.::DE VOLTA AO VALE DAS FLORES::.
By DAMA 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah e Astréia são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
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Capitulo 26: O Acordo.
.I.
Remexeu-se inquieto na cama, os volumosos cabelos azulados espalharam-se pelo cetim branco, enquanto seu sono era inquieto. Novamente aquelas imagens voltavam a sua mente, não sabia mais dizer com precisão quantos dias isso estava acontecendo, perdera as contas.
Ela parecia tão perto, correu em meio aquele campo verde tentando alcançá-la, mas como das outras vezes viu a imagem desvanecer entre seus dedos, quando finalmente havia conseguido tocar em uma mexa esverdeada, da jovem de orbes rosados.
Abriu os olhos sentindo as costas doerem, todos os músculos estavam tensos, era como se houvesse passado a noite toda correndo, o que de tudo não era mentira, se levasse em consideração o fato de ter feito isso em sonhos.
Virou-se de lado na cama, encontrando o porta retrato de Aaliah e Aimê juntas, sentia como se há muito tempo não olhasse aquela foto, quase todos os dias conversava com a filha e as respostas eram as mesmas quando perguntava se ela estava bem.
-Estou me divertindo muito com Shaka...
Apenas isso e pelo seu tom de voz ela não tinha pressa em voltar, ainda se perguntava se fora uma boa idéia deixá-la viajar com o virginiano. Sabia que podia confiar nele, mas ela era sua garotinha, bem crescidinha, mas não deixava de se sentir um inútil com relação à criação de Aaliah.
Gostaria de ter participado de sua vida, estar com ela quando desse seus primeiros passos, estar principalmente ao lado de Aimê quando a trouxesse ao mundo, mas isso agora fazia parte de um passado que não podia ser mudado. Não estava lá nesses momentos e sentia-se um fracasso por isso.
Aaliah nem ao menos lhe contara que sua intenção era ir a Visby com Shaka em vez da Índia. Por quê? Isadora estava certa, fora ele a colocar aquela barreira entre eles. Aaliah era sua filha, mas desde o começo tivera uma certa relutância em aceitar esse fato.
O pior, aceitar que Aimê não voltaria mais, que todos os planos haviam se quebrado como uma parte de si; ele concluiu, deixando a cabeça pesar sobre o travesseiro macio.
Agora Isadora se fora, mesmo Milo falando que se Minos sabia sobre toda a história, ele deveria estar cuidando bem dela, não era o suficiente para lhe deixar tranqüilo e lhe fazer-se sentir menos cretino.
Tudo aquilo que vivera com Aimê, agora estava guardado numa parte importante de seu coração, jamais a esqueceria, mas ficara tempo de mais sem viver, esquecendo que o tempo estava passando e a vida não iria parar apenas por suas frustrações.
Ainda tinha mais duas semanas até Aaliah retornar de Visby, duas semanas que simplesmente não sabia como passar, principalmente com o pouco animo que estava.
Queria ter pelo menos uma pista de onde encontrar Isadora, algo dentro de si, dizia que aqueles sonhos eram as respostas, mas era insano imaginar que ela também estava em Visby, como vinha sonhando.
Mas e se...- ele ponderou levantando-se rapidamente da cama, tateou sobre uma cômoda, até encontrar o telefone e na agenda ao lado do mesmo o número do aeroporto.
Discou alguns números rapidamente e impaciente, esperou do outro lado.
-Aeroporto Internacional de Atenas, bom dia! – uma voz simpática respondeu do outro lado.
-Bom dia; Afrodite falou com há voz um pouco tremula, devido a sua agitação.
-Em que podemos ajudar, senhor? –a atendente perguntou.
-Eu gostaria de saber quando sai o próximo vôo para Estolcomo? –ele falou.
-Só um momento; ela pediu.
Ouviu o ruído de teclas sendo digitadas do outro lado, enquanto sem notar batia o pé no chão, tentando se conter a ir correndo até Áries e fazer com que Mú lhe mandasse para lá de uma vez.
-Senhor!
-Sim;
-O próximo vôo sai daqui trinta minutos; ela respondeu.
Trinta minutos, mas e se ela não estivesse em Visby e estivesse se precipitando? –ele indagou-se de repente. Calculou que levaria no mínimo quinze para chegar ao aeroporto e mais dez para cruzar todo o santuário até o centro da cidade. De um jeito ou de outro, não daria tempo.
Mas se chegasse em Visby e ela não estivesse lá, o que iria dizer quando encontrasse Aaliah. Certamente a garota iria achar que fora Isadora a contar a ela que eles não estavam na Índia e isso iria gerar sérios problemas para ela.
Suspirou frustrando, apoiando-se na cama, com ar cansado.
-Está certo, muito obrigado; respondeu por fim, antes de desligar.
O sol estava quase nascendo, jogou o telefone em cima da cômoda e deixou o quarto, com passos quase arrastados dirigiu-se a sala da armadura. Desde que ela partira, não pisara mais lá.
Tocou as paredes de pedra, buscando pela trava que abriria a porta escondida. Momentos depois afastava-se deixando-a surgir diante de seus olhos. A única coisa que ainda o ligava a jovem de melenas verdes. O jardim das Rosas.
.II.
Observou atentamente o café passar pelo filtro enquanto a essência dos grãos tomava conta da cozinha. Dentro da pia, o calice de cristal e a garrafa de licor jaziam vazios.
Passou a mão pela testa, justificando aquele calor todo, como proveniente da água que deixara ferver e a lufada de vapor que recebera na face.
Ouviu passos atrás de sim, mas não se virou, apenas respirou fundo.
-Aaliah! Bom dia; Astréia falou ponderada.
-Tudo depende do ponto de vista; ela respondeu num tom frio. –Mas bom dia pra você também;
Astréia fitou-a confusa. Será que a briga com Shaka fora assim tão pesada? –ela se perguntou preocupada, não ouvira gritos nem nada.
-Ahn! Algum problema? –Astréia perguntou cautelosa.
-Só os de rotina; a jovem respondeu.
-Aaliah sei que você e o Shaka andaram se desentendendo, mas independente do que ele tenha feito-...;
-Ah não! Pode parar por ai; Aaliah exasperou assustando-a. –Não vem você querer defendê-lo agora. Ele já é bem grandinho para assumir as responsabilidades por seus atos; ela falou em tom ferino.
-Eu sei; Astréia falou respirando fundo. –Mas se acalme e converse com ele, sei que ele tem uma boa explicação para o que quer que tenha acontecido; ela falou nervosa.
-Não, não estou disposta a ouvir uma desculpa deslavada vinda dele; Aaliah falou com os orbes amendoados aos poucos tornando-se castanhos.
-Aaliah, por favor; ela pediu sem saber o que fazer para ajudar.
-Por favor nada; a jovem gritou, sentindo a presença dele cada vez mais próxima. –E a culpa é sua;
-O que? –Astréia perguntou assustada.
-Aaliah? –Shaka chegou correndo na cozinha, mas estancou perto de Astréia vendo cada uma de um lado, porém a namorada não tinha um olhar nada amigável. –O que esta acontecendo?
-Nada querido, Aaliah só esta um pouco nervosa; Astréia falou, sentindo-o pousar a mão sobre seu ombro de maneira protetora, o que deixou-a ainda mais surpresa com tudo o que estava acontecendo.
-Porque estão discutindo? –ele perguntou voltando-se para a namorada.
-Esta vendo? –Aaliah falou com revolta. –É disso que estou falando. Você fica ai mimando ele e ainda quer que eu fique relevando as coisas; ela rebateu mordaz.
-Do que esta falando? –Shaka perguntou com os orbes estreitos de maneira perigosa sentindo-se estranhamente irritado por Aaliah estar gritando com Astréia daquela maneira.
-Shaka, deixe-nos. Creio que Aaliah e eu temos muito o que conversar; ela pediu nervosa.
-Não vou sair daqui até que uma de vocês explique o porquê de tudo isso; ele falou taxativo.
-Como se você não soubesse? –Aaliah rebateu sarcástica. –Mas Astréia esta certa. Saia! Porque isso é entre nós duas;
-Aaliah, pare com isso, não vou sair daqui; o virginiano avisou.
-Não me obrigue a tirá-lo, porque não vou hesitar; ela avisou conjurando uma rosa branca e ele bem sabia o que ela era capaz de fazer.
-Então tente; ele desafiou, colocando-se a frente da senhora de melenas douradas, por precaução.
-Parem com isso, por favor; Astréia pediu aflita.
-Não enquanto não resolver isso; a filha de Afrodite falou.
Ambos os cosmos se expandiram de forma agressiva. Surpreendeu-se ao ver que ela não estava brincando, embora conhecesse Aaliah o suficiente para saber de suas mudanças de humor, não teve tempo de pensar muito porque em seguida uma rajada de rosas brancas veio em sua direção. Mesmo a cozinha sendo grande, teve dificuldade em desviá-las e evitar que Astréia fosse atingida por alguma.
-Com um cosmo tão primário, não vai conseguir me atingir; ele provocou, como se estivesse falando com um adversário e não com a namorada.
-Meu alvo não é você; Aaliah rebateu mostrando a ele a rosa que tinha entre os dedos agora. Não era mais branca.
Foi uma fração de segundos, viu uma rosa negra passar por seu ombro. Virou-se rapidamente bloqueando a passagem dela com o próprio corpo, enquanto abraçava Astréia de maneira protetora, antecipando a chegada de mais rosas.
O grito da divindade ecoou pela cozinha, quando algumas gotas de sangue respingaram em si e a rosa negra transpassou o ombro dele.
-A vida toda eu procurei jamais fazer alguma coisa que envergonhasse minha mãe e a deixasse triste; Aaliah começou chamando-lhes a atenção. –Nunca permiti que o menor dos vermes falasse algo sobre ela e saísse com os dentes inteiros;
-Aaliah! –Astréia falou tremula, segurando o filho quando o mesmo perdeu o equilíbrio.
-Outra coisa que não admito é alguém tratar a própria mãe com indiferença. Alias, isso é imperdoável, independente de qualquer coisa; Aaliah falou fazendo um movimento com as mãos e a rosa desapareceu junto com o ferimento no ombro dele. –Eu te amo, mas se Astréia fosse minha mãe, jamais agiria de maneira tão ridícula como você vem agindo, mas pelo menos isso serviu para que você visse que você é mortal Shaka, também age movido pela emoção e é quando seus verdadeiros sentimentos se revelam.
Levou a mão a cabeça, sentindo-a latejar pelo recente esforço. Se movera tão rápido, que não duvidava se houvesse destruído umas duas ou três leis físicas com isso. Mas ela fizera de propósito?
-Mas vou lhe dar um aviso, continue a agir como um idiota com Astréia e acredite. Sendo meu namorado ou não, a próxima rosa vai ser verdadeira; ela falou antes de sair da cozinha, deixando os dois virginianos em estado de choque.
-Me desculpe, nunca quis causar problemas entre você e Aaliah; Astréia falou num sussurro tremulo.
-Aaliah esta certa; Shaka falou ainda mantendo os braços em todo da senhora protetoramente.
-Uhn?
-Agora eu entendo; ele murmurou encostando a testa sobre a dela e dando um longo suspiro, como se até agora estivesse prendendo a respiração. –Alem de ser um idiota por não admitir meus próprios sentimentos, acabei a magoando também;
-Então, é melhor v-...;
-Espero que possa me perdoar por isso; o cavaleiro falou, fitando-lhe intensamente, porém os orbes azuis jaziam nublados e rasos de água. –Mãe;
Sentiu as próprias lágrimas, que segurara o tempo todo, correrem por sua face, antes de abraçá-lo fortemente.
-Claro... Filho; ela falou entre soluços.
.III.
Já fazia algum tempo que estava andando. Não fazia a mínima idéia de para onde estava indo, mas mesmo assim continuava.
-Isa!
Virou-se para trás, buscando a origem do chamado, mas não viu ninguém. Deu alguns passos a mais e viu-se novamente no Vale das Flores, era estranho que por mais que andasse sempre se ia parar ali.
-Isa! Volta!
Franziu o cenho ao ouvir o chamado seguido por um soluço. Respirou fundo, sentindo o coração se agitar. O que estava acontecendo? Precisava acordar, não podia ficar para sempre ali.
Foi quando a viu sair das águas, nas mãos a ânfora com as rosas incrivelmente vermelhas. Seus passos eram calculados e vez ou outra ela vacilava.
-Mãe!
O grito infantil lhe despertou, virou-se vendo uma garotinha de cabelos azuis vir em sua direção. Voltou-se para a jovem e correu amparar-lhe quando a queda foi eminente.
Afastou-se assustada quando viu seus braços tornarem-se translúcidos e ela fugiu a seu apoio.
-Esse não é o seu mundo; ouviu uma voz ecoar em sua mente.
Afastou-se assustada, enquanto uma Aaliah ainda criança corria até a mãe. Então fora daquela forma? O nascimento das rosas; ela pensou encostando-se em uma árvore, lembrando-se do que Eurin lhe contara, quando tudo a sua frente girou.
-o-o-o-o-
-Mãe! –Aaliah falou animada.
Abriu os olhos vendo-se agora em um quarto bem arrumado, provavelmente dentro da casa. A garotinha entrou correndo com um envelope na mão.
-Chegou para a senhora;
Isadora assistiu a tudo, com o coração batendo disparado, lágrimas caiam por sua face sem que ao menos tentasse impedir.
-Não entregue a ela; Isadora implorou num sussurro para a pequena Aaliah, mas sua voz perdeu-se no vazio.
Sentada sobre a cama, os orbes amendoados de Aimê correram pelo papel. Viu-a empalidecer e suas mãos tremeram ao ler aquelas linhas que definiriam seu destino.
Fechou os olhos, recusando-se a ver o que vinha depois.
-MÃE! –o gritou de Aaliah despertou-lhe completamente.
Abriu os olhos com brusquidão, devia continuar sonhando, porque era o mesmo quarto, mas a Aaliah que estava ali não era mais a garotinha.
-Aaliah; Isadora chamou num sussurro, vendo a garota erguer a cabeça e fitar-lhe com os orbes vermelhos de tanto chorar.
-Você voltou; ela sussurrou jogando-se sobre a jovem e a abraçando.
-Eu não fui a lugar algum; Isadora brincou, afagando-lhe os cabelos. –Mas porque esta chorando?
-Pensei que não fosse voltar; Aaliah falou entre soluços. –Fiquei com medo;
-Calma, agora estou aqui; ela falou, enquanto sentava-se na beira da cama, enxugando as lágrimas que caiam copiosamente sobre a face da jovem.
-Mas quando eu chamei você não acordou; Aaliah falou com o olhar baixo.
-Digamos que eu precisava ver algumas coisas antes de acordar; Isadora respondeu de maneira enigmática. -Mas onde estou?
-Em Vale das Flores; ela respondeu.
-Uhn? –a jovem murmurou.
Agora se lembrava, fora devolver a armadura, quando aquele homem de olhos vermelhos apareceu. Ainda estava irritada com as provocações dele, mas entendia o que ele queria afinal com tudo aquilo.
Suspirou pesadamente, ainda sentia os dedos formigarem de vontade de colocar aquela franja arrepiadinha para trás da orelha dele; ela pensou sentindo a face aquecer-se levemente com tal pensamento.
Remexeu-se na cama antes de sentar-se. Nossa, era como se uma semana houvesse se passado.
-Quando tempo estou aqui?
-Quase três dias; Aaliah respondeu.
-Ceus! –ela murmurou fechando os olhos, para em seguida franzir o senhor. Havia alguma coisa muito errada ali. –Onde esta o Shaka?
-Não sei; a jovem respondeu, desviando o olhar.
-O que ele fez, Aaliah? –Isadora perguntou com os orbes estreitos.
-Nada; ela falou vagamente, porém não conseguiu reprimir uma lágrima que pendeu de seus olhos.
-Aaliah; Isadora falou em tom de aviso.
-Não foi ele; ela falou num sussurro.
-Uhn?
-Fui eu; a jovem completou.
-O que aconteceu?
-Ele precisava entender o quanto a estava magoando, mas ele é tão teimoso; Aaliah exasperou com os punhos serrados nervosamente.
-Então?
-Eu nunca quis machucá-lo, nem Astréia. Aquela rosa não ia acertá-la, mas ele entrou na frente; ela falou em tom aflito.
-Calma, eu já entendi; a jovem falou abraçando-a carinhosamente. –Fique calma;
-Ele deve me odiar agora; Aaliah falou entre soluços, aconchegando-se no abraço protetor.
-Não, Shaka te ama e jamais te odiaria por mostra a ele a verdade; Isadora falou tentando acalmá-la.
-Mas...;
-Infelizmente Aaliah, algumas pessoas às vezes precisam apanhar para entender o que é obvio para os demais; Isadora falou.
-Papai também diz isso; ela murmurou.
-Pelo menos nisso concordamos, então; Isadora resmungou. –Mas fique tranqüila, esfrie a cabeça e converse com Shaka quando estiver mais calma;
-Se ele quiser falar comigo; Aaliah respondeu amuada.
-Acredite, ele vai querer; a jovem falou com um brilho determinado nos olhos. Eles iriam conversar nem que tivesse de amarrar o cavaleiro em uma cadeira com galhos de roseiras só para garantir que ele ouvisse a garota.
-E você? –Aaliah começou, voltando-se para ela.
-O que?
-Quais são suas intenções para com meu pai? –ela perguntou com ar sério.
Engoliu em seco, ficando extremamente pálida, mas parou vendo-a rir.
-Precisava ver sua cara agora; Aaliah falou com um sorriso matreiro.
-Isso não tem graça, Aaliah! –Isadora respondeu emburrada.
-Desculpe; ela balbuciou. –Mas então, Milo nos contou que vocês andaram se desentendendo;
-Mas ou menos; a jovem desconversou.
-E sabemos também sobre a planta carnívora;
-Puff! –Isadora resmungou com os orbes cerrados.
-Papai pisou na bola, mas da uma chance pra ele; Aaliah falou com ar sério.
-Aaliah;
-Ele não é má pessoa, apenas esta um pouco perdido;
-Eu e seu pai não temos nada Aaliah; Isadora falou vendo o olhar surpreso dela.
-Mas vocês têm tanto em comum;
-Não o suficiente para sermos mais do que conhecidos; ela falou taxativa.
Fitou-a longamente, tentando entender o que ela queria dizer. Não era de hoje que havia notado o interesse da amiga pelo pai. Embora Isadora jamais houvesse admitido.
-Mas quem sabe se vocês tentassem se conhecer melhor, com o tempo... Bem; Aaliah falou com um sorriso nada inocente.
-Sabe, às vezes eu me esqueço de que você é de Escorpião; Isadora murmurou. Milo era igualzinho quando queria convencer alguém a fazer o que ele queria.
-Então?
-...; negou com um aceno mesmo diante do olhar desapontado dela.
-Por quê? –Aaliah perguntou. –Porque você não quer ficar com meu pai?
-Coisa de adulto; ela respondeu com um fino sorriso como se conversasse com uma garotinha ainda pré-adolescente. –Somos complicados demais;
-Mas papai gosta de você. Ele não fala nada, mas eu já percebi; ela falou em tom insistente.
-Uhn?
-No aniversario do Aiolia, ele não tirava os olhos de você e rosnava cada vez que te via perto do Milo; ela falou.
Parou por um momento tentando lembrar-se desse fato, mas não conseguia. Passara a noite toda conversando com Milo e Aldebaran, depois que haviam trancado Saori e Aioros no terraço, que apenas cumprimentara os outros brevemente, sem estender a conversa.
-E no casamento de tia Eurin, ele não parou de falar da decoração que você fez na Toca, com as flores de cada noiva; Aaliah continuou vendo que colocara em xeque a confiança dela.
-Apenas coincidência. Isso não quer dizer nada; Isadora falou com ar cansado.
-É por outro motivo que você não quer ficar com ele, não é?
-...; Isadora assentiu.
-É por minha causa então; ela concluiu.
Entreabriu os lábios para responder, mas não conseguiu negar. Fechou os olhos por alguns segundos frustrada.
-Por quê?
-Eu não tenho o direito de me colocar entre vocês e também não quero isso. Eu sei o que é perder o pai para uma estranha e não quero ver esse filme de novo; Isadora respondeu.
-Você não é uma estranha, é minha amiga; Aaliah falou veemente.
-Aaliah, me diz uma coisa;
-O que?
-Qual o filme favorito do seu pai?
-Uhn? –ela murmurou confusa, como se nunca houvesse pensado nisso.
-O perfume que ele gosta?
-O de rosas, é claro; Aaliah falou prontamente.
-Tem certeza?- Isadora rebateu, arqueando levemente a sobrancelha.
Engoliu em seco, negando com um aceno. O pai só gostava de cuidar de rosas, mas nunca parara para reparar se o perfume que ele usava era outro ou não.
-Musica favorita?
-Não sei; ela balbuciou.
-Comida?
-...; negou novamente aflita.
-Isso prova que você ainda não conhece seu pai o suficiente. O tempo que vocês tiveram juntos ainda é muito pouco em vista dos anos que vocês tem de compensar. Uma pessoa se colocando entre vocês agora só vai estragar as coisas.
-Mas eu posso perguntar a ele, isso não é motivo para vocês não ficarem juntos; ela falou tentando convencê-la.
-Não é assim que as coisas funcionam, Aaliah; Isadora falou.
-Mas pelo menos da uma chance pra ele;
-Mesmo que eu desse, ele ainda não esta preparado para isso. Ele ainda precisa se encontrar, antes de escolher um caminho para seguir;
-Mas...;
-Vamos fazer assim então; Isadora falou dando um baixo suspiro. Ela não iria lhe dar sossego enquanto não fizesse algo. –Quando você voltar a Atenas, ira passar um bom tempo com ele. Se o que você diz que ele 'sente' por mim, continua o mesmo depois. Eu vou conversar com ele, mas você tem um prazo de no mínimo um mês. Vão ser só você e ele;
-Mas...; Aaliah falou assustada, um mês era muito.
-É isso, ou nada; Isadora falou taxativa.
-Você vai ao menos nos ver no aeroporto? –ela perguntou hesitante.
-...; Isadora assentiu.
-Se esse é o jeito, eu aceito; Aaliah falou decidindo arriscar.
-o-o-o-o-o-
-Isadora já acordou; Shaka comentou, enquanto distraidamente jogava uma pedrinha na água.
-Aaliah conseguiu trazê-la de volta; a senhora falou calmamente.
-Uhn?
-Ela não queria acordar; Astréia explicou. –Mas Aaliah a acordou;
-Aaliah gosta muito de Isadora; ele murmurou dando um baixo suspiro.
-Esta na hora de vocês conversarem; Astréia falou fitando-o. –Você não pode fugir disso para sempre;
-Hei! –ele resmungou.
-Vamos, ande logo, não a deixe esperando; ela brincou.
-...; o cavaleiro assentiu se levantando. Deu um beijo na testa da senhora antes de se afastar.
Subiu as escadas a passos quase corridos quando ouviu vozes no corredor.
-Vou fazer um lanche para você e já volto; Aaliah avisou.
Entrou em um corredores, esperando-a passar por si.
-o-o-o-o-o-
Estava distraída pensando no acordo que fizera com Isadora, quando sentiu-se puxada para o lado. No sustou, lutou para desvencilhar-se dos braços que lhe envolviam, até senti-lo estreitar o abraço de maneira terna e suas resistências caíram por terra ao reconhecer o cavaleiro.
Hesitante, ergueu a cabeça, encontrando o olhar intenso do virginiano sobre si, engoliu em seco, sentindo um arrepio correr pelo meio das costas, mas antes que pudesse falar algo, estremeceu enquanto a respiração quente chocava-se contra sua face e os lábios macios pousavam suavemente sobre os seus, envolvendo-a em um beijo sôfrego.
Os braços fortes envolveram sua cintura, fazendo-a aconchegar-se ainda mais no calor de seu corpo. Estremeceu ao sentir as unhas finas arranharem levemente sua nuca, indo entrelaçar-se nos fios dourados.
Afastaram-se parcialmente, sentindo as respirações quentes chocando-se umas as outras.
-Me perdoa; ele pediu num sussurro enrouquecido, desarmando-a completamente.
Viu-a abrir os orbes amendoados, mas que agora uma sombra parecia insinuar-se nas íris tornando-as quase castanhas. Tocou-lhe a face ternamente, numa leve caricia. Foram dois dias longe dela e estava enlouquecendo; o cavaleiro pensou, ouviu o coração bater na garganta de tão agitado.
-Não é para eu que você tem de pedir; Aaliah respondeu com ar sério, ainda sentindo o corpo tomado por intensos arrepios.
Como diria sua professora, eles tinham uma química bombástica, que entrava em combustão espontânea apenas com beijos; a jovem pensou sentindo-se corar até os fios de cabelo. Estavam apenas há algumas horas (mais de vinte e quatro) separados, mas era como se fossem anos.
-A você também; Shaka falou, estreitando o abraço. –Fui um idiota e reconheço isso... E eu não pensei na possibilidade de acabar te machucando; ele falou referindo-se a briga na cozinha.
-Eu posso não ser uma amazona, mas sei me virar sozinha; ela reclamou.
-Mas você não está mais sozinha; o cavaleiro falou com um olhar intenso. –Eu te amo e sei o quanto foi difícil para você levar aquilo adiante;
-...; Aaliah assentiu desanuviando o olhar.
-Eu sei também que eu mereci aquilo. Você estava certa, o tempo todo quanto ao fato de eu estar bancando o garoto mimado, mas isso nada tem a ver com a minha mãe;
Voltou-se surpreso para ele, ao ouvir a ultima parte. Será que ouvira direito?
-Eu sei, conheço você o suficiente para saber que você é um cabeça dura arrogante quando quer; ela brincou. –E Astréia só queria lhe proteger, faz parte da natureza dela de mãe, mas eu precisava fazer você perder a postura de algum jeito;
-...; ele assentiu.
-Mas vou pensar no seu caso; Aaliah falou dando uma piscadinha marota antes de se esquivar do abraço dele.
-Uhn? –Shaka murmurou confuso.
-Vou fazer um lanche para Isa; ela falou se afastando.
-Ela espera; o cavaleiro falou impedindo-a de se afastar, colocando-se a sua frente.
-Shaka; Aaliah falou em tom de aviso.
-Estou com saudades; ele admitiu com ar inconsolável, aproximando-se dela.
-Isadora acabou de acordar e precisa comer algo;
-Ela espera mais um pouquinho; Shaka falou antes de puxar-lhe para um beijo intenso.
Pensou em protestar, mas qualquer pensamento foi varrido de sua mente, quando os braços do virginiano suspenderam-lhe do chão, fazendo-a aninhar-se em seu colo.
.IV.
Caminhou calmamente pela Backer Street, àquelas horas o museu de Sherlock Holmes estava fechando, mas o café a poucos passos dali não.
De longe conseguia ouvir uma música gostosa e agradável. Embora quando houvesse saído de casa ainda nem houvesse amanhecido, ali a noite estava apenas começando.
A seção de filmes fora até as três da manhã, porque as garotas, como havia previsto, quiseram assistir os demais filmes e ameaçaram mandar um ou outro cavaleiro dormir no sofá se as contrariasse.
Depois que cada um fora para casa, decidiu ir se deitar, mas a falta de sono impediu que dormisse. Então, acabou decidindo sair logo do que ficar rolando na cama até amanhecer.
Parou de andar ao deparar-se com algumas mesinhas na calçada e um garçom andando para todos os lados.
-Boa noite, senhor Mú; o inglês falou cordialmente.
-Boa noite; ele respondeu num inglês igualmente cordial.
-Ela já esta esperando pelo senhor, na mesa de sempre; o rapaz avisou.
-Obrigado; o cavaleiro respondeu entrando.
Muitos olhares voltaram-se para si, mas ignorou, seguindo até quase o fim do estabelecimento, onde a encontrou sentada, bebericando uma xícara de café, com um livro nas mãos que mais parecia uma bíblia de tão grande.
-Oi;
-Oi; a jovem de melenas azuladas e incríveis orbes rosados falou sorrindo ao indicar-lhe uma cadeira a seu lado.
-Pensei que já houvesse lido esse livro; Mú comentou indicando a capa.
-A dança do universo é daquelas que a gente sempre lê de novo; ela brincou. –Mas como você está?
-Bem; ele respondeu chamando o garçom. –E a caminhada em Versalhes, como foi?
-Tudo bem, nenhum maníaco pervertido tentou me atacar, se isso lhe tranqüiliza; Laura respondeu em tom de provocação. –E a seção de filmes?
-Aquelas DVD's que você deixou lá salvou minha pele; Mú confessou.
-Imaginei, quando você falou de seção de filmes, duvidei muito que aquele bando de marmanjos soubesse escolher algo alem de Sexta-feira 13 ou American Pie; ela falou.
-É; ele concordou dando de ombros.
-Mas e ai, prefere jantar ou tomar café? –a jovem perguntou.
-Por hora um café vai bem; Mú respondeu antes de chamar novamente o garçom que passara reto pela mesa.
-Olha, depois você diz que a viciada em café sou eu; Laura provocou.
-Com o convívio a gente sempre pega alguma coisa; ele rebateu com um sorriso matreiro.
-O que você quer dizer com isso? –ela perguntou com os orbes serrados perigosamente.
-Nada; o cavaleiro respondeu com ar inocente.
-o-o-o-o-o-
Deu um baixo suspiro, enquanto sentava-se melhor na cama, estava começando a ficar entediada. Afastou as cobertas, colocando as pernas para fora.
Pelo visto Aaliah estava 'bastante' ocupada e iria demorar a voltar, então, não iria fazer mal algum dar uma volta por ai.
Segurou-se no criado e levantou. Sentiu-se um pouco atordoada, mas isso não era desculpa para ficar ali. Deixou o quarto a passos ponderados, seguindo pelo extenso corredor, até encontrar as escadas para o primeiro andar.
Aquela casa era realmente grande; Isadora pensou, deixando-se guiar até encontrar-se na porta dos fundos, saindo na entrada do Vale das Flores.
Seguiu pelo caminho de seixos até deparar-se com o lago de águas cristalinas. O local que Aimê lhe dissera para usar de intermediário para devolver a armadura.
No momento havia esquecido de perguntar, mas estava curiosa para saber, aonde fora guardada a armadura? Balançou a cabeça para os lados, aquilo não era mais uma preocupação sua; Isadora pensou.
Ouviu um barulho atrás de si e se sobressaltou ao virar-se e encontrá-lo ali. Quem era ele afinal? –Isadora se perguntou.
-Algumas pessoas preferem me chamar de Emmus, outras de Olhos Vermelhos, você pode chamar do que quiser, não faz diferença; o cavaleiro negro falou como se houvesse lido seus pensamentos.
-O que você quer? –ela perguntou hesitante, enquanto ele mantinha-se encostado em uma árvore, os longos cabelos negro-esmeralda caiam brilhantes e sedosos pelos ombros, enquanto alguns fios atrevidos insistiam em cair sobre seus olhos.
-Vim ver como você estava, nosso primeiro encontro não foi lá muito agradável; ele comentou displicente. –Alem do mais, não precisa se preocupar, vim apenas para isso mesmo;
Fitou-o confusa, era estranho, mas sentia-se tão calma com ele ali. Diferente da energia opressiva que o rodeava da outra vez.
-Eu estou bem... Eu acho; Isadora balbuciou.
-Sei que não tenho o direito de lhe falar isso, mas você precisa voltar. Quanto mais adiar isso, pior vai ser para você mesma; Emmus aconselhou.
-Eu não entendo; a jovem começou. –Onde você lucra com isso? –ela quis saber.
-Por quê? –ele perguntou calmamente, como se esperasse por tal indagação.
-Ninguém faz nada sem esperar algo em troca; ela falou seria.
-Bastante perspicaz da sua parte; Emmus falou com um fino sorriso desenhando-se nos lábios bem desenhados. –Então, me considere uma exceção à regra;
-Mas...;
-Porém se você quiser colaborar, é outra historia; ele continuou de maneira enigmática.
-Como assim? –Isadora perguntou desconfiada.
-Alguém um dia me disse que três senhoras são as únicas que têm o poder de controlar nossa vida, nossos caminhos. Nos dizendo o que fazer, quando fazer e onde; Emmus explicou, enquanto caminhava até ela, porém parando em frente ao lado, fitando-o distraidamente.
-Então?
-Mas eu acho que aceitar isso é cômodo, não o certo. Porque cabe a nós decidirmos os melhores caminhos. Se existe um futuro somos nós que temos de fazê-lo, não elas;
-Tem lógica; ela murmurou.
-A única coisa que quero, é que você siga seu próprio caminho e não fique a mercê delas; ele completou, voltando-se para a jovem.
-Você já se apaixonou alguma vez? –ela perguntou curiosa. Mal se dando conta de quando essa pergunta surgira em sua mente.
-Já, por isso sei que não cabe ao destino ser irônico e sim, a nós; Emmus falou taciturno. –Bem, é melhor voltar para dentro, vai chover; ele avisou olhando para o céu.
Seguiu o olhar dele, mas franziu o cenho, não havia nuvens.
-Mas não vai-...; Isadora parou ao voltar-se para o lado e ver-se sozinha.
Emmus, conhecido também por Olhos Vermelhos, quem será ele realmente? –ela se perguntou, encaminhando-se de volta a casa, mas deu poucos passos para dentro quando um trovão cortou os céus e a chuva começou a cair.
Estremeceu, sentindo os pelos do braço se eriçarem. Ele estava certo, mas como ele podia sabia?
-Isadora;
Deu um pulo ao ouvir a voz de Astréia atrás de si, mas respirou mais calma, sentindo o coração menos agitado. Definitivamente, aquele homem era um mistério; ela falou balançando a cabeça levemente para os lados.
-Sim!
-Preparei um lanche para você, é melhor vir comer;
-...; ela assentiu.
-o-o-o-o-o-
Remexeu-se um pouco na cama, de forma que ficasse mais confortável e apoiasse a cabeça sobre o ombro dele, sentindo os dedos finos do cavaleiro acariciarem suas costas. Suspirou pesadamente.
-Em que esta pensando? –Shaka perguntou.
-Isa me disse que quer partir hoje à noite; Aaliah falou lembrando-se do que conversara com ela.
-Mas...;
-E fizemos um acordo; ela continuou, serrando os orbes levemente.
-Qual? –ele perguntou curioso.
-Ela quer que eu passe um tempo com papai; Aaliah explicou.
-Só?
-Não; a jovem respondeu.
-Então, o que lhe preocupa? – o cavaleiro quis saber, enquanto virava-se de lado, podendo fita-la diretamente.
-Ela me disse que só vai dar uma chance a ele depois de um mês e vai se manter completamente afastada nesse meio tempo. Isadora disse que se o a 'aparente' interesse do papai sobreviver, ela dará uma chance, se não, não falam mais nisso;
-Entendo; Shaka murmurou pensativo. –Mas nesse ponto ela esta certa;
-Qual?
-Não querer ficar entre vocês; o cavaleiro falou. –Eu concordo com ela. O melhor é vocês terem um tempo certo para se conhecerem. Quando voltarmos você não vai ser mais a mesma Aaliah que saiu e ele, o que deixou;
-Mas...;
-Não se preocupe antes do tempo, Isadora sabe o que faz e a única coisa que quer é sua felicidade, como eu; Shaka completou beijando-lhe os lábios.
-...; Aaliah assentiu, ele tinha razão.
Era melhor deixar as coisas simplesmente acontecerem.
Continua...
