De Volta ao Vale das Flores
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah é uma criação única e exclusiva minha para essa saga.
Boa Leitura!
N/a: Não percam 'Luthier – Uma Melodia para Sonhar (A Melody to Dream), o prólogo de 'De Volta ao Vale das Flores'.
Capitulo 17: As lágrimas de um santo homem.
♥
Parece absurdo
Mas tente aceitar
Que os heróis
Também podem sangrar...
♥
.I.
Jogou-se confortavelmente na cama macia, fitando os pequenos cristais acima de si no véu azulado.
Fechou os olhos por um momento, sentindo-se inquieta, mesmo depois do banho relaxante.
Ainda se recordava da expressão surpresa e porque não dizer 'chocada' dele quando lhe falara sobre sua relação com Milo. O que ele esperava? Que dissesse estar loucamente apaixonada pelo Escorpião?
-Homens! –ela suspirou girando os olhos.
Porque era tão difícil entender que eram amigos e não 'algo mais', porém o que lhe deixava inquieta era a conversa com Aimê.
O pedido da jovem para que desse uma nova chance a ele e tivesse paciência com as novas mudanças que ocorreriam, mas havia uma coisa que não lhe deixava conseguir isso.
Aaliah! Sim, a jovem era sua amiga e não queria de forma alguma que a amizade que tinham fosse traída por causa do cavaleiro.
Via aquela menina como a si mesma quando mais jovem, numa época que sonhava que o mundo era encantado, povoado por príncipes encantados e cavalos brancos. Mera utopia para aqueles que ainda sofrem os reflexos de uma era de guerras.
Aaliah era jovem, apaixonada pela vida, viu isso no brilho de seus olhos quando conversaram pela primeira vez, logo na semana que chegara a Grécia depois de anos longe.
Fazia pouco tempo que ela chegara de Visby, talvez essa coincidência servira apenas para aproxima-las mais e a mesma paixão por rosas também contribuiu com isso.
Mas com o passar dos meses muitas vezes a via apática e triste, o que lhe fez procurar Shaka diversas vezes para conversar, superando aquela pequena 'antipatia' inicial do primeiro encontro anos atrás, para concentrarem-se em algo mais importante, já que via de longe a afinidade entre os dois.
Sabia que Aaliah tinha a necessidade de conhecer o pai, perguntar e saciar sua curiosidade a cerca da vida dele e Afrodite, precisava voltar a abrir seu coração para amá-la como filha, ignorando as magoas que ainda restavam pelo tempo perdido devido as guerras do santuário, que obrigaram-no a mudar seu jeito de pensar e agir, embora alguns sentimentos jamais houvessem deixado de existir.
Não queria ficar no meio disso, sabia o que era sentir a falta do apoio familiar e também por isso queria distancia do cavaleiro, para que o mesmo tivesse espaço para pensar e escolher seus próprios caminhos.
Imersa em pensamentos, mal ouviu quando a porta se abriu e um homem de traços aristocráticos e elegantemente vestido entrou.
Fitou-a com um olhar terno, enquanto sentava-se na beira da cama...
-Pai! –Isadora virou-se surpresa para o lado, ao reconhecer sua presença.
-Estava com saudades; ele falou afagando-lhe as melenas carinhosamente.
Sentiu os orbes marejarem, antes de lançar-se nos braços do antigo cavaleiro, deixando a alma se libertar de todos os sentimentos que impediam seu coração de ser completamente livre.
-o-o-o-o-o-
-O que deseja Milo? –Shaka perguntou ao atender o celular num lugar mais discreto fora do restaurante.
-Shaka, a Isa sumiu; o Escorpião falou em tom desesperado.
-O que? –o cavaleiro quase gritou surpreso.
-Antes de ontem ela brigou com Afrodite; Milo começou. –Depois acho que foi pra casa, mas ai no dia seguinte aquela garota que cuida do Donatelo pra ela, me ligou avisando que a Isa havia feito uma viajem de ultima hora e lhe avisara as pressas também;
Parou com ar pensativo, era obvio que Isadora fora para Visby, os dias coincidiam com o que acontecera, mas porque ela não voltara para casa?
-Shaka, não sei mais o que fazer, já tentei localiza-la pelo cosmo, pedia até ao Mestre Shion para ir a Star Hill ver se pelo menos as estrelas dizem alguma coisa, mas ele se recusou, disse que talvez ela não queria voltar, mas Shaka a Isa não é de fugir de nada, ela tem que estar em algum lugar e você é minha ultima esperança; ele completou num fôlego só.
-Milo, não sei aonde Isadora esta, mas...; ele ponderou ao ouvir a respiração do outro lado tornar-se pesada. –Vou ver o que posso fazer e retorno pra você depois; o cavaleiro completou.
-Obrigado Shaka, não queria lhe incomodar com isso, mas eu me preocupado demais com ela e aquele idiota do Afrodite conseguiu estragar tudo de novo, antes ela continuasse achando que ele é gay; Milo desabafou.
-O que ele fez? –Shaka perguntou curioso.
-Teve um ataque de ciúmes e quase me matou com uma planta carnívora; Milo exasperou.
-Não acredito; ele balbuciou incrédulo, um ataque desses nem mesmo Kamus fazia e olha que atualmente ele era o mais ciumento entre os cavaleiros, que nem mesmo o Grande Mestre e sua super-proteção para com a esposa e filha, conseguiam ganhar do aquariano.
-Pra você ver e a Isa com razão chutou ele de novo; o Escorpião falou com ar de 'fui vingado'. –Mas apesar de tudo, sei que ela gosta desse idiota e ficou magoada com tudo que aconteceu; ele completou quase num muxoxo.
-Não duvido; o cavaleiro comentou.
-Eu queria falar com ela, mas não consigo localizá-la, então, se conseguir algo, me avise, por favor; ele completou.
-Pode deixar, vou fazer o possível; Shaka falou.
-Obrigado! Até mais;
-Até; ele respondeu desligando o celular.
Encostou-se em uma parede, passando a mão levemente pelos cabelos. Isadora sumiu depois de lhe ajudar com a erinia, mas aonde ela fora depois disso? –ele se perguntou intrigado.
De soslaio viu uma sombra movimentar-se a sua esquerda, virou-se rapidamente a tempo de ver a silhueta de uma jovem de longos cabelos dourados e pele alva indo em direção ao dec do porto atrás do restaurante.
Franziu o cenho sentindo-se inquieto, guardou o celular no bolso e pôs-se a andar rapidamente para alcançá-la. Ela lhe parecia muito familiar, alias, extremamente para ser mais especifico.
Viu-a parar numa pequena ponte de madeira que mantinha alguns barcos ancorados ali para uso dos clientes e funcionários.
O longo vestido branco esvoaçava levemente com o vento, deixando-a tão surreal como se fosse apenas um espectro de luz materializado a sua frente, mas preferia acreditar que era um anjo devido à aura de pureza a envolver-lhe.
-Quando nos sentimos perdidos, de alguma forma voltamos a nossas origens, ou ao único lugar que podemos encontrar nossa verdadeira essência; Astréia falou sem voltar-se para trás.
Fitou-a atentamente, havia algo em sua mente que gritava para se libertar e faze-lo lembrar-se porque ela era tão familiar.
-Existem momentos que a fé se enfraquece e a discórdia tenta ganhar forças, momentos que as lagrimas são mais fortes e seu único desejo é se entregar a elas; ela continuou.
-Quem é você? –Shaka perguntou com a voz tremula.
-Quem sou eu? –Astréia repetiu para si mesma. –Muitas foram às vezes que me perguntei isso; ela falou pensativa.
-Sabe onde Isadora está? –ele arriscou-se em perguntar, deixando-se guiar pela 'intuição'.
-Você já tem as respostas, basta apenas busca-las nos lugares certos; ela rebateu de maneira enigmática.
Estancou surpreso lembrando-se que a alguns anos atrás ouvira estas mesmas palavras de Harmonia, quando ela fora ao santuário para lhe falar sobre o nono sentido.
-Bem...; ele balbuciou um pouco confuso.
Astréia virou-se para ele com um olhar sereno, as íris azuladas refletiam um azul límpido de um céu primaveril, capaz de inebriar os sentidos e apagar as duvidas.
Foi como se um raio caísse sobre si e um arrepio de alerta corresse por sua espinha ao fitá-la diretamente.
De alguma forma sentia-se refletido naquele olhar, ou pior, era como se visse a si, nela.
-Lembrança-
–Sonhei com você e minha mãe; ela respondeu.
Shaka fitou-a atentamente, esperando-a continuar.
-Mas tinha uma outra pessoa junto; Aaliah falou com ar confuso.
-Quem? –ele perguntou curioso.
-Uma mulher, ela era igualzinha a você; ela respondeu.
-Como?
-Ela tinha os mesmos olhos, a cor e cumprimento dos cabelos eram iguais aos seus, apenas o tom de pele era diferente, ela tinha a pele mais alva; ela explicou. –Não me lembro de já ter visto alguém assim antes;
-Também não sei quem é; o cavaleiro comentou, com ar pensativo.
-Era sua mãe; Aaliah respondeu, chamando-lhe a atenção.
-O que disse? – Shaka perguntou, piscando confuso.
-No sonho, você me disse que ela era sua mãe; a jovem falou.
-Fim da Lembrança-
-Quem é você? –Shaka perguntou novamente, sentindo o coração se apertar com a infinidade de coisas que passavam por sua cabeça agora, deixando-o atordoado.
Astréia recuou um passo instintivamente, abaixando os olhos, apoiou uma das mãos sobre o colo, que em seguida fechou-se nervosamente sobre uma das alças do vestido, enquanto a outra, mantinha-se enlaçada em sua própria cintura.
-Você tem todo direito de me odiar Shaka, nos últimos anos-...;
-Não foi isso que eu perguntei; ele a cortou num tom quase frio, apenas para mascarar a ansiedade que tentava sobrepujar a razão.
-Eu...; ela balbuciou com a voz tremula.
-RESPONDA! –o virginiano exigiu, avançando um passo, fazendo-a recuar dois.
-As-tré-ai, deusa da justiça; a jovem respondeu sentindo a corpo tremer de medo.
Viu-o adquirir uma postura tensa para relaxar em seguida, quase suspirou aliviada, mas viu-o dar-lhe as costas e afastar-se.
-Aonde vai? –Astréia perguntou confusa.
-Procurar Isadora; Shaka respondeu simplesmente, desaparecendo pelo caminho que fizera.
Não sabia o que era pior, a idéia de ouvi-lo gritar chamando-lhe de irresponsável pelos anos longe, ou aquela indiferença que feria-lhe o coração?
.II.
-Como sabia que eu viria? –Isadora perguntou curiosa, olhando para um ponto qualquer do quarto, enquanto os cabelos eram afagados pelo pai.
-Eu também já me senti perdido, sem saber o que fazer, então, voltava pra cá, o único lugar que eu poderia me encontrar; Eliot falou.
Ela assentiu silenciosamente. Sim! Aquela era sua casa, o único lugar que apesar de tudo, sua mente, alma e coração poderiam se equilibrar.
-Esses dias sonhei com sua mãe; o pisciano falou, recostando-se melhor na guarda da cama. –Ela estava tão linda; ele falou suspirando.
-Mamãe sempre foi muito bonita; a jovem concordou.
-Eu também sinto muito a falta dela Isa, embora eu saiba que você ainda não consegue me perdoar por ter me casado com Heloisa; ele falou com pesar.
-Cada um tem livre arbítrio de escolher o caminho que melhor lhe apetece, meu pai; ela respondeu num tom frio e tenso.
-Eu sei, não deixar-se cegar também; Eliot falou, entrelaçando os dedos suavemente entre os fios esverdeados da jovem, iguais aos seus. –Às vezes eu me perguntou como seria se ela estivesse aqui;
-...; ela assentiu, muitas vezes já fizera a mesma pergunta.
-Mas a única coisa que tenho certeza é que ela se orgulharia da mulher que você se tornou; ele completou.
Sentiu as lágrimas tornarem a cair por sua face, como queria ter aquela mesma certeza do pai...
-Chora, vai te fazer bem; Eliot sussurrou cobrindo-lhe o corpo com uma manta, vendo-a encolher-se um pouco.
Os delicados cristais sobre o véu do dossel brilharam, como as estrelas que estavam janela a fora, com a noite que caia.
-o-o-o-o-o-
Viu-o entrar novamente no restaura e fitou-o preocupada, havia alguma coisa o incomodando; ela pensou.
-Desculpem a demora; Shaka falou, sentando-se.
-Algum problema? –Dario foi o primeiro a perguntar.
-Não; ele respondeu com simplicidade.
-Então podemos pedir? –Rebeca perguntou, mudando de assunto ao ver que o cavaleiro não queria ninguém lhe interrogando.
-o-o-o-o-o-
Era de partir o coração, nunca gostou de vê-la chorar e novamente via essa cena se repetir, doía; ele pensou aproximando-se a passos lentos da jovem de melenas douradas.
Ela estava sentada em frente ao lago de águas cristalinas, rodeada pelas mais belas rosas vermelhas do mundo, que nem Afrodite doando todo seu sangue, poderia criar iguais.
-Filha; ele chamou apoiando a mão no ombro levemente desnudo pela fina alça tão branca quanto sua pele.
Astréia ergueu os orbes, encontrando os olhos azuis do pai sobre si, tão compreensivos, que poderia fazê-la realmente acreditar que ele sabia o que sentia.
-Preferia ouvir que ele me odiava; ela falou num sussurro, com as lagrimas caindo impiedosamente por sua face.
-Ele jamais diria isso, querida; o onipotente falou sentando-se a seu lado, com a esplendorosa túnica branca a mover-se com graciosidade quando ele movimentou-se.
-Só tenha um pouco de paciência; ele pediu.
-Não consigo; ela falou num fraco sussurro.
-Sente muito a falta dele, não é? –Zeus perguntou.
-Todos os meus dias, nos últimos trinta anos; Astréia falou pausadamente.
-Sabe que poderia trazê-lo de volta pra você, não é? –ele falou fitando-a de soslaio.
-Já me disseste isso varias vezes, mas não quero;
-Por quê? –Zeus perguntou impaciente.
-Porque eu fiz minha escolha, não quero que Seth perca sua natureza por um capricho meu; Astréia respondeu calmamente.
-Capricho? –ele indagou surpreso.
-Perante deuses e homens jurei ama-lo por toda minha vida, mesmo que não estivéssemos juntos, ou que por ventura, numa nova vida, nossos caminhos não voltem a se cruzar;
-Mas isso é injusto demais, até mesmo para nós; Zeus protestou.
-Aprendi isso com Harmonia nos últimos anos; ela falou enquanto acariciava as pétalas vermelhas de uma rosa próxima a si. –Não se pode forçar o amor, pois sua maior beleza está em ser livre.
-Harmonia, não sei quem essa rebelde puxou. Ares e Afrodite não são assim; ele reclamou, tirando um sorriso dela.
-Você! –Astréia respondeu.
-Uhn?
-Ela puxou a você; ela falou veemente. –Ainda me lembro de como me apoio quando ele nasceu e como amparou Sati e Kala depois que parti;
-Era o mínimo que podia fazer; Zeus respondeu num sussurro.
-Não, você fez mais do que podia e vou lhe agradecer sempre por isso, mas acredite, Harmonia mudou muitas vidas, mesmo tendo de lutar contra seus próprios demônios; ela falou de maneira enigmática.
-É, isso ela tem a quem puxar, essa determinação foi de Ares, ele sabe ser teimoso quando quer; ele falou com um meio sorriso.
-Sinto falta de Seth, mas sei que as Deusas do Destino vão tecer o melhor caminho para ele, não importa em qual dos mundos; a jovem falou com um olhar vago.
-Mas e ele? –o onipotente questionou.
-Não sei; Astréia balbuciou com o olhar nublado.
-Uma hora terá de encará-lo novamente; Zeus falou.
-...; ela assentiu.
-Mas não perca a fé, tudo vai se resolver; ele falou, apoiando a mão sobre a dela, incentivando-a.
.III.
Despediram-se dos amigos e recusando veementes um chocolate com Flora e Dario, voltaram para casa. O caminho foi silencioso e tenso, era como se uma nuvem carregada houvesse caído sobre os dois.
Entreabriu os lábios para falar, mas qualquer indagação morreu em sua garganta ao vê-lo compenetrado na estrada que nem olhava para os lados.
Virou-se para a janela, suspirando cansada, o que será que estava acontecendo, antes do almoço ele estava aparentemente bem, mas algo acontecera quando ele saira para falar com Milo; ela pensou intrigada.
Chegaram ao vale das flores, entrando rapidamente na mansão...
-Shaka! –Aaliah chamou enquanto trancava a porta.
-Vou tomar um banho, depois conversamos; ele avisou, antes mesmo que ela pudesse falar algo ele já subia as escadas apressadamente.
Fitou-o tristemente, não gostava de vê-lo daquela forma, era estranho não conseguir entender o que ele sentia quando às vezes era tão transparente para ele.
-o-o-o-o-o-
Abriu o registro bruscamente, sentindo a água fria chocar-se contra o corpo quente. Encostou-se na parede, deixando-se escorrer até o chão.
Prendeu os dedos entre os fios dourados de maneira nervosa, tentando apagar todas aquelas lembranças de sua mente.
Era como se uma parte de si houvesse se quebrado, agora lembrava-se da imagem meio difusa de uma mulher de cabelos dourados e orbes azuis.
Tão tristes!
Consegui-a vê-la chorando e em seu intimo vinha aquela sensação de perda, quando um singelo 'Adeus' saiu num sussurro dos lábios dela.
Não queria lembrar, passara tantos anos sem precisar daquilo pra viver, porque elas voltavam justamente agora?
-o-o-o-o-o-
Subiu as escadas com passos pesados, encontrou a porta do quarto do cavaleiro entreaberta. Franziu o cenho, sentia que alguma coisa estava errada. Ao se aproximar, a porta abriu-se sem ranger.
Ouviu o barulho de água caindo e notou que a porta do banheiro também estava entreaberta.
Movida pela curiosidade e incerteza, aproximou-se, vendo pela brecha da porta o cavaleiro sentado no piso frio.
-Shaka! –ela falou assustada, entrando no banheiro.
-Me deixa; ele pediu num tom suplicante.
Correu até ele ajoelhando-se a seu lado, ignorando a água cair sobre si agora.
-O que foi? –Aaliah perguntou aflita, tentando afastar-lhe as mãos da face, foi com surpresa que viu os orbes azuis agora avermelhados enquanto lágrimas amargas se misturavam a água doce que caia sobre eles.
-Me deixa; ele pediu numa ultima tentativa de ficar sozinho.
-Não; ela falou veemente.
Abraçou-o fortemente, ouvindo um soluço a muito travado em sua garganta, libertar-se finalmente.
-Eu estou aqui, com você; a jovem sussurrou.
Nunca pensou que algum dia fosse ver aquilo, sentia o coração se apertar a cada soluço que ele dava, sem que soubesse como lhe ajudar.
Os homens também choram, até os santos e também os deuses; ela pensou, afagando-lhe as melenas douradas.
-o-o-o-o-o-
Viu-o sentado em frente à lareira que agora tinha apenas uma pequena centelha vermelha a queimar.
-Há quanto tempo? –Eliot perguntou sem se virar.
-Boa noite, tio; Minos respondeu se aproximando e sentando-se na poltrona ao lado dele. –Como o senhor está?
-Bem; ele respondeu. –Mas estou preocupado com Isadora;
-Imagino; o juiz falou pensativo. –Mas ela é forte, vai saber como encaminhar a própria vida;
-...; Eliot assentiu. –Eu sei, mas não gosto de vê-la sofrer;
-Mais do que nos últimos anos? Acredite que não; ele alfinetou.
-Não preciso que me lembre de minhas negligencias, Minos; o pisciano falou áspero.
-Eu sei meu tio, estou apenas lhe lembrando que Isadora já sobreviveu ao pior, certamente ela saberá ter forças para superar mais essa; o espectro falou veemente.
-Ela sabe o que fez? –Eliot perguntou num tom sombrio.
-Sabe, eu já havia contado a ela há algum tempo; Minos respondeu sem dar muita importância ao assunto.
-E você fala isso assim? –ele exasperou.
-Meu caro tio; Minos foi enfático. –Fiz e faria de novo se fosse possível, não sinto um pingo de remorso por ter mandado aquela mulherzinha e seu amante para o inferno; ele sentenciou. –Esse é o destino de todos aqueles que tentam ferir minha prima.
-Você a ama? –Eliot perguntou a queima roupa.
-Ela é tudo que tenho; o cavaleiro respondeu serio. –Foi à única que não deu as costas pra mim quando me tornei juiz, como alguns falsos puritanos que conheço;
-Não foi isso que perguntei; ele falou taxativo.
-Eu sei o que perguntou e não lhe interessa; Minos cortou frio.
-Com licença, senhor; Marie entrou cautelosa.
-Sim!
-O jantar logo vai ser servido; ela avisou.
-Obrigado.
-o-o-o-o-o-
Entrou na cozinha novamente enquanto ajeitava a toquinha que prendia os cabelos.
Ver aqueles dois conversando depois de tanto tempo era surpreendente e assustador.
Lembrava-se ainda das duas crianças brincando no jardim de Isabel alegremente, eles tinham pouca idade de diferença, mas via-se nos olhos do garoto toda a dedicação e carinho que dispensava a garotinha.
Os vira crescer, transformarem-se, tomando decisões distintas que os levaram a caminhos inesperados. E tal fato foi o que impediu de ver novamente aquela cena da sala nos últimos anos.
Eliot jamais admitiu que Minos fosse um espectro de Hades, da mesma forma que Isadora, jamais perdoou o pai por ter-se casado com Heloisa.
Ainda lembrava-se, Minos tinha por volta de quatro anos quando Isadora nasceu.
Ele era o único parente da família de Isabel que visitava a mansão com os pais, desde cedo viu a adoração do pequeno pela menina, que conforme o tempo passava, tornou-se alem de dedicação. Viu isso nos orbes dourados o amor que ele sentia por ela e é triste ver que tal sentimento jamais fora revelado.
Logo Isabel morreu e Minos foi convocado, com isso ele e Isadora não voltaram a se reencontrar, dois anos depois a menina deixava a mansão para não mais voltar.
Agora, não só Isadora estava de volta, como Minos também, ambos com o espírito e almas regeneradas, deixando as dores de lado para enfrentarem numa ultima batalha seus demônios mais persistentes.
Continua...
