N/A:
-fala- / pensamento
XxX – passagem de tempo/ mudança do ponto de vista
Broken Wings
Capítulo 11
A paisagem passava rápido pela janela do trem, revezando entre amontoados de árvores, pequenos demais para serem chamados de bosques, e os amplos pastos das fazendas.
Suspirou, apertando o braço ao redor do caçula, trazendo-o mais pra si. A verdade é que queria protegê-lo, trancá-lo numa redoma de cristal para que nada pudesse feri-lo outra vez, nem ele mesmo.
No entanto, sabia que estava além de suas forças e coração. O próprio Kaoru jamais aceitaria algo assim.
Seria cruel demais.
Mas, será que o caminho que seguiram até ali também não poderia ser chamado de cruel? Por quanto tempo mais teriam que pagar por um pecado que sequer queriam redimir?
Nós não pedimos o perdão divino nem um lugar no céu. Eu ficaria feliz no inferno com você ao meu lado e tenho certeza que você diria o mesmo. Maldição! Nós não matamos ninguém! Não roubamos nem invejamos! Então porque temos que sofrer tanto?
Tinham dado muita sorte. Não só o reencontro, a própria fuga fora praticamente um milagre.
O que teriam feito, se Kaoru estivesse tão machucado que não conseguisse andar?
Eu te arrastei até aqui mas, e se não tivesse conseguido? E se meus joelhos cedessem sob o peso de nós dois?
Encarou os lábios cerrados e feridos. Sabia que essa era apenas uma mas marcas que maculavam a pele clara. Infelizmente, não era por isso que o mais novo chorava. Não, aquelas feridas jamais teriam tanto efeito sobre sua alma.
Seu amor estava quebrado.
Não posso deixar que te machuquem de novo mas, e se nos pegarem? Serei forte o bastante para te proteger?
Contornou os traços do rosto adormecido com a ponta dos dedos, temendo interromper o merecido descanso. Queria tanto beijá-lo, esquecendo o mundo no doce e excitante sabor daquele ser...
Mas, como fazer sem feri-lo ainda mais? Sem trazer a tona tudo que acontecera?
E se eu não conseguir?
Dor. Lágrimas. Medo.
E se nos separarem de novo?
Solidão. Amor. Ódio.
E se... te matarem?
Desespero.
Esperança dos fracos. Veneno dos que se julgam felizes. Destrói a sanidade com apenas um toque, estraçalhando-a até que nada mais reste além de decisões que jamais deveriam ser tomadas.
O que nos faz sobreviver.
Os dedos de Hikaru tremiam. Inconscientemente, deixou o rosto para roçar na garganta.
Você...me perdoaria...Kaoru?
A mão foi apertando, hesitante.
Se fosse pra ficarmos juntos...
As pálpebras cerradas tremeram, abrindo lentamente. Há tempos sentia o irmão ao seu lado porém, isso não impediu a felicidade de lhe invadir, quando viu com seus próprios olhos.
Infelizmente, tudo isso morreu ao reparar nos ambarinos frios e ausentes, bem como o toque firme em seu pescoço.
-Hikaru, o que foi? – indagou preocupado, o coração apertado trazendo de volta antigas sensações. Sensações que queria esquecer.
O mais velho piscou, como se acordando de um sonho. Sorriu-lhe como sempre e estalou um beijo em sua testa, murmurando um 'ohayou' no meio do caminho.
-O-ohayou... – Kaoru respondeu incerto. No entanto, achou melhor mudar de assunto – Para onde estamos indo?
-Para longe.
-Mas, Hi...
-Shhh... – voltou a mão para o rosto do caçula, dessa vez pousando os dedos nos lábios finos – Está tudo bem.
O trouxe mais para perto, aninhando-o contra si. Kaoru logo cedeu, aconchegando-se contra o pescoço que lhe era oferecido. Respirou fundo, relaxando de imediato ao sentir aquela doce essência, que sempre associara a proteção e amor. Fechou os olhos.
Eu queria tanto acreditar em minhas próprias palavras...fingir que sei de tudo ao menos uma vez...mas eu não sei Kaoru, eu não sei...
Percebeu que o mais novo adormeceu e sorriu. Todavia, ao invés de felicidade e alívio, esse sorriso só revelava uma tristeza infinita, incapaz de ser contida numa única alma.
Porque o mundo é cruel e desumano, mas a vida é frágil e tola...
Você me perdoaria?
XxX
Eu já deveria esperar algo assim.
Os alunos caminhavam pelo corredor, enchendo-o de conversa e emoções. Saíam das salas, indo para outras mais, seguindo a rotina já tão conhecida.
Porém, um deles continuava parado, invisível ante a multidão.
Se eu tivesse desistido antes, será que doeria menos?
-Você me decepcionou.
Decepcionei a mim mesmo.
-Esta não é mais a sua casa.
Eu nunca tive uma.
Uma lágrima escorreu, riscando a face ainda vermelha pelo tapa, pingando no chão meticulosamente limpo.
A única coisa que deixaria para trás.
Será?
Sua existência não fizera a mínima diferença?
Queria acreditar que não, do contrário sofreria mais.
E isso nenhuma máscara no mundo poderia esconder ou suportar.
Suspirou, pegando as duas malas. Desfez-se da multidão, rumando para os jardins, passando pelas últimas flores primaveris, chegando a estrada velha e poeirenta. De lá para o vilarejo, as cidades, os países, o mundo!
Não tinha para onde ir, era verdade.
E talvez fosse por isso que as possibilidades eram infinitas.
-Adeus. – sussurrou docemente, fitando a silhueta que assombrava uma das janelas.
Depois, apenas seguiu em frente.
XxX
Bateu as mãos na mesa, fazendo-a tremer e ranger. Fechou os olhos, respirando fundo uma, duas, três vezes. Precisava se acalmar.
Os gêmeos fugiram, mais ainda tinha um deles. Era nisso que precisava se concentrar.
Ainda tinha as peças certas.
Bastava planejar, armar a jogada como o mestre que era.
Pegou o telefone e discou o número, rangendo os dentes enquanto esperava.
-Alô?
-Venha até mim.
Os garotos haviam feito um movimento, agora era a vez dele.
E seria xeque-mate.
XxX
O sol e a lua se alternavam nos céus, seguindo o ciclo natural e eterno. Os ambarinos os observavam, incertos, sem saber o que fazer.
Haviam conseguido um quarto mofado numa pousada qualquer, numa cidadezinha a alguns quilômetros da igreja. O plano era dar um tempo para Kaoru descansar, enquanto esperavam a poeira baixar.
No entanto, será que era assim tão fácil?
A madre que os criara sempre os ensinara a dar valor ao dinheiro, e assim haviam feito. Por isso, mesmo sendo órfãos, agora tinham uma conta, com uma quantia razoável. No entanto, não se iludia achando que seria suficiente para uma fuga prolongada. Não era.
Mas, para onde poderiam ir?
Ninguém estenderia a mão, se não para separá-los e encarcerá-los. Ou pior.
Hikaru suspirou, fechando a fresta que abrira na pesada cortina, isolando-se do mundo, num hábito recém adquirido. O som da porta abrindo avisou que Kaoru saíra do banho. Preocupado, o mais velho se virou para encará-lo.
Se arrependimento matasse...
O caçula tinha uma toalha branco-encardida na cintura...e só! Praticamente tudo estava à mostra! As pernas bem torneadas, com coxas roliças; os
braços longos e ligeiramente definidos, o tórax esbelto, a cintura fina, tudo isso iluminado por pequenas gotas d'água que escorriam lentamente, acariciando a pele de pêssego. Os fios ruivos ainda úmidos, a expressão de frescor e prazer, os lábios brilhando...pedindo...
-O banheiro está...
A porta batendo o fez pular de susto. Antes mesmo que pudesse completar a frase, Hikaru havia deixado o quarto. Não demorou muito e logo o som do chuveiro se fez ouvir.
Kaoru baixou o olhar, encobrindo os ambarinos com a franja, ainda que ninguém estivesse ao seu lado para vê-los. Magoado, caminhou até o espelho de corpo inteiro no canto do quarto. Era o objeto mais 'luxuoso' dali, mesmo que para o mais novo devesse ser quebrado e esquecido.
Como ele.
Ergueu a mão, tocando o próprio reflexo. Os hematomas sumiam mais a cada dia, porém não parecia rápido o suficiente.
-Você tem nojo de mim...Hikaru?
O som da água caindo continuava a ecoar...
XxX
Não acredito que fiz isso.
Gotas frias fustigavam seu corpo, tentando inutilmente acalmá-lo.
Deus! Eu praticamente o comi com os olhos!
Os joelhos cederam, deixando-o cair de quatro no apertado box. Sentiu os tremores começarem a tomar conta, como ondas de um mar escuro, beliscando e repuxando a pele.
Seria só a água?
Seja um irmão, pelo menos até ele se recuperar. Seja só um irmão!
Contudo, não importava o quanto repetisse pra si mesmo, tal desejo sempre o possuiria, reduzindo seu controle a cinzas, as quais tentava tolamente se agarrar.
Por quanto tempo mais poderia resistir?
Não posso fazer isso com ele. Não posso repetir o que eles fizeram.
Kaoru estava ferido, inseguro e frágil. Tinha pesadelos e cicatrizes. Algumas, temia, jamais iriam desaparecer.
Ainda ficava perdido com outras pessoas, ainda apertava forte sua mão quando um homem se aproximava.
Ainda não piscava ao encará-lo.
Pela primeira vez na vida, Kaoru realmente se portava como o caçula, alguém que precisava de apoio e proteção, que não conseguiria viver por si próprio.
Infelizmente, Hikaru não estava acostumado a ser o mais velho, muito menos a se responsabilizar por ambos. Sabia que jamais conseguiria prever tantas possibilidades e conseqüências quanto o irmão.
Não, o primogênito sempre fora o que procurava encrenca. O que bolava armadilhas para os padres mais chatos, o que roubava doces da cozinha e soltava gatos pretos no confessionário.
Porém, só fazia isso porque tinha Kaoru as suas costas, planejando e estudando, explorando cada brecha em busca do plano perfeito.
-Eles nunca mais vão nos pegar.
As palavras ecoaram numa nostalgia triste. O mais novo havia jurado, na única vez que foram pegos. Jurara e cumprira.
Só que isso não ajudava Hikaru em nada.
Eu tomei as decisões certas?
A dúvida o envenenava a cada dia, minando sua tão precária confiança. Joseph deveria estar procurando por eles, era só questão de tempo até que todas as esperanças caíssem por terra.
E não poderia fazer nada para impedir.
Lágrimas começaram a escapar, dissolvendo-se na água. Vinha tentando se fazer de forte, ser o porto seguro que seu irmão tanto precisava mas, como poderia? Era sempre Kaoru que consolava!
Será que um dia conseguirei ficar ao seu lado como sempre ficaste do meu?
Fechou os olhos, respirando fundo, voltando a trancar tudo aquilo dentro de si, levantando apenas quando teve certeza de que não desmoronaria novamente.
Girou a torneira, fechando o chuveiro. Saiu do box e se enrolou na toalha, do mesmo modo que seu gêmeo fizera minutos antes.
Por fim, abriu a porta com dedos dormentes e arroxeados.
-Não precisa ficar perto de mim se não quiser.
XxX
Ok, alguém aí acha que o Hikaru fez mais alguma coisa naquele banheiro?
Hikaru: Ò/Ó
Kaoru: como assim? (carinha inocente)
Yue: ...
Hikaru: ...
Kaoru: ...
Corvo: Arrow, Arrow...
Kaoru: Hikaru seu pervo! Ò/Ó
Yue: custou, hein ¬¬'
Reviews! \o/
Shuu-chan KC
Se tudo isso é amor, tenho pena dos coitados q tem o seu ódio o.o
E sim, o Kaoru só se ferra
Mas o Hikaru tá começando a sofrer
Me aguarde! Huahuahuahuahuahuahuah XD
Karol Uchiha
Sim, ñ foram só os gêmeos q tiveram um passado triste! O Licht também teve a sua cota d cicatrizes
E Hikaru impulsivo é o q há!
Mesmo pq, se deixar c/ o Kaoru, ele pensa muito e ñ age nunca ¬¬'
Larissa
BEM VINDA!! (yue, kaoru e hikaru jogando confetes)
Obrigada pelos elogios .
Mas ñ esquenta c/ o q escrever ñ, eu também sempre me enrolava c/ reviews
Hikaru e Kaoru: 'enrolava'? ¬¬' ¬¬'
Yue: ok, ainda me enrolo u.u''
No próximo cap...
As cartas são postas na mesa. Uma decisão será tomada.
E alguém irá morrer...
