.::DE VOLTA AO VALE DAS FLORES::.
By DAMA 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah e Astréia são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
♥
Capitulo 32: Sem Ar.
.I.
Deu um baixo suspiro, enquanto abria a porta deixando o vapor sair, os longos cabelos prateados estavam envoltos em uma toalha felpuda, enquanto ia até a sala. O dia estava quente demais como sempre, mas não podia abusar. O médico havia dito para tomar cuidado com a queda de pressão; ela pensou, sentando-se no sofá, enquanto soltava os cabelos.
A noite caia por Atenas, mas um dia; ela não pode evitar pensar com um brilho triste nos olhos. Esse mais um dia, também queria dizer mais um dia sem ele. Mas as coisas tomaram rumos que nenhum dos dois esperava. Entretanto, sabia que aquela era a melhor escolha a se fazer.
Ficar longe! Mas será que podia suportar a dor que isso causava? Mesmo sabendo que sofreria ainda mais se continuassem juntos vivendo uma farsa?
Ouviu algumas batidas na porta, deveria ser Shina ou alguma das outras amazonas; Yuuri pensou indo atender. Abriu a porta com certa cautela, mas franziu o cenho ao não ver ninguém ali.
-Hei! Tem alguém ai? –ela indagou.
A rua estava deserta e a maioria das casas estava fechada. Deu de ombros, deveria ter sido o vento. Fechou a porta e voltou-se para a sala novamente, mas quase deu um pulo ao ver em cima da mesinha de centro uma caixa retangular e comprida.
Olhou para todos os lados apreensiva. Não era dada a ficar com medo, mas o instinto de preservação potencializado, era mais rápido que seus pensamentos. Aproximou-se da caixa curiosa, abriu-a com cuidado, vendo folhas de seda vermelha envolverem algo. Mas o que?
-Uhn! Como isso veio parar aqui? -Yuuri se perguntou encontrando um pequeno cartão entre as folhas.
♪
Não há nada mais fascinante do que a magia do deserto.
Três dias e três noites...
Agora desvendar esses mistérios é uma escolha sua.
Ceder ou fugir?
Encontre-me na praia do Cabo se a resposta for sim.
Se não, só me resta lamentar por meus próprios infortúnios e esperar que um dia me perdoe por não ser tudo aquilo que você desejava!
G.
♪
Sentou-se no sofá, sentindo as pernas tremerem. Guilherme! Ele não havia desistido. Só não sabia se isso era algo bom ou ruim. Sabia que o canceriano era obstinado, mesmo quando ele não admitia ter pisado na bola, mas esse desafio, não parecia algo do feitio dele.
Guilherme era o típico canceriano que detestava esperar e tudo funcionava no 'Só se for agora' ou 'Vai ou racha'. Como diria Aldebaran, mas nos últimos dias viu um outro tipo de canceriano.
Ver Guilherme empolgado com o bebê lhe deixou nas nuvens, principalmente por causa de toda sua relutância em contar-lhe logo sobre a gravidez, mas com o passar dos dias, viu que isso se tornava algo forçado, mesmo a preocupação dele em que não ficasse no sol de mais, ou evitasse ir até a arena.
Não era mais aquele Guilherme do inicio do namoro, nem mesmo o Guilherme que correra o risco de ser alvejado por Afrodite, para pegar os príncipes negros do jardim de Peixes, menos ainda o italiano apaixonado que preparara todo aquele jantar romântico no terraço do templo de Câncer.
Puxou a caixa para o colo e terminou de retirar as folhas de seda, ver o que tinha ali não iria matar ninguém, mesmo que ainda não houvesse cogitado qual das duas opções iria escolher. Ceder e lhe dar uma chance, ou fugir e deixar que tudo se perdesse de uma vez?
Encontrou no fundo da caixa, protegido pelas últimas folhas, alguns tecidos macios, frescos e sedosos. Ergueu-o entre as mãos, deixando a caixa cair no chão, enquanto o tecido caia sobre seu colo. Entreabriu os lábios surpresa ao vê-lo se revelar um longo vestido de seda alaranjado, entretanto em varias partes do mesmo, via nuances mais escuras, quase um vermelho e outras bem mais claras, beirando ao ocre.
Eram cores bem quentes, típicas de uma noite intensa no deserto.
Três dias e três noites! –as palavras reverberaram em sua mente.
Levantou-se e a passos calmos, foi até o quarto, encontrando um espelho que poderia ver-se de corpo inteiro. Colocou o vestido em sua frente, observando a forma como o tecido aderia à pele, mesmo que ainda não o houvesse vestido. Ele fazia um grande contraste com a pele levemente bronzeada pelo sol grego e os cabelos prateados.
Suspirou pesadamente, mesmo que estivesse cometendo um erro, seu coraçãozinho traidor não conseguia negar-lhes aquela chance.
Nem a ele, nem a si mesma; Yuuri pensou, jogando o vestido sobre a cama e começando a se trocar.
.II.
Entraram na Toca do Baco, no mesmo momento em que uma infinidade de olhares recaiu sobre ambos. Aquela noite isso não importava, alias, pouco lhe importava.
-Boa noite, sejam bem vindos; a divindade de cabelos ruivos falou saudoso.
-Boa noite, há quanto tempo Dionísio? –Eliot falou sorrindo ao cumprimentá-lo.
-Bastante meu caro, mas céus, você não mudou nada; ele comentou animado, antes de lançar um olhar curioso a jovem.
-Não, só aumentaram os fios brancos; o pisciano brincou, indicando os cabelos não mais tão azuis e que agora jaziam levemente grisalhos.
-Desculpe-me, mas não sabia que você havia casado novamente; Dionísio comentou.
-E não me casei; Eliot respondeu arqueando a sobrancelha até dar-se conta do que ele estava se referindo. –Ah sim! Acho que você já conhece minha filha Isadora;
-Isadora; a divindade falou literalmente de queixo caído.
-Como vai, Dionísio? –Isadora falou sorrindo.
-Bem...; Dionísio balbuciou ainda surpreso com a transformação. –Ahn! Mas venham comigo, por favor, vou arrumar uma mesa especial para vocês; ele falou.
-...; assentiram seguindo com ele até uma ala nova criada pela divindade para expandir o restaurante.
Na Toca do Baco havia os três ambientes, o restaurante, o bar e a pista de dança, o terraço cuja entrada era entre a pista de dana e o bar, era usado apenas em grandes eventos, normalmente as portas eram fechadas para aquela ala.
Agora, com em uma nova fase da toca e a perspectiva de estar perdendo terreno para o "Na Balada das Musas", Dionísio decidira ampliar a Toca, incluindo três salas anexas ao restaurante, onde alguns jantares privados poderiam ser feitos.
O ambiente era acolhedor e muito bem decorado como todo o local, mas a diferença era que as três salas eram armazenadas com lugares seletivos, uma com lugares para quatro pessoas no máximo, já a segunda para doze e a terceira para no mínimo vinte e cinco.
O terreno fora bem trabalhado de forma que o restaurante não perdesse com o novo complexo nem o clima do ambiente fosse alterado pela ampliação.
-Bem, fiquem a vontade, vou pedir ao metri que venha servi-los; ele falou se afastando.
-Obrigado; Eliot respondeu, antes de puxar a cadeira para que a filha se sentasse.
A sala que estavam era a primeira das três, onde ocupariam apenas dois lugares, mas ficariam longe dos olhares curiosos e nada discretos dos outros visitantes da Toca.
-o-o-o-o-o-
Balançou a cabeça levemente para os lados. Céus, o que uma ida ao cabeleireiro não fazia com uma pessoa. Nem ao menos reconhecera Isadora, se bem que, por um momento imaginou que fosse Isabel ali. Entretanto bastava olhar para ela, para notar a diferença gritante que existia mesmo entre mãe e filha; ele pensou antes de levar um belo de um safanão na cabeça.
-Ai; Dionísio falou virando-se para trás onde encontrou os orbes serrados de Ariadne sobre si. –Querida! –ele exclamou com um sorriso cauteloso.
-Querida nada; Ariadne falou nem um pouco contente.
-Aconteceu alguma coisa? –Dionísio perguntou com a cara mais lavada do mundo.
-Não, mas vai; ela respondeu com um sorriso angelical, fazendo-o suar frio.
-O que?
-Você vai dormir no sofá essa noite; ela completou passando por ele e indo atender outros fregueses.
-Mas, o que eu fiz? –ele indagou em tom desesperado, seguindo-a,
-Não seja estúpido Dionísio, conheço essa sua cara de gato na frente de uma peixaria; Ariadne reclamou, cumprimentando um dos garçons que passou por si. –Se continuar a me irritar, você vai passar a noite do lado de fora; ela avisou.
-Mas querida; Dionísio balbuciou, mas parou vendo que ela já não lhe dava atenção e estava ocupada com outras coisas. –E eu nem sei o que eu fiz? –ele murmurou confuso.
Homens! Não podem ver um rabo de saia, que já parecem o Coiote correndo atrás do Papa-Léguas; a ninfa pensou, bufando exasperada, mas ia dar um jeito nesse deusinho nem que precisasse apelar para meios primitivos usados por mulheres mortais, para adestrarem seus maridos quando os mesmos saiam da linha.
Alias, Dafne lhe indicara um bastante interessante. Um objeto normalmente usado para fins culinários, chamado 'pau de macarrão'. Quem sabe não daria certo.
.III.
Sentaram-se num dos bancos do jardim, exaustos depois da correria, ainda não sabiam ao certo o que o ariano estava aprontando, mas o mesmo disse que assim que terminasse de resolver as coisas, voltaria para explicar tudo.
Tirou as sandálias, deixando os pés tocarem a grama fria. Tão bom; ela pensou aliviada.
-Não acha melhor ir dormir um pouco? –Afrodite perguntou, quando ela apoiou a cabeça sobre seu ombro.
-Estou agitada demais para conseguir dormir; Aaliah respondeu sorrindo. –A propósito, queria comentar algo com o senhor;
-O que? –ele indagou curioso.
-Nunca pensei que o senhor fosse tão bom ator; ela comentou com ar admirado.
-Como? –Filipe perguntou franzindo o cenho.
-Fingir que não era o senhor a ter mandado as rosas para a Isa, quando tudo indica que foi; Aaliah falou animada, voltando-se para ele, mas parou surpresa ao vê-lo com o cenho ainda mais franzido. -Não foi o senhor?
-Não; Afrodite respondeu serio.
Alias, desde a floricultura até em casa, não parara de pensar nas possibilidades. Quem estava enviando rosas azuis para Isadora? Não sabia, mas quando pegasse o infeliz; ele pensou, trincando os dentes.
-Ahn! Então quem foi? –Aaliah perguntou confusa. –Porque bem... Eu pensei que depois de tanto tempo, o senhor finalmente fosse desencalhar, mas...-;
-Aaliah; o pisciano exasperou, antes que ela começasse a rir.
-Desculpe, mas é verdade; ela falou com um sorriso inocentemente sarcástico.
-Você não tem jeito; ele murmurou afagando-lhe os cabelos. –Mas não, não fui eu; ele completou pensativo.
-Então, a Isa tem um admirador secreto; Aaliah comentou pensativa. –Mas quem será? Bem, certamente deve ser alguém que saiba que ela gosta de rosas azuis;
-Muitas pessoas sabem disso; Filipe comentou num resmungo.
-Mas não deve ser qualquer um que esta enviando, essa pessoa deve saber que as rosas azuis têm um significado mais importante para ela;
A lista resumia-se a poucas pessoas, mas não sabia ao certo qual delas era um suspeito em potencial.
-Esqueça isso Aaliah, isso não é da nossa conta; Afrodite falou em tom serio.
-Mas...; ela balbuciou, voltando-se para ele, vendo-o com um olhar um tanto quanto amuado.
Ele estava com medo; a jovem pensou surpresa. Nunca imaginou que justamente seu pai. O lendário cavaleiro de Peixes, que muitos temiam, pudesse se sentir assim. Já o vira outras vezes triste, mas por conta de outros motivos, aqueles que não podia mais mudar, mas agora era diferente.
-Pai, o senhor gosta da Isa, não? –Aaliah indagou cautelosa.
-Ela é uma boa pessoa; ele respondeu em tom neutro.
-Eu diria que boa pessoa, por exemplo, é o padeiro aquele velhinho gentil. O Sebastian, dono da loja de animais e tem também aquela garota da loja de chocolates que é uma boa pessoa. Mas não me parece que a Isa se encaixe exatamente nessa classificação; ela comentou displicente.
-Do que esta se referindo? –o pisciano falou casualmente.
-Esquece, algumas coisas tem de ser descobertas por conta própria; a jovem falou dando o assunto por encerrado, ele não ia admitir mesmo. Antes que Afrodite pudesse dizer algo, o telefone tocou. –Só um minuto; Aalaih falou levantando-se e se afastando para atender ao telefone.
Suspirou pesadamente, detestava viver dessa forma, sem saber qual passo dar e em que direção, mas simplesmente não tinha respostas para suas duvidas.
-Oi meu amor;
Franziu o cenho ao ouvir a voz de Aaliah, provavelmente conversando com Shaka, mas precisava de toda aquela "melação"?
-Também estou morrendo de saudades de você;
É, essa era sua filha; ele pensou balançando a cabeça levemente para os lados. Levantou-se, decidindo dar-lhe privacidade para conversar com o virginiano, teriam tempo para falarem sobre amenidades outra hora.
.IV.
♪
Alexandra sentiu o sangue fervendo nas veias.
Um beijo e ela queria mais.
Um beijo e ficou com vontade de mergulhar as mãos naqueles cabelos grossos e escuros e segurar seu rosto para que ela pudesse senti-lo, sentir sua barba nascendo cerrada no rosto, seu queixo, seu maxilar.
-Você parece mais relaxada – ele disse, pegando a mão de Alexandra e levando aos lábios, beijando-a e sentindo seu pulso acelerado.
-Acho que é o Martini de chocolate – ela respondeu, ofegante.
Wolf apertou os olhos.
-Acho que foi meu beijo.
Ela levou a taça aos lábios e deu um bom gole para esconder o fato de que ele a estava deixando nervosa... De novo.
♪
-Litus!
Quase deu um pulo no sofá, antes de fechar o livro rapidamente e jogá-lo para baixo das almofadas. Virou-se de bruços, lançando um sorriso forçadamente inocente para o namorado que acaba de entrar no templo.
-Oi;
-Estava dormindo? –Saga perguntou, erguendo-lhe as pernas e sentando-se no sofá, deixando que ela as colocasse novamente, agora sobre seu colo.
-Não; a jovem de orbes violeta falou calmamente.
-E o que fez hoje? –ele perguntou curioso, vendo que a face dela estava mais corada do que de costume. Arqueou levemente a sobrancelha, ela estava escondendo algo.
-Estive com as meninas, o mesmo de sempre; ela falou dando de ombros.
Sim! Ela estava escondendo algo.
-Uhn! E o que acha de sairmos agora? –Saga perguntou.
-Pra onde? –a jovem indagou interessada.
-Não sei, qualquer lugar que você queira; o geminiano falou vendo imediatamente a expressão animada murchar. –Ou podemos ir ao cinema primeiro e depois jantarmos; ele falou, entretanto sua sugestão não surtiu o efeito desejado, já que ela continuou com a mesma expressão.
-Pode ser; Litus falou dando de ombros.
-O que foi? –Saga perguntou preocupado.
-Nada, só me da um minuto, vou me trocar e já volto; ela falou com ar cansado, como se desse a entender que dormir seria mais divertido.
Ouviu os passos dela se afastarem pelos corredores do templo de Leão, franziu o cenho ainda mais, tinha alguma coisa errada. Saira mais cedo com Shura para dar uma volta do vilarejo, quando encontraram com o Escorpião, a idéia inicial era apenas provocá-lo, mas o tiro saiu pela culatra; ele pensou virando-se para pegar uma das almofadas e colocar no colo, quando viu com surpresa um livro escondido entre elas, provavelmente ela estava lendo quando chegara.
Pegou-o com cuidado, vendo uma pagina recentemente marcada. Olhou a capa.
Avassaladores
by Jane Porter.
Homens que não podem ser dominados.
Ou pelo menos acham que não...
Desde quando ela ficava lendo esses livros? –ele se perguntou, antes de abrir a contra capa e sentiu uma veinha pusar em sua garganta.
♪
Divirta-se!
Ass. Milo
♪
Então aquele artrópode não estava brincando na livraria. Ah! Mas quando o pegasse. Quem ele estava pensando que era? –o geminiano pensou irritado. Passos soaram de volta, mas ele simplesmente não ouviu, ainda tinha o livro em mãos, quando ela chegou.
-Pronto; Litus falou, parando próximo ao sofá, quando seus olhos recaíram sobre o livro.
-O que é isso? –ele perguntou em tom frio.
-Um livro, se você ainda não percebeu; a jovem falou calmamente, cruzando os braços na frente do corpo em defensiva. –Costuma ser usado para o exercício da leitura, existem em vários formatos, tipos de capa e cores. Contendo romances, ficção e outros temas mais; ela falou como se conversasse com uma criança;
-Eu sei, mas-...;
-Se você começar com cena, vou ser obrigada a convidá-lo a sair sozinho; a leonina avisou em tom de alerta. –Não vou admitir surtos seus Saga, é bom que entenda isso agora;
-Do que esta falando? –ele indagou, sentindo os ânimos se arrefecerem-se.
-Ciúme é uma coisa, cena ridícula é outra; ela explicou.
Suspirou pesadamente, colocando o livro de volta ao sofá, antes de voltar-se para ela. Às vezes se esquecia de como ela poderia ser tão arisca quanto Aiolia, mas alem de influencia do signo, ela estava certas quanto a alguns pontos.
-Desculpe; o geminiano balbuciou, evitando encará-la. –Mas depois de tudo o que aconteceu, eu-...;
-Ainda me admitira que você tenha duvidas; a jovem falou em tom serio. –Espero não ter de lembrá-lo, que é você meu namorado e que não, não estou tendo um caso com o Milo, antes que você use isso como justificativa para o fato dele ter me dado um livro de presente; ela completou.
-Nunca pensei isso; ele se defendeu.
-Mas estava para pensar; Litus falou com um sorriso sarcástico.
-Tudo bem, foi falha minha; Saga admitiu, aproximando-se dela.
Por um momento pensou que ela fosse recuar, mas não, ela abriu os braços, acolhendo-o num abraço carinhoso. Algumas vezes, alias, muitas vezes se pegava pensando em porque ela lhe escolhera. Sendo que era tão complicado.
-Você sabe que eu amo você, não? –ele sussurrou, afundando o nariz entre as melenas esverdeadas, sentindo a fragrância suave de flor de laranjeira lhe embriagar os sentidos.
-Sei, mas é bom ouvir isso; Litus respondeu, envolvendo-lhe o pescoço com os braços. –Mas quanto ao livro, Milo teve muito bom gosto, principalmente referente ao protagonista da história. Um MBS de primeira; ela falou em tom de provocação;
-MABS? –ele indagou arqueando a sobrancelha, vendo-a se afastar, em direção a porta, com um sorriso nada inocente nos lábios.
-Moreno, alto, bonito e sensual...; ela completou antes de abrir a porta e sair. –Vai ficar?
De onde aquela ousadia toda saira? –o geminiano se indagou surpreso, mal ouvindo-a lhe chamar. Até se dar conta do que poderia acabar perdendo se continuasse "acomodado" como diria o Escorpião.
-Não; ele avisou, antes de sair atrás dela.
.V.
Suspirou pesadamente, sentindo os pés afundarem na areia vez ou outra desde que começara a caminhada, enquanto as roupas de tons acobreados envolviam-lhe o corpo, uma camisa aberta e folgada de tom alaranjado e a calça, beirando a terra queimada.
Dificilmente usaria cores tão quentes, mas fora gentilmente coagido a isso pelo ariano; ele pensou engolindo em seco.
Andou mais um pouco pela praia, seguindo as instruções do mesmo, para que fosse se aproximasse da enseada. Foi quando com surpresa parou ao ver uma miragem formar-se entre as dunas. Não, não era uma miragem.
Seus passos eram calmos e delicados, mas via que vez ou outra ela abaixava-se para erguer a barra do vestido, para não escorregar. Os longos cabelos prateados esvoaçavam com o vento e notou que seus pés, tomavam vida própria e seguiam até ela.
Estancou a poucos passos, vendo-a parar também. Seus olhares se encontraram e aos poucos, um véu que antes ocultava os mistérios daquela praia fosse retirado. Uma tenda surgiu entre as areias. Tochas acenderam-se formando um longo caminho até ela.
As chamas tremeluziam com o vento e a cortina que mantinha a tenda fechada, abriu-se como por mágica.
-Yuuri!
-Três dias e três noites; ela sussurrou.
Aquela era a última chance, só lhe restava ceder ou fugir, arrependendo-se eternamente por não ter sido capaz de fazer a coisa certa. Com passos decididos foi até ela, os orbes azuis jaziam mais intensos que o normal.
Pretendia recuar, mas estremeceu quando ele lhe alcançou, tomando-lhe as mãos entre as suas e pousando um beijo suave entre elas. Seus olhares se encontraram novamente, verdes em azuis... Como daquela vez.
Estavam ali também, como se estivessem revivendo aquele reencontro, depois de tanto tempo. Até aquele momento haviam fingido não se conhecer, tratando-se polidamente, até que uma seta lançada pelo destino virara a mesa.
-Vamos; ele sussurrou, pousando o braço dela em volta do seu e caminhando pelo caminho de chamas para a tenda, mal sabendo eles o que lhes esperavam lá dentro.
.VI.
Estava caminhando a esmo pelo santuário, quando o viu descer apressadamente os degraus do primeiro templo. Arqueou a sobrancelha curiosa. Aonde ele ia? –ela se perguntou, quando para sua surpresa, ele deteve-se no último degrau, voltando-se em sua direção.
Estava saindo do bosque, devido à escuridão a possibilidade dele lhe ver ali era mínima, mas porque sentia que ele estava olhando diretamente para si?
Continuou a andar, decidindo sair dali e controlar as próprias emoções que pareciam uma corredeira desenfreada, desde o que acontecera na tarde anterior.
-Mia; o ariano falou fitando-a intensamente.
-Oi; ela falou com um sorriso hesitante.
-Você esta ocupada? –ele indagou terminando de descer e aproximando-se dela.
-Não, estava andando a toa por ai; a jovem respondeu. –Por quê?
-Você se importaria em vir a um lugar comigo? –o cavaleiro indagou, pensando nas possibilidades de uma recusa, no momento que viu a face alva da jovem adquirir um leve rubor.
-Não, aonde? –ela indagou curiosa. Surpreendendo-o.
-Surpresa; ele falou com um sorriso enigmático antes de tomar-lhe as mãos entre as suas.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ambos já haviam desaparecido. Sabe-se lá para onde.
.VII.
O jantar transcorria com calma, alias, mais calma do que aquilo impossível, mas sentia que havia algum fio solto que precisava urgente ser atado; o pisciano pensou preocupado.
-Então? –Eliot começou pousando os talheres sobre as bordas do prato.
-O que? –Isadora indagou, levando a taça de vinho aos lábios.
-Quais são as intenções daquele garoto? –ele falou de maneira direta, vendo-o imediatamente engasgar com o vinho.
-Como pai?
-Isadora, não sou um velho tolo que não enxerga um palmo na frente do nariz; Eliot falou calmamente, sorrindo de maneira acalentadora. –Você gosta dele?
-Acho que sim; ela murmurou baixando os olhos. A verdade é que vinha fugindo de algumas coisas, mesmo depois do que prometera a Minos.
-Você não me parece muito contente com isso; Eliot comentou. –Espero que isso não tenha nada a ver com aquela adorável jovem, que estava com ele na floricultura;
-Não, Aaliah é um amor de pessoa; Isadora adiantou-se.
-Então?
-Somos nós, pai; a jovem respondeu dando um pesado suspiro. –Somos complicados demais para sermos entendidos; ela completou sorrindo fracamente.
-Não sei, não me parece que esse seja o único motivo; ele falou serio.
-Filipe e Aaliah não tiveram tempo de conviver como pai e filha, eles precisam dessa chance, são vinte anos para compensar. Não quero me colocar entre eles e estragar tudo, Aaliah não merece isso;
-Filha; ele falou hesitante ao compreender o que estava acontecendo.
-Aaliah sofreu demais vendo os pais separados e a morte da mãe, ao mesmo tempo que recebia a noticia de que o pai também havia morrido. Ela tem o direito de ter o pai junto de si, sem ninguém atrapalhar;
-Compreendo, mas não acredito que seja uma questão de atrapalhar; Eliot falou cautelosamente, sentindo uma aura de tensão rodear a filha.
-É sim e pessoas de fora só costumam causar mais problemas; ela falou taxativa.
-Você não deveria ser tão extremista; ele falou em tom preocupado.
-Que seja; Isadora falou dando de ombros. Era melhor parar aquele assunto antes que acabassem brigando.
-E depois que eles se conhecerem, onde você entra nessa história? –ele indagou cauteloso.
-Boa pergunta; ela murmurou pensativa. Recostando-se na cadeira e fitando a taça de vinho nas mãos, como se entre as veios do cristal ou o liquido carmim fosse capaz de encontrar a resposta.
-Isso é culpa minha, não é? –Eliot indagou, embora soubesse a resposta.
-Não; ela limitou-se a responder.
Poderia dizer que a culpa era de Heloísa que se metera na vida de ambos, casando-se com seu pai, enquanto o corpo de sua mãe mal esfriava no tumulo, mas não. Heloísa fora apenas um bode-expiatório na história. Entretanto não poderia dizer que a culpa era somente de seu pai, principalmente por ter casado com ela. Mas era de quem então?
Não sabia...
Era criança demais para entender como ele sofrera com a morte da mãe, já que estava concentrada em sua própria dor, mas ela tivera Minos, o primo esteve consigo e pelo menos, antes de partir, ainda lhe ajudou a encontrar o caminho de volta para a luz, mas o pai não.
Achou que Heloísa fosse a escolha certa, mas no fim... É, não havia culpados.
-Acho que sou eu; Isadora respondeu pensativa.
A verdade é que Minos tinha razão, fugia dos relacionamentos quando começava a se envolver demais, os namorados que tivera durante a faculdade foram à mesma coisa, quando o assunto saia do campo das belas artes e caia na vida real, era o momento de dizer "Foi bom enquanto durou, mas agora acabou".
Só que com Filipe sempre pisou em cacos de vidro e cascas de ovos. Desde o começo. Esse prazo de um mês poderia facilmente ser estendido para meses e anos. Por isso não criava grandes esperanças em cima de um castelo de cartas que poderia desabar ao menor sopro.
-Você ao menos esta feliz? –Eliot indagou, mais cauteloso do que nunca.
-Só quero que Aaliah fique bem, por enquanto isso é suficiente; ela respondeu em tom neutro.
Nem sim, nem não... Não parecia sua filha falando, alias, não parecia àquela garotinha risonha, que adorava brincar com seu cisne de estimação na frente do lago. Muitas coisas mudaram nos últimos anos, mas sentia falta daquela Isadora; ele pensou preocupado.
.VIII.
Estavam em um mundo alternativo, essa era a única resposta; ela pensou no momento que ouviu o farfalhar da cortina e a mesma fechar-se, lacrando a tenda. Deixou os orbes correrem por todo o local, surpreendendo-se com a riqueza de detalhes que ornavam o ambiente.
Era como se estivessem dentro do um Arabian Nights, tudo era muito colorido e vibrante. Intenso!
Observou um dos cantos. Havia uma mesa muito baixa para ser usada com cadeiras comuns, então sua volta era repleta de almofadas coloridas e ricamente bordadas por fios dourados. Todo o chão era coberto por uma espécie de carpete e em determinados lugares existiam outros tapetes com estampas representando animais e passagens históricas.
A sua esquerda, encontrou um canto acortinado, a cortina era escura quase terra queimada, não conseguia ver o que existia lá, mas sabia que logo iriam descobrir, já que parecia um cômodo a parte.
Atrás de si, uma grande cama, coberta com véus coloridos sobre um dossel, luzes de velas iluminavam parcamente a tenda. Próximo à mesa, exista um frigobar, provavelmente com água e outras bebidas.
Iriam precisar, se estivessem dispostos a levar realmente a serio aqueles três dias...
Tudo parecia perfeitamente organizado, até mesmo alguns móveis de estilo antigo, contendo peças ricamente ornadas com a arte árabe. Cheia de cores e vida. Vibrante!
Aproximou-se da cortina curioso. Não sabia o que o ariano havia tramado, mas aquilo era bastante engenhoso. Deveria começar a fazer uma campanha para troca o signo dele. Ele não era um carneiro e sim, um lobo na pele de cordeiro; Guilherme concluiu afastando a cortina e sentindo que o queixo poderia tocar o chão.
Parecia algo improvisado, mas mais perfeito não poderia ser. A cortina revelava um banheiro, apenas paras suprir o necessário. Entretanto o que mais lhe surpreendeu foi à tina de ôfuro, com água até quase a boca, mas repleta de petas de rosa, enquanto toda a volta continha arranjos florais em vasos igualmente adornados como os outros que vira ao longo da tenda.
-O que tem ai? –Yuuri indagou curiosa aproximando-se a suas costas.
Pensou no que responder, mas estancou quando ela apoiou-se em seu ombro, para ver melhor. Fechou os orbes por alguns segundos, sentindo o coração disparar. Como aquilo que haviam conquistado no começo, poderia ter chegado a ponto de se perder?
Não sabia, mas não deixaria aquilo acontecer...
-São lindas; a jovem murmurou afastando-se e indo até os vasos de flores.
-Que bom que gostou; ele murmurou, enquanto via-a fechar os orbes e aspirar o perfume das flores.
Meus pés não tocam mais o chão
Meus olhos não vêem minha direção
Da minha boa saem coisas sem sentido
Você era meu farol e hoje estou perdido
-Yuuri; Guilherme chamou com cautela.
-Uhn? –ela murmurou virando-se para ele.
Entreabriu os lábios para falar, mas não sabia ao certo o que dizer sem colocar tudo a perder. Estava com medo! Que grande idiota se tornara, com medo de dizer aquilo que sentia, mesmo sabendo tudo que estava em jogo ali.
O barulho de algo distraiu-lhes a atenção, quando virou-se para trás, assustou-se ao ver na mesa de madeira, surgirem uma infinidade de pratos e três castiçais com velas serem dispostos ao longo da mesa.
Piscou seguidas vezes, tentando compreender se vira realmente pratos, talheres e os demais ornamentos da mesa moverem-se sozinhos tomando seus devidos lugares. Mas depois de tudo que já vira em sua vida, não duvidava que se fizesse cócegas no castiçal ele não iria rir e se apresentar como Lumier. Agora só faltava vasculhas o resto da tenda e encontrar o relógio falante chamado Tuluse.
-Ahn! Bem... O jantar parece que já está pronto; Guilherme balbuciou, passando a mão nervosamente pelos cabelos, enquanto ouvia os passos de Yuuri se aproximando novamente e observando todo o arranjo montado.
O sofrimento vem a noite sem pudor
Somente o sono ameniza minha dor
Mas e depois? E quando o dia clarear?
Quero viver do teu sorriso, teu olhar...
Aproximaram-se da mesa ainda em silêncio, estendeu-lhe a mão, ajudando-a a se sentar. Suspirou observando o vestido moldar-se ao corpo da jovem, marcando o local onde seu filho repousava.
Como ele seria? Teria os olhos de Yuuri e seus cabelos, ou o inverso. Seria um garoto forte e intrépido, ou uma garotinha cheia de sonhos e meiga? Era difícil saber, mas a única coisa que tinha certeza era do desejo de fazer parte disso.
Estar ali com Yuuri no momento em que nascesse, nos primeiros passos, as madrugadas que fossem despertos do sono pelo choro infantil. Tudo!
Sentou-se ao lado dela, sentindo-a conter um estremecimento quando suas coxas se roçaram. Manteve-se quieto, procurando não arriscar quebrar a frágil trégua que tinham.
Eu corro pro mar para não lembrar você
E o vento me traz o que eu quero esquecer
Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar
Nos teus braços é o meu lugar.
As tampas das baixelas de prata foram abertas, o aroma extasiante dos pratos temperados chegou até eles numa lufada de ar quente.
-Uhn! Cheiro bom; Yuuri murmurou, observando cada um dos pratos com atenção redobrada.
-Posso? –ele indagou e com um olhar perguntava se poderia servir-lhe um prato.
-...; assentiu um tanto quanto hesitante.
Mesmo escolhendo viver aquela segunda chance, temia que ao dar meia-noite tudo perdesse a mágica e tudo aquilo se mostrasse irreal.
-Queria me desculpar novamente; o canceriano falou enquanto servia o conteúdo de uma das baixelas, uma sopa leve e de aparência deliciosa. Nada estava apimentado demais, embora fossem pratos típicos árabes. Tudo meticulosamente planejado.
-Guilherme!
Contemplando as estrelas minha solidão
Aperta forte o peito, não é mais que uma emoção
Esqueci do meu orgulho para você voltar
Permaneço sem amor, sem luz, sem ar...
-Eu coloquei tudo a perder, sei disso; ele sussurrou, entregando-lhe o prato e pegando o seu próprio para servir. –Fui um idiota, todos viam os erros que eu cometia, eu fui o único a não querer ver... O único a não perceber o quanto você estava sendo magoada e que as coisas não estavam certas;
-Não adianta buscar por culpados ou inocentes, agora; Yuuri murmurou, desviando o olhar.
-Não, não adianta...;
Perdi o jogo, tive que te ver partir
E minha alma sem motivo para existir
Já não suporto esse vazio quero me entregar
Ter você pra nunca mais nos separar
-Mas não posso deixar de admitir que o erro foi meu. Fui estúpido por ter tratado você daquela forma e ainda desconfiado do Mú quando ele só queria ajudar; Guilherme falou serio, pegando um recipiente sobre a mesa que continua suco de laranja e servido ambas as taças. –Fui mais idiota ainda em tomar por motivação a noticia de que você estava grávida, para fazer algo que eu deveria ter feito antes, mas pelos motivos certos;
-Do que esta falando? –ela perguntou com a voz tremula, sentindo um laço formar-se em sua garganta a menção daquilo tudo.
Você é o encaixe perfeito do meu coração
O seu sorriso é a chama da minha paixão
Mas é fria a madrugada sem você aqui
Só com você no pensamento.
-Eu poderia fazer uma lista infinita sobre os motivos que me levaram a entrar em pânico quando você me contou que estava grávida, mas eu não sabia o que fazer; o cavaleiro confessou, com um dos punhos serrados sobre a taça e por um momento ela pensou que ele fosse quebrá-la, tamanha a força com que segurava. –Eu fiquei com medo de te pedir em casamento depois, porque pensei que você iria achar que era apenas pelo bebê, mesmo que eu dissesse que já planejava isso antes, você não iria acreditar; ele falou voltando-se para ela.
-Não, não iria mesmo; Yuuri concordou séria. Até esse ponto ambos concordavam mutuamente. Se as circunstancias que aquilo ocorrera já causara transtornos, o que dirá então se ele houvesse lhe dito isso naquele dia em que contara que estava grávida. Provavelmente teria jogado a xícara de chá quente na cara dele; ela pensou engolindo em seco,
Eu corro pro mar pra não lembrar você
E o vento me traz o que eu quero esquecer
Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar
Nos teus braços é o meu lugar
-Os dias foram passando, eu queria estar empolgado com a chegada no bebê, mas não conseguia, tinha medo; ele sussurrou, como se, se recriminasse por isso.
-Não é ruim ter medo; ela falou compreensiva.
-Por anos, isso foi uma falha inconcebível para mim; o cavaleiro falou em tom serio.
-Mas agora não é mais;
-Não se quebra certos paradigmas de uma hora para outra; ele rebateu,
Calou-se, compreendendo o que ele estava se referindo. No ambiente que viveram durante anos, com muitas das repressões do santuário, fraqueza era inconcebível e fora também egoísta ao não pensar no lado dele nisso tudo.
Estava tão transtornada com as coisas que sentia, a mudança de humor, os enjôos e todas as coisas que vinham no pacote econômico das mulheres grávidas que esqueceu-se dele. Sem contar o trauma de ver a cada mês seu corpo mudando e ele se afastando.
Contemplando as estrelas minha solidão
Aperta forte o peito é mais do que uma emoção
Esqueci do meu orgulho pra você voltar
Permaneço sem amor, sem luz...
-Você tem razão; Yuuri concordou, abaixando a cabeça, deixando o talher brincar na beira do prato. –Também fui egoísta por não ver o seu lado, mas queria que eu tivesse pensado o que, quando você chegou metendo o dedo na minha cara, falando que eu devia me casar com você? –ela exasperou, deixando o talher de prata cair no prato de porcelana, quase o quebrando.
-Eu sei, fui precipitado demais... E não foi por falta de aviso; ele completou num resmungo, lembrando-se das palavras de Afrodite.
-Imagina; ela falou sem esconder o sarcasmo.
Meu ar, meu chão é você
Mesmo quando fecho os olhos
Posso te ver
-Quando a comunicação entre nós tornou-se tão precária? –ele indagou pensativo, mais para si mesmo do que para ela.
-Quando você passou a achar que eu só era boa pra você na cama; a amazona falou em tom frio.
-Eu nunca disse isso; Guilherme falou indignado, voltando-se para ela.
-Não era o que parecia; Yuuri rebateu, com os orbes verdes marejados. –Depois que voltamos da Sicília tudo mudou, não negue, você sabe que sim; ela falou quando ele abriu a boca para contrariá-la.
-Você sempre foi especial para mim Yuuri, jamais teria voltado até a casa dos meus pais com outra pessoa, nem mesmo com o vovô eu havia feito isso; o canceriano falou em tom serio, dando um pesaroso suspiro. Vendo o quanto as coisas haviam sido interpretadas de forma errada, por falta de dialogo, principalmente com relação a tudo que haviam vivido lá.
Eu corro pro mar pra não lembrar você
E o vento me traz o que eu quero esquecer
Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar
Nos teus braços é o meu lugar
-Mudou porque eu queria mais do que um namoro colegial e passageiro com você; o italiano falou em tom serio. –Mudou porque eu queria você ao meu lado acima de qualquer coisa, mas você não parecia muito certa de compartilhar desse pensamento; ele falou.
-Infelizmente o único que lê pensamentos por aqui é o Mú, não sabia o que você estava pensando ou porque tinha sua forma de agir independente; Yuuri rebateu. –Se ao menos você falasse, em vez de muitas vezes se fechar no seu mundo particular e trancar a porta para ninguém mais entrar;
-Não estamos procurando por culpados ou inocentes; ele a lembrou, sentindo o tom acusatório em sua própria voz.
-Não, não estamos...; ela falou, repetindo as palavras dele.
Por algum motivo sentia-se com medo daquela inversão de papeis. Enquanto estava na acusação, sentira-se segura, mas esse terreno novo era assustador.
Aperta forte o peito é mais que uma emoção
Esqueci do meu orgulho pra você voltar
Permaneço sem amor, sem luz
Sem ar...
-Teremos tempo para colocar a conversa em dia, é melhor você comer alguma coisa; ele aconselhou, resolvendo dar uma trégua e acalmar os ânimos.
Enquanto estivesse agitado e nervoso, a probabilidade de fazer alguma besteira irreparável era muito grande e agora estava pisando em ovos.
-Só porque eu est-...;
-Não, porque me preocupo com você; Guilherme a cortou, empurrando pouco mais a sua frente o copo de suco te laranja. –Tem vitaminas; ele avisou como se estivesse falando agora com uma criança.
Suspirou exasperada, porque todo canceriano tinha de ser assim, muitas vezes acomodados, mas quando resolviam bater as pincinhas, sai de baixo; ela pensou, tentando conter o riso ao lembrar-se de uma infinidade de vezes que ele se metera em confusão por conta disso, mas um fino e discreto sorriso despontou em seus lábios.
Trégua... Por enquanto.
.IX.
Perdeu o equilíbrio por alguns segundos, mas foi rapidamente amparada pelos braços do cavaleiro. Suspirou pesadamente, sentindo os orbes turvos voltarem ao normal. Mas onde estavam? –ela se perguntou.
-Tudo bem? –o ariano indagou, chamando-lhe a atenção.
-...; assentiu hesitante, até que seus olhos acostumados com a parca luz do ambiente que estavam começou a reconhecer algumas coisas.
Pelo som que ouvia, estavam perto do mar, será a praia do Cabo? –ela indagou-se. Não, era a Encosta de Bejunte; ela logo reconheceu.
-Vem; ele falou, tomando-lhe uma das mãos entre as suas e puxando-a consigo.
A passos cautelosos, atravessou com ele um grande assoalho de madeira, um tipo de dec, mas foi com surpresa que viu aonde realmente estavam. Um iate, grande e branco, estava ancorado no meio da baia, alias, na melhor parte da baia. Onde não havia nada a frente deles que lhes impedisse de ver o brilho da lua banhando as águas escuras ou sentirem a calma transmitida por aquele lugar.
Mas a questão era, o que estavam fazendo ali? –ela indagou-se. Entretanto a resposta foi logo respondida.
A parte coberta do dec, ou melhor, do segundo andar do magnífico iate, estava revestida com véus de seda em tons quentes e terrosos, atravessando o arco formado por elas. Encontraram uma pequena mesa disposta com varias almofadas a sua volta. Ela estava evidentemente posta para dois.
Os véus cobriam apenas parte da cobertura, deixando a melhor vista para o mar, livre para ser apreciada pelo casal.
-Digamos que as coisas mais interessantes da vida, vem de maneira espontânea; ele falou num sussurro em seu ouvido, fazendo-a estremecer enquanto lhe ajudava a sentar-se.
-Obrigada; Mia murmurou com a face tão vermelha quanto os véus de seda.
Passos foram ouvidos no assoalho de madeira e um senhor, muito bem vestido, com roupas formais árabes se aproximou, cumprimentando-os.
-Boa noite, gostaria de saber se podemos servir o janta?
-...; Mú assentiu, sem desprender os olhos da jovem por um segundo sequer.
Engoliu em seco, perguntando-se se aquilo não fora realmente planejado, mas isso não parecia condizer com a personalidade dele. O que mais gostava no ariano era a forma espontânea como tudo acontecia entre eles, desde o começo.
-o-o-o-o-o-
Ouviu as portas de pedra fecharem-se, com a rosa nas mãos afastou-se do templo, desaparecendo no meio da noite. Seus planos estavam seguindo o caminho que havia traçado e no momento, era só isso que importa; ele pensou com um fino sorriso nos lábios.
.X.
Levou a taça de vinho os lábios, haviam optado por aquela bebida por não ser tão forte, como as oferecidas pelo amigo que preparara tudo aquilo, mas aquela noite estava longe de chegar ao fim; ele pensou.
Uma musica suave invadia o dec vinda de algum lugar que não sabia dizer onde. Viu-o levantar-se da almofada e lhe estender a mão. A noite não poderia ser mais do que perfeita. O jantar fora incrível, a conversa agradável e a companhia... Não tinha nem o que falar sobre isso, que definisse tudo o que estava pensando.
Apoiou-se na mão dele e se levantou. O cavaleiro puxou-lhe para alguns degraus logo a frente da mesa, onde deixavam à cobertura do dec e tinham a visão mais ampla da baia.
Ouviu um barulho ao longe, sentiu os sentidos se empertigarem, mas surpreendeu-se quando o mesmo tomou a forma de um risco que cortou os céus e mais outros que seguiram o mesmo caminho.
Sentiu a mão dele apertar-se sobre a sua quando uma infinidade de fogos explodiram como uma chuva de estrelas sobre o céu grego. Lindo! Simplesmente lindo!
Pareciam estrelas e cometas multicoloridos que explodiam numa infinidade de fragmentos que caiam no mar.
Deixou os braços envolverem-lhe a cintura, apenas os aproximando, como acontecera há exatos seis meses atrás quando se conheceram. O tempo parecia ter voado e não simplesmente passado dia por dia.
-Nossa; ela murmurou erguendo os orbes para o céu e de quebra, aconchegando-se melhor entre os braços dele.
-Gosta?
-...; Mia assentiu, enquanto estremecia ao sentir a respiração quente chocar-se contra a curva de seu pescoço.
Não podia negar que estava ansiosa pela repetição do que haviam vivido na tarde anterior e que fora interrompido por Ilyria, mas de alguma forma, sentia que ele ia com calma, dando-lhe tempo para se adaptar com sua presença.
Era estranho pensar naquilo que viviam nos últimos seis meses, era como se conhecessem há tanto tempo, mas também, existia uma parede invisível que sempre os impedia de chegarem perto demais.
Bem, perto e longe eram relativos, já que agora estavam relativamente bem perto um do outro, mas referia-se no quesito, confiar completamente e sem restrições, entregar-se sem arrependimentos.
-É incrível; ela murmurou.
-Que bom que gostou; ele respondeu, apoiando o queixo sobre seu ombro.
-Mú; Mia chamou num sussurro.
-Sim! –ele falou vendo uma nova saraivada de fogos cortar os céus, vindos de um lugar na encosta que simplesmente não conseguia ver dali.
-Por quê? –ela indagou deixando o complemente pairar no ar.
-Tem de haver um motivo? –o cavaleiro indagou, arqueando a sobrancelha levemente. Embora ela não pudesse ver, conseguia sentir que ele fazia isso. Sorriu.
-Não, mas obrigada por tudo e pelas flores, são adoráveis; a jovem falou sorrindo.
-Não por isso; ele falou, contendo um breve suspiro.
Viver aquele momento, era só o que importava...
Continua...
Agora sim estamos chegando ao fim, a fic só tem no máximo mais dois capítulos pela frente.
Esse capitulo em especial tem por tema a musica 'Sem Ar' do D'Black. Eu não conheço o grupo, mas uma amiga me presenteou com o vídeo dessa musica esses dias e eu simplesmente visualizei MdM e Yuuri como casal tema, mas a musica deles vai ser sempre a Ti Amero, do Il Divo.
Outra coisa referente a esse capitulo é o marco dos pontos e virgulas entre Isadora e o pai, as cartas estão na mesa, sem culpados ou inocentes. Preparem-se para o desfecho da historia.
Agora, quem será o homem misterioso das rosas azuis? Vocês tem alguma sugestão? XD
Ah, e Saga e Litus, não podia deixar de comentar. Eu li o livro e acreditem, a história é muito interessante e não duvidem que a Litus tenha seus motivos para estar corada. A autora Jane Porter já escreveu vários livros e em todos seus personagens são incrivelmente cativantes, principalmente os MABS.
Well... Chegamos ao fim de mais um capitulo, mas a historia já caminha para o fim cheio de surpresas no desfecha da vida de vários casais.
No mais, até a próxima...
Um forte abraço
Dama 9
