.::DE VOLTA AO VALE DAS FLORES::.

By DAMA 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah e Astréia são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.

Boa Leitura!

Capitulo 33: Paradigmas.

.I.

Depois daquela conversa reveladora, o clima entre eles tornou-se mais ameno e menos opressivo, tudo transcorreu com calma, enquanto desfrutavam daquele cenário mágico e misterioso saído do livro "Mil e uma noites".

Ouviu-a bocejar, já deveriam passar das dez pelos seus cálculos, se bem que, não havia brechas na tenta para que pudesse ver como as coisas estavam lá fora e ter noção do tempo que já havia se passado.

Levantou-se, deixando a cesta com frutas de lado e voltando-se para a jovem, lhe estendendo a mão.

Hesitante, Yuuri aceitou, levantando-se devagar um pouco desconfortável por permanecer tanto tempo sentada naquela posição sem ao menos perceber. Esticou as pernas suspirando aliviada ao sentir o sangue circular normalmente e a dormência das pernas cessar.

-É melhor dormir, você deve estar cansada; o italiano falou vendo-a bocejar de novo, mas ficar imediatamente tensa. –Apenas dormir; ele falou fitando-a intensamente.

Voltou-se para o único local disponível para isso na tenda. A larga cama de casal, rodeada pelo dossel de véus vermelhos. Engoliu em seco, pensando nas possibilidades, mas isso não durou muito, já que o cavaleiro enlaçou-lhe pela cintura, suspendendo-a do chão.

-Guilherme; Yuuri falou agarrando-se ao pescoço do cavaleiro, para não perder o equilíbrio.

-Você estava pensando demais; o canceriano falou afastando com a ponta do pé as almofadas do chão e atravessando a tenda até a outra extremidade.

Afastou os véus, abrindo-os como cortinas, antes de pousá-la sobre a cama delicadamente.

-Você precisa descansar; o cavaleiro sussurrou, ajoelhando-se no chão, apoiando os braços na beira da cama. –Pelo menos essa noite, esqueça tudo e tente descansar; ele completou, afagando-lhe as melenas prateadas.

-Onde você vai? –Yuuri perguntou num sussurro, deitando-se de lado e o fitando.

-Vou ficar aqui; ele respondeu.

-Mas...; ela balbuciou, vendo-o virar-se de maneira um tanto quanto desajeitada na beirada da cama, dando-lhe as costas ao sentar no chão.

Ele estava falando sério; ela pensou surpresa. Fitou-o de perfil, vendo os traços latinos do cavaleiro ainda mais evidentes do ângulo que o observava.

-Boa noite; Guilherme sussurrou, deixando os véus caírem, fechando a cortina e permanecendo do lado de fora.

Suspirou pesadamente, antes de deixar a cabeça cair sobre o travesseiro. Fechou os olhos, tentando relaxar. Era como se um forte e alto muro houvesse se erguido entre eles nos últimos dias e podia apostar, que tudo continuaria da mesma forma se o ariano não houvesse feito alguma coisa e de certa forma, aberto os olhos de todos para algumas coisas atualmente ignoradas.

Deixou-se envolver pelo clima ameno e agradável da tenda, aos poucos sentindo o corpo tomado por um leve torpor antes de adormecer.

.II.

Subiram os templos todos juntos, esse era mais um daqueles dias que o sol erguia-se mais cedo no céu, aquecendo-os com raios vibrantes para que começassem ainda mais animados aquele novo dia.

Como de costume, uma vez por semana reuniam-se no último templo para o café da manhã e dessa vez o antigo cavaleiro de Peixes juntara-se a eles.

-Bom dia; Shion falou cumprimentando Alister, Eurin e Eliot que se aproximavam.

-Bom dia; eles responderam.

-Onde esta Isadora? –o ariano indagou, vendo que a jovem não acompanhava o pai.

-Isa tinha um compromisso cedo, por isso não pode vir; Eliot respondeu um pouco emburrado.

-Ah mestre, quem vê pensa que ela esta indo para forca; Alister debochou.

-Alister; Eurin falou em tom de aviso.

-É verdade, oras... O que quê tem se ela foi caminhar com o Minos na praia? –ele indagou dando de ombros, como se fosse à coisa mais obvia do mundo.

-Ahn! Acho que esse não é o momento para falarmos disso; Shion falou, vendo que o pisciano e Aaliah tomavam seus lugares na mesa, mas ao que tudo indicava, ele havia ouvido o que Alister dissera.

-Fala sério vocês; Alister resmungou. –Vocês agem como se nunca tivessem tido uma história de primos; ele completou.

-Que historia é essa, senhor Alister? –Eurin falou serrando os orbes de maneira perigosa.

-Veja bem, querida; o cavaleiro falou suando frio.

-Vamos conversar ali; ela falou, puxando-o para longe dos cavaleiros.

-Você parece preocupado, meu amigo; Shion comentou assim que ficaram sozinhos.

-Alister está certos, todos têm uma historia com primos, mesmo que não no sentido que ele se referia; Eliot falou com pesar.

-O fato dele ser um espectro ainda te aborrece, não? –o Grande Mestre comentou, enquanto via os demais ocupantes da mesa chegando.

-Não, a verdade é que...; Eliot começou, hesitando. –Não posso negar que eu o invejo;

-Uhn? –o cavaleiro murmurou confuso.

-Às vezes eu acho que Isadora gosta mais dele do que de mim; o pisciano falou com pesar. –Eu o invejo, porque ele é mais importante na vida de Isadora, do que eu;

-Não é bem assim; Shion falou, tentando contornar a situação.

-Eu perdi minha filha Dohko, no momento que casei com Heloisa; ele afirmou. –Quando Isadora quer conversar ou precisa chorar, quem você acha que ela procura?

-Bem...;

-Quem você acha que a apoiou todos esses anos? Quem esteve lá pra ela quando ela queria desistir de tudo? –ele indagou com a voz fraca. –Quem mudou o destino por ela?

-Minos gosta muito dela, não é? –Shion indagou, vendo o quão abatido ele estava.

Era difícil ver que apesar de tudo, muitos cavaleiros tinham dificuldade em levar uma vida normal, com suas frustrações e conquistas, principalmente quando se batia de frente com situações assim.

-Minos a ama, sempre a tratou como uma jóia rara e intocada deixou-a viver a própria vida, mas sempre a mantendo em segurança. Não o recrimino pelo que ele fez, pelo contrario, tudo como sempre foi pensando no bem de Isadora; Eliot falou dando um pesado suspiro.

-Às vezes o destino nos coloca em situações bastante irônicas; Shion comentou pensativo.

-É, muito irônicas; ele completou, mas mudou de assunto ao ver um cavaleiro chegar ao terraço. –Suponho que aquele seja seu antigo pupilo, não?

-Ah! Sim, o Mú; Shion falou vendo o ariano sentar-se em um dos lugares vagos.

Ainda não conseguia falar com ele sobre aquela história do Ares, ironicamente no dia que pedira que Ilyria fosse busca-lo para conversarem, o cavaleiro acabou enroscando pelo meio do caminho e no fim, um compromisso inesperado adiou a conversa, mas uma hora ou hora iria pegá-lo pelo pé e ele não poderia se esquivar mais.

-Bem, vamos nos sentar; Shion falou indicando-lhe que fosse a frente.

-o-o-o-o-o-

-Esta tudo bem, pai? –Aaliah perguntou vendo o cavaleiro com ar sério, enquanto respondia de maneira polida o cumprimento dos demais.

-Sim; Afrodite limitou-se a responder.

Observou-o atentamente, o que estava acontecendo? Quando chegaram ali, o pai estava bastante animado, mas parece que desde que vira Eliot conversando com mestre Shion sozinho, uma nuvem negra baixou sobre seus olhos.

Onde estava Isadora? –Aaliah se perguntou, vendo que a amiga não estava ali.

-Pai estava pensando; Aaliah começou, esperando distrai-lo com isso.

-Uhn? –ele indagou, esperando-a continuar.

-O que acha de irmos ao museu de Atenas? Ouvi dizer que estão fazendo uma exposição interessante lá; ela falou sorrindo animada.

-Claro, porque não; Afrodite falou prontamente.

Era melhor não ficar pensando, isso não ajudaria em nada; ele concluiu depois de um pesado suspiro.

-E o que acha de passarmos na loja de chocolates depois? –ele indagou, sabendo que a filha era chocolatra assumida.

-Posso ir junto? –Milo pediu, entrando na conversa.

-Escorpião; Afrodite falou em tom de aviso, mas viu-o fazer beicinho e fitá-lo com um olhar infantil.

-Ah deixa pai? –Aaliah pediu, com um largo sorriso. Lançando um olhar cúmplice para o conterrâneo zodiacal.

-Aaliah, querida; Afrodite falou, não compreendendo o porquê daquela repentina mudança de humor na filha.

-Oras papai, Milo também gosta de chocolates e nada melhor do que ver uma amostra de arte grega, com um grego; ela completou casualmente.

-Mas...;

-Isso mesmo, prometo ser um ótimo guia; Milo adiantou-se com aquele sorriso que faria até mesmo uma freira esquecer seus votos.

-Esta bem, mas uma gracinha sua e você volta dentro do estomago de uma planta carnívora gigante; Afrodite avisou, lançando-lhe um olhar mortal.

-Tudo bem, sou da paz; Milo falou, sem esconder o brilho enigmático no olhar.

.III.

Ainda era bem cedo quando pegaram uma mesa no dec da Toca, Dionísio já passara para lhes cumprimentar avisando que a mesa de cafés estava posta. É, a divindade estava disposta a jogar pesado contra a Balada das Musas, já que implantara um moderno sistema de café colonial, junto com a revitalização.

-Em que esta pensando? –Isadora indagou vendo-o fitar as árvores que envolviam a toca com ar vago.

-Estava pensando em fazer uma viagem; Minos começou, sentando-se de maneira confortável na cadeira estofada.

-Para onde? –ela indagou curiosa.

-Não sei, não decidi ainda; Minos respondeu. –Só estou pensando em sair de Atenas um pouco, conhecer algum lugar diferente, já faz algum tempo que não faço uma viajem, que não seja de "negócios"; ele falou fazendo o sinal de aspas.

-Porque não vai até Campos do Jordão? –Isa falou em tom de sugestão.

-Como?

-Você sabe, aquela cidade no Brasil onde eu morava, antes de começar a faculdade. É um lugar agradável, você vai adorar o clima; ela falou animada. –Sem contar que existe uma pousada divina lá;

-Interessante; ele murmurou pensando nas possibilidades.

-Alem do mais, a temporada de inverno logo ira começar, você vai se divertir e também vai poder descansar; a jovem continuou. –E também, o chocolate quente é divino; ela completou com um largo sorriso.

-Uhn! Andar com àquele artrópode esta fazendo você ficar viciada em chocolate; Minos comentou arqueando as sobrancelhas.

-Não sei por que você e Milo não se bicam; ela falou, vendo-o assoprar distraidamente a franja prateada.

-Simples, minha querida, eu sou um juiz de Hades e ele um cavaleiro de Athena, quer motivo melhor do que esse? –Minos rebateu sarcástico.

-Você sabe que as coisas não são bem assim, Minos; Isadora falou com pesar.

-Sinceramente prima, as coisas vão ser sempre assim, não importa se estou antes ou depois das linhas inimigas, alguns trejeitos de nossa natureza, não podem ser ignorados; ele completou com ar serio.

-Mas e então, o que acha de Campos? –ela falou mudando de assunto.

-É um bom lugar, ainda não sei quando eu vou, mas quero passar um tempo lá; ele respondeu.

-Ótimo, me avise quando decidir ir tenho alguns guias de viajem que você pode aproveitar; ela falou animada. –Existem as pousadas e...;

E assim passaram o resto do café falando sobre a possível viajem, mal imaginando o que essa repentina mudança, realmente iria causar.

.IV.

Levou a xícara de café aos lábios, mas antes que pudesse sorver o conteúdo, estancou. Franziu o cenho olhando para os lados, havia alguma coisa ali que estava fora do comum.

-Algum problema, cherrie? –Kamus indagou.

-Não, acho que não; Aishi respondeu, dando um baixo suspiro.

Não estava ficando neurótica, algo lhe dizia que um de seus irmãos estava por perto, mas qual deles? Deimos fora passar uma temporada em Roma e não iria voltar tão cedo, Anteros estava em Asgard e Eros, bem... Esse nunca sabia o que ele estava fazendo da vida, que não aprontar por ai. Mas o problema era que os três tinham vibrações do cosmo semelhante o que dificultava para si, reconhecer de quem era aquela presença.

-Você parece preocupada; o aquariano comentou, passando um pouco de geléia sobre uma torrada e entregando a ela.

-Não sei, acho que senti a presença de um dos garotos por aqui, mas não sei quem é; a amazona respondeu, mas em seguida deu de ombros. –Não deve ser nada;

-Você acha que eles possam estar aprontando alguma coisa no santuário, não é? –Kamus indagou.

-Não, Eros foi proibido por papai de vir aqui com seu arco, duvido muito que ele seja louco de aprontar alguma coisa aqui dentro; ela respondeu sorrindo. –Mas esquece, deve ser só impressão;

-...; ele assentiu, embora algo lhe dissesse que não era apenas uma impressão.

Pelo que conhecia do cunhado, Eros nunca dava ponto sem nó e se Aishi estava sentindo a presença de um dos irmãos, era provavelmente ele aprontando alguma coisa. Só esperava que a pessoa 'errada' não fosse flechada novamente por engano.

-o-o-o-o-o-

Suspirou pesadamente, levando as mãos aos lábios quando ameaçou bocejar. Embora tivesse dormido até um pouco mais do que o normal, ainda sentia sono, estava cansada demais, principalmente depois de todo o trabalho da noite anterior.

-Você acha que deu certo? –Milo indagou a seu lado.

-Não sei; Shina respondeu pensativa. –Alias, só um milagre agora para aqueles dois se acertarem. Se bem que, o Mú investiu pesado nisso; ela comentou ainda surpresa com a infinidade de contatos do ariano que fizeram a tenda e tudo o mais surgirem rapidamente.

-Ele me assusta; o escorpião brincou. –Ainda não sei como ele conseguiu arrumar tudo aquilo;

-É... Mistério; ela brincou, com um fino sorriso nos lábios.

É, seu sexto sentindo nunca se enganava e agora, exatamente, ele lhe dizia que aquele ariano tinha mais cartas na manga do que todos ali imaginavam. Prova disso fora a forma com que resolvera os problemas no dia anterior. Tudo metodicamente planejado e sem margens para erros. O que lhe levava a se indagar, como ele chegara saber tanto sobre tantas coisas? –ela pensou curiosa.

-Mas e você, o que vai fazer hoje? –Milo indagou, ouvindo um leve rosnado vindo do outro lado da mesa.

-Não sei, por mais incrível que pareça estou me sentindo muito preguiçosa hoje; a amazona falou por fim bocejando. –Acho que vou alugar um filme e de preferência, ficar trancada dentro de casa o dia todo; ela completou, recostando-se na cadeira.

-Já assistiu o Possession? –Milo indagou.

-O thriller? –ela indagou.

-Não, o romance; o cavaleiro respondeu.

-Desde quando você assiste a romances, Escorpião? –Shura falou em tom de provocação, entrando na conversa.

-O que tem de mal nisso? –Kamus falou com os orbes levemente serrados, enquanto Aishi pousava a mão suavemente sobre a dele, fazendo-o se acalmar.

-Vou me abster do direito de não responder, bode! –Milo rebateu mordaz.

-Parem com isso, não vão começar a brigar logo cedo, não? –Aiolia falou, chamando-lhes a atenção.

-Então, sobre o que é o filme? –Shina indagou, ignorando o olhar envenenado do espanhol, ao voltar suas atenções ao escorpião.

-É sobre um poeta, ou melhor, sobre a história dele e seus poemas. Ele foi um tipo de Lorde Byron em sua época, foi uma das mentes mais influentes na Europa que regeram o romantismo; Milo respondeu. –O filme se passa em dois tempos, um que é no passado, mostrando em flash um romance vivido pelo poeta e outro no futuro, com dois historiadores que ironicamente ao começarem a investigar sobre a história do poeta, acabam vivendo as mesmas coisas; ele explicou.

-Parece interessante; ela concordou. –Quem são os protagonistas?

-O cara é aquele ator que faz o Justiceiro e ela a garota do filme, Duets – Vem Cantar Comigo; ele respondeu prontamente.

-Esse filme é muito bom; Aishi concordou. – Apesar do Jhon Travolta ter feito um papel meio patético nesse filme, o enredo é legal. Mas ele ficou melhor no Be Cold – O outro nome do Jogo;

-Vocês já assistiram? – Milo indagou voltando-se para ela.

-Kamus alugou para gente esses dias; ela respondeu. –Amor, como é mesmo o nome daquele outro filme? –ela indagou voltando-se para ele.

-O Clube do Imperador; ele respondeu.

-Esse também é muito bom, para aqueles que gostaram do Sociedade dos Poetas Mortos, vai adorar esse com Kevin Kline; a amazona completou.

-Uhn! Podemos fazer uma nova seção de filmes hoje, o que acham? –Aldebaran falou, dando um sorriso maroto.

-Com licença pessoal, mas estou de saída; Mú falou rapidamente levantando-se da mesa.

-Algum problema, Mú? –Shion indagou, surpreso com a reação dele.

-Não, só alguns compromissos, vejo vocês depois; ele despediu-se e logo desapareceu.

-Uhn! O que deu nele? –Litus indagou confusa.

-Aldebaran, você não tem noção do perigo; Aiolia falou rindo. –Quero só ver quando ele der o troco;

-Ah! O Mú jamais faria isso; o taurino falou debochado, dando de ombros.

-Eu não contaria com isso; Celina falou de maneira enigmática.

-Como? –Shion indagou intrigado.

-Nada, não; ela apressou-se em responder, mas um sorriso ainda pairava sobre seus olhos.

-Hei! Pessoal, vocês sabem de onde veio a queima de fogos ontem? –Aaliah indagou, chamando-lhes a atenção.

-Que queima de fogos? –Ilyria perguntou curiosa.

-É, ontem a noite do templo de Peixes vimos alguns fogos de artifício no céu, mas não dava pra saber de onde veio; Afrodite falou, ouvindo alguém se afogar e começar a tossir.

-Algum problema, Mia? –Celina falou preocupada, vendo a jovem a seu lado extremamente vermelha.

-Não, estava distraída e o café entrou pelo canal errado; ela respondeu, limpando os lábios com um guardanapo, entretanto sua face ainda ficou mais vermelha que os cabelos de Alister e Marin, juntos.

-Ahn! Algo me diz que nosso amigo ariano não andou entretido apenas em resolver a situação de Guilherme e Yuuri ontem; Milo comentou para Shina, quase num sussurro, que ela apenas assentiu.

-Parece que sim;

-Hei pessoal, onde estão Guilherme e Yuuri? –Saga indagou, vendo que o casal não estava presente.

-A! Esqueça desses dois por pelo menos mais três dias e duas noites; Shina falou com um sorriso travesso nos lábios.

-Do que esta falando, Shina? –Ilyria indagou.

-Longa história; ela, Milo, Afrodite e Aaliah responderam ao mesmo tempo.

.V.

Deixou a chave em cima do aparador, junto com a bolsa. O dia estava começando cedo para si, embora já houvesse feito muitas coisas. Ir caminhar na praia com o primo lhe ajudou a esfriar a cabeça e eliminar as tensões do jantar com o pai na noite anterior.

Eliot iria passar uma boa temporada em Atenas e naquela manhã fora tomar café com o pessoal do santuário no último templo. O pai estranhou quando disse que não iria, de imediato ficou sem saber o que responder as indagações dele, sem acabarem voltando ao assunto da noite passada, mas graças aos deuses, Minos apareceu em seu socorro.

Suspirou pesadamente, pegando o avental branco sobre a bancada e envolvendo a cintura com ele. Havia alguns arranjos para fazer, que precisariam ser entregues até o final do dia, então, era melhor deixar para pensar sobre isso depois; ela concluiu, no exato momento em que a porta se abriu e o sininho tocou.

-o-o-o-o-o-

Andavam um pouco mais atrás do cavaleiro, que observava com atenção as peças de arte grega. Por ironia do destino, havia um pessoal de turismo fazendo estagio no museu e que se propuseram a guiá-los pelas salas, evitando que o Escorpião bancasse o guia.

-Então, o que esta planejando? –Milo indagou num sussurro para a jovem.

-Não sei, mas quero saber da verdade; Aaliah rebateu entre dentes.

Não podiam falar alto demais, se não Filipe que estava falando com um dos guias, poderia ouvi-los e achar aquilo suspeit.

-Que verdade? –o cavaleiro indagou.

-Que é você o admirador secreto da Isa; ela respondeu.

-Aaliah ficou louca, a Isa é minha amiga; ele respondeu de imediato, voltando-se para ela.

-Eu sei, mas pensei que fosse você tentando provocar o papai; a jovem falou confusa. Se não fora Milo e muito menos seu pai, então que mandava as rosas?

-Afrodite já tem baixa auto-confiança sem que eu ajude a destruí-la de uma vez; Milo falou com um fino sorriso nos lábios.

-Hei! –ela falou indignada.

-É a mais pura verdade, mas que história é essa de admirador secreto? –ele indagou.

-Alguém esta mandando rosas para a Isadora e ela não sabe quem é; Aaliah explicou.

-Se não sou eu, nem o Afrodite; Milo começou pensativo. –Então quem pode ser? –ele murmurou.

-Será que é o Minos? –a jovem sugeriu como quem não quer nada.

-Não, o Minos não precisa desse tipo de jogo; o Escorpião respondeu pensativo. –Infelizmente não conheço mais ninguém que se enquadre nesse perfil, ou que nos últimos meses tenha revelado algum interesse a mais na Isadora, alem do Afrodite; ele comentou.

-Isso é estranho, porque eu também não consigo pensar em ninguém; ela respondeu. –Se bem que, será que não é algum ex-namorado da Isa que pode estar na cidade e você sabe, estar querendo retomar a relação? –ela sugeriu, sem notar que o pai estava atrás de si.

-Se fosse a Isa já teria me contado, mas vou perguntar para ela mesmo assim; Milo falou e ambos interromperam a conversa ao ouvirem alguém pigarrear.

Cautelosamente os dois viraram-se encontrando o pisciano lhes fitando de maneira inexpressiva, o que lhes levava a crer que aquilo não era um bom sinal.

-Pensei que vocês tivessem vindo aqui pela exposição; Filipe comentou, tentando não demonstrar o quanto estava irritado por viver a mesma incerteza de não saber quem era o suposto admirador.

-Sim, só paramos para observar melhor aquela estatua de Afrodite; Milo apressou-se em responder, enquanto rapidamente puxava Aaliah pelo braço, arrastando-a até a estatua da deusa.

-Ele ouviu; ela comentou num sussurro, enquanto via de soslaio o guia voltar a falar com Afrodite.

-Possivelmente; Milo respondeu, enquanto eles passavam por outras obras. –Mas vamos fazer assim, ao sair daqui, você leva o Afrodite para loja de chocolates e eu vou falar com a Isa, quem sabe não consigo tirar alguma informação dela;

-...; ela assentiu.

Agora precisavam unir forças para descobrir a identidade do verdadeiro admirador.

.VI.

Observou-o entrar na loja como se já conhecesse o lugar há muito tempo, os cabelos dourados caiam graciosamente sobre os ombros, mais longos que o comum, os orbes eram igualmente dourados, tinha a leve impressão de que aquele olhar lhe era familiar, mas não conseguia se lembrar de onde.

Conteve um suspiro ao ver aquele belo espécime de Deus Grego se aproximar, ele vestia roupas claras, provavelmente para amenizar o calor de lá de fora, uma calça de caimento reto e uma camisa branca, com os primeiros três botões abertos.

-Escuse senhorita, mas procuro por Isadora Ermond? –o rapaz falou de maneira calma e ponderada. Entretanto o tom melodioso de sua voz era capaz de desarmar um exercito inteiro.

-Sou eu mesma; Isadora respondeu, reconhecendo o sotaque italiano carregado na voz.

-Muito prazer; ele falou estendendo-lhe a mão. –Freyr Ducase; ele falou contendo um sorriso.

-Igualmente, mas o que deseja? –ela indagou confusa.

-Há algum tempo atrás estive no Belas Artes no Brasil e tive conhecimento sobre seus trabalhos, durante o período em que esteve cursando a faculdade lá; ele falou.

-...; ela assentiu esperando-o continuar.

-E eu sou um dos patrocinadores do museu local e sou grande apreciador de afrescos; Freyr falou, observando-a atentamente, para prever suas reações. –E gostaria de ter algumas de suas obras na minha coleção particular;

-Sinto muito, mas não vendo meus quadros; Isadora respondeu, vendo o olhar surpreso dele.

-Como?

-Eu os faço por ser um hobby, mas não comercializo; a jovem falou calmamente.

-Mas nem por encomenda, talvez? –Freyr falou tentando negociar.

-Não; ela falou veemente.

-Escuse senhorita Ermond, mas talvez nós possamos negociar, eu realmente não estou disposto a desistir de seus quadros; ele falou serio, dando a entender que não iria desistir até conseguir.

-Não há nada para se negociar, senhor Ducase. Eu não quero ser grosseira, mas se é só isso, eu agradeceria se você se retirasse, tenho muito o que fazer; Isadora completou.

-Uhn rosas azuis; Freyr falou aproximando-se do vaso onde ela estava colocando as rosas que recebia todos os dias.

Isadora bufou exasperada, quem aquele cara estava pensando que era para chegar ali, querendo seus quadros e ser insistente.

-Muito bonitas, jamais vi rosas tão azuis assim; ele comentou voltando-se para ela. –A senhorita também as vende aqui?

-Não, essas eu ganhei; Isadora respondeu impaciente.

-De um admirador eu suponho, já que essas rosas são raríssimas; Freyr falou voltando-se para as rosas, não vendo a face dela tornar-se vermelha, de raiva.

-Senhor Ducase, não tenho muito tempo a perder hoje. Então, por favor; ela pediu indicando-lhe a porta.

-Bem, se não é um admirador, permita-me convidá-la para jantar essa noite; ele a cortou, voltando-se para a jovem com um olhar inocente, igual ao do amigo Escorpião, quando queria lhe persuadir a fazer alguma coisa; ela pensou, serrando os orbes.

-Sinto muito amigo, mas ela já tem companhia para essa e para as próximas noites; alguém falou aproximando-se.

Virou-se rapidamente, não havia ouvido o sininho, mas suspirou aliviada ao ver o amigo entrar.

-Escuse, mas quem é o senhor? –Freyr indagou, deixando a aura de cordialidade de lado, mostrando-se aborrecido com a intromissão.

-Milo Odysseus Elytis; o Escorpião falou quase soletrando o nome. –Ele esta lhe aborrecendo, Isa? –ele indagou.

-Estávamos tratando de negócios, Senhor Elytis; Ducase falou em tom mordaz.

-Bem, agora que já terminaram, você pode ir e parar de aborrecê-la; Milo falou num tom perigoso de voz.

-Nós ainda n-...;

-Até logo e tenha um bom dia; ele completou antes de literalmente arrastar o italiano floricultura a fora e empurrá-lo para o meio da calçada.

-Milo; Isadora falou surpresa.

-Volte a aborrecê-la de novo e eu acabo com você; Milo avisou, batendo a porta quando o outro ameaçou entrar de volta.

Voltou-se para a amiga que lhe fitava de maneira estranha. Franziu o cenho, arqueando levemente a sobrancelha.

-O que foi?

-Não sei se te dou um beijo, ou te chuto por ter sido tão arrogante; ela falou contendo o riso.

-Bem, como a parte do chute não me agrada em nada, podemos ficar com a segunda opção se preferir; ele falou com um sorriso sedutor.

-É uma pena que eu te conheça Escorpião; Isadora brincou, enquanto pegava as flores que deixara sobre a pia e as espalhava no balcão de vidro. –Mas obrigada, ele já estava me aborrecendo;

-Fiquei imaginando quanto tempo levaria para você mesma acabar com ele; Milo comentou se aproximando. –Mas o que o almofadinha queria?

-Parece que ele esteve no Brasil há pouco tempo e teve acesso ao catalogo de quadros meus, que fiz durante o curso e queria comprar alguns;

-Idiota, como se você nunca tivesse deixado claro que não venderia os quadros; ele falou como se fosse a coisa mais obvia do mundo.

-Ele não estava convencido de que isso era verdade; ela respondeu.

-Pelo menos ele não vai se arriscar a aparecer por aqui; o cavaleiro falou dando de ombros. Não, Freyr não iria se arriscar, principalmente com Milo por perto; ela pensou.

–Mas e você, o que esta fazendo por esses lados?

-Vim ver como estão as coisas, já que você não apareceu no café hoje; Milo comentou casualmente.

-Estão bem, na medida do possível; Isadora respondeu.

-Uhn! Ouvi dizer que você tem um admirador; ele começou.

-Quem disse? –Isadora indagou com a face levemente enrubescida.

-Aaliah me contou; Milo respondeu. –Ela pensou que fosse o Afrodite que estava mandando as rosas, mas ficou chocada ao saber que não era ele;

-Porque o Filipe iria-...; ela parou vendo-o arquear a sobrancelha. –Esquece o que eu disse;

-Enfim; Milo continuou, gesticulando de maneira displicente. –Você sabe que eu ainda morro por causa da minha curiosidade, mas eu não podia deixar de tentar garimpar algumas informações;

-Do tipo? – Isadora perguntou.

-Se o tal admirador não poderia ser algum ex-namorado, não sei, talvez o cara esteja em Atenas e ao te ver por ai, tenha achado que pode te conquistar de novo e esta mandando as rosas por saber que você gosta delas; ele explicou.

-Impossível; Isadora falou rindo ante essa possibilidade.

-Eu não acho; Milo falou dando de ombros. –Ele pode ter visto isso como uma oportunidade de persuasão. Você gosta das rosas e ficaria bem mais sensível com um buquê delas na mão ao ser abordada, do que elas fazias; ele completou.

-Então essa é uma das suas táticas? –ela brincou.

-Das velhas, mas muito eficiente; ele respondeu sorrindo. –Mas falando sério, você não faz mesmo idéia de quem seja?

-Não, nenhuma; a jovem respondeu vendo-o ficar serio.

Não era ele, nem Afrodite. As opções caiam a zero, será que era alguém de fora de Atenas? –ele se perguntou.

-o-o-o-o-o-

Sentou-se na cadeira em baixo do toldo esverdeado, fugindo do sol do meio dia. Observou o jovem de melenas negras a sua frente, beber um suco de laranja calmamente, ignorando sua presença.

Arqueou a sobrancelha aborrecido, poderia ter levado seu plano adiante se não fosse atrapalhado.

-Parece que você perdeu maninho; o outro debochou.

-Não ainda; Freyr respondeu, recostando-se na cadeira.

-Duvido muito, aquele cavaleiro não vai deixar você chegar perto dela tão fácil de novo;

-Não preciso me aproximar mais dela, o que eu queria já aconteceu; ele respondeu sorrindo maroto ao indicar uma pessoa do outro lado da rua. –Agora só falta colocar a parte final do meu plano em ação, mas por enquanto, preciso fazer uma retirada estratégica;

-Se formos descobertos, já vou avisando que a culpa vai ser toda sua; o moreno de orbes azuis falou.

-Puff! Você esta com medo do papai? –ele indagou.

-Medo não, mas eu tenho amor aos meus dentes e sim noção do perigo; o rapaz completou antes de levar o copo aos lábios novamente. –Ao contrario de você é claro;

Deu de ombros, recostando-se na cadeira, enquanto chamava uma garçonete. Tudo ia como planejado e daria certo no fim, como era para ter acontecido daquela outra vez, mas por ironia do destino, a flecha fora disparada no local errado.

.VII.

Mergulhou o corpo todo dentro da tina, era incrível como a água ainda estava quentinha. Suspirou relaxada, não fazia muito tempo que havia acordado e decidira tomar um banho.

Guilherme ainda dormia, embora numa posição ainda mais desconfortável sobre o tapete felpudo ao lado da cama. Depois que se deitara, não haviam falado mais nada e era difícil imaginar o que o italiano estava pensando.

Encostou a cabeça na beirada de maneira, fechando os olhos, tantas coisas haviam acontecido nos últimos meses que achava difícil assimilar tudo.

Mas estava com medo, medo do que lhe esperava no futuro, medo de estar errada e fazer uma escolha da qual, não só afetaria sua vida, como o futuro daquela pequena preciosidade que crescia cada dia mais em seu ventre; ela pensou, envolvendo a cintura com os braços.

Depois que voltaram da Sicília, Guilherme e ela não haviam mais falado sobre aquela noite em que chegaram à casa dos pais dele e ele lhe contara toda a história. Foi como um voto silencioso de enterrar o passado, mas ainda existiam fragmentos que pairavam sobre eles.

-Mas será que não vale a pena, se dar mais uma chance?

Uma voz indagou, surgindo de repente em sua mente. Abriu os olhos, olhando para todos os lados, ainda estava sozinha e mesmo dali, conseguia ouvir Guilherme ressonando. Deu de ombros, deveria ser só impressão.

-Uma relação bem estruturada não pode ter como alicerce seguro apenas compatibilidade sexual e desejo;

A voz continuou. Bem isso era obvio e nem mesmo ela tinha argumentos para contra atacar. Entretanto...

-Ele é realmente um idiota por não ter se expressado direito desde o começo; a voz falou de maneira quase sádica.

Franziu o cenho, tinha que concordar com isso também, mas Guilherme vinha se esforçando muito nos últimos tempos. A idéia da casa na árvore, a forma como o ouvira falar de maneira empolgada ao avô sobre o bebe. Apesar de tudo, ele estava tentando.

-Acha mesmo? Quem sabe isso não seja apenas mais um fruto da sua imaginação?

Bufou exasperada, fazendo algumas bolinhas boiarem sobre a água. Aquilo não era fruto da sua imaginação. Guilherme seria um bom pai, mesmo ele não admitindo tão facilmente que estava com medo.

-Quanto otimismo!

-Hei! –Yuuri exasperou consigo mesma. Aqueles pensamentos estavam impertinentes demais.

-É apenas a verdade, nada mais que a verdade; a voz respondeu, de maneira calma. –O que iria dizer a essa criança no futuro. 'Me casei com seu pai porque era a única opção?'. Sabe de quantas horas de terapia ele vai precisar para superar isso?

Muitas certamente; Yuuri concordou aborrecida. Queria que Guilherme participasse integralmente da vida do filho, mas não a custa de seus sentimentos, de vê-los despedaçados por que eles não eram mais assim tão compatíveis.

-Todos casais tem problemas de comunicação;

-Oras, mas não é você mesmo que esta falando que tudo vai dar errado? -ela resmungou consigo mesma.

Deveria estar doida por dar ouvidos para aqueles pensamentos insanos, porém irritantemente lógicos.

-Há menos que, os sentimentos que você nutre por ele, não sejam fortes o suficiente; a voz continuou.

-Uhn? –Yuuri murmurou confusa.

-Todos os casais, dos mais jovens aos mais experientes sofrem um abalo nas estruturas vez ou outra, existem concessões a serem feitas, velhos paradigmas que não são facilmente quebrados;

­-O que isso tem a ver?

-Você não esta disposta a ceder!

-É claro que estou; ela falou veemente.

-Está o que? –Guilherme indagou surgindo ao lado dela.

Deu um pulo dentro da tina e teria escorregado se ele não houvesse lhe segurado pelos ombros.

-Guilherme, que susto; ela exasperou, sentindo o coração disparar.

-Você estava aérea, muito me admira que não tenha ouvido eu me aproximar; o italiano falou, desviando o olhar. –Mas e você, estava falando sozinha? –ele indagou curioso.

-Não; Yuuri respondeu prontamente, embora tenha ficado tentada a falar sobre aquela vozinha em sua mente.

-Ahn! Vai demorar ainda aqui? –ele indagou como quem não quer nada.

-Não, por quê? –Yuuri perguntou, notando-o levemente tenso.

-Parece que o café está pronto e vai esfriar se demorarmos; o canceriano avisou afastando-se da tina e fechando a cortina novamente.

Por um momento hesitou, entra a incerteza de chamá-lo de volta e o orgulho que lhe manteve quieta. Suspirou pesadamente, as coisas não estavam indo bem, nada bem alias...

-Não existe recompensa sem merecimento, acha que as coisas são fáceis? Que ganhara tudo de bandeja? Infelizmente desde o começo dos tempos, amor e medo estão atados à vida por um laço forte e inquebrável e uma das partes têm de ceder, engolir o orgulho e dar o braço a torcer;

Suspirou pesadamente, não sabia de onde aquela voz vinha. De seu subconsciente? De outra pessoa? Ou de qualquer outro lugar, mas ela tinha razão. Alguém tinha de ceder; a jovem concluiu.

.VIII.

Segurou o puxador na mão, enquanto via do outro lado da rua, um jovem sair da floricultura, pouco depois que Milo entrou. Aaliah já estava a tempos dentro da loja de chocolates e nem ao menos vira que ainda estava ali fora.

Franziu o cenho, sentindo-se incomodado ao ver o estranho sair com um sorriso mais do que satisfeito nos lábios, será que era ele o tal admirador? Possivelmente um ex-namorado de Isadora que estava no país, querendo reatar? –ele se indagou.

Quem sabe até, ele aproveitaria que Eliot também estava na cidade para pedi-la em casamento. E eles até fossem reunir os amigos mais íntimos para uma reunião particular, onde anunciariam o noivado e depois as bodas; ele pensou entrando em pânico.

Não! Estava ficando neurótico; Afrodite pensou balançando a cabeça freneticamente para os lados. Não tinha provas e ficar se martirizando daquele jeito era insano.

-Vai entrar, meu jovem? –uma senhora indagou, querendo passar por ele e entrar na loja.

-Oh desculpe; ele falou sorrindo sem graça, antes de abrir a porta para ela entrar, afastou-se.

Suspirou pesadamente, sentando-se em um banco de madeira em frente à loja, Aaliah não iria sentir sua falta tão rápido, enquanto estivesse na última parada antes do paraíso, como ela chamava a loja de chocolates.

Fazia pouco tempo desde que Isadora voltara daquela viajem, que ele há menos de três dias ficara sabendo que era para Visby, Aaliah lhe contara a história toda, desde os motivos que há haviam feito mudar o itinerário da viajem até o surpreendente reencontro de Shaka e Astréia, sem omitir o embate contra as erinias e a presença de Isadora com a armadura.

Aaliah lhe mostrara o pingente de Aimê, entretanto achava estranho que justamente ela fosse aparecer para Isadora e pedir que fosse até Visby, isso parecia ilógico, porque não fora consigo. A verdade é que se sentia um pouco frustrado, já que em vez de Aimê confiar em si para cuidar da filha, não, pedira a Isadora para envolver-se em um problema que não era seu.

Droga! Agora estava até mesmo com ciúme da amizade de Aaliah com Isadora; ele concluiu quase rindo de maneira histérica. Era só o que faltava. Ele com ciúme da filha. Entretanto, não pretendia chegar ao ponto do Grande Mestre, que só faltava trancar Celina no último templo, apenas para não correr o risco, de ela ser assediada.

Que patético!

Remexeu-se no banco, desconfortável. Não gostava nem um pouco do rumo que seus pensamentos estavam tomando.

-Algumas coisas são realmente irônicas, não acha? –uma voz grave falou a seu lado.

Virou-se confuso, mas assustou-se ao encontrar sentado no banco a seu lado um jovem de longas melenas negras e orbes vermelhos. Franziu o cenho, porque tinha a sensação de que o conhecia? –Afrodite indagou-se.

-Muitas pessoas atribuem à capacidade de vencer a adversidade da própria existência, ao destino; Emmus falou, cruzando as pernas elegantemente. As roupas negras faziam um contraste gritante com o dia ensolarado, mas nem que a temperatura estivesse a cinqüenta graus, não trocaria aquelas por brancas.

-E porque não? Esse é um dos velhos paradigmas que não podem ser quebrados; Afrodite falou, imaginando que aquele rapaz poderia estar falando sozinho e não consigo, mas ele logo compreendeu que não iria fugir tão fácil daquela conversa.

-Qualquer paradigma pode ser quebrado, é tolice imaginar que tudo no mundo possui uma base sólida e impenetrável;

-E não? –ele falou arqueando a sobrancelha.

-Não!

-Não?

-...; Emmus negou com um aceno. –Tudo passa por um eterno ciclo de mudanças, nada deixa de crescer, se desenvolver e gerar novas coisas. Isso se chama evolução;

-Eu sei, mas...;

-O irônico disso tudo, é as pessoas se deixarem levar por essa coisa patética chamada destino e não, por seu próprio poder; ele continuou de maneira inabalável e incrivelmente segura.

Suspirou frustrado, queria ter metade da segurança exalada por aquele estranho, quem sabe alguns de seus problemas fossem resolvidos mais facilmente.

-Tudo é uma questão de perspectiva; Emmus falou, chamando-lhe a atenção.

-Como?

-Você concorda que existem três senhoras bastante adoráveis que tecem nossos caminhos e que nada pode mudar isso? –o jovem de melenas negras indagou casualmente.

-Claro!

-Então meu caro, você é um grande idiota; Emmus falou, contendo um sorriso ao ver o olhar furioso dele.

-Oras, seu...; Afrodite exasperou ameaçando se levantar, mas assustou-se quando não conseguiu se mover, voltou-se para ele e estremeceu quando os orbes vermelhos focaram-lhe diretamente, como se enxergassem o mais fundo de sua alma.

-Não é a flecha que muda o destino e sim, a força de vontade daquele que atira; Emmus falou em tom de confissão. –As Deusas do Destino podem tecer o caminho, mas escolher a estrada, só você tem esse poder. Achar que a vida parou e que os sonhos não podem mais tornar-se realidade, apenas por que um pequeno percalço foi colocado na estrada é de sua única e exclusiva covardia.

Observou-o silencioso, sabendo que a mensagem era para si e não existiam argumentos contra.

-Mas sabe meu caro, cavaleiro; Emmus falou recostando-se no banco. –A verdade é que você tem medo de amar novamente; ele completou.

Assustou-se e tentou se levantar. Não tinha de ficar ali ouvindo aquele estranho falar, como se lhe conhecesse a vida toda.

-Você pode tentar fugir, mas a verdade sempre vai lhe perseguir; Emmus falou e como por mágica Afrodite conseguiu se levantar.

-Você não sabe do que esta falando? –Afrodite falou com a voz tremula.

-Talvez não, mesmo porque, os sentimentos variam de pessoa para pessoa, mas creio que frustração e arrependimento, são universais; ele falou erguendo a cabeça para fitá-lo. –Não espere que ela encontre alguém realmente disposto a quebrar os velhos paradigmas e você fique apenas com sonhos despedaçados daquilo que poderia ter acontecido, mas que você não foi corajoso o suficiente para lutar e conquistar; ele completou levantando-se.

Passou pelo cavaleiro exalando segurança e imponência, antes de perder-se em meio à movimentação do vilarejo.

Observou-o atentamente, engoliu em seco, sentindo um arrepio gelado correr pelo meio das costas. Não podia deixar a sensação de que ele vira sua alma de lado. Já sentira isso antes, alias, fazia tanto tempo; ele pensou, lembrando-se dos olhos marejados da filha, quando lhe indagara se era realmente seu pai.

Aaliah herdara os olhos e o temperamento da mãe, Aimê jamais desistiria de algo por mais difícil que fosse, prova disso era a filha que tinham, saudável e alegre, como se aqueles anos sombrios e frios jamais houvessem existido.

Será que ele estava realmente certo? Tinha medo de se apaixonar novamente por alguém? Por isso hesitava tanto? –ele pensou antes de ouvir a porta da loja se abrir e uma Aaliah mais do que impaciente saiu de lá.

-Pai, estava falando com o senhor quando virei para trás e olha só; ela exasperou. –Estava conversando com uma prateleira;

Tentou conter o riso, mas não conseguiu. Ver a filha tão exasperada assim, lhe fazia lembrar que apesar de tudo e de todas as complicações, ela era seu bem mais precioso e que precisava usar de todas as suas forças, para cultivar aquelas poucos e frágeis raízes que aos poucos pregavam-se a terra, estabelecendo o relacionamento dos dois.

-Desculpe querida, estava falando com um-...; ele hesitou.

-Quem era o MABS que estava com o senhor? –ela indagou curiosa o cortando.

-MABS o que? –Afrodite indagou arqueando a sobrancelha, ao ver a face da jovem corar.

-Ah longa história; Aaliah falou prontamente. –Mas então, vai entrar ou prefere que eu volte e fique conversando mais um pouco com a caixa registradora, ou com o chapéu de confeiteiro do Alexei; ela falou rindo ao referir-se ao jovem dono da loja de chocolates que sempre aparecia na loja quando os chocolatras de plantão estavam por perto, para usá-los de cobaia para suas experiências.

-Vamos; Afrodite falou sorrindo. –Mas depois quero saber que história é essa de MABS; ele brincou.

Ah se ele soubesse; ela pensou contendo um sorriso.

Continua...