Todos naquele baile estavam deslumbrantes com suas vestes elegantes. A dança ensaiada fazia com que os casais dessem piruetas ao mesmo tempo de modo elegante e sincronizado.

- Aceita dançar comigo, senhorita Catherine? - Indagou o Conde Uchiha. Em um gesto cavalheiro, estendeu para a dama sua mão pálida. Ela passou o olhar da mão para o belo rosto daquele ser repugnante. Como tinha o descaramento de dirigir-se a ela depois de tudo o que andava fazendo?

- O que o faz achar que dançarei com você? - Respondeu com desdém. Esse atrevimento de tratá-lo com descaso o irritava e só ela o fazia, pois qualquer outra mulher se rendia ao seu charme enigmático. No fundo, gostava de vê-la perder os bons modos. Escondia a sua grosseria de todos, exceto dele próprio.

- O fato de que você me deseja - Respondeu com aquele maldito sorriso. Como ela o odiava.

Catherine olhou para os lados buscando saber se alguém teria ouvido aquele comentário absurdo e constrangedor. Aliviou-se ao constatar que ninguém prestava atenção, mas logo ficou séria e fitou, irritada, o homem a sua frente.

- Como ousa dizer tal absurdo sobre mim? - Comprimiu a voz para não gritar em meio a todo salão. Em voz baixa, mas audível o suficiente para ele, respondeu. - Jamais amaria uma pessoa como você!

- Não me lembro de ter mencionado amor!

Voltou-se para traz na cadeira de forro aveludado na qual estava sentada. O conde tinha toda a razão, não havia mencionado nada do gênero. Não tinha como rebater e o viu sorrir satisfeito por sua ausência de palavras.

- E então? - Insistiu.

- Então... O quê? - Bradou sem muita paciência. Até quando ele a infernizaria?

- Ainda não falou se aceita ou não dançar. Sua pergunta irônica não me satisfez! - Respondeu, sem alterar a voz fria.

Ela estreitou os olhos, levantou-se da cadeira e parou frente a ele.

- Nem se eu estivesse morta!

"Ah, não me tente a descobrir se é verdade."

- Posso tomar isso como um sim? - Indagou o conde sarcástico, divertindo-se com o rosto delicado que se contraía em fúria.

Atreveu-se a segurá-la pela cintura e trazê-la junto ao seu corpo.

- O que pensa que está fazendo? Solte-me agora mesmo! - Catherine colocou as mãos sobre o peito dele, na intenção de empurrá-lo, mas o sentiu pegar uma delas e calmamente levar até os lábios. A mão livre do rapaz ainda permanecia firme sobre a sua cintura. Ela apenas o observou fechar os olhos e beijar-lhe a mão.

Seu rosto esquentou e seu coração disparou no momento em que sentiu a boca contra a sua pele. Paralisada pelo gesto suave, não encontrava forças para empurrá-lo. Por um instante admirou o rosto masculino e perfeito.

Ainda com os lábios grudados na pele macia, ele sorriu. Após alguns segundos soltou a mão delicada, ainda a mantendo presa pelo quadril.

- Eu estava certo!

Catherine piscou algumas vezes até se dar conta de que estava perdida entre as pérolas negras, tão profundas e misteriosas. Sentia-se hipnotizada, em transe. Mas despertara ao ouvi-lo afirmar algo que até então desconhecia.

- Do que você está falando? - Perguntou, encarando-o intrigada.

O conde apertou-a mais contra o próprio corpo, sentindo-a tremer, encostou o rosto na bochecha rosada e sussurrou contra o seu ouvido:

- Posso escutar o seu coração, Catherine! Está descontrolado...

O arrepio que a dama sentiu poderia ser comparado a um choque térmico. Aquele homem era tão... sedutor.

- ...Por que anseia por mim, me deseja. Pode me negar, mas não a si mesma - A voz era provocante, quase encantadora.

O sentiu aproximar o rosto do seu pescoço enquanto apertava-lhe a cintura com possessividade bruta. O beijo frio que depositou contra o pescoço quente dela a fez soltar um gemido involuntário e baixo.

- P-Pare com isso - Pediu Catherine, ofegante. Mantinha os olhos fechados, ainda o sentindo contra a pele. - Eu disse para parar! - Em um fio de consciência, o empurrou de forma brusca, afastando-o de seu corpo.

Não se deixaria seduzir tão fácil por um homem como ele.

- Nunca mais se atreva a me tocar! - Alertou e não hesitou em esbofeteá-lo. Em seguida o deixou só, adentrando a multidão de convidados daquele palácio cintilante.

O conde Uchiha colocou a mão sobre o lugar em que recebera o "delicado" impacto da mão feminina. Agora mais do que nunca a atormentaria.

- Minha doce Catherine... Isso não termina aqui!

OoOoOoOoOoOoOoO

Meu rosto está marcado, já que dormi sobre o arame encaracolado do meu caderno sobre a escrivaninha. Espreguiço-me e bocejo. Passei a última noite em claro, então acabei dormindo por aqui mesmo, enquanto fazia algumas anotações. Coloco uma mão sobre o pescoço. Ele está quente, fervendo para melhor dizer.

Posso sentir tudo o que passo em meus sonhos como se já houvesse tivesse acontecido.

Abro uma pequena gaveta no canto direito e tiro de lá o livro em branco que trouxe para casa há alguns dias. Ainda não desvendei o seu segredo, se é que há algum.

Hoje o dia está ameno. Não está quente, mas aquele frio cortante não se faz presente. Saio para varanda e observo o pôr-do-sol, demorado e belo. Estou com uma dor fraca no peito, uma dor incômoda. Começo a considerar a hipótese de estar doente, mas não vou tirar conclusões precipitadas.

Droga! Acabo de lembrar que tenho de sair dentro de uma hora e ainda não estou pronta.

Apressada, entro para o quarto e vou direto para o banho.

OoOoOoOoOoOoOoO

Que tempo indeciso. Estou tremendo!

Não pensei que o frio fosse voltar tão de repente assim. Quero chegar logo em casa, mas estou cansada e sentindo falta de ar. Essa praça, por onde passo agora, parece-me ser um bom lugar para recuperar as forças. Mesmo sendo noite, posso ver muitas pessoas espalhadas pela extensão bem organizada do local público.

Sento-me em um banco ao lado de um pequeno poste de iluminação. Mais ao longe, debaixo de uma árvore, posso ver um casal se beijando. Sinto-me envergonhada ao ver a ardência com que trocam carícias. Rapidamente desvio o olhar.

Suspiro, desanimada, e vasculho o céu a procura de um orbe prateado. Nessa noite ele não está presente, por isso o meu olhar se perde na escuridão. Fico um bom tempo alheia a tudo à minha volta, apenas inalando o ar cheio de neblina, a qual começa a encobrir o chão.

Já descansei e posso continuar o meu caminho. Levanto-me para em seguida sentar novamente. Tontura idiota! Já estou começando a me irritar com esse mal estar quem vem e vai à hora em que quer. Mal pegava resfriado e agora isso. Estou enfraquecendo, mas preciso ser forte. Não posso desmaiar aqui nesse lugar, nessa praça desconhecida.

Minha visão está se indo novamente. Não pode me deixar! Esfrego os meus olhos com as mãos fechadas, mas ainda assim está tudo meio turvo por aqui. Agora sinto aquela pontada no peito. Está mais forte do que antes. Dói muito e acho que não suportarei por muito tempo.

Que susto! Alguém pôs a mão sobre o meu ombro.

Estou ofegante e já não consigo enxergar claramente, porém faço o esforço de me levantar. Ao conseguir me manter de pé, olho para trás a procura de alguém.

- S-Sasuke? - Ouso murmurar. Estou ficando mais debilitada e posso ceder ao chão a qualquer instante. Antes preciso me certificar de que é realmente ele. Só de pensar nessa possibilidade, meu coração dolorido bate mais rápido. Ainda desconheço o porquê dessa agitação.

Olho a minha volta e não encontro nada. É sempre assim. Se for ele que está aqui, por que não aparece de uma vez? Por que se esconde de mim? Desisto de procurar. Não posso mais agüentar, preciso dormir, estou ficando com sono.

O corpo amolece e minhas pernas não podem me sustentar. Outra vez sinto-me amparada antes de tocar o chão. Estou consciente, entretanto não consigo abrir os olhos e meu peito dói.

- Perdoe-me! Você me pediu para não trazê-la ao meu mundo. Não posso mais vê-la sofrer, pois posso não me segurar - Me é dito. É ele! Posso sentir que é. Está me abraçando, mas não encontro força para retribuir. - Seja forte! Não suportarei perdê-la outra vez!

A voz é tão melodiosa, apesar de eu não entender as suas palavras. Sinto-me confortável nos braços dele, é tão agradável. Ainda assim estou com frio, muito frio. Sem forças para lutar, deixo-me ser vencida pela dor e cansaço.

OoOoOoOoOoOoOoO

- O que quer agora? - Catherine perguntou para o rapaz pálido. Este andava ao seu lado, mantendo as mãos dentro dos bolsos do casaco preto, naquela noite de primavera.

- Nada! Apenas caminho pela rua assim como você. Pelo que sei, não é proibido - ele respondeu. Não olhava para o lado, onde ela se encontrava, apenas para frente, fazendo-a se sentir ignorada.

- Duvido muito que esteja apenas caminhando. Está me seguindo! - a moça afirmou. Dessa vez o conde a olhou de soslaio, mantendo os passos calmos.

- Não estou te seguindo. Como disse há pouco, estou apenas caminhando pela rua, onde eventualmente você faz o mesmo.

- Tudo bem! Então continue caminhando! - ela cessou os passos e ele fez o mesmo. - Dirá agora que não me segue?

- Direi - respondeu simplesmente, calmo e frio. - Apenas estou lhe fazendo companhia. Não posso?

- Não quero a sua companhia!

- Pois deveria querer! - ele aproximou-se, fazendo-a recuar alguns passos. - É perigoso para uma donzela indefesa andar sozinha por aí.

- Não sou uma donzela indefesa e o único perigo que conheço é você - O Uchiha sorriu. Ela estava certa, afinal, exceto é claro, pela parte de não ser indefesa. É claro que era. - Faça o que quiser. Apenas vou ignorá-lo - Catherine empinou o nariz e voltou a caminhar, sendo seguida pelo conde.

O homem se mantinha calado e olhava apenas para frente. O percurso silencioso o estava agradando.

- Por que nunca vai à missa? - Catherine quebrou o silêncio com sua voz juvenil, o olhando de esguelha.

Ambos ainda caminhavam.

- Achei que não quisesse falar comigo.

- E não quero! - ela emburrou-se.

"Bem feito, Catherine! Quem mandou tentar ser sociável com esse... esse idiota arrogante!"

- Não gosto de igrejas - Foi pega de surpresa pela resposta atrasada. Ele não poderia ter feito aquilo desde o começo?!

- Que coisa estranha de se dizer! Tão profana.

- Por que acha estranho? - ele parou de andar e a fitou, sendo imitado pela mesma.

- Ora, eu não sei, apenas é estranho!

- Se não sabe responder... Sugiro que fique calada! - Fechou os olhos e suspirou.

Catherine o fitava com profunda irritação.

- Sua impertinência me cansa - Disse-lhe, cruzando os braços e virando o rosto.

- E sua insolência me irrita - ele retorquiu sem abrir os olhos, mostrando todo o seu descaso para com a jovem. Estranhou a ausência de palavras ofensivas por parte dela.

Abriu os olhos e a encarou, desconfiado.

Catherine assustou-se com a dor repentina que estava sentindo. Era como se uma faca estivesse atravessando a sua carne e perfurando-lhe o coração. Levou uma mão até o local dolorido. Começava a sentir a respiração falhar.

- Há algo errado? - o conde perguntou, sem muita preocupação.

"Humanos."

- C-Claro... que... não...- Sua respiração entrecortada a impedia de proferir uma seqüência de palavras.

- Não é o que parece! Deixe de ser orgulhosa e admita que é fraca, Catherine. Todos vocês são! - ele falou. Encostou-se a parede e encarou-a.

O que ele estava dizendo, afinal de contas? Não era uma boa hora para ironias. Se estivesse em melhores condições, Catherine, com certeza, lhe bateria.

- Me... deixe... e-em paz! - ela retomou a sua caminhada, apoiando-se nas paredes. O conde a seguiu apenas com o olhar, até virar em uma esquina e sumir de vista.