No capítulo anterior: Mu contraria o último desejo de Shion e retorna ao Santuário determinado a treinar Aiolia para que este

Depois de um tempão sem atualizar absolutamente nenhuma das minhas fics, eu tive um lapso de inspiração e consegui terminar o segundo capítulo desta. As outras eu ainda fico devendo.

Só uma coisa, alterei algumas passagens do primeiro capítulo para incluir no final algumas cenas que dão link para este capítulo. Nada de muito importante... eu acho.

Os meses foram passando, enquanto Aiolia treinava com Mu diariamente. Havia dias em que odiava o mestre que recebera apara treiná-o. Mu era muito forte e por mais que tentasse jamais o atingia; sequer despenteava os cabelos dele, mas Mu, por mais rigoroso que fosse era um mestre amável, sempre disposto a conversar, esclarecer-lhe dúvidas. Por vezes desconfiava que Mu pudesse ser mais velho do que aparentava, em razão de seu enorme conhecimento sobre a operação do cosmo, do uso dos sentidos e sua elevação até o sétimo, além de conhecimentos sobre história, geografia, mitologia, línguas...jamais poderia ser tão perfeito quanto Mu.

Agora chovia torrencialmente há três dias inteiros, muito provavelmente por causa do calor do verão. Aiolia estava sentado frente à um dos pilares do templo observando as espessas gotas d'água caírem sobre as pedras brancas das escadarias da casa de Áries. Há quanto tempo vivia com Mu naquele templo? Um ano, seis meses, e dez dias. Quanto tédio era necessário para que fizesse essa conta?

Sentia falta de ter alguém com quem conversar naqueles dias chuvosos. Mu estava em um estágio profundo de meditação desde o dia anterior e nem os estouros dos trovões que ecoavam pelo mármore e as pedras do templo pareciam abalar sua concentração. Gostava de conversar com seu Mestre que apesar de ser mais velho alguns anos, mais experiente e infinitamente mais forte do que ele o tratava com respeito e sempre estava disposto a ter longas conversas sobre qualquer coisa.

Mas confessava que não gostava quando Mu o questionava sobre Aiolos, não gostava de falar sobre o traidor. Ainda que estivesse treinando para ser um cavaleiro de ouro os outros aspirantes ainda o tratavam como se o traidor fosse ele também. Em especial Shaka, o indiano futuro cavaleiro de virgem. Não que ele o ofendesse abertamente como Shura e Máscara da Morte, mas pelo fato de ele ignorar sua existência completamente, como se ele fosse bom demais para conviverem.

Kamus era um mistério. Ele e Mu passavam horas conversando e ainda assim não pareciam sequer próximos. Independente de seu poder voltado para o domínio do gelo Kamus em si era uma pessoa muito fria. Vez ou outra via que ele o observava. Tratava-o com quase o mesmo respeito que Mu, mas não se aproximava.

Talvez Kamus fosse mesmo muito tímido, porque sempre que o aspirante a cavaleiro de escorpião - Miro, aparecia com alguma nova gracinha – e o alvo dela era sempre o francês – aquário costumava ficar roxo de vergonha por alguns segundos e em seguida tinha algumas raras explosões de fúria que faziam capricórnio e câncer rirem por horas.

Mas Máscara da morte também tinha seu aprendiz levado... Afrodite. Em princípio pensou que ele era uma garota, mas não era... criatura estranha. Tanto este quanto Miro pareciam simpáticos. Mas ultimamente só Miro falava com ele, muito pela influência de Kamus que não se incomodava com sua presença. Afrodite foi 'recrutado' por Shura e Máscara da Morte.

Mais estranho ainda era que Afrodite parecia ter um medo terrível do cavaleiro de Áries e nem o conhecia. Mas Aiolia sabia bem a razão... O Grande Mestre dos cavaleiros era um homem imponente e por vezes assustador, e Mu foi treinado diretamente por ele, então deviam ser parecidos. Outra coisa era o fato de Mu ser o ferreiro das armaduras sagradas e toda a coisa de precisar do sangue dos cavaleiros... isso era certamente o que mais mexia com a imaginação das pessoas que não sabiam exatamente como era efetuado o conserto das armaduras.

Voltou os olhos na direção do ariano. Nada. Nem uma alteração que indicasse que seu transe estava próximo do fim. Não havia se movido nem um centímetro. Era chato suportar os longos dias em que Mu permanecia meditando, mas de certa forma era reconfortante observá-lo enquanto ele fazia isso, sentar-se perto dele nesses momentos. Era possível sentir a aura de paz que envolvia o ambiente.

Sentou-se à frente da figura imóvel, observando como as cores vivas das roupas, em especial o vermelho, ficavam mais vivos e brilhantes enquanto o cosmo do cavaleiro irradiava. Os cabelos balançavam toda vez que uma forte corrente de ar adentrava o templo, trazendo consigo gotículas de chuva.

Aiolia já vira Shaka meditando e achou engraçado o ruído que ele fazia, mas Mu não fazia som algum, sequer conseguia ouvir sua respiração e isso começou a preocupá-lo.

Estendeu o braço para tocar-lhe o rosto.

"Não faça isso!" – escutou a voz de Kamus preencher o ambiente. – "Você não sabe o que pode acontecer". – Aiolia virou-se e viu que Kamus vinha acompanhado de Shura. Os dois pareciam a sombra um do outro.

"Você é mesmo muito imprudente!" – ralhou Shura. – "Não sabe que não se deve atrapalhar os cavaleiros que tem o costume de meditar, moleque?"

"Acho que seus gritos atrapalham mais, Shura." – comentava Kamus em razão da altura com que o outro falava.

Aiolia se encolhia ao lado do mestre ao ver o olhar assassino que Shura lançou para Kamus.

"Agora você também defende o aprendiz dele? Esse traidorzinho?" – disse apontando o dedo para o jovem. – "Sabia que você tinha se aliado ao Áries! Passam tempo demais juntos. Sabem os Deuses o que vocês tem e mente!"

"Com ciúmes?" – Aiolia nunca tinha visto Kamus desafiar Shura, ainda mais com uma ironia. Ninguém nem sabia que ele tinha senso de humor!

"Cala a boca!" – gritou.

"Não grite! Você não está no seu templo. Devia respeitar os salões de outro cavaleiro, ainda mais na presença dele!" – Disse apontando para Mu, que não havia se mexido.

"Ele nem sabe que estamos aqui! Olha só! Por mais trovões que ecoem e não importa o quanto eu grite ele nem se mexe!" – Shura falava alto, desafiando o aquariano e seus modos corteses.

"Ele está assim há dois dias." – Aiolia disse, mais para si mesmo do que para os outros.

"E vai ficar assim por mais uma semana se ele julgar necessário. Assim como alguns outros cavaleiros Mu conserva os costumes do oriente. Não é comum que você veja um cavaleiro ocidental meditando. Ele está num momento de grande concentração, e a energia dele está concentrada e você não devia atrapalhar. Mas não se preocupe, se ele sentir que há algum perigo ele saberá se defender, mesmo meditando."

"Bobagem!" – disse Shura fazendo com que Kamus revirasse os olhos pela enésima vez naquele dia. A ignorância dele parecia não encontrar limites.

"Por que estão aqui?" – Perguntou Aiolia. Aquele era o templo de seu Mestre e até onde sabia outros cavaleiros não tinham permissão de permanecerem em outros templos a não ser que lhes fosse dada permissão. Mas aquela pergunta enfureceu Shura.

"Ora, seu moleque... quem você pensa que é? Este não é seu templo, e nem nunca será, e de dependesse de mim NENHUM deles JAMAIS seria defendido por você! Pirralho!" – dizia enquanto avançava contra o garoto.

Para sua surpresa chocou-se com força contra uma barreira invisível que o impedia de avançar, recebendo de volta a força que ele havia projetado no movimento. Aquilo era uma resposta. Mu estava alerta.

Kamus sentiu um frio desconfortável percorrer sua espinha ao notar que a energia que brilhava em torno do cavaleiro ficava mais intensa. Aquilo era uma ordem expressa para que saíssem do templo.

"Chega Shura, vamos embora, agora!" - ordenou Kamus.

"Precisamos pedir permissão para passar. Eu não vou pedir para esse pirralho!" – Como que em resposta a barreira diante de Shura brilhou, revelando um corredor que os conduzia para a saída da casa de Áries.

"Acho que ele já nos respondeu. Vamos andando." – disse o aquariano rumando para a saída.

Mu estava novamente naquele estranho plano para o qual suas meditações o levavam, onde não se tinha noção de tempo ou espaço. Seus pensamentos flutuavam. Buscava entrar em contato com o Mestre Ancião sem ter de deixar o santuário. O cavaleiro de libra era o mais velho e mais sábio de todos os cavaleiros e precisava desesperadamente de seus conselhos.

Libra também era o melhor amigo e a pessoa mais próxima de seu falecido mestre, Shion.

Dohko sabia das ordens que Shion lhe dera, e logo, sabia que ele as estava desobedecendo. Libra o encontrou primeiro.

"Sabe que desobedeceu ao último desejo de seu mestre Shion, não é, Mu." – dizia Dohko, o mestre ancião e cavaleiro de libra, sempre com os olhos voltados para algum ponto longínquo do horizonte, onde jamais deixou de observar, além das cachoeiras de Rozan.

"Sim, eu sei." – respondeu um tanto quanto envergonhado por sua atitude. "Não sei ao certo o que fiz, mas me pareceu a coisa mais sensata e correta. Perdão."

"Não deve pedir perdão a mim, e sim ao seu mestre. Mas sei que ele não te culpa pelo que fez, e nem consideraria uma afronta às ordens dele a sua atitude, Mu. Você está certo. Aiolia é tão honrado quanto o irmão, e será um grande guerreiro de Athena. Mas me diga Mu, o que o fez decidir seguir este caminho."

"Há tempos penso nas palavras de Shion, Mestre, e sempre quando ele me dizia para saber a hora certa de voltar. Naquele dia em que eu decidi que retornaria ao Santuário, me lembrei dele e da promessa que tinha feito a Aiolos..." – Mu parou por instantes, pensando em tudo o que havia contribuído para essa decisão.

"Não deve se tortura por isso, Mu. Shion lhe deu arbítrio para decidir o melhor momento, e talvez este não seja somente quando Athena estiver de fato no santuário. Muitas lutas ocorrerão para que a Deusa retome o lugar que lhe pertence." – Dohko era sábio. Era como se pudesse ver o futuro, assim como Shion.

"Eu achei melhor que Aiolia fosse treinado para ser um servo de Athena, para auxiliá-la no retorno aos templos, mas não penso estar sendo bem sucedido nisso, Mestre. A todo momento tenho que fingir que o farsante que ocupa o posto de Grande Mestre é a mais santa e pura das criaturas e temo que isto esteja se fixando na mente de Aiolia, e penso se ele terá coragem de questionar a honestidade do Líder quando chegar a hora, ou se acomodará como aconteceu quanto as afirmações de que o irmão dele traiu Athena." – Libra podia notar a preocupação na voz de áries.

"Eu também me preocupo com isso Mu, mas não há outra opção a não ser confiar no discernimento do jovem Leão. Acalme-se. Não há muito que você possa fazer para limpar a imagem de Aiolos na visão de Aiolia. Sei que algum dia ele verá a verdade por si mesmo, apenas trate de prepará-lo para que, quando chegar o momento da revelação ele possa reconhecê-la. Ho, ho." – Libra sabia como acalmar seu ânimo inquieto. Isso não diminuía suas preocupações, mas saber que um dia a verdade faria com que Aiolia se tornasse um completo servo de Athena o fazia sentir melhor.

"Não se torture, Mu. Apesar de ser sábio, ponderado e cauteloso você ainda é jovem demais. Ainda tem muito o que aprender. Shion se orgulhava de você." – Disse Dhoko, vendo o outro que parecia diminuir consumido na tristeza de ouvir falar de seu mestre.

"Então por que ele partiu sem me dizer nada?" – perguntava Mu, em meio às lágrimas. Shion se fora sem nem ao menos se despedir dele.

"O que teria feito se soubesse o que ia acontecer?"

"Não sei..." – respondeu sincero.

"Este era o medo de Shion, Mu. Nas visões que ele teve, tudo tinha rumo certo depois que acontecesse, então era assim que devia ser. Se você soubesse talvez lutasse contra o farsante, ou as coisas tomasse um rumo mais nebuloso que ele não conseguia desvendar. Shion, como Grande Mestre, tomou uma decisão prudente ao não trocar o certo pelo duvidoso. A segurança de Athena era a prioridade maior. Ho, oh."

Parecia que libra havia he dito tudo o que precisava ouvir. Mu voltou os olhos para figura do cavaleiro de libra, agradecendo por suas palavras.

"Mu, me diga mais uma coisa... quanto tempo pretende ficar no santuário?"

"Não sei se posso sair de lá agora. Sinto que Shura, o cavaleiro de capricórnio, vigia o garoto o tempo todo e que meu tempo se esgota. Talvez mais dois anos. O tempo de completar o treinamento dele. Penso que antes disso o Grande Mestre não requisitará a armadura de áries."

"Também penso assim. Ele não tirará as armaduras dos templos enquanto não houver cavaleiros de ouro suficientes para não despertar curiosidades. Mas, Mu... se ele o fizer, não importa o que aconteça, não entregue a armadura de áries. Três armaduras correspondem a um quarto dos cavaleiros de ouro. Ele jamais levará seus propósitos adiante sem elas."

"Sim, Libra. Mais uma vez, obrigado."

Finalmente o sol voltava a brilhar na Grécia depois de dias de chuva incessante. Shura, Máscara da Morte, Afrodite, Milo e Kamus estavam num átrio reservado aos treinos entre cavaleiros de ouro, local onde eles praticavam suas técnicas de combate com armas ou lutas físicas, apenas para manterem a forma.

Kamus tentava ensinar alguma coisa para o atrapalhado escorpião, mas este parecia não estar interessado. Era um bom aluno, dedicado, mas tinha seus momentos de pré-adolescente rebelde. Era por esta razão que Kamus passava tanto tempo conversando com Mu. Ele não tinha a menor idéia de como lidar com as peraltices de seu aprendiz. Odiava ficar naquele lugar sob o sol de rachar de Atenas. Preferia a refrigeração de seu templo, lugar que Milo odiava já que, por ser grego, gostava de lugares quentes. Odiava suar daquela maneira.

Shura e Máscara da Morte conversavam enquanto treinavam alguns golpes.

"Quero falar com você, Capricórnio!"

Kamus sentiu suar frio, o que de certa forma era reconfortante, ao ouvir a voz ríspida e autoritária de Mu exigindo uma conversa em particular com outro cavaleiro. Jamais imaginou que Mu, sempre tão calmo, educado e paciente pudesse ficar tão alterado.

A atenção de todos estava voltada para o cavaleiro. Era público que Áries não freqüentava aquele local a não ser em ocasiões extremas e que aquele não era seu comportamento 'normal'.

"Bom dia, Mu." – ironizou Shura.

"Só se for para você. Dispenso suas ironias." – disse Mu com os olhos fixos no cavaleiro de capricórnio.

"Ora, mas não são sempre você e Kamus que prezam pelos bons modos?" – respondeu em tom provocador. O que Shura não sabia era que Mu havia acordado com a veia ariana mais latente naquela manhã, e nessas ocasiões ele assumia todas as características de seu signo.

"Bons modos, Shura... Sim, Kamus e eu temos esse costume, diferente de outros cavaleiros. Agora quero saber que moral você tem para exigir que eu tenha bons modos quando você invade meu templo e o profana aos gritos; ofende meu aluno, o aponta como traidor e investe contra ele; e ainda me acusa de conspirar junto com o cavaleiro de aquário alguma coisa que só existe nessa sua cabeça doente, e tudo isso na MINHA PRESENÇA!" – Mu terminou a frase aos gritos. Ninguém nunca havia visto o ariano, sempre tão calmo e sereno despejando sua ira sobre outra pessoa, ainda mais um cavaleiro de ouro.

Até mesmo Máscara da Morte estava perplexo. Profanar o templo de outro cavaleiro era uma ofensa grave. Ofender o aprendiz de outro cavaleiro era uma ofensa média; mas acusar dois cavaleiros de conspiração... não havia perdão para isso!

"Mu, calma..." – o cavaleiro de câncer começava quando foi rispidamente interrompido.

"Não é com você, Câncer! Fique fora disso. Não há perdão para o que ele fez, e eu EXIJO um desagravo público na frente dos demais cavaleiros e do Grande Mestre. Você não tinha esse direito."

Agora sim o mundo ia acabar. Shura, o orgulhoso cavaleiro de capricórnio iria ter de pedir desculpas públicas na frente dos demais cavaleiros de ouro, de prata e de bronze por profanar o templo de Áries! E mais, na frente do Grande Mestre! Ele ia preferir morrer!

Kamus observava atenciosamente as reações de Shura. Nem mesmo o cavaleiro de Câncer se atrevia a defender suas atitudes.

"Você se aproveita porque o Grande Mestre foi o seu Mestre no treinamento. Fosse outro você não ia levar isso adiante..."

Mu olhou para o outro cavaleiro, perplexo. De onde ele tirava tanta bobeira? Mas ia ter troco.

"E você? Que se diz o cavaleiro mais fiel a Athena? Aquele que puniu o traidor... que é o servo mais honrado... e agora cria discórdia entre a guarda de elite da Deusa? Devia ter vergonha, Shura. Mal sabe o que faz."

"E você, que nem sabe por onde seu aprendiz anda? Ou vai dizer que você deixa que ele vá até as arenas quando não tem nada melhor para fazer? Vergonha é você Mu, que nem sequer consegue ter autoridade sobre seu aluno!"

"Achei que no dia em que o mestre me designou a função de ser o mestre do garoto ele deixou de ser problema seu. O que foi, está preocupado se ele está sendo treinado o suficiente? Acho que este é um desejo inconsciente seu de proteger o Aiolia para compensar a culpa que sente por ter matado o irmão dele!" – ironizou Mu, contendo o sorriso ao ver o rosto do outro ficar vermelho de raiva e as veias saltarem-lhe pela testa.

"Aiolos era um traidor de Athena!" – Gritou Shura, descontrolado.

"Diz algo que ninguém aqui saiba, Shura! E se bem me lembro quando o Grande Mestre me ordenou que treinasse o jovem ele expressamente reconheceu que o traidor era somente o ex-cavaleiro de sagitário, e que isso não devia se estender sobre o irmão mais novo. Agora me diga, Shura, o que o Grande Mestre, tão sábio e misericordioso dirá, se souber que você está indo contra as ordens dele?" – provocou Mu, mesmo sabendo que o farsante nada faria. Ele tinha que blefar e bem. Mas também sabia que o homem que ocupava o posto de grande mestre estava de mãos atadas quanto a isso. A sentença foi proferida na frente de quatro cavaleiros de ouro – Áries, aquário, câncer e capricórnio. Por hora não havia razão para se preocupar.

Shura estava irado. A petulância do cavaleiro de áries era muito maior do que ele imaginava. Quando buscou partir para a agressão contra Mu foi segurado por Câncer.

"Assim você só vai piorar as coisas. Ele está com razão, Shura. Se você o agredir pode até ser expulso da ordem dos cavaleiros de ouro. Você sabe que o Mestre e Athena não admitem lutas entre nós".

"Eu o vejo no salão do mestre, Shura. Até lá, espero que você não falte mais com respeito no templo de Áries." – Dizendo isso Mu deixou o átrio. Agora iria se entender com Aiolia.

Aiolia havia acordado e não conseguiu localizar Mu no templo. Pelo menos havia acabado o período de meditação. Olhou para o lado de fora. Nem uma nuvem no céu. O sol brilhava forte e ele decidiu que era dia de tirar o mofo acumulado pela umidade dos dias anteriores. Saiu do templo de Áries e desceu as escadas do santuário até próximo das arenas onde os demais aprendizes treinavam.

Estava observando de longe os treinos quando viu o futuro cavaleiro de virgem passar ao longe, ignorando todas as pessoas ao seu redor. Garoto estranho mantinha sempre seus olhos fechados. Diziam que era porque assim ele concentrava mais energia, mas que quando abria os olhos destruía tudo a sua volta pela liberação repentina do poder.

Correu na sua direção, mas também foi ignorado pelo jovenzinho. Shaka não parecia se importar com ninguém.

"Oi." – disse Aiolia, passando as mãos na frente dos olhos do outro para ver alguma reação, mas sem resultado. Isso pareceu irritar o outro garoto.

"Não sou cego!" – respondeu enquanto continuava caminhando para um local isolado do santuário, onde passava as tardes meditando.

"Então porque sempre anda com os olhos fechados?" – Perguntava Aiolia curioso, acompanhando o outro em sua caminhada.

"Porque é assim que eu me concentro".

Aiolia fazia um 'Uhm, Hum', como se entendesse realmente a resposta, mas continuava acompanhando o outro.

"Você vai meditar?" – perguntou tentando fazer parecer que isso não o importava.

"Como faço todos os dias." – Shaka era seco em suas respostas.

"Meu Mestre também faz isso, só que não todo dia."

Shaka nada respondeu, apenas seguiu seu caminho, pouco parecendo se importar se tinha companhia.

"Por que você não fala comigo ou com os outros aspirantes?"

Agora sim Shaka parecia se irritar de verdade. Bufou impaciente virando-se na direção do outro garoto.

"Por que não. Todos eles me perguntam isso, e a resposta é sempre esta. Eu não quero. Eu quero sentar sozinho e meditar para poder alcançar a iluminação..." – foi interrompido por uma piada infeliz de Aiolia:

"Para alcançar a iluminação basta pegar uma escada para rosquear a lâmpada!" – riu sozinho, mas parou ao perceber o que outro estava horrorizado com sua ignorância.

"... para que eu possa alcançar a iluminação, assim como Sidartha Gautama – O Buda."

"E por que você quer alcançar a iluminação?" – perguntou curioso. Mu nunca havia lhe dito as razões que o levavam a meditação.

"Você jamais compreenderia. É um ignorante."

"E você é um mau educado!" – respondeu Aiolia.

"E você é irmão de um traidor!"

Agora Aiolia estava realmente se sentindo ofendido e quando ia avançar sobre Shaka escutou a voz de seu mestre:

"Não se atreva!" – Dizia Mu um tanto quanto austero, caminhando na direção dos dois meninos.

"Senhor Mu." – cumprimentou Shaka, reverenciando o cavaleiro de Áries.

Aiolia também reverenciou o mestre enquanto apontava o dedo acusadoramente para Shaka: "Foi ele quem começou me chamando de ignorante."

"Ah é... e porque ele te chamou de ignorante?" – respondeu Mu, cruzando os braços na frente do peito esperando por uma resposta. Aiolia nada dizia, apenas fitava o chão, passando a ponta do pé de um lado para o outro, com as mãos atrás das costas.

"Estou esperando minha resposta, Aiolia." – olhava para o discípulo, mas sua atenção foi capturada por outro movimento. – "Shaka, volte aqui. Ainda não terminei com você também." – disse sem se voltar na direção do outro menino.

"Eu vou meditar..." – disse dando as costas para Mu.

"Não vai não. VOLTA AQUI JÁ!" – gritou com o garoto que voltou correndo, receoso pelo tom de voz usado pelo cavaleiro, que ainda estava esperando uma resposta a pergunta feita. – "Já que ele não vai me responder me diga você o que aconteceu aqui?" – e voltou-se para Shaka, que corava, com a cabeça baixa, mas atreveu-se a responder.

"Eu ia meditar nas ruínas, como faço todas as tardes, mas ele começou a me seguir e me fazer perguntas."

"Que tipo de perguntas?" – Mu sabia muito bem do que se tratava. Aiolia tinha uma curiosidade infinita sobre a meditação, mas das poucas vezes que tentou não conseguiu sentar por mais de cinco minutos.

"Me perguntou porque eu meditava todos os dias. Então eu disse que era para alcançar a iluminação, e ele caçoou de mim!" – Disse entre choramingos, apontando o dedo para o garoto ao lado.

"O que disse para ele Aiolia?"

"Nada... eu só disse que se ele queria alcançar a iluminação era só pegar a escada para trocar a lâmpada." – respondeu simplesmente. Fosse em outra ocasião e com outra pessoa Mu até teria achado graça naquilo, mas a verdade era que Shaka era uma criança muito séria e isolada, e que prezava muito seus hábitos.

"E eu chamei ele de ignorante!" – completou Shaka.

"Tá vendo Mestre! Ele começou!" – acusou Aiolia. Shaka se mantinha em silêncio.

"Não estou vendo nada, não senhor. Você começou tudo isso! Não devia desrespeitar os costumes dos outros desse jeito. Ainda mais com alguém com quem você não tem qualquer intimidade! Foi muita falta de educação o que você fez."

Shaka esboçava um sorriso, mas logo foi repreendido duramente.

"E você, Shaka. Não devia se desfazer das pessoas da forma como faz. Você não é melhor do que nenhum deles, e também erra. E se continuar com este comportamento nem que medite pelos próximos duzentos anos vai atingir a iluminação."

"Eu medito para dissipar as dúvidas da minha mente!" – respondeu orgulhoso.

"As dúvidas você dissipa quando passa a ter uma compreensão maior das coisas e da vida como um todo. E não quando se isola do mundo para não ter de pensar nelas, como você faz."

"Não faço isso." – respondeu o pequeno aspirante de cabelos loiros.

"Então me responda porque não convive com os demais aspirantes." – perguntou Mu, seco porém, calmo.

"Por que eles são ignorantes!" – respondia o pequeno. A verdade era que sempre estranhavam a razão dele ser loiro tendo nascido na índia, onde as pessoas têm como característica a pele morena e os cabelos negros muito lisos. A razão era uma só: seus pais eram ingleses, e ele nasceu na índia portanto, era um indiano por nascimento, não por descendência, mas até conseguir explicar os outros já não lhe davam mais atenção.

"Está vendo Shaka... você medita para não ter que pensar neles. Mas somente vai atingir a iluminação quando conseguir aceitar as diferenças e a conviver com as pessoas sem julgá-las."

"Não julgo ninguém!" – mentiu, com certa vergonha. Estava sendo rude com um cavaleiro de ouro. Até então ele era seu superior e um dos mestres.

"Quando eu cheguei aqui você tinha acabado de dizer que Aiolia era irmão do traidor. Você acha isso certo? Você acha que isso não é uma forma de julgamento, e das mais levianas?"

Shaka abaixou a cabeça.

"Shaka, te fiz uma pergunta!"

Shaka não sabia o que responder. Ouvindo o cavaleiro teve consciência de que se excedeu no seu direito de retrucar as ofensas. Por fim disse: "Desculpe, senhor."

"Sabe Shaka, quando eu faço perguntas normalmente espero respostas. Você não me respondeu se acha certo acusar pelos atos do irmão dele." – Questionou Mu, já de forma doce, esperando a resposta do menor. Aiolia permanecia calado ao seu lado, olhando o chão. Mu estava uma fera com ele e ainda tinha a impressão de que aquela conversa iria muito longe.

"Não, não está certo." – respondeu Shaka. Mu ainda não estava satisfeito, e fez com que os dois se desculpassem um com o outro, o que Shaka fez, de certa forma a contra gosto. Era pequeno mas seu orgulho já dava mostras do quão grande seria.

"Já é um bom começo. Vamos embora." – disse para Aiolia que o acompanhou calado de volta até o templo.

Mu caminhava em silencia, sequer olhando para o lado para ver o garoto ainda o acompanhava. Estava satisfeito como progresso do aluno. Aiolia era um excelente discípulo, mas deveras levado às vezes e agora estava ficando rebelde e quando o assunto era o finado Aiolos ficava intratável e não lhe dava mais ouvidos.

Mu apressava o treinamento dizendo que ele devia estar pronto juntamente com os outros aspirantes, e que como havia ficado tempos sem quem o treinasse estava atrasado, mas a verdade era outra. Mu não poderia ficar muito tempo no santuário. Algo lhe dizia que seu tempo estava se esgotando e que logo o mestre tentaria se livrar dele.

As palavras de Shura, acusando-o de conspirar juntamente com o cavaleiro de aquário não calavam em sua memória.

A única vantagem que tinha naquele momento era que ele era o responsável pelo reparo das armaduras, mas sabia que logo o mestre reclamaria do fato de a armadura de Áries não ter retornado para o salão dourado do santuário. Ele não poderia entregar a armadura. Sem a armadura de sagitário, que havia sido levada por Aiolos, a de libra que estava na china e a de áries que permanecia em seu poder o mestre jamais conseguiria o domínio total sobre a confraria de cavaleiros de ouro, faltaria um quarto dos cavaleiros e sem a armadura no santuário ele não poderia nomear novos defensores.

Não podia mais contar com a sorte. Aiolia tinha que estar pronto junto com os demais aspirantes a cavaleiros.

CONTINUA

Gente, muito obrigada pelas reviews que me mandaram.

Semana que vem o último capítulo.