sem lhe falar nada, mas...; Isadora ponderou, se o fizesse teria tempo de pensar e hesitar, por isso fora tudo no 'só se for agora'.

Fechou os olhos por um momento, apagando qualquer preocupação de sua mente, agora só o que queria era relaxar um pouco e esquecer do resto do mundo.

-o-o-o-o-

Olhou para os lados, vendo-se em meio a um campo florido, uma brisa suave esvoaçava os longos cabelos azulados.

-Aaliah!

Virou-se ouvindo o chamado de alguém, sorriu docemente ao vislumbrar três pessoas a lhe esperar, dos quais, dois já lhe eram bastante familiares, mas a terceira chamou-lhe a atenção, principalmente pelos orbes azuis intensos e os longos cabelos dourados, iguais aos do homem a seu lado.

Quem seria ela? –a jovem se perguntou confusa, embora algo dentro de si, respondesse qualquer questionamento que viesse a seguir.

-Shaka!

Tamanha semelhança só queria dizer uma coisa...

-Aaliah! –novamente o chamado, mas agora mais perto.

-Uhn? –ela murmurou.

-É melhor acordar, ou vamos nos atrasar para o almoço; Shaka falou, afagando-lhe as melenas azuladas.

Almoço? Mas estava acordando agora, não seria café? –a jovem se perguntou ainda anestesiada pelo sono.

-Que horas são? –Aaliah perguntou, abrindo os olhos.

-Meio dia; Shaka respondeu, vendo-a despertar completamente.

-Como?

-...; ele assentiu divertindo, vendo a confusão nos orbes dela. –Mas tudo bem, eles podem esperar um pouco; o cavaleiro completou sorrindo.

-Nossa, como dormi; Aaliah comentou, espreguiçando-se manhosamente.

-Você estava muito cansada; ele justificou, estreitando os braços em torno dela, puxando-a mais para si. –Mas com o que estava sonhando? –ele perguntou curioso.

-Como? –ela perguntou, voltando-se para ele confusa, aconchegando-se entre os braços do cavaleiro.

-Você estava me chamando; Shaka completou.

-...; Aaliah assentiu silenciosamente, procurando relembrar o que realmente havia visto para lhe chamar a atenção. Ah sim! Aquela mulher. –Sonhei com você e minha mãe; ela respondeu.

Shaka fitou-a atentamente, esperando-a continuar.

-Mas tinha uma outra pessoa junto; Aaliah falou com ar confuso.

-Quem? –ele perguntou curioso.

-Uma mulher, ela era igualzinha a você; ela respondeu.

-Como?

-Ela tinha os mesmos olhos, a cor e cumprimento dos cabelos eram iguais aos seus, apenas o tom de pele era diferente, ela tinha a pele mais alva; ela explicou. –Não me lembro de já ter visto alguém assim antes;

-Também não sei quem é; o cavaleiro comentou, com ar pensativo.

-Era sua mãe; Aaliah respondeu, chamando-lhe a atenção.

-O que disse? – Shaka perguntou, piscando confuso.

-No sonho, você me disse que ela era sua mãe; a jovem falou.

-Impossível; ele falou veemente.

-Por quê? –Aaliah perguntou confusa.

-Nunca cheguei a conhecer minha mãe, possivelmente ela morreu junto com aquelas pessoas na época das guerras civis no Tibet e Índia; o cavaleiro tentou justificou.

-Você não tem nenhuma lembrança dela? –a jovem perguntou hesitante.

-...; ele negou com um aceno.

Aaliah encolheu-se um pouco, era estranho pensar que não havia lembranças. Nada em que pudesse se apegar. Sempre fora tão apegada à mãe, que a separação fora tão difícil, mas o que fazer quando não havia lembranças? -ela pensou, sentindo uma estranha onda de tristeza lhe invadir.

-Aaliah! –Shaka chamou num sussurro. –Em que está pensando? –ele perguntou ao ver os orbes amendoados rasos d´agua novamente.

-Nada, não; ela tentou desconversar.

-Você não sabe mentir pra mim; ele falou fitando-a seriamente.

-Só estava pensando que... Você é uma pessoa muito forte; Aaliah falou, tocando-lhe a face com suavidade. –Não por ser um cavaleiro, mas como pessoa;

-Uhn? –o cavaleiro confuso.

-Eu ainda tenho saudades da minha mãe, às vezes não consigo deixar de pensar em todas as coisas que poderíamos ter feito se ela não tivesse partido, mas nunca pensei em como seria, se não houvesse o que se lembrar; ela completou, sentindo algumas lágrimas correrem por sua face.

-Não se sente falta daquilo que desconhece; ele falou, aparando as lagrimas suavemente.

-Uhn?

-Prefiro pensar que ela esta em um lugar melhor do que o mundo em que vivemos, do que pensar o pior; Shaka completou.

-Mas e se ela estivesse viva? –Aaliah falou.

O cavaleiro deu de ombros...

-Se não me procurou até agora, deve ter um motivo, não pretendo julga-la por suas decisões, mas também, não pretendo ir atrás de algo que não me faz falta.

Ponderou por alguns momentos, sentindo-se inquieta, realmente existiam algumas facetas do cavaleiro que ainda desconhecia e lhe deixavam confusa.

-Mas não pense mais nisso; ele falou, pousando um beijo suave em sua testa. –Quer descansar mais um pouco, eu ligo avisando Lisa que não vamos? –ele perguntou.

-Não precisa, deixa só eu tomar um banho e nós saímos; Aaliah falou levantando-se.

-...; ele assentiu.

-o-o-o-o-

-Obrigada por terem vindo; Lisa falou os cumprimentando com um sorriso.

-Nós que agradecemos; o cavaleiro falou cordialmente, enquanto puxava uma cadeira para que a jovem se sentasse.

-Obrigada; Aaliah falou com um meio sorriso.

Mal sentou-se na cadeira, para a sua surpresa outras quatro pessoas apareceram, bem conhecidas do casal.

-Shaka. Aaliah. Que bom que vieram; Dona Flora falou nem um pouco discreta.

-Como vão? –Aaliah perguntou, encostando a cabeça no ombro do cavaleiro, voltando-se para a senhora, com um olhar que impedia qualquer um com amor a vida de se aproximar.

-Bem; Dario respondeu.

-Como está querida? –Emilia perguntou, sentando-se ao lado do cavaleiro, seguida por Henry.

-Estou bem; ela respondeu calmamente.

-Com licença, desejam pedir? –um garçom perguntou, aproximando-se do grupo que já unia outras mesas para que tivesse espaço para todos.

-Ainda não, faltam mais algumas pessoas; Lisa falou, ignorando o olhar surpreso do casal.

-Como? –Aaliah perguntou, pausadamente.

-Ahn! Bem...; Rebeca balbuciou voltando-se para a mãe. –A senhora não contou para ela?

-Não deu tempo; Lisa respondeu com um sorriso constrangido.

-O que estão aprontando? –Shaka perguntou confuso.

-É só que bem... Gostaríamos de esclarecer algumas coisas, que acho que só você pode explicar; Lisa falou, gesticulando nervosamente.

-Eu? –o cavaleiro perguntou arqueando a sobrancelha.

-Desculpem a demora; três vocês falaram ao mesmo tempo, chamando-lhes a atenção.

Qual não foi a surpresa do casal ao ver Melissa, Rafael e Alicia se aproximando. Ouviram falar que a garota ainda estava no hospital, sem acordar. Os médicos não haviam diagnosticado como coma, mas ela não dava sinais de que acordaria tão cedo.

-O que está acontecendo? –Aaliah perguntou voltando-se para o avô.

-Desculpem-nos não tê-los avisado sobre isso antes; Dario se manifestou. –Nos últimos dois dias passamos tentando entender algumas coisas, mas foi impossível, então, bem...; ele ponderou. –Achamos que você pode esclarecer algumas coisas para nós; o senhor completou voltando-se para o cavaleiro.

-Eu? –Shaka perguntou, arqueando a sobrancelha.

-...; todos assentiram, como olhares de pura expectativa.

-O que querem saber? –ele perguntou calmamente.

Mal falou isso uma infinidade de perguntas recaíram sobre si, todos falavam ao mesmo tempo, impedindo que qualquer coisa fosse ouvida.

-Por favor, um de cada vez; Shaka pediu com ar cansado. –E eu achava que as reuniões de Áries eram complicadas; ele falou num suspiro, tirando um sorriso dos lábios da jovem.

-Vai se acostumando, você não viu nada ainda; Aaliah brincou.

-Eu queria saber por que a Melissa? – Rafael se manifestou de maneira hesitante, chamando a atenção do cavaleiro para si e fazendo os demais se calarem. –Porque ela?

-Já ouviram falar sobre as Fúrias, ou melhor, Erinias? –Shaka perguntou, recostando-se melhor na cadeira, logo recebeu um aceno negativo dos demais. –Elas eram deusas vingadoras, enquanto Nemesis a deusa da vingança, pregava suas maldições em divindades, as Erinias faziam isso com mortais;

-Não são as mesmas relacionadas ao complexo de Édipo? –Lisa perguntou. –As Erinias eram a manifestação da culpa que ele sentia e o perseguia aonde quer que fosse; ela comentou.

-Ao contrario da explicação sóbria da psicologia Lisa, as Erinias não eram apenas o peso na consciência dele, elas não só existiam, como o atormentaram, até que todos seus pecados fossem espiados e ele pudesse deixar esse mundo sem culpa; o cavaleiro explicou.

-Mas o que isso tem a ver com a Melissa? –Rebeca perguntou.

-Há alguns anos atrás, cinco, mais ou menos, Hades despertou nesse mundo como mortal, foi quando travamos a chamada Guerra Santa, onde os espectros de Hades pereceram com o mesmo, levando assim a destruição ao mundo inferior; o cavaleiro explicou. –Quando isso aconteceu, uma outra forma maligna despertou novamente em busca de vingança. Ela era Eris, a deusa da Discórdia;

-Mas...; Alicia balbuciou, achando difícil de acreditar.

-Um ano antes, um grupo de cavaleiros de bronze a enfrentaram e mandaram-na de volta para o Tártaro, ou Inferno, para resumir; ele falou. –Quando Hades morreu, muitas forças tentaram se libertar do selo criado pelo mesmo para impedi-las de retornar a Terra, assim, Éris foi uma das que conseguiu tal intento;

-E o que aconteceu depois? –Flora perguntou.

-Éris estava certa de que ao retornar ao mundo mortal, teria sua retaliação para com os deuses do Olimpo e teria o controle da Terra;

-Matando Athena, eu suponho? –Dario perguntou.

-Não; Shaka falou, negando com um aceno. –Durante as chamadas guerras santas, outros deuses estiveram diretamente ligados com as guerras, protegendo sua herança mortal. Entre eles posso citar pra vocês Eros e Anteros os deuses do Amor, Aurora a deusa do Alvorecer, Nick a deusa da Vitória, Luna e Hékates da lua, entre outras divindades, mas entre elas está Harmonia, deusa do amor, porém, também da guerra; ele explicou. –Nas ultimas batalhas, quando Éris despertou na terra, Harmonia foi a responsável por frustrar seus planos e ao despertar, Éris quis vingança;

-Isso é loucura, se essa tal de Harmonia a venceu outras vezes, porque ela acha que poderia vencê-la agora? –Rebeca perguntou, empolgada com a historia.

-Porque Harmonia agora é mortal; Aaliah respondeu, sob o olhar surpreso dela. –Graças a ela, todos os cavaleiros que morreram antes do tempo, devido à intervenção divina, voltaram à vida; ela explicou.

-Em troca disso, ela entregou sua imortalidade, podendo assim nos trazer de volta; Shaka falou, adquirindo um ar sério. –Por ter voltado-se contra os outros deuses, ela perdeu qualquer proteção divina, que impedia Eris de tentar mata-la, assim antes de deixar o Tártaro Éris libertou algumas erinias, permitindo que elas chegassem a terra;

-Então...; Rafael balbuciou.

-No período paralelo entre as guerras, Hades lacrou as erinias no Tártaro, para que elas não voltassem a atacar os mortais, impedindo que seus destinos fossem cumpridos. Então, como tudo funciona a base de equilíbrio, ele fragmentou suas almas, permitindo que aquilo que ele julgava ser o lado ruim, ficasse lacrado no Tártaro e o lado bom, ganhasse um corpo mortal para viver na Terra.

-Então, eu...; Melissa balbuciou, manifestando-se.

-Quando uma criança é gerada, ela cria um laço cósmico com a mãe, uma ligação que as mantém unidas em qualquer momento, sendo assim, ao renascer como mortal, a parte boa da erinia, poderia recomeçar, tendo a família escolhida pelas Deusas do Destino, para protege-la e impedir que a consciência ruim voltasse a despertar;

-Mas...; Alicia falou.

-Pessoas comuns tem o chamado sexto sentido, a intuição, quando a mãe sente que de alguma forma o filho não esta em suas condições normais, o alerta é imediato. Por isso ele supôs que, quando o lado ruim quisesse se manifestar, os pais iriam reprimir, não incentivar; ele completou, lançando um olhar dardejante a Alicia.

-Bem...; ela murmurou, encolhendo-se.

-Muitas erinias foram capturadas nos últimos anos, mas apenas Megaira manteve-se escondida, esperando o momento para despertar. Creio que você andou aprendendo a se controlar nos últimos anos, para impedi-la de despertar; ele explicou, voltando-se para a garota de melenas castanhas que instintivamente assentiu.

-Quer dizer que muitas coisas poderiam ser impedidas, se esse lado ruim fosse reprimido desde cedo? –Rebeca perguntou, olhando de soslaio para Alicia.

-Possivelmente, mas tudo acontece quando é para acontecer, pode ser que sim, pode ser que não; Shaka falou de maneira enigmática. –Mas as Deusas do Destino tem um jeito bem sádico de fazer as coisas, então, é impossível saber. Às vezes elas fazem as coisas apenas para colocar outras pessoas à prova; ele completou, enquanto por baixo da mesa, sua mão pousava suavemente sobre da jovem.

-Naquele dia, eu lembro que...; Melissa hesitou por um momento. –Eu, bem... Ela chamou, aquela garota de 'Protegida de Hypnos', quem é ela? –a garota perguntou confusa.

-Possivelmente Megaira também confundiu Isadora com Aimê; Shaka respondeu, chamando a atenção de Aaliah. –Hypnos foi quem conseguiu que Aimê retornasse a terra para reencontrar Filipe e no tempo em que permaneceu lá, eles foram os responsáveis por aprisionar algumas erinias de volta, a noticia certamente deve ter se espalhado, e Megaira achou que Aimê houvesse vindo pessoalmente leva-la de volta;

-Então Isadora esteve viva todos esses anos; Alicia comentou.

-...; Shaka assentiu.

-Por falar nisso; Flora começou, mas um barulho nada discreto chamou a atenção dos demais.

-Her! Meu celular; Aaliah falou, com um sorriso envergonhado achando que era o pai ligando. –Só um minuto; ela falou, pegando o aparelho, franziu o cenho ao reconhecer o numero. –Alô;

-Aaliah, o Shaka ta com você? –Milo perguntou do outro lado e ele não parecia nem um pouco calmo.

-Está; ela respondeu confusa.

-Posso falar com ele?

-Só um minuto; a jovem avisou, voltando-se para o cavaleiro. –Você está com o celular ligado?

-Não, acabou a bateria e eu deixei carregando; o cavaleiro falou calmamente. -Por quê?

-Milo quer falar com você; ela respondeu, estendendo-lhe o aparelho.

-...; Shaka assentiu, pegando o aparelho. –Com licença; ele falou se levantando para deixar a mesa.

-O que será que aconteceu? –Flora comentou curiosa, vendo o cavaleiro se afastar.

-Não sei; Aaliah balbuciou pensativa.

Estava intrigada com uma coisa, como Isadora soubera do que estava acontecendo? –ela se perguntou, mas era melhor esperar Shaka retornar e perguntar isso a ele.

Continua...