.::De volta ao Vale das Flores::.
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah, Astréia e é uma criação única e exclusiva para essa saga.
Boa Leitura!
Capitulo 20: Laço Eterno.
.I.
Fechou os olhos sentindo o vento bater em seu rosto de maneira reconfortante, enquanto o corcel amendoado o bosque com incrível velocidade.
-Hei! Me espera; Minos reclamou ao ser deixado para trás.
-Você esta demorando muito; Isadora provocou com um meio sorriso.
Sentiu-o saltar e apenas fechou os olhos, abriu os braços, tendo aquela deliciosa sensação de planar.
Aos poucos sentiu o trotar do cavaleiro diminuir e raios cálidos de sol caírem sobre seu corpo, abriu os olhos vendo-se no topo de um penhasco, onde abaixo de si podia avistar um vale verde e florido, enquanto atrás, erguiam-se as frondosas arvores do bosque próximo a mansão.
Ainda lembrava-se de que quando era criança, sai para cavalgar com Minos e encontraram aquele lugar, aquele maravilhoso bosque, semelhante aos das mágicas historias que o primo lhe contava sobre castelos místicos e pessoas misteriosas, na esperança de lhe fazer dormir logo, mas isso apenas atiçava-lhe a curiosidade, fazendo-o contar a mesma historia inúmeras vezes de maneira diferente, até satisfazer-lhe e por fim, cair num somo profundo.
Deu um meio sorriso ao reconhecer o caminho que tantas vezes já haviam percorrido, fora também naquele lugar que conhecera Francis.
Naquela época, haviam saído para cavalgar e entrado demais no bosque, ainda conseguia rever inúmeras vezes aquela cena.
-Lembrança-
-Isadora, não vá muito longe; Minos pediu tentando alcança-la, mas a garotinha parecia simplesmente não lhe ouvir.
Ouviu o som de um piado e o cavalo da prima que estava pouco mais que dois metros longe de si, desaparecer. Esporou o seu, fazendo-o correr para alcança-la, até vê-la chegar em uma clareira e desmontar.
-Isadora;
-Xiiiiiiiiiii; ela fez sinal para que se calasse.
Desmontou do cavalo, prendendo-o em uma arvore próxima de si para que não fugisse, enquanto se aproximava. Viu-a suavemente ajoelhar-se no chão repleto de folhas secas e estender a mão para tocar algo.
Por um momento pensou em detê-la, temendo que ela acabasse por se ferir com algo, mas desistiu ao ouvir novamente aquele pio.
-Vem; a pequena Isadora chamou, tocando delicadamente o pequeno cisne caído aos pés de uma arvore.
A pequena ave encolheu-se instintivamente, fitando-a desconfiado, mas diante do sorriso acolhedor da jovem arriscou-se a mover-se novamente, mas pios contraindo o semblante em uma expressão de dor, devido a pata machucada.
-Ele deve ter caído; a garotinha falou pegando-o entre os braços.
Minos aproximou-se com cautela, vendo-a praticamente ninar o bichinho que parecia ter se aquietado.
-Um cisne; Minos falou vendo a penugem acinzentada destacar-se em meio a pele alva dos braços da garotinha, mas era apenas olhar e poderia constatar algumas plumas brancas já se insinuando entre as acinzentadas.
-Posso chamá-lo de Francis? –Isadora perguntou voltando-se para o primo com um olhar pidão.
-Não; ele respondeu tentando manter-se indiferente ao olhar da jovem, que logo tornou-se raso de lagrimas.
-Porque? –ela perguntou fazendo beicinho e estreitando ainda mais os braços em torno do filhote, não querendo se separar dele.
-Porque um cisne não é um animal de estimação, como um gato ou cachorro, você não pode ficar com ele Isa; Minos explicou, tentando não se deixar dobrar pela prima, quando Isadora queria, ela fazia até uma pedra se voltar as suas vontades.
-Mas...; a garotinha balbuciou.
-Vem, vamos leva-lo até o ninho e ir embora, logo vai escurecer; ele falou estendendo a mão a ela.
-Não quero ir; Isadora falou com ar emburrado recusando-se a levantar.
-Isadora, por favor; Minos falou em tom sério, sendo logo obedecido. –Você sabe que estou certo; ele completou fitando-a, mas a jovem deu-lhe as costas lhe ignorando, enquanto seguia até o cavalo e puxando-o pelas rédeas. –Isa;
-Você não disse que vai escurecer, então vamos; ela falou em tom sério, pouco usual de sua personalidade sempre tão carismática, mas viu-a desviar o olhar seguindo em frente puxando o cavalo enquanto mantinha o cisne em seu braço.
Respirou fundo, tentando ser veemente pelo menos seus pensamentos, mas vê-la chorar enquanto caminhava em direção ao vale dos cisnes, lhe doía demais, se pudesse impedir aquelas lagrimas de cair, certamente o faria, mas não podia, mesmo porque sabia que se agia assim, era pelo próprio bem dela no futuro.
-o-o-o-o-o-
-Isadora! –a jovem de melenas azuladas chamou, porém a garotinha entrou correndo em casa sem ao menos parar para falar consigo.
-Desculpe tia, a culpa é minha; Minos falou acabando de entrar, com ar cansado.
Isabel voltou-se para o sobrinho notando-o abatido, logo compreendeu que para ele estar daquela forma, provavelmente a filha e ele haviam tido algum desentendimento.
Aproximou-se do pequeno, afagando-lhe as melenas prateadas, vendo-o agarrar-se em suas pernas e chorar.
-Calma; Isabel sussurrou, ajoelhando-se até a altura dos olhos dele. –Quer me contar o que aconteceu? –ela perguntou apagando o rastro úmido que cortava-lhe a face.
-...; O garotinho assentiu, enquanto deixava-se guiar pela jovem.
-o-o-o-o-o-
Entrou correndo no quarto, jogando-se na cama, deixando por fim as lagrimas correrem livremente por sua face. Não queria ter deixado Francis naquele lago, por mais que soubesse que ali era o lugar dele.
Haviam tantos cisnes naquele lago ao fundo do vale, que nem mesmo os cenários descritos por Minos em suas historias poderiam se equiparar com aquele lugar.
Mas a verdade é que lhe doía muito deixar o pequeno filhote ali, sabendo que talvez nunca mais fosse vê-lo e também, não queria ter brigado com Minos, mas porque o primo não queria entender que acabara se apegando a pequena ave? –ela se perguntou em meio aos soluços.
Mesmo não desejando dormir, aos poucos o cansaço foi tomando conta de seu corpo e quando deu por si, jazia embalada pelos braços de Hypnos rumo ao reino dos sonhos.
Não sabia quanto tempo havia dormido, mas algo aos poucos lhe despertou. Sentiu os raios cálidos do sol caírem sobre sua face e abriu os olhos. Um barulho insistente chegou a seus ouvidos.
Olhou para os lados notando que já era dia, deixou os olhos correrem pelo quarto até encontrar a origem do barulho. Franziu o cenho ao ver que isso vinha de uma das janelas, mas o que será que era? –ela se perguntou lembrando-se que seria impossível alguém subir até sua janela, mesmo porque seu quarto ficava no terceiro andar.
Levantou-se, deixando as cobertas caírem da cama e aproximou-se da janela, arregalou os olhos surpresa ao ver um cisne bicando o vidro, tentando abri-la.
Apressou-se em abrir as janelas, para que ele não corresse o risco de se machucar ao quebrar algum vidro. A bela ave entrou no quarto em meio a um vôo gracioso, fazendo uma perfeita meia lua pelo cômodo antes de sair voando pela janela.
A garotinha que ainda estática estava a alguns passos longe da janela, correu se aproximando para ver aonde a ave estava agora e o que viu em seguida lhe surpreendeu.
A vista que tinha de seu quarto dava para o lago da mansão, onde existiam as belas rosas azuis de sua mãe, mas agora o lago estava repleto de cisnes brancos, os mesmos cisnes que vira no vale no dia anterior.
Ao deixar seus olhos correrem pelo local, viu o primo sentado na beira do lago com um filhote no colo. Viu-o virar-se em sua direção acenando para que descesse, o que não pensou duas vezes para faze-lo.
-Fim da Lembrança-
Deu um meio sorriso, eram tantas lembranças boas que vinham em sua mente agora que sentia aos poucos seu coração mais calmo. Desde aquele dia Francis jamais lhe deixou, até que com pesar teve de deixar a mansão, mas de alguma forma agora que estava ali tudo parecia tão certo.
-Vamos descer? –Minos perguntou emparelhando seu cavalo ao dela, tirando-lhe de seus pensamentos.
-O que você acha? Agüenta uma boa corrida ou está velho demais para isso? –ela provocou fazendo-o serrar os orbes.
-No três e não vale sair antes; ele avisou.
-Certo; ela concordou com um sorriso matreiro.
-o-o-o-o-o-
Ouviu a campainha tocar, terminou de se arrumar, enquanto ainda ouvia a água do chuveiro caindo no cômodo ao lado.
-Eu vou atender; Aaliah avisou deixando o quarto.
Desceu as escadas rapidamente, não querendo deixar ninguém esperando do outro lado. Só esperava que quem quer que fosse ali, que não demorasse demais, afinal, só faltava o cavaleiro terminar de se arrumar para saírem.
Viu por um olho mágico na porta que se tratava de uma mulher do outro lado, concentrou-se não sentindo a energia de mais ninguém com ela, até abrir a porta com segurança.
-Pois não?
Viu-a virar-se para si com um olhar calmo, mas mesmo assim não conseguiu deter um estremecimento ao vê-la diante de si.
Como eram parecidos; Aaliah pensou fitando-a atentamente.
-Desculpe, não quero incomodar, mas...; Astréia começou hesitante. –Bem, eu...;
-Entre, por favor; Aaliah falou antes que ela continuasse.
Astréia assentiu, vendo-a dar-lhe passagem, passou pela jovem, adentrando a casa com passos incertos.
Tinha medo de como ele iria reagir por vê-la ali, mas precisava tentar nem que fosse a ultima vez; ela pensou ouvindo a porta fechar-se.
-Ele esta no banho, mas já vai descer; a jovem falou tentando manter a calma e controlar aquela ansiedade que lhe assaltava.
-Minha jovem, eu...; Astréia começou, mas foi interrompida.
-Não se preocupe a senhora não me deve explicações; Aaliah falou calmamente. –Mas venha comigo até a sala, vocês ficaram mais confortáveis para conversar.
-Obrigada; ela agradeceu seguindo-a.
.II.
Sentou-se na beira do lago vendo algumas vitórias-régias dançarem sobre a água cristalina. O vento soprava entre as arvores e o canto suave dos pássaros chegava até si acalentando-lhe a alma.
-Em que esta pensando? –Minos perguntou deitando-se na grama ao lado dela, apoiando a cabeça sobre os braços e relaxando o corpo.
-Na verdade... Nada; Isadora respondeu sorrindo. –Não consigo pensar em nada estando aqui;
-Nem nele? –o cavaleiro indagou como quem não quer nada.
-Quem? –ela perguntou deixando-se cair na grama, vendo de soslaio algumas folhas secas erguerem-se do chão com graciosidade.
-No almofadinha; ele falou em tom de provocação, enquanto ela virava-se para si, deitando a cabeça em seu ombro, como faziam quando eram crianças.
-Filipe não é um almofadinha; Isadora falou em tom enfezado.
-Uhn! Vai me dizer que a primeira vez que o viu, não achou que ele só faltava andar com uma plaquinha pendurada no pescoço dizendo 'I Love Me'? –Minos perguntou com um sorriso matreiro.
-Você me assusta; Isadora falou em tom sério, para depois de alguns minutos rir.
-Admita! –o cavaleiro insistiu.
-Está certo, eu pensei isso; Isadora falou aconchegando-se nos braços dele, quando o mesmo enlaçou-lhe pela cintura. –Às vezes acho que só você consegue me entender; ela murmurou.
-Não, eu só te conheço há bastante tempo; ele brincou, mexendo distraidamente em uma mecha esverdeada que caia sobre seu peito.
-Não é verdade; ela falou dando um baixo suspiro. –Você sempre esteve comigo;
-Nem sempre; Minos corrigiu lembrando-se daquele fatídico dia que ela quase batera nos portões de Hades.
-Mas foi o suficiente; Isadora completou num sussurro, deixando que aos poucos uma onda de silêncio os abraçasse de maneira reconfortante.
-Não acha que fugir dos problemas só ira lhe ferir mais? –Minos perguntou depois de alguns minutos de silêncio.
-Uhn? –ela murmurou confusa.
-Tem uma coisa que eu não entendo; ele começou.
-O que? –Isadora perguntou.
-Porque você tem tanto medo de se apaixonar? –Minos perguntou virando-se para ela, vendo-a com um olhar chocado. –Pois é isso que eu sinto vindo de você, que você tem medo por algum motivo.
-Eu não... ; ela balbuciou, afastando-se dele para em seguida sentar-se na grama.
-Isa, não quero que admita nada, apenas que reflita sobre de quem você esta fugindo. Dele ou de você mesma; Minos falou sentando-se ao lado dela.
-Não sei; Isadora murmurou com um olhar perdido. –Eu só...;
-Não achou a pessoa certa? –ele completou por ela. –Não, você sabe que isso é só uma desculpa;
-Minos, onde quer chegar com isso? –ela indagou levantando-se em um rompante, incomodada com a conversa.
-Quero que você entenda que existem sentimentos que não podem ser ignorados; Minos falou em tom sério aproximando-se dela. –Mas esquece, não quero te aborrecer com isso; ele falou mudando de assunto e desanuviando sua expressão.
-Você começou; Isadora resmungou com ar infantil, ficando emburrada.
-E você fica uma gracinha com essa cara; o cavaleiro brincou com um sorriso maroto nos lábios deixando-a escarlate.
-Ahn! Bem...;
-Vem, vamos dar uma volta, antes de irmos; ele falou puxando-a pela mão e levando-a consigo, impedindo-a de pensar em qualquer outra coisa que não fosse aquele momento.
-o-o-o-o-o-o-
Logo que terminara de se arrumar, desceu as escadas, ouvindo o som de risos e vozes animadas. Será que por acaso Flora e Dario haviam aparecido? –ele se perguntou.
Seguiu a origem da voz chegando a sala principal, os risos cessaram e o silencio caiu como uma nuvem carregada sobre as duas mulheres.
-Shaka! –Aaliah falou voltando-se para ele, vendo o cavaleiro parado na porta com os orbes cravados sobre a senhora a sua frente. –Bem, acho que vou deixa-los a sós, foi um prazer conhece-la; ela completou.
-...; Astréia assentiu silenciosamente vendo-a se levantar e ir em direção ao cavaleiro, parando a seu lado para dar-lhe um beijo.
-Você prometeu; ela cobrou num sussurro antes de se afastar.
Era melhor deixa-los ali, assim poderiam se entender de uma vez por todas.
-Então? –Shaka começou voltando-se para Astréia que estremeceu diante do olhar gelado, mas decidiu enfrenta-lo.
-Sente-se, nossa conversa será longa; ela falou vendo-o obedecer mesmo com ar contrariado.
Se fosse em outro momento teria sorrindo com isso, lembrava-se perfeitamente que Seth tinha o habito de ficar manhoso quando contrariado, igualzinho a ele.
Mas enfim, chegara o momento...
-Tenho algo para lhe contar, por isso peço que me ouça antes de tirar suas próprias conclusões sobre coisas que você não sabe; Astréia falou antes mesmo dele pensar em abrir a boca.
-...; Shaka assentiu silenciosamente.
.III.
Às vezes quando a olhava daquela forma, sentia como se o tempo houvesse parado e continuassem ainda a ser crianças, aquelas duas que tomaram caminhos distintos numa época que mal sabiam o que era o destino.
-Venha Minos; Isadora chamou rindo alegremente enquanto retirava os sapatos e sem a menor preocupação lançava-se entre as águas daquele lago de águas cristalinas.
Cristais azuis, amendoados, rosados e verdes refletiam a luz do sol para o centro da lagoa, deixando aquele cenário ainda mais encantador. As aves cantavam em harmonia, enquanto o vento batia entre as arvores como uma leve brisa a acariciar as folhas.
Há muito tempo conheciam aquele lugar, haviam dado o nome de Lago do Francis, já que fora ali que deixaram o pequeno cisne da primeira vez, mas para aquele lugar se tornar ainda mais encantador, era no ápice da primavera, quando os cisnes deixavam o Norte migrando para o interior e alojavam-se durante uma semana naquele lago, para em seguida rumarem para o Jardim de Isabel.
Ainda conseguia se lembrar das asas brancas erguendo-se na superfície cristalina, o brilho do sol tocando-lhe as penas refletindo as gotas de água a espirrarem delas, como se fossem cristais.
Era sem duvidas uma época de sua vida que jamais se esquecia; ele pensou dando um baixo suspiro. Muitas coisas haviam acontecido nos últimos anos, algumas das quais não se orgulhava tanto, mas agora outras poderiam ser diferentes.
-Hei! Tem alguém ai? –Isadora perguntou balançando a mão na frente dos olhos dele.
-Uhn! –ele murmurou piscando confuso.
-Você estava longe; ela comentou enquanto passava as mãos pelos cabelos molhados.
-Desculpe, esta apensando; Minos respondeu com um meio sorriso.
-Não duvido; Isadora brincou. –Mas vem; ela falou segurando-lhe pela mão.
-Ah não, não vou entrar ai; ele falou recuando alguns passos.
-Vai sim; Isadora falou veemente.
-Não; o cavaleiro falou veemente, porém já era tarde de mais, pois mal havia notado estar relativamente perto da beira do lago. –ISADORA; ele gritou, puxando-a pelo braço no momento que ia de encontro às águas.
-Eu disse que ia; ela falou rindo, ao ver os longos cabelos prateados todos desalinhados caídos sobre os olhos do cavaleiro enquanto ele tentava tira-los.
-Droga; Minos resmungou.
-Você esta pensando demais; Isadora falou ajudando-o. - Não é você que diz, que não devemos nos apegar demais as lembranças porque deixamos de viver assim; ela falou fitando-lhe diretamente.
-Nem todas; o cavaleiro falou com ar sério.
-Mas aquelas que por vezes tentam acabar com a nossa fé; ela respondeu com ar sério.
Desviou o olhar por um momento sentindo o peso daquelas palavras. É, algumas lembranças apenas machucavam, mas o que fazer quando não se esta disposto a abandona-las.
-Estive pensando em uma coisa; Isadora comentou enquanto sentava-se na beira do lago, com as pernas ainda para dentro da água.
-O que? –Minos perguntou sentando-se ao lado dela, mas estancou vendo-a puxar de dentro da camiseta, um cordão preto e nele pendia um delicado pingente em forma de coração, porém em volta do mesmo haviam elos entrelaçados, num dourado um pouco mais intenso que o coração.
-Me lembrei de quando me deu isso; ela falou indicando o pingente. –Foi quando você foi embora;
-...; Ele assentiu.
Naquela época achara que jamais voltaria a reencontra-la, por isso decidiu que se iria perder uma parte de si a partir daquele momento, que pelo menos a melhor ficasse com ela. Assim lhe dera aquela jóia, lembrava-se que na época a pequena Isadora lhe perguntara diversas vezes sobre o significado do coração preso pelos elos, mas que sempre se esquivara em responder. Não pensou que mesmo depois de tanto tempo ela iria se lembrar daquilo, ou não ter descoberto sozinha.
-Você nunca me disse o que significava; Isadora completou.
-É um laço eterno; Minos respondeu calmamente.
-Como? –ela perguntou confusa.
-Na cultura do Tibet, eles acreditam que laços eternos formam-se entre as almas no decorrer das existências e que nesses laços formam-se novos elos a cada vida, tornando-se ainda mais estreitos e unindo a mais pessoas. Assim eles criaram o laço eterno, uma jóia que simboliza essa ligação e que é presenteado a pessoa mais importante da vida de alguém; ele explicou.
-Minos; Isadora murmurou surpresa ao compreender em que aquilo implicava.
-O coração, é uma forma de abnegação, de total entrega, entregar seu coração a alguém é expor-se a todos os riscos e desventuras do destino. Os elos são os laços que unem os sentimentos e os fazem existir em todas as vidas; Minos continuou indicando cada um dos pontos no pingente sobre a mão dela.
Voltou-se para ele sem saber o que dizer ou se deveria realmente dizer alguma coisa depois da explicação que ele dera.
-Lembra quando lhe disse que chega um tempo que alguns sentimentos não conseguem mais ser reprimidos? –o cavaleiro perguntou fitando-lhe intensamente.
-...; Isadora assentiu, lembrando-se da conversa que tiveram mais cedo.
Tocou-lhe a face carinhosamente, não a vendo recuar. Era difícil sentir-se daquela forma, ama-la por tantos anos e agora, vê-la entregar seu coração a outro e de certa forma, ainda contribuir para isso, mas simplesmente não conseguia ser egoísta e pensar que, pedir que ela ficasse a seu lado, fosse o mesmo que cortar-lhe as asas impedindo-a de ser livre e escolher por conta própria os caminhos que desejava seguir.
-Eu te amo e eu seria um hipócrita se negasse isso; ele sussurrou, deixando os dedos delicadamente prenderem-se entre alguns fios esverdeados que caiam ainda úmidos pelos ombros dela.
Viu a surpresa nublar os orbes rosados, mas não recuou. Sentia-se livre por finalmente ter dito aquilo, houve muitos momentos que achou que aquilo jamais seria possível, mas agora estavam ali. Só os dois... Como antigamente, num lugar onde muitos sentimentos nasceram e muitas histórias terminariam.
Antes que pudesse pensar no que dizer, sentiu a respiração quente dele chocando-se contra sua face. Estava tão confusa, tantas coisas povoavam sua mente e agora, essa revelação de Minos. Tantos anos que se conheciam e em momento algum ele agira diferente consigo ou dera a entender aquilo que realmente sentia.
Serrou os orbes apenas deixando-se levar por aquilo, não queria pensar. Simplesmente desistira de entender o que estava acontecendo quando seus lábios se encontraram, num beijo terno e quente...
Enlaçou-a pela cintura, aproximando-os ainda mais. Ouviu-a suspirar e entreabrir os lábios permitindo que aprofundasse aquele beijo.
A muito esperava por isso, mas sabia que da mesma forma que agora contara a ela aquilo que sentira, aquela também seria uma despedida, pois estava decidido a enterrar de uma vez seus sentimentos por ela.
Quando fora visitá-la aquele dia em Atenas e a encontrara com o pisciano, embora a prima não houvesse falado nada, notou o brilho radiante em seus olhos por estar com o outro. Naquele momento entendeu que depois de tanto tempo sem revelar seus sentimentos, suas chances haviam acabado, pois agora, era o coração dela a fazer uma escolha própria, onde ele, não poderia ser egoísta.
Sentiu de maneira hesitante, os braços delicados enlaçarem seu pescoço e a única coisa que fez, foi estreitar os braços em torno dela, fazendo-a aconchegar-se melhor no calor de corpo.
Afastaram-se parcialmente sentindo as respirações ofegantes chocando-se contra ambas as faces.
-Me perdoa; ela sussurrou, apoiando a cabeça sobre o ombro dele.
-Uhn! Pelo que? –ele perguntou confuso.
-Por jamais ter notado seus sentimentos, eu... ; Isadora começou,fazendo uma pausa.
-Isadora; Minos falou tocando-lhe a face, erguendo-a para que a jovem não desviasse o olhar. –Não quero que se sinta culpada por isso; ele continuou. –Só quero que entenda uma coisa;
-O que? –ela perguntou num fraco sussurro.
-Não espere passar anos para entender o que sente, pois todas as oportunidades podem se acabar; Minos completou, deixando a ponta dos dedos correr com suavidade pela face dela, como se assim, gravasse todos os detalhes e contornos, guardando-os junto com uma parte importante de si que ficaria para sempre lacrada. –Você é forte, vai saber como superar as dificuldades e eu jamais vou perder a fé em você, por isso acredito que é hora de voltar; ele falou fitando-a intensamente.
-...; Isadora assentiu abaixando os olhos e encontrando o pingente. –Acho que é melhor eu lhe devolver; ela sussurrou, ameaçando tira-lo, mas viu-o pousar as mãos com suavidade sobre as suas, ergueu a cabeça vendo-o acenar negativamente.
-Isso lhe pertence, nada vai mudar isso;
-Mas...;
-Essa é a uma parte importante de mim que quero que fique com você, muitas coisas não vão voltar a ser como eram antes, mas se temos o poder de fazer a diferença, então, nada mais nos resta alem de o faze-lo;
-...; Ela assentiu silenciosamente.
-Sempre estarei aqui para você, mas esta na hora de escolher o caminho certo a seguir; Minos completou apoiando a testa sobre a dela, onde alguns fios ainda misturavam-se entre si. –Não é?
-Você tem razão; Isadora sussurrou, fechando os olhos por um momento, sentindo aos poucos o coração voltar ao normal.
-É melhor subirmos o sol esta baixando e logo a temperatura vai cair; ele falou afastando-se e ajudando-a a levantar-se. –Vamos voltar;
-...; Ela assentiu deixando-se guiar por ele de volta ao local onde deixaram os cavalos.
.IV.
-Então? –ele começou, visivelmente impaciente diante do pesado silencio que caira sobre eles.
-Há alguns anos atrás, mais ou menos trinta; Astréia começou, respirando fundo. –Conheci um homem na Índia, ele era uma pessoa simples, um pescador que vivia com a irmã e o sobrinho numa das vilas próximas a margem do Ganges; ela continuou.
Fitou-a atentamente esperando-a continuar, embora dissesse a si mesmo que nada do que ela falasse iria fazer alguma diferença, prometera a Aaliah ouvi-la até o fim.
-Ele se chamava Seth e era dono desses olhos azuis que você herdou; a jovem falou voltando-se para ele, vendo o olhar surpreso do filho. –Seth era um homem muito bom, uma pessoa muito especial. Nos conhecemos por acaso, se puder chamar assim; ela falou dando um meio sorriso ao lembrar-se. –Naquela época, eu não queria me envolver com outras divindades muito menos ficar no fogo cruzado de uma guerra, então decidi passar um tempo na Índia, foi num dia desses que o conheci, ele estava voltando de uma pescaria e nos encontramos.
Permaneceu em silencio, embora estivesse curioso para saber mais sobre aquilo, decidiu espera-la falar por contra própria e não dar o braço a torcer de que aquilo realmente lhe interessava.
-Depois disso, passamos a nos encontrar, conversávamos bastante e ele me mostrou uma perspectiva diferente da que eu tinha sobre os mortais. Me ensinou a arte de perdoar, de ter paciência e esperar. De ser uma pessoa melhor não por conveniência, mas a me importar mais com os outros do que comigo mesma; Astréia falou dando um baixo suspiro. –Seth era incrível;
Deu um baixo suspiro, abaixando os olhos, sentindo-os marejar. Era tão difícil falar sobre aquilo, mas era necessário, talvez só assim ele fosse capaz de entender.
-Seth foi o único a não me receber com hostilidade, naquele lugar, naquela época as mulheres não tinham voz ativa, não podiam agir por contra própria e serem livres. Quando eu cheguei, no templo em que eu estava, muitas pessoas ficaram desconfiadas por verem que eu não era indiana e também, que não estava disposta a me subjugar aos costumes deles; a jovem explicou referindo-se a cultura e vestimentas. –Seth naquela época vivia com a irmã e o sobrinho, o marido de Sati havia morrido logo no inicio das guerras civis, então, como sendo seu único parente, Seth levou-os para morar consigo e criava Kala como o próprio filho; ela continuou.
Fitou-a curioso, então, de certa forma tinha mais parentes, uma possível tia e um primo; ele pensou interessado.
-Seth foi o único que mesmo sabendo que eu era uma deusa, não me tratou diferente por isso. Ele sempre foi muito carinhoso, atencioso. Como disse, uma pessoa muito especial e conhecê-lo, foi o melhor que aconteceu na minha vida;
Fez uma breve pausa, respirando fundo antes de continuar...
-Nós ficamos juntos por mais ou menos oito meses e meio. Eu já estava grávida e ele parecia uma criança quando falava do bebe, dos planos que fazia, das coisas que desejava ensinar; Astréia falou respirando fundo, sentindo uma lagrima solitária pender de seus olhos e aparou-as rapidamente com a ponta dos dedos finos. –Ele tinha muito medo de não conseguir;
-Como? –a voz do cavaleiro soou quase num sussurro, porem quando viu, já havia perguntando.
-Ele tinha medo que você não o amasse, ele temia não ser um bom pai; Astréia respondeu desviando o olhar. –Mas ele te amava tanto; ela sussurrou, fechando os olhos por um momento. –Ele me dizia que se fosse menino queria dar o nome de Shaka; a jovem falou dando um meio sorriso, embora um brilho triste nublasse seus olhos. –Seth me falou uma vez que numa das ultimas reencarnações de Buda, seu avatar foi chamado de Shaka e ele era tido como o 'Iluminado', Seth dizia que o filho seria muito corajoso, uma pessoa de bom coração e acima de tudo, forte para escolher o próprio destino e mudar os demais se fosse necessário, por isso iluminado; a jovem completou.
Sentiu o coração falhar uma batida com as ultimas palavras dela, abaixou os olhos, respirando pesadamente. Infelizmente não poderia julgar-se tão perfeito assim, como dissera a Aaliah há algum tempo atrás, houve um tempo que apenas teve aquele rostinho de anjo, mas era o pior dos demônios; ele pensou.
-Foram os melhores oito meses da minha vida inteira, eu amava Seth, ainda o amo e nada nem ninguém vai mudar isso; Astréia falou chamando-lhe a atenção novamente. –Mas infelizmente quiseram as Deusas do Destino, que nossos caminhos tomassem rumos diferentes.
-O que aconteceu? –dessa vez ele não hesitou em perguntar.
-Faltava pouco para você nascer, houve uma invasão do exercito chinês no solo indiano. Eles queriam de qualquer jeito demarcar o solo tibetano como deles e estavam dispostos a tudo. A vila onde vivíamos foi invadida, muitas pessoas foram mortas tentando defender seus familiares; Astréia fazer uma pausa e com isso ele foi capaz de compreender o que acontecera a seguir. –Infelizmente Seth estava entre eles. Ele jamais permitiu que injustiças fossem cometidas e até o ultimo minuto lutou, mas seu frágil corpo não lutar muito;
Fechou os olhos por um momento, ouvia as palavras dela ecoarem em sua mente e era como se aos poucos fosse transportado para aquele cenário descrito por ela.
-Assim que você nasceu, eu deixei o Ganges e fui para o Tibet. Não conseguia mais ficar ali sem me lembrar de tudo que acontecera, por isso parti. Você era uma criança linda, tinha os mesmos olhos de Seth, nem tão claros, nem tão escuros e herdou a marca de nascença que ele tinha também; Astréia falou apontando para a pequena bolinha que ele tinha no alto da testa. –Vocês se parecem muito;
Instintivamente levou a mão até o local indicado, tentava imaginar alguém parecido consigo e com as características que ela lhe dava, mas era realmente difícil.
-Naquela época meu cosmo havia enfraquecido demais após o parto. Pelo que sei isso é normal, mas nem um pouco seguro. As guerras civis começaram a aumentar a cada dia. Foi quando ele veio me procurar; ela fez uma pausa.
-Quem? –ele perguntou intrigado.
-Meu pai; Astréia respondeu e não precisou de mais detalhes para faze-lo entender quem era. –Ele me disse que consultara o oráculo de Delfos e havia uma profecia. Você havia sido o escolhido para ser o 'Homem mais próximo dos Deuses'. Mesmo ainda sendo apenas um recém nascido, seu cosmo já mostrava-se mais forte do que muitas crianças formadas, então, não houveram duvidas;
-O que você fez? –Shaka perguntou.
-Eu não queria lhe deixar; Astréia falou com a voz embargada. –Jamais quis, mas não houve escolha, antes que Delfos e Star Hill pudessem prever uma guerra, o lacre de Chronos rompeu-se e uma Titanomaquia começou. Eu havia jurado a Harmonia que lutaria para proteger nossa herança e foi o que eu fiz; ela falou com certo pesar.
-Herança? –o cavaleiro perguntou confuso.
-Nossa herança mortal, aqueles que ficaram, as pessoas que damos nossa vida para que tenham um mundo melhor; Astréia falou fitando-o intensamente sabendo que ele podia compreender perfeitamente a que ela se referia. –Eu não podia impedir-lhe de cumprir seu destino, da mesma forma que precisava cumprir o meu, foi muito difícil deixa-lo aquela noite no templo, com um monge. Eu sabia que eles iriam cuidar bem de você, pois sabiam quem você era e o que representava, mas a verdade é que se pudesse leva-lo comigo sem correr riscos, eu teria preferido assim; ela confessou dando um baixo suspiro. –Depois disso, parti para Olímpia e a guerra começou;
-Mas como nunca soubemos disso? –Shaka perguntou lembrando-se de que apenas lutaram na Gigantomaquia, não sabia que havia tido uma outra batalha antes.
-Porque nós não permitimos que isso fosse registrado; ela respondeu. –Chronos criou sua própria dimensão, um mundo paralelo entre o Nada e a Terra. Quando ele libertou-se dos confins do Érebo, aonde foi selado por Hades a alguns séculos antes, ele criou seu castelo, onde seus filhos tinham completo poder sobre o lugar, tornando-se ainda mais poderosos;
-Eu me lembro; ele falou referindo-se a dimensão que Aiolia tivera que entrar para resgatar Litus, que fora capturada por um dos titãs.
-Ele abriu um portal aos pés de Olímpia para nos atacar, todos os deuses se reuniram e a batalha foi sangrenta. Nunca em séculos eu vi tantos deuses reunidos em um mesmo lugar. Poderia citar-lhe nomes, mas acredite, eles não são importantes agora; ela completou dando esse assunto por encerrado.
-E depois? –ele quis saber.
-Quando a guerra acabou, eu voltei ao Tibet para lhe buscar; Astréia falou vendo o olhar surpreso dele. –Mas quando cheguei lá e quis lhe levar comigo, meu querido pai interviu; ela falou sem esconder o escárnio. –Disse que você seria o próximo cavaleiro de virgem e que eu não podia me colocar no meio de seu destino;
-Como? –Shaka perguntou quase caindo no chão tamanha sua surpresa após ouvir o que ela falara.
-Eu não poderia lhe levar comigo, a partir do momento que optei por deixa-lo no Tibet e ser treinado pelos monges locais eu havia perdido os diretos sobre sua tutela. Agora, você tinha como único caminho tornar-se um cavaleiro ou morrer tentando; Astréia explicou serrando os punhos nervosamente sobre o colo. –Eu tentei argumentar, mas ele foi irredutível. Nada do que eu falasse era capaz de mudar-lhe a opinião. Foi quando eu decidi que já que não poderia leva-lo comigo, ficaria ali com você então, já que ele não tinha direto algum sobre mim;
-Uhn? –ele murmurou confuso.
-Foi espantoso ver como você cresceu rápido; ela falou desanuviando a expressão e sorrindo. –Você tinha os cabelos pouco mais escuros que os meus é até ficarem compridos, eles sempre arrepiavam na franja; a jovem comentou.
Não pode evitar de um fino sorriso formar-se em seus lábios, lembrava-se bem que em seis anos de idade quando seus cabelos começam a crescer realmente até chegarem ao meio das costas, alguns fios da franja tendiam a enrolar e se arrepiavam, até os dezoito tomarem forma definida e ficarem definitivamente lisos.
-Lembro que assim que aprendeu a ler, você devorava os livros, um atrás do outro, sempre querendo saber mais e mais das coisas. Jamais lhe vi perguntar algo, você sempre buscou sozinho pelas respostas; ela continuou.
Como ela sabia? –Shaka se perguntou confuso.
-Eu sempre estive a seu lado, embora você jamais tenha me visto; Astréia respondeu como se lesse seus pensamentos, embora não o tenha feito. –Eu estava com você quando seu cosmo se expandiu pela primeira vez; ela continuou.
Voltou-se para ela assustado com as próprias lembranças que surgiam em sua mente de maneira avassaladora e incontrolável a cada palavra dela.
-Depois desse dia, vi seu olhar perder o ar infantil e tornar-se mais sério, embora você ainda fosse muito jovem; Astréia continuou. –As pessoas passaram a te tratar como um Deus e muitas vezes esqueciam-se que você também era humano. Alias, você sempre detestou que lhe interrompessem enquanto estava meditando; ela comentou.
-...; Assentiu silenciosamente.
-Alguns anos se passaram até eu tomar coragem de começar a conversar com você. Não queria que papai intervisse ou qualquer outra coisa, então, passei a me comunicar com você enquanto meditava;
-Então; ele balbuciou surpreso ao constatar que a maioria das vozes que ouvia em meio à meditação era ela.
-Sim! Eu sempre estive com você; ela completou.
-Mas porque nunca apareceu pra mim? –Shaka perguntou.
-Como você acha que reagiria se eu aparecesse do nada para você e lhe dissesse quem eu sou? –Astréia rebateu, fitando-o de maneira indecifrável.
-Da mesma forma que reagi quando lhe perguntei quem você era e você respondeu; ele rebateu fitando-a com os orbes aos poucos nublando-se.
-Shaka, eu sei que errei em não ter lhe contado a verdade antes; Astréia começou. –Mas eu não podia; ela falou respirando fundo.
-Não podia, ou não queria? –ele rebateu em tom sarcástico.
-Não fale assim comigo; ela exasperou voltando-se para ele com um olhar tão entrecortado que ele encolheu-se no mesmo momento. –Se pudesse ter aparecido antes, acredite, eu o teria feito, todos nós erramos e você também não é perfeito;
-Pelo menos agora sei de quem puxei isso; ele falou num tom indiferente. –Não, não sou perfeito e nunca desejei isso, pra mim apenas os deuses podiam isso;
-Mas muitas vezes você também se esqueceu que era mortal; Astréia falou fitando-o de maneira inabalável, sabendo perfeitamente que ele estava a ponto de perder a calma. –Não me julgue pelo passado que você apenas conhece atrás das folhas velhas de um livro, pois se um dia fraquejei na fé que tinha em meus princípios, você também não fica atrás;
-Oras; ele exasperou tencionando se levantar, mas assustou-se quando seu corpo não se mexeu.
-Eu não disse que era para você levantar; ela falou fitando-o em desafio. –Não terminei... ;
Fitou-a com um olhar entrecortado e porque não dizer de contrariedade e birra.
-Conheci muitos como você Shaka e o fato de ser meu filho não muda algumas coisas; ela continuou. –Já ouviu falar de Asmita?
-O ultimo de Virgem; ele respondeu emburrado.
-Ele também foi como você, um cavaleiro poderoso, temido e orgulhoso, porém, também houveram momentos que ele perdeu a fé em si mesmo e nos demais. Mesmo sendo um cavaleiro; ela continuou lembrando-se de quantos questionamentos já fizera a respeito disso. –Foi Asmita quem criou aquele rosário que esta sempre com você e que lhe foi entregue no dia que você foi sagrado cavaleiro;
-Como? –Shaka perguntou confuso.
-Aquela era a única chave para o extermínio dos espectros de Hades. Asmita o criou para que ao exterminar os espectros eles não fossem capazes de voltar a vida pelo poder de Hades, então, aprisionava suas almas nas nenjus e elas só seriam capazes de liberta-los quando a ultima centelha de seu cosmo se esvaísse, mas até então, Atena já teria feito um selo capas de lacra-las definitivamente;
-Eu não sabia; ele sussurrou surpreso com isso. Lembrava-se de seu mestre ter lhe entregado o rosário, lhe explicando que um dia precisaria dele e jamais deveria abandona-lo, tendo que o guardara sempre consigo, mas...
-Houveram muitos outros alem de você e Asmita, Shaka. E todos, mesmo levando o nobre titulo de 'Homem mais próximo dos deuses', eram mortais. Pessoas fadadas a cometer erros, viver, amar, lutar ou perder; Astréia falou. –Mesmo que por vezes tenham se esquecido disso e se tornado tão prepotentes que necessitavam levar uma rasteira para aprenderem a dar valor ao que realmente era importante.
Aquietou-se, diante do olhar dela, não ousando abrir a boca...
-Somos mais parecidos do que você pode imaginar, pois eu não só passei por isso, como vi muitos repetirem a mesma coisa, por vezes cometendo os mesmos erros e alguns dois quais, nem você ficou imune;
-Do que esta falando? –Shaka tentou desconversar.
-Você perdeu a fé nas pessoas quando Aioros morreu, não negue, eu estava lá; Astréia avisou quando viu-o abrir a boca para contestar. –Você tentou se recuperar quando a Gigantomaquia recomeçou, ao ver o Leão Dourado usar sua ultima centelha de cosmo para salvar aquela garotinha, você não foi o único a sair das sombras e realmente decidir pelo que lutar, mas foi apenas uma fase, pois novamente você se entregou ao conceito de que você era único e todos eram inferiores a você;
-Hei! Eu n-...; ele parou diante do olhar dela que o mandava se calar e repetia "Eu sei, eu estava lá".
-Mas muita coisa mudou depois que você conheceu aqueles jovens de bronze, eles eram crianças quando foram jogados no meio de um inferno sendo obrigados a lutar numa guerra interminável. Eu me lembro que foi naquele dia que você voltou a acreditar nas pessoas, no poder que elas tinha de cometer milagres por aqueles que desejavam proteger com suas próprias vidas;
Suspirou...
-Não preciso lhe lembrar de coisas que você mesmo viveu e mais do que ninguém sabe como é, estou apenas lhe mostrando que mesmo sendo o homem mais próximo de deus, você também pode errar e eu, mesmo sendo uma deusa, cometi meus erros e em momento algum deixei de pagar por eles; ela completou em tom sério.
Abaixou os olhos, dando um baixo suspiro. Ela estava certa, mas de alguma forma tinha medo de acreditar nisso, tinha medo de se ferir por acreditar demais e depois, uma nova verdade aparecer, tentando confundir-lhe. Não queria isso novamente para si, aquela duvida que o impedia de viver.
-Viver é um desafio criança; Astréia sussurrou sentando-se a seu lado. –Não é fácil, ao longo dos séculos conheci muitas pessoas que teriam longas historias para lhe contar sobre isso; ela falou calmamente. –Muitas pessoas que conheci, chegaram ao fim da vida sem saber o que queriam dela, outras, tinham tudo planejado que não sentiram nada, nenhuma emoção por tudo aquilo que desejavam. Viver é um risco, é um tiro no escuro, uma roleta Russa e até mesmo, um salto sem vara, que por vezes você está fadado a queda; a jovem falou voltando-se para ele e com um movimento suave puxou-lhe pela mão, fazendo-o deitar a cabeça em seu colo.
Ele não ofereceu resistência alguma, não se sentia mais com força nem animo para opor-se a nada.
Foi com surpresa que viu os orbes azulados tornarem-se baços, e ele encolher-se um pouco.
-Porque só agora? –ele perguntou num fraco sussurro.
-As respostas você já tem, basta apenas saber aonde procura-las. Nada mais tenho a lhe dizer, pois agora você só quer um motivo para ignorar o que sente e esquecer o que já lhe disse; ela falou com pesar, afagando-lhe as melenas douradas, ouvindo um baixo soluço vindo dele.
Lhe partia o coração vê-lo chorar, mas seria melhor assim, deixa-lo colocar todas as dores para fora e se libertar daquele peso, como um dia mesmo ela fizera. Não podia negar que agora se sentia mais livre depois de ter contado a ele com as coisas realmente haviam acontecido.
Abaixou a cabeça vendo pender de seu colo um pingente dourado. Era um coração envolto por alguns elos delicados e ao abri-los revelavam um pequeno segredo guardo ali dentro. Deu um meio sorriso ao retira-lo do pescoço e estende-lo ao jovem.
-Quando Seth e eu nos casamos, ele me deu isso; Astréia falou chamando-lhe a atenção.
-Um Laço Eterno; Shaka sussurrou ao ver o pingente balançando na frente de seus olhos. Viu-a estende-lo para que pegasse e no momento que o fez, o mesmo abriu-se em dois e os elos se separarem.
-Veja; ela falou apontando o interior do pingente. Haviam duas fotos ali de um casal sorrindo alegremente.
-Esse é...; Ele balbuciou fazendo uma breve pausa.
-Seu pai, sim é ele; Astréia confirmou, indicando a primeira das fotos. –Essa foi de quando nos casamos e a outra de quando eu estava grávida; ela completou. –Vê, vocês tem os mesmos olhos;
-...; Shaka assentiu silenciosamente, constatando que isso era realmente verdade. –Porque não o trouxe de volta? –ele arriscou-se em perguntar.
-Como?
-Porque não o trouxe de volta com seus poderes? –o cavaleiro repetiu a pergunta ainda incerto.
-Porque eu o amo; Astréia respondeu pacientemente. –E depois de todas as coisas que já vi e vivi, nesse estagio da minha vida já não me dou mais o luxo de ser egoísta e desejar tê-lo a meu lado, mesmo que o preço, seja torna-lo infeliz; ela respondeu.
Aquietou-se, sentindo aos poucos o corpo ser abraçado por uma onda de letargia e os olhos pesarem.
-Agora descanse; ela sussurrou, prendendo o colar no pescoço dele e afagando-lhe as melenas.
Ouviu-o dar um baixo suspiro e relaxar, os poucos deixando-se embalar pelos braços de Hypnos, indo para o reino dos sonhos.
Pretendia partir agora que esclarecera tudo, não queria confundi-lo, permanecendo ali, por mais que fosse difícil ter de ir embora; ela pensou, mas estancou ouvindo-o murmurar algo.
Abaixou-se tentando ouvir melhor o que ele falava, até arregalar os olhos surpresa.
-Fica; ele pediu num sussurro.
Silenciosamente ela assentiu, acomodando-se melhor enquanto afagava-lhe as melenas douradas com carinho, vendo a expressão serena na face dele, enquanto o mesmo dormia tranqüilamente.
Continua...
Finalmente a conversa decisiva entre Astréia e Shaka, nossa foram longos três dias tentando escreve-la, não foi nada fácil, mas cá estou com ela. Mais um capitulo chega ao fim e com ele, cada vez mais estamos perto do fim.
Possivelmente De volta ao Vale das Flores terá no máximo mais três capítulos e com isso a trilogia iniciada em Vale das Flores também chega ao fim, mas embreve muitas surpresas viram com as demais fics.
Antes de ir, gostaria de saber de vocês. O que acharam do Minos? E quais as expectativas de vocês para o fim dele na história? Estou realmente curiosa para saber.
Outra coisa, não posso ir sem perguntar, o que acharam da conversa entre Shaka e Astréia?
No mais, agradeço a todos de coração pelos reviews maravilhosos e a todos que vem acompanhando essa historia desde o começo.
Um forte abraço e até a próxima.
Já ne...
Dama 9
