.::DE VOLTA AO VALE DAS FLORES::.
By DAMA 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah e Astréia são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
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Capitulo dedicado a Carol Coldibeli.
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Capitulo 31: Longa espera.
.I.
Apoiou-se no batente da janela, vendo as árvores passarem velozes por seu campo de visão. A temperatura estava caindo e quanto mais o trem subia, mais rarefeito o ar ficava.
-Vai ficar tudo bem; Astréia falou a seu lado.
Virou-se para a mãe, ainda custando a acreditar que estava ali. Alias, tudo que vinha acontecendo nos últimos dias parecia parte do roteiro de algum capitulo de 'Alem da Imaginação'.
Assentiu, sem muita motivação, não estava acostumado a ter uma distancia tão grande entre ele e Aaliah, ainda mais quando sabia o quanto as Deusas do Destino podiam ser sádicas.
Oceanos se separam dia após dia
E vagarosamente estou enlouquecendo
Escuto sua voz ao telefone
Mas isso não para minha dor.
Olhou para o aparelho de telefone em suas mãos, começou a digitar alguns números, mas desistiu, suspirando pesadamente.
Fazer aquilo não iria aliviar a distancia que existia entre eles no momento. Continuou seguindo pela loja junto com Celina e o ariano, ainda tinham muitas coisas a fazer, mesmo que sua mente estivesse a milhas dali.
Se te vejo perto do nunca
Como podemos dizer para sempre?
-Fique tranqüilo, tudo que é para ser, será; Astréia falou apoiando a mão sobre seu ombro.
-Eu gostaria realmente de acreditar nisso; Shaka murmurou em meio a um suspiro.
Onde quer que vá
O que quer que faça
Estarei bem aqui esperando por você
-Esta tudo bem, Aaliah? –Celina indagou, enquanto esperavam pela vendedora, que iria trazer as amostras dos tecidos que precisavam.
-...; assentiu silenciosamente.
De que adiantava dizer que estava com saudade, somente quem sente sabe como é. Queria que houvesse tido uma outra forma das coisas se resolverem. Não se arrependia daquela chance de estar com o pai e conhecê-lo, mas...
-Esta, não se preocupe; Aaliah respondeu forçando um sorriso que mal lhe chegou aos olhos.
O que quer que aconteça
Ainda que machuque meu coração
Estarei bem aqui esperando por você.
-Sente muito a falta dela, não é? –Astréia indagou. Fazia poucas horas que estavam no trem, mas ao total, já faziam mais de vinte e quatro horas que ele e Aaliah se separaram em Estolcomo.
-Mais do que um dia eu imaginei; ele respondeu, fechando os olhos por alguns minutos, recostando a cabeça no vidro.
Admiti, todo o tempo
Que pensava suportar de alguma forma
Escuto risos, provo lágrimas
Mas não posso estar perto de você agora.
-Sente muito a falta dele, não é? –Celina indagou, quando o mestre se afastara para ver outras coisas, deixando-as sozinhas.
-Mas do que pensei sentir por alguém um dia, chega a ser enlouquecedora; Aaliah admitiu.
-Porque não liga para ele? –a amazona indagou, apontando para o celular que retinha firmemente nas mãos.
Respirou fundo, olhando os números gravados na tela principal do aparelho, bastava apenas apertar aquele botãozinho verde e esperar chamar.
Ho! Não pode ver querida
Que está me deixando louco?
A noite caia pelas estradas e ainda levaria um bom tempo até chegarem ao vilarejo onde a irmã de Seth vivia.
Astréia sorriu, complacente. Passara anos observando o filho crescer, desenvolvendo seu caráter, seus sentimentos e sua própria maneira de viver, mas vê-lo assim de maneira tão vulnerável agora, por causa da saudade era algo novo.
Queria aproveitar essa oportunidade que tinham juntos, para aprender sobre o 'verdadeiro' Shaka, aquele que nem mesmo o próprio parecia desconhecer completamente.
Desejo saber como podemos sobreviver
A este romance
Mas no final, estando com você
Correrei o risco
-Não posso; Aaliah sussurrou. –Não ainda;
Não estava certa quanto ao que dizer, sabia que ele ainda estava chegando ao Tibet, por trem. A estática das subidas e descidas não deixariam o celular funcionar sem cortes. Então, precisava esperar.
-Ele também deve estar com saudades; Celina comentou, separando as peças que iriam levar.
-...; assentiu. –Shaka se mostrou mais forte do que eu ao se despedir, por isso prefiro espera-lo chegar. Ele esta com Astréia, não tenho direito de me colocar entre eles também, eles precisam desse tempo;
-Você não vai fazer isso, vai apenas ligar e dizer 'Oi'; a amazona falou com ar inocente.
Rui, essa lógica parecia tão simples, somente Celina para pensar assim, pelo menos metade das pessoas que conhecia diriam para pensar num bom texto melodramático, mas ela tinha razão, não estaria se colocando entre eles apenas por ligar e dizer que estava com saudade.
Quem sabe se desse mais um tempo conseguisse falar com ele antes do almoço; ela pensou um pouco mais animada.
Onde quer que vá
O eu quer que faça
Estarei bem aqui esperando por você
-o-o-o-o-o-
Olhou atentamente para a porta de madeira a sua frente, 'entrar ou não entrar, eis a questão?'; ele pensou, suspirando pesadamente. Estava a mais de uma hora ali, não, duas talvez e ainda não tinha se decidido se batia ou simplesmente dava meia volta que iria ganhar mais.
-Não se atreva...;
Uma voz conhecida soou em sua mente e já pode imaginar o avô entrando num avião, mesmo sob os protestos de Juliane e desembarcando em Atenas para lhe dar uma bela surra.
Engoliu em seco, sentindo um calafrio. Definitivamente era melhor bater de uma vez.
-Entre logo, italiano covarde; uma voz bem humorada falou atrás de si.
Virou-se, pronto para mandar quem quer que fosse para a encosta de Yumotsu, mas viu o cavaleiro passar por si, abrindo a porta do templo de Ares e segurar seu braço, arrastando-o para dentro consigo.
-Aldebaran, algum problema? –Celina perguntou, assim que o brasileiro irrompeu a porta da sala com um canceriano resmungando uma infinidade de impropérios, que graças a Zeus ela não entendeu devido ao idioma em que eles foram pronunciados.
-Encontrei-o ali na porta; Aldebaran respondeu com um sorriso tipicamente brasileiro. –O Mú está?
-Está na cozinha com a Shina; Aaliah respondeu, terminando de dobrar um dos cortes de seda que tinha em mãos, que o ariano pedira a ela e Celina que organizassem todos os tecidos por tons, dos mais claros aos mais escuros. Por quê? Ainda era um mistério.
-Com a Shina? –Guilherme indagou, arqueando a sobrancelha.
-É melhor controlar a língua caranguejo, antes que ela não volte mais pra dentro da boca; a amazona avisou, saindo da cozinha com uma faca, longa e bastante afiada nas mãos.
-Ahn! Shina... Calminha; Aldebaran pediu, empurrando o canceriano para a sua frente e deixando-o a própria sorte.
-Então? –ela indagou, erguendo perigosamente a faca em direção ao cavaleiro que ficou branco.
-Não é nada; ele balbuciou.
-É melhor para a sua saúde que não seja mesmo; a amazona completou, antes de virar-se para as garotas. –O Mú esta ocupado com um telefonema e mandou vocês duas irem até o porto, resolver uma coisa para ele; ela completou, tirando de dentro do bolso do avental um papel.
-O que é? –Celina perguntou franzindo o cenho.
-Não sei, alias... Não faço a mínima idéia, não consigo entender a letra do jeito que está rabiscado aqui; Shina respondeu, entregando as garotas o papel. –Ele falou que é só chegar ao cais e mostrar isso ao guarda que fica logo na entrada; ela explicou.
-Realmente, não da pra entender; Aaliah comentou, lendo o papel por cima do ombro de Celina.
-Ele deve saber o que esta fazendo; Celina respondeu dando de ombros. –Vamos logo;
Antes que Aaliah falasse alguma coisa em protesto, as duas desapareceram, deixando apenas a amazona e os dois cavaleiros ali.
-Então? –Shina indagou, voltando-se para ele.
-Acho que ele quer falar com o Mú; Aldebaran falou com um largo sorriso. –Eu só estou passando pra dar um 'Oi'; ele completou em seguida.
-Sei; a amazona falou meio descrente.
-Bom , vou nessa... Até mais; o taurino falou saindo rapidamente do templo, deixando os dois italianos ali.
Um pesado silêncio caiu no ambiente, como um véu espesso de tensão que tentava envolvê-los.
-Ahn! Shina; Mascara da Morte começou, mas viu-a dar-lhe as costas e voltar para a cozinha.
-Ele esta na biblioteca, suba a escada, segunda porta a direita. É melhor fazer direito, antes que o prato principal dessa noite seja caranguejo ao molho madeira; ela completou numa ameaça velada de morte lenda e dolorosa.
Assentiu, engolindo em seco, ainda não sabia o que era pior, as ameaças de Shina ou a perspectiva do avô vir da Itália para esfolar seu couro; ele pensou seguindo o caminho que ela indicara.
.II.
Olhou-se no espelho ainda achando difícil reconhecer o reflexo que tinha diante de si. Fazia tanto tempo que não os deixava naquela cor; Isadora pensou dando um baixo suspiro.
Como a mãe, nos primeiros anos de vida, os cabelos eram verdes, tão verdes como esmeraldas recém lapidadas e com finas mechas, quase transparentes de um tom mais claro.
Com o tempo as mechas foram desaparecendo, tinha por volta de quatro anos quando elas desapareceram completamente, idade em que a mãe havia falecido.
Suspirou pesadamente, como diria o amigo, ninguém era perfeito e ela descobriu que ter como obsessão, se tornar aquilo que a mãe fora um dia, não era tarefa fácil. Jamais seria Isabel Ermond e não foi nada fácil aceitar isso, principalmente quando o pai logo 'substituiu' a mãe por outra mulher, cujo coração era tão frio quanto gelo e mais egoísta que ela própria, talvez fosse impossível existir.
Se todos tinham uma fase ruim no decorrer da vida, aquela fora a sua. Aceitar que outra mulher queria ocupar o lugar que era de direito de sua mãe, lhe despertava sentimentos até então desconhecidos a uma criança. Foi quando decidiu partir para Atenas.
Como dizia o velho ditado 'com uma mão na frente e outra trás', levou apenas o essencial, algumas coisas pessoais que não estava disposta a deixar e entrou em contato com o avô na Baviera. Indignado com as atitudes do genro, o avô não pensou duas vezes em ajudá-la, embora houvesse preferido que ela ficasse na Baviera consigo, do que ir a um lugar tão estranho.
Mas as ilusões daquela época ainda eram muito fortes e o desejo de chegar pelo menos perto, de onde a mãe dera os primeiros passos como amazona, foi maior.
Sabendo que seria facilmente reconhecida, mesmo usando mascara, voltou a pintar os cabelos, trazendo as mexas mais claras de volta. Com o tempo, elas foram cada vez mais tomando conta dos fios esmeralda, fazendo-os quase desaparecer completamente. No momento em que a amazona em si surgia.
Era irônico ver como as coisas seguiam rumos que pobres mortais não tem o poder de mudar. Quando conhecera Aaliah, há quase seis meses atrás se identificou com a jovem, embora ainda não soubesse de toda a história que envolvia uma longa geração.
Parecia que estava vendo os mesmos problemas novamente, principalmente quando Shaka apareceu para si um dia, lhe contando dos planos da jovem de ir embora. Quase os mesmos motivos que os seus na época que deixara a casa dos pais.
Ser parecida com a mãe e ao mesmo tempo, tão diferente...
Definitivamente não gostava desse tipo de ironia. Emmus tinha razão ao dizer que não deveríamos deixar o destino nas mãos dos deuses, mas depois de tanto tempo vivendo de maneira cômoda, apenas culpando o 'acaso' pelos próprios fracassos, é difícil voltar a tomar as rédeas da situação.
Entretanto, Minos era veemente ao dizer que todos os demônios, por mais fortes que sejam, ainda podem ser combatidos, mesmo que só exista uma pequena fagulha de esperança.
Minos! Emmus! Milo! –tantas pessoas que nos últimos tempos vinham lhe dizendo a mesma coisa e estava na hora de ouvi-los.
-Pronto; Dayene falou tirando a capa que cobria-lhe colo, deixando os cachos esmeralda caírem sobre seus ombros. –Ficou perfeito;
-É; Isadora murmurou, deixando a ponta dos dedos tocarem hesitantes os cachos.
-Sabe, você se parece muito com sua mãe assim; a senhora comentou, apoiando os braços no encosto da cadeira e observando-a. –Mas a diferença ainda é muito grande;
-Como assim? –ela indagou confusa.
-Isabel era Isabel... Você é Isadora; a senhora falou sorrindo. –Cada pessoa é única, por mais que exista outra igual a si. São almas e personalidades distintas. Por isso digo que vocês são parecidas, alias, nada mais do que normal já que são mãe e filha, mas ainda sim, cada uma é única;
-...; assentiu silenciosamente. Sim! Não havia porque tentar ser aquilo que não era, precisava sim, ser aquilo que escolhesse ser, mas por vontade própria. –Obrigada; Isadora agradeceu se levantando.
-Não por isso menina, mas não demore muito a voltar da próxima vez viu; a senhora cobrou.
-Pode deixar;
-Mande lembranças a seu pai por mim; Dayene falou com um sorrindo de canto.
-Mandarei; Isadora falou despedindo-se.
Saiu do salão notando já serem por volta de três horas, estava um pouco tarde para abrir a floricultura, mas era bom dar uma passada lá; ela pensou, seguindo em frente, quando seu celular tocou.
-Alô!
-Isadora! –Mú falou do outro lado.
-Sim;
-Desculpe, você está ocupada?
-Não, estava indo para a floricultura agora; ela avisou, olhando para os lados, certificando-se que poderia atravessar a rua.
-Ótimo, só queria lhe perguntar se é possível você fazer alguns arranjos de flores?
-Faço sem problemas, mas que horas você vai pegar?
-Umas seis e meia, sete horas, mais ou menos;
-Uhn! Não tem como ser antes, vou ter de fechar as sete hoje?
-Tudo bem;
-Está certo, até lá então;
-Obrigado;
-Por nada;
-Até;
Desligou o telefone e seguiu rapidamente para a floricultura, se quisesse terminar as sete, teria de começar logo; Isadora pensou.
.III.
Andaram pelo porto, olhando para todos os lados procurando a pessoa que o mestre lhes mandara encontrar.
-Quem será a figura? –Aaliah comentou, vendo uma infinidade de barcos ancorados.
-Não faço idéia, mas deve ser conhecido dele; Celina comentou, foi quando estancaram alguns passos antes de chegar ao final do dec, onde o guarda da entrada do porto lhes mandou ir.
Deixando os obres correrem para todos os lados, vendo um imenso iate ancorado. Ele era completamente branco e extremamente luxuoso. Olharam para o papel que tinham em mãos e constataram que aqueles rabiscos, na verdade eram o nome. Nome do barco...
-Bem-vindas senhoritas; um homem falou saltando do barco.
Dizer que o queixo das duas tocou o chão, seria exagero, mas nesse caso chegou perto. O homem que lhes abordara, era alto, tanto que ambas tiveram que erguer um pouco a cabeça para encará-lo.
A pele era bronzeada, quase num tom de cobre, devido aos sóis orientais, porém os obres pareciam duas esmeraldas, tão verdes e intensas, que eram capazes de hipnotizar. Ele vestia apenas uma calça de malhas e parecia bastante a vontade andando com o dorso completamente nu, deixando evidente todos àqueles músculos que pareciam ter sido esculpidos pelos deuses.
Definitivamente, ele não parecia ser o dono de um iate daquele tamanho.
-Oi; as amazonas falaram fitando-o desconfiadamente.
-Imagino que uma de vocês seja Celina, não? –ele indagou fitando as duas dos pés a cabeça, fazendo-as ficarem escarlate.
-Eu; a jovem de melenas loiro-esverdeado falou hesitante.
-Foi o que pensei; ele respondeu com um fino sorriso no canto dos lábios. –Então, eu expliquei ao Mú que estava muito em cima para fazer alguma coisa mais elaborada, mas se vocês me mostrarem a praia que eu posso ancorar, meus homens e eu daremos um jeito de aprontar tudo até a noite;
-Ahn! Desculpe, mas primeiro. Quem é o senhor? –Aaliah cortou.
-Perdão, senhoritas, pensei que ele já houvesse lhes contado quem sou; o rapaz respondeu parecendo bastante surpreso com aquela omissão de informação. –Me chamo Abas e estou a seu dispor; o árabe falou curvando-se numa elegante reverencia, que as fazia pensar em como alguém tão grande poderia aparentar tamanha delicadeza.
-É um prazer conhecê-lo, senhor Abas; Aaliah falou ainda com cautela.
-Apenas Abas, por favor; ele pediu, num gesto refinado ao voltando-se para ela, deixando os cabelos negros caírem levemente sobre os orbes verdes.
-Ahn! O que exatamente o senhor e o mestre Mú acertaram? –Celina perguntou, ainda tentando entender o que estava acontecendo.
-Ele me disse que tinha alguns amigos com problemas e que eu poderia ajudar; Abas respondeu. –Se puderem subir a bordo, posso lhes mostrar os esboços do que fiz e vocês vão entender melhor o que estamos planejando;
-Mas...; Aaliah ponderou.
-Não se preocupe minha esposa também estará a bordo; Abas respondeu compreendendo o porque da apreensão das garotas, mas também, não as culpava por ficarem na defensiva.
-...; elas assentiram, seguindo-o.
.IV.
Andou distraído pelo vilarejo, não estava entediado, estava apenas procurando alguma coisa para se distrair, quem sabe visitar uma livraria seria interessante, ou até mesmo dar uma esticada ao museu no centro.
As ruas não estavam muito movimentadas, provavelmente com a chegada do final de semana, cada um estivesse mais preocupado em terminar os expedientes, do que ficar andando pela rua.
Entrou em uma livraria, estava perto da floricultura, talvez desse uma passada para ver Isadora antes de ir ao museu; ele pensou, abrindo a porta de vidro, ouvindo um sininho tocar.
O movimento ali também era pouco, mas mesmo assim ele não foi capaz de ver duas pessoas esgueirando-se entre as prateleiras, resmungando uma serie de coisas inteligíveis.
-Bom dia, Milo; uma senhora de idade falou cumprimentando-o sorridente.
-Bom dia, dona Stasia; Milo a cumprimentou sorrindo. –Chegou alguma coisa nova?
-Chegaram livros ótimos menino, inclusive àquele que você encomendou; Stasia falou indicando-lhe as prateleiras de literatura estrangeira.
-Vou ver, obrigado; ele falou afastando-se.
Deixou os orbes correrem pelas prateleiras ainda pensando no que iria fazer pelo resto do dia. Isadora estava ocupada trabalhando, Shina estava em Áries fazendo sabe-se lá o que, mas ouvira alguns rumores de que Shura era mais um na lista querendo tosquiar o carneiro, ou melhor, Mú.
Quantos patos, estava na hora de abrir a temporada de caça; ele pensou balançando a cabeça levemente para os lados. Depois ele era taxado de pervertido, antes pervertido que pato.
Parou em frente à prateleira que dona Stasia indicara, observou atentamente a lombada de cada livro, retirando um da prateleira. Franziu o cenho, interessante, já havia ouvido falar sobre aquele autor, mas ainda não havia lido os livros ainda.
Parecia interessante. Principalmente porque aquele slogan era capaz de atiçar a curiosidade da pessoa mais indiferente que existisse.
.::Bento::.
Herói Humano
Inimigo Vampiro
Por André Vianco.
Ouvira dizer que ele era brasileiro, alias, Isadora comentara ter um ou dois dele livros, mas até agora não havia lhe emprestado nenhum; Milo pensou torcendo o nariz. Precisava passar na biblioteca da amiga e fazer um pequeno saque, estava ficando sem livros para ler e detestava isso.
Ainda aquela matéria-prima de sushi tinha o disparate de duvidar que lia coisas decentes. Idiota! Aquele era outro a julgar o livro pela capa, depois que passava um cortado como agora, vinha querer culpar o destino por ser incompetente; Milo pensou.
-Uhn! Vou levar esse e -...; Milo murmurou continuando a olhar as fileiras de livros até pegar um outro. –Esse pra Shina, acho que ela vai gostar; ele murmurou lembrando-se que a amazona comentara estar interessada naquele volume em especial.
-Ta fazendo o que aqui, Escorpião? –ouviu uma voz conhecida atrás de si.
Virou-se encontrando duas figuras conhecidas do santuário, arqueou a sobrancelha.
-Comprando livros, alias normalmente é isso que se faz em uma livraria; ele respondeu fitando-os desconfiado.
-Realmente; Shura concordou, levando uma das mãos ao queixo e observando-o de maneira enigmática.
-O que querem? –Milo perguntou, colocando os livros em baixo do braço e indo até o caixa.
-Ahn! Digamos que precisamos de ajuda para uma coisa; Saga começou.
-No que? –Milo perguntou, antes de voltar-se para dona Stasia. –Pode colocar o outro junto, os dois são para presente; ele explicou.
-Pode deixar; Stasia falou enquanto computava os valores e começa a embalar os livros.
-Uhn! Presente para quem? –Shura perguntou curioso.
-Shina e Litus; ele respondeu casualmente.
-O QUE? –os dois cavaleiros berraram ao mesmo tempo, assustando alguns fregueses.
-Ajuda no que exatamente vocês precisam, mesmo? –o Escorpião falou com seu sorriso mais inocente.
-Milo, você acordou com vontade de visitar Hades hoje? –Saga perguntou com os orbes faiscando.
-Ah! Não estou falando sério; ele falou abafando o riso, vendo o outro bufar. –Vocês são tão neuróticos, nunca vi, nem o Shaka que era o 'Santo dos Santos' é tão lerdo quanto vocês;
-Do que esta falando? –Saga indagou arqueando a sobrancelha.
-E você acha que eles foram mesmo para a Índia? Quanta inocência, nossa vocês me deixam tão feliz ao ver que mesmo dois marmanjos de trinta e poucos anos ainda são tão inocentes, quer dizer que ainda existe salvação para o resto do mundo; ele falou em tom de escárnio, enquanto pagava os livros e deixava a loja.
-Hei! –os dois reclamaram.
-Sem comentários; Milo murmurou seguindo em frente em direção a floricultura. –Se precisarem mesmo de ajuda, peçam ao Mú, eu ainda estou pensando em propor uma sociedade a ele; ele comentou.
-Do que? –Shura indagou.
-Consultoria para os desesperados. Quem sabe a gente não ganha muito dinheiro ajudando os patos que encontramos por ai, se é que vocês me entendem; Milo falou com um sorriso que estava longe de ser inocente, antes de deixar os dois estáticos ali e ir embora.
-O que ele quis dizer com isso? –Saga perguntou voltando-se para o outro.
-Estamos com problemas; Shura resmungou voltando para a loja.
-O que você vai fazer? –o geminiano perguntou.
-Investigar; ele respondeu.
-o-o-o-o-o-o-
Suspirou cansada, jogando o guardanapo sobre a bancada, havia terminado tudo e decidira ficar ali apenas mais um pouco para garantir que os pratos sairiam bem do forno, agora era melhor ir para a casa, mas...;
Ponderou se seria melhor sair e deixar aqueles dois sozinhos, não que estivesse preocupada com o primo, ainda achava que ele merecia uma surra, mas estava curiosa para saber o que as garotas foram buscar no porto e porque ele ficara tanto tempo no telefone.
Deu de ombros, era melhor ir, depois iria garimpar algumas informações e descobrir o que ele estava armando, por hora, ia dar uma volta pelo centro de Atenas, quem sabe pudesse matar o tempo assim.
.V.
Ao longo do caminho muitas pessoas paravam para lhes observar. Não era comum verem estranhos andando por ali, quem sabe fosse isso; ele pensou um tanto quanto incomodado com aquela atenção.
-Só estão curiosos; Astréia falou calmamente.
-...; ele assentiu.
-Já estamos chegando; ela explicou, enquanto atravessavam o vilarejo.
Caminhou mais um pouco até parar em frente a uma casa, onde na frente um senhor já de idade estava sentado em um banquinho e usando outro como mesa, tinha o cenho franzido enquanto mexia com peças aparentemente muito delicadas com as mãos já enrugadas pelo tempo.
Parou em frente, observando-o com curiosidade, até ver o que ele fazia.
-Como vai, meu jovem? –o senhor falou voltando-se para ele com um sorriso já amarelado.
-Bem e o senhor?
Ele apenas assentiu enquanto tocava a aba do chapéu com a ponta dos dedos, antes de continuar a trabalhar.
-Faço isso há anos e ninguém nunca pareceu tão curioso, você não é daqui, não? –o senhor perguntou.
-Nasci aqui, mas estive muitos anos fora; Shaka respondeu, vendo que embora tremulas as mãos do senhor eram bem ágeis ao juntar os elos da peça.
-Sabe o que isso significa? –ele perguntou voltando-se para o cavaleiro, estendendo-lhe a mão, onde outra parte da corrente que fazia estava.
Pegou o objeto nas mãos e observou-o curiosamente, eram elos muito bem feitos, mas eles pareciam feitos de pequenas folhas e galhos entrelaçados, num tom quase incomum de prateado.
-Essas folhas representam o destino, a forma com que se entrelaçam são como os fios da vida tecido pelos deuses, não podem ser quebrados, nem destruidor; o senhor falou ante o silêncio dele. –Os corações representam à alma; ele continuou indicando os pingentes que tinha nas mãos agora. –Os sentimentos que se tornam eternos e que o tempo não é capaz de destruir;
-Laço eterno; Shaka murmurou ao compreender o que o senhor estava querendo dizer.
-Uma pessoa não pode possui-lo, apenas ofertá-lo a alguém; o senhor explicou. –Não se compram sentimentos, apenas se constroem laços;
-...; o cavaleiro assentiu, devolvendo-lhe a pulseira.
-Você também tem um pelo que vejo; o senhor comentou indicando a corrente no pescoço do cavaleiro.
-É da minha mãe; Shaka respondeu, notando que Astréia observava-os de longe.
-Então esta na hora de você ter o seu; o senhor falou.
-Como? –ele indagou surpreso ao vê-lo retirar um pequeno pacotinho de dentro do bolso e entregá-lo ao cavaleiro. –Mas...-;
-Veja;
Abriu-o com cuidado, vendo uma delicada corrente com um coração, não era igual ao de Astréia e Seth, mas era muito bonito.
-Eu não posso aceitar; Shaka falou um tanto quando encabulado.
-Pode e prove a essas pobres pessoas que os deuses também são como nós e tem a capacidade de amar, como qualquer outro mortal; ele respondeu indicando algumas pessoas que mesmo longe ainda lhe observavam.
-Obrigado; Shaka falou.
-Nós é que deveríamos agradecer os sacrifícios que pessoas como você vem fazendo por séculos, não apenas por nós, mas como pelo mundo todo, Santo de Athena;
Estancou voltando-se para ele, surpreso. Como ele poderia saber quem era?
-Agora vá, aquela bela senhora esta lhe esperando;
Assentindo e murmurando novamente um 'Obrigado' ele se afastou indo até Astréia. Mas era estranho, como aquele senhor poderia saber quem era? Até que estancou a poucos passos de Astréia e virou-se rapidamente para trás.
Não havia mais ninguém ali, alias, era como se aquele senhor jamais estivesse estado ali. Abaixou os olhos, enquanto abria a mão que ainda segurava o laço eterno. Ele ainda estava ali, então fora real, mas...
-Essa é minha ultima lição, meu pupilo... A única diferença entre deuses e mortais é o tempo que corre de maneira diferente entre os dois mundos. Mas ambos amam, choram e sangram... Porém a diferença entre os mortais e os deuses, é que apenas nós temos a chance de mudar, mesmo quando o fio já esta para ser cortado;
As palavras ecoaram em sua mente, fazia tantos anos que não a ouvia, alias, pensou que jamais fosse ouvi-la novamente.
-Você tem razão, mestre; ele sussurrou, deixando os orbes perderem-se entre a paisagem simples do vilarejo onde passara boa parte de sua vida antes de partir para a Grécia, onde seu destino havia se cumprido.
Uma nova história estava para começar, novas linhas em um papel começavam a serem preenchidas, pedacinho por pedacinho, por mãos que tinham agora certeza do caminho que desejavam percorrer.
-Podemos ir? –Astréia perguntou sorrindo.
-Claro; ele respondeu seguindo com a mãe até o outro lado do vilarejo, onde o primo vivia.
.VI.
Olharam estarrecidas o trabalho que haviam feito, nunca mais iria duvidar que um milagre pudesse ser cometido em tão pouco tempo; a amazona pensou vendo todos aqueles homens que saíram de dentro do iate arrumarem as últimas coisas na praia.
-Abas costuma ser um pouco exagerado, mas ficou realmente bom; uma mulher de pele bronzeada e orbes azuis falou sorrindo, acenando do iate para o marido na praia.
-Bom, isso é pouco; Aaliah falou surpreso. –Nunca imaginei que-...;
-Mú também foi muito criativo e deu sorte de estarmos ancorados aqui quando ligou; Izara falou. –Duvido que seus amigos não se acertem depois de tudo;
-Se eles não se acertarem, eu não deixo desmontarem a tenda, ela pode ser muito útil depois; Aaliah falou com um sorriso que estava longe de ser inocente.
-Como? –Celina que até então mantinha-se quieta voltando-se para ela.
-Esquece; a jovem murmurou, como quem não quer nada.
-Ainda não entendo, o que o mestre vai fazer com tudo isso; Celina comentou pensativa. –Uma tenda árabe no meio da praia do Cabo?
-Não é apenas uma tenda minha querida; Izara falou com um sorriso complacente. –O deserto guarda muitos segredos, dos quais são poucos que tem coragem suficiente para desvendá-los, ainda sim, nem todos; a mulher falou de maneira enigmática. –Três dias e três noites, esse é um dos lemas;
-Como? –Aaliah perguntou curiosa.
-Existe uma tradição nos desertos, muitos lideres, antes de assumirem seus lugares perante o povo, fazem um retiro espiritual para o deserto, pedindo um pouco de luz e sabedoria a Ala para que possam tomar as melhores decisões. É um período difícil, porque o isolamento é completo e as tempestades de areia podem começar a qualquer momento;
-Mas...-;Celina foi cortada.
-As tendas são bem fixadas no chão e as capas que a revestem são impermeáveis e impossível de serem destruídas pela areia e não deixam nada entrar. Depois que a tenda é lacrada, ninguém entra ninguém sai, porém quando alguém pede abrigo no deserto, como bom anfitrião, o ocupante da tenda oferece ao hospede, tudo que se tem de melhor, inclusive, três dias e três noites;
-Não entendi; Aaliah murmurou confusa.
-Acredito que a intenção de Mú não é apenas lacrá-los nessa tenda por três dias e três noites, digamos assim; ela explicou com um sorriso enigmático nos lábios. –Digamos que seus amigos não terão outra alternativa se não conversarem e acertarem as diferenças, ou se matarem de uma vez. Não existe meio termo; Izara falou. –Bastante engenhoso;
-Não tinha pensado por esse lado; Celina murmurou, mas franziu o cenho lembrando-se dos tecidos. –Porque os tecidos?
-Dificilmente exportamos ceda da Grécia, mas Abas esta interessando em diversificar os negócios por um tempo, então como estaria ocupado cuidando da tenda na praia, pediu a Mú que adiantasse o serviço; ela explicou.
-Bem lógico; Aaliah concordou, sem contar que ainda lhe dera algumas idéias bastante interessantes, pena que Shaka só voltaria no final do mês.
-Mas venham, vamos tomar um refresco enquanto eles terminam; Izara falou chamando-as para uma mesa posta na proa do iate, com um guarda-sol.
-...; as duas assentiram, seguindo-a.
-o-o-o-o-o-o-
Andou a passos incertos pelo corredor, imaginando se não havia entrando no lugar errado mesmo com as indicações de Shina, até ouvir a voz do cavaleiro vindo de algumas portas a frente.
Respirou fundo, agora que estava ali não dava pra voltar atrás, mesmo que seu orgulho lhe avisasse que nem deveria estar ali.
Antes que pudesse bater na porta, ouviu a voz do cavaleiro mandar que entrasse, interrompendo o que falava.
Abriu a porta, encontrando-o sentado atrás da escrivaninha, rabiscando algo em um papel e falando ao telefone. Mú acenou, mandando-o se aproximar.
-Sim! Perfeitamente. Entendo que tempo seja curto, mas imagino que até você seja capaz de fazer algumas concessões;
-Mú, você ouviu o que eu disse? –a voz do outro lado soou um pouco exasperada.
-Ouvi, mas não quer dizer que eu concorde; o ariano respondeu impassível. –Então, vamos resolver isso hoje, ou vou ter que ir atrás de outra pessoa pra fazer o serviço?
-Você é detestável quando quer alguma coisa, sabia? –o rapaz do outro lado falou aborrecido.
-Sabia, e então?
-Está certo, vou fazer uma concessão apenas dessa vez. Há que horas?
-Uhn! –ele murmurou, enquanto puxava a manga da camisa e observava o relógio no pulso. –Por volta das dez;
-Tudo bem, pode contar comigo;
-Obrigado; o ariano respondeu.
-Até mais;
-Até; Mú falou antes de desligar e voltar-se para o canceriano. –Então?
-Você está ocupado? Eu volto depois; Guilherme sugeriu, sem esconder o quanto estava um tanto quanto curioso devido ao telefonema que presenciara. O que ele estava tramando para as dez horas?
-Não, pode falar. Estou livre agora; o ariano falou recostando-se na cadeira de couro e cruzando os braços na frente do corpo de maneira elegante.
-Ahn! Bem...; Mascara da Morte começou sem saber ao certo como falar aquilo.
-Como Yuuri está? –o ariano indagou, decidindo por aliviar o suplicio do outro.
-Voltou pra casa; ele respondeu cabisbaixo.
-O que você fez dessa vez? –Mú perguntou mantendo o tom calmo de voz.
-A pedi em casamento; Guilherme respondeu, mas parou vendo-o arquear a sobrancelha. –Bem... Eu meio que disse a ela que precisávamos nos casar, mas a idéia era a mesma;
Balançou a cabeça levemente para os lados, antes de massagear as temporas, tentando pensar em todas as técnicas para manter a calma que aprendera com o mestre e não dar vazão aquele lado primitivo que queria dar uma sura no canceriano por ser tão idiota.
-Ahn! E isso nos leva a que, exatamente? –Mú indagou como quem não quer nada.
-Bem, eu...; Ele murmurou, respirando fundo. –Queria me desculpar pelas besteiras que eu falei; o cavaleiro explicou.
-Uhn! Eu até aceitaria isso, se soubesse que você realmente esta arrependido por aquele surto ridículo; o ariano falou vendo-o voltar-se para si surpreso. –Mas você não parece nem um pouco arrependido;
-Hei! Como voc-...; Mascara da Morte parou vendo-o arquear a sobrancelha.
-Sabe qual o problema, Guilherme?
-Não; ele respondeu num resmungo.
-Eu poderia muito bem dizer a você que é falta de atitude e toda aquela ladainha que você certamente já ouviu de metade do santuário nas últimas vinte e quatro horas; o ariano falou fitando-o complacente. –Mas não, não é só isso;
Fitou-o surpreso, imaginando o que ele tinha a falar. Era bem verdade que ouvira aquele texto varias vezes nas últimas horas, mas era difícil imaginar outro motivo que as pessoas usassem para justificar o que estava acontecendo.
-Medo;
-Uhn!
-Sei que você esta tentando ser forte com relação à gravidez de Yuuri, mas admitir que esta com medo não é sinal de fraqueza, você é mortal, fadado a errar e aprender com isso;
-Eu não estou com medo; ele exasperou, vendo-o arquear ainda mais as finas sobrancelhas. –Eu só...;
-Não sabe lidar com as mudanças que estão acontecendo?
-...; ele assentiu.
-Da no mesmo; Mú falou gesticulando displicente. –Todos uma vez ou outra da vida se vêem entre uma encruzilhada, sem saber o que fazer ou como seguir em frente;
-Você não me parece alguém que já tenha passado por isso; ele resmungou. –Sempre tão seguro, sempre tão centrado naquilo que quer; ele falou irônico.
-Eu já passei da fase de abrir um buraco no chão e enfiar a cabeça lá dentro, apenas para evitar os problemas; ele falou em tom sério, fazendo o canceriano se encolher na cadeira. –Não sou perfeito, tão pouco quero ser; o cavaleiro falou, fitando-o demoradamente. –Mas evitar um confronto com seus próprios demônios, isso sim, é ser covarde;
-Do que esta falando? –Mascara da Morte indagou com a voz tremula.
-Fico me perguntando, quantas vezes nos últimos dias você ficou imaginando se conseguiria ser um bom marido para Yuuri, como seu pai foi para sua mãe. Ou melhor, um bom pai, alguém que representasse mais do que apenas um cavaleiro com a missão de proteger a terra?
Sentiu os músculos do corpo ficarem tensos ante a menção que o cavaleiro fazia, ele não poderia saber, ou podia?
-Cada pessoa é única, Guilherme. Observe Afrodite. Nos últimos meses ele parecia empenhado em ver Aaliah como a 'cópia' de Aimê, mesmo sabendo que as coisas não são assim. Aimê é Aimê, Aaliah é Aaliah. Podem ser fisicamente parecidas. Entretanto, não são e nunca vão ser a mesma pessoa. É compreensível que Aaliah tenha ficado chateada por não ser como a mãe, por não saber se algum dia poderia superá-la, até compreender que isso não é necessário;
-Não entendo;
-Ela tem a vida dela, foi criada em uma geração e a mãe em outra, é humanamente impossível serem iguais. Isso se chama, conflito de gerações. Compreendo que você queria manter viva a imagem de família perfeita criada por seus pais, mas cada pessoa tem o livre arbítrio de escolher o caminho que quer seguir, mesmo sob influencias; o ariano falou calmamente. –Crescer sob a influencia de exemplos fortes de caráter, personalidade e coragem, às vezes podem causar mais problemas do que ajudar;
-Como assim?
-O ser humano em si, é um dos animais que mais tem senso de competição, digamos que é parte do instintivo primitivo, que mesmo depois de milhões de anos ainda esta entranhado em nós. Imaginar que não podemos superar algum obstáculo, por menor que seja, meche com o brio e orgulho. Muitas vezes o que nos movem, é exatamente isso; Mú falou calmamente. –Somos orgulhos e isso gera teimosia e muitas vezes auto-confiança. São quando os problemas começam;
-Fala como se já tivesse passado por isso; ele murmurou intrigado.
-Nunca julgue um livro pela capa Guilherme, o conteúdo pode lhe surpreender; o ariano respondeu de maneira enigmática. –Mas a questão é que por orgulho você meteu os pés pelas mãos... De novo.
-Hei!
-Você sabe que é verdade; o ariano falou calmamente.
-E o que sugere?
-Uhn! Suponho que você por acaso esteja querendo minha ajuda para resolver isso? Ou estou enganado?
-Você é detestável, sabia? –o canceriano falou com os orbes serrados, vendo o cavaleiro sorrir de maneira petulante.
-Pelo visto isso é um sim;
-Vamos, diga logo; Guilherme exasperou.
-Seria tão mais fácil se eu mandasse você se virar sozinho, mas eu prezo Yuuri demais para correr esse risco;
-O que? –ele quase berrou.
-Imagino que você também não percebeu como ela anda amuada esses últimos dias?
-Do que esta falando?
-Sabe, vou ser direto com você. Quer ajuda, é simples? –Mú falou se levantando e o cavaleiro fez o mesmo, apenas por precaução.
-O que eu faço?
-Fique fora do meu caminho até as seis horas da tarde e depois conversamos; o cavaleiro falou taxativo.
-Mas?
-Ou você quer correr o risco de me deixar mais irritado do que já estou? –Mú indagou voltando-se para o cavaleiro com os orbes serrados de maneira perigosa.
-Como quiser; o canceriano murmurou engolindo em seco.
-Ótimo, preciso sair agora, vá para casa e espere lá; Mú avisou antes de abrir a porta da biblioteca e de maneira bem direta mandá-lo sair.
Confuso, Mascara da Morte apenas assentiu, tomando o caminho da saída. Estranho, nunca vira o ariano agir daquele jeito, se bem que, não dava para culpá-lo, ultimamente todos andavam mais estressados que o comum naquele santuário, porém a forma como ele estava, lhe deu uma tenra sensação de ´de ja vu´.
Era como se já tivesse visto aquela cena antes, a escrivaninha, alguém sentado atrás, recostado na cadeira de couro. Entretanto a pessoa certamente era outra, mas porque se lembrou justamente disso agora? –ele pensou um pouco confuso.
Quem sabe fosse porque não estava acostumado a ver justamente aquele cavaleiro demonstrando seus sentimentos, mesmo que fosse só irritação ou aborrecimento.
Não tinha o que fazer agora se não esperar, mesmo que as horas fossem ser longas e insuportáveis.
.VII.
Puxou-o consigo pelo vilarejo, evidentemente com pressa. O ariano só lhe avisara há pouco menos de meia hora atrás que tinham que pegar uma encomenda na floricultura e que ela fecharia as sete.
-Aaliah, espere; Afrodite falou tentando andar mais devagar, mas a filha apenas bufou exasperada.
-A Isa vai fechar mais cedo hoje, não podemos parar; ela respondeu quase empurrando algumas pessoas que andavam mais de vagar a sua frente pra passar.
-Por que? -o pisciano perguntou interessado.
-Não sei, Mú só disse que ela tinha um compromisso por isso ia fechar mais cedo; Aaliah respondeu.
Ela e Celina depois de saírem da praia despedindo-se de Abas e Izara, foram chamadas pelo ariano, a ela foi pedido que fosse a floricultura, enquanto Celina voltou até o iate levar os tecidos junto com o ariano. Ele disse que ainda existiam algumas coisas para serem arrumadas, mas lhes deixou as cegas novamente.
Só sabiam parte do plano porque Izara contara, porque se dependesse de Abas, cada vez que abordavam o árabe TDB para saber alguma coisa sobre o que iria acontecer, ele esquivava-se das perguntas com maestria.
-Ah! Finalmente; Aaliah falou assim que chegaram a floricultura.
A plaquinha de fechado já estava na porta, mas ao tocar a maçaneta notou que ela estava aberta. Provavelmente Isadora deixara assim para agilizar as coisas.
-Isa; Aaliah falou assim que entraram.
-Já vai; a jovem respondeu do deposito. –Estou terminando o último arranjo, fique a vontade;
-Ta; Aaliah respondeu, vendo o pai olhar distraidamente para um vaso de flores próximo ao poleiro de Donatelo.
Ele estava quieto, alias, desde que dissera que estavam indo a floricultura de Isadora ele estava assim. Imaginava que, já que a jovem estava levando aquilo tão a serio, provavelmente colocara algumas barreiras entre eles.
Suspirou pesadamente, como queria que houvesse outra forma das coisas acontecerem; Aaliah pensou.
-Com licença; uma voz grava falou enquanto o sininho em cima da porta soava.
Filipe virou-se, vendo um homem de longas melenas azuis entrar, os orbes eram rosados e o porte, tão clássico quanto o de um lorde inglês. Estava bem vestindo, um terno de risca de giz impecavelmente alinhado e a gravata semelhante aos olhos, mas em perfeito contraste e harmonia.
-Isadora ainda está aqui? –ele indagou voltando-se para os dois.
-Está; Aaliah respondeu, sem notar o olhar envenenado que o pai deu ao recém chegado.
-Ótimo, então vou esperá-la em pé mesmo;
-Finalmente; Isadora falou saindo do deposito com um buquê nas mãos, fazendo os dois homens case caírem duros no chão.
Os longos cabelos esmeralda caiam em fartos cachos pelos ombros e costas, os vestidos e roupas de algodão que normalmente usava, foram substituídas pelo nada discreto vestido prateado que chegava a dois palmos antes dos joelhos, deixando as longas pernas a mostra. O decote do vestido era em "V", o que deixava o colo em evidencia e mostrava levemente a curva dos seios.
As sandálias eram altas e de salto fino, fazendo-a andar a passos curtos e com graciosidade. Nada vulgar, porém para aqueles que estavam acostumados a vê-la com mais panos envolvendo o corpo, era um choque.
-Desculpe a demora; ela falou voltando-se para Aaliah que observava-a curiosamente.
-Imagina, mas... Vai assim aonde? –ela perguntou com um sorriso nada inocente nos lábios, lançando um olhar de soslaio ao pai, que não tirava os olhos da jovem.
-Tenho um jantar; Isadora respondeu, colocando sobre a bancada de vidro os outros arranjos.
-Com quem? –Aaliah perguntou curiosa.
-Comigo! –Eliot respondeu chamando a atenção de todos, mas franziu o cenho ao ver o pisciano estreitar os orbes de maneira perigosa em sua direção.
-Papai, desculpe... Não vi que o senhor havia chegado também; Isadora falou ao nota-lo, foi até o antigo cavaleiro, dando-lhe um abraço apertado.
-Pai? –Afrodite falou surpreso e igualmente chocado.
-Não parece, não é? Eu poderia dizer que eles são namorados, se não soubessem quem são; Aaliah comentou em tom de provocação, vendo o pai serrar os punhos irritado, embora não estivesse demonstrando isso tão claramente.
-Como foi de viagem, pai? –Isadora perguntou.
-Foi tranqüila, mas e você? Que radicalizada é essa? –ele indagou, tocando-lhe os cabelos observando com atenção os fios esmeralda.
-É sempre bom mudar às vezes; ela respondeu de maneira enigmática.
-É; Eliot concordou compreensivo.
-Por falar nisso, madame Dayene mandou lembranças; Isadora falou com um sorriso travesso.
-O que? –ele quase gritou engolindo em seco, ao ouvi-la rir.
-É, parece que esperança é a última que morre; Isadora brincou. –Mas me deixe apresentar. Pai essa é Aaliah e Filipe;
-É um prazer revê-la senhorita; Eliot falou cumprimentando a jovem antes de voltar-se para o cavaleiro. –E você é o atual guardião do templo de Peixes, eu suponho?
-Sou; Afrodite limitou-se a responder.
Eliot observou-o longamente, notando que ele não parecia nem um pouco a vontade ali, até seus olhos recaírem sobre a filha. Arqueou levemente a sobrancelha, compreendendo o que estava acontecendo.
-Bom, temos que ir pai; Aaliah falou indo pegar os buquês.
-Para que tantas flores Aaliah, Mú não explicou? - Isadora comentou.
-Ah! Nem eu sei, depois daquele lance da tenda árabe, eu já desisti de saber o que ele esta armado;
-Tenda árabe? –Isadora e Afrodite falaram o mesmo tempo.
-A história é longa e mesmo assim, eu e Celina só conseguimos garimpar algumas informações com aquele árabe TDB, mas vamos logo, estamos atrasando a Isa também;
-Querem uma carona? –Eliot perguntou, vendo os dois distribuírem entre si os quatro buquês das mais variadas flores.
-Não é necessário, obrigada; Aaliah respondeu antes que o pai falasse alguma coisa. –Vamos daqui para a praia, não para o santuário.
-Ta certo; Eliot falou dando de ombros. –Vamos querida?
-...; Isadora assentiu. –Pode me esperar lá fora, vou só fechar o deposito e pegar a bolsa; ela falou afastando-se.
Seguiu para fora conversando com Aaliah e indagando sobre a falta do virginiano, que nem notou que o cavaleiro não os acompanhava.
Fechou a janela do deposito e pegou a bolsa, porém quando virou-se para trás, bateu de frente com o pisciano e teria caído se ele não houvesse lhe segurado.
-Desculpe; Filipe falou, envolvendo-lhe a cintura, até que ela se estabilizasse.
-Não tem problema; Isadora murmurou, erguendo os olhos na direção dele, simplesmente não havia sentido ele se aproximar.
-Você ficou muito bonita assim; ele falou fitando-a intensamente, enquanto uma de suas mãos brincava distraidamente com uma mecha esmeralda que caia sobre seus ombros.
-Obrigada; Isadora falou sentindo a face aquecer.
-Não agradeça, é a mais pura verdade; Filipe respondeu em tom de confissão.
-Filipe; ela falou tencionando se afastar, mas os braços em torno de sua cintura estreitaram-se.
-Sinto sua falta; ele sussurrou, fitando-a intensamente.
Prendeu a respiração, sentindo um breve tremor correr por seu corpo. As coisas não deveriam estar acontecendo daquela forma. Não era certo, havia feito um trato com Aaliah, um mês, nem um dia a menos, mas desse jeito era difícil.
-Nós já falamos sobre isso; ela falou esquivando-se.
-Não, você tomou todas as decisões; ele reclamou.
-Fiz aquilo que achei que era o certo; Isadora rebateu.
-Mas...;
-Aaliah esta lhe esperando; a jovem murmurou, segurando fortemente a bolsa nos braços.
-Nós precisamos conversar; o pisciano falou. –Uma hora não vai dar mais para adiar isso;
-Só não vai ser agora; Isadora respondeu passando por ele. –Vamos;
Apagou as luzes do deposito seguindo com a jovem para fora, mas encontraram com Eliot na porta, entrando novamente.
-O que foi pai?
-Isa querida, queria lhe perguntar uma coisa; Eliot falou passando por ela e indo até o vaso de rosas.
-Sim! O que foi? –ela perguntou, enquanto Afrodite pegava os buquês que estavam na bancada e já se preparava para ir embora.
-Essas rosas azuis, são da sua mãe, não? –ele indagou, chamando-lhe a atenção.
-Como? –ela perguntou, enquanto o pisciano estancava.
-Essas rosas vieram do Jardim das Rosas, não é? –Eliot indagou, voltando-se para ela.
-Na verdade; Isadora começou. –Eu não faço a mínima idéia de onde elas vêm; ela respondeu com um sorriso sem graça.
-Como não? –Afrodite indagou, enquanto Aaliah entrava novamente para apressar o pai.
-Oras, não sei; ela respondeu em tom de exasperação. –Tem um garotinho que vem aqui todo dia e deixa numa caixinha, uma rosa azul e outra vermelha para mim, já tentei descobrir quem as está mandando, mas ele não me diz;
-Uhn! Um admirador secreto então; Aaliah falou com um sorriso nada inocente.
-Ahn! –ela murmurou sentindo a face corar, sem notar que o pisciano parecia a ponto de matar alguém depois desse comentário.
-Garotinho? –Eliot falou arqueando a sobrancelha descrente. –Vamos, conversamos sobre isso no caminho;
-...; Isadora assentiu, enquanto despediam-se dos demais e fechavam à floricultura.
Não sabia por que, mas tinha a leve impressão de que aquela conversa ia ser longa.
Continua...
