Bom, como eu havia prometido aqui está a última parte da fic. Essa história martelava meu cérebro há mais de um ano, então resolvi publicar.
Muitos já devem ter percebido que as atitudes de Mu aqui não se parecem em nada com o mostrado no mangá e no anime, mas eu quis mostrar um áries diferente, que ainda estava amadurecendo suas habilidades como mestre e os erros que ele pode ter cometido com Aiolia.
Para quem leu, gostando ou não, e ainda que não tenha deixado um comentário, muito obrigada.
Nota: partes em itálico lembrança do personagem.
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Mais dois anos e meio haviam se passado. Aiolia estava terminando de completar seu treinamento e já se considerava pronto para disputar a armadura de leão. Como era feita esta disputa ainda era um mistério que Mu não lhe revelava.
Quase todos os dias ele se dirigia até as arenas no meio da tarde para observar o treinamento de outros aspirantes a cavaleiros, mesmo sabendo da proibição expressa de Mu.
O cavaleiro de áries havia sido um bom mestre, ensinado-o a manipular o cosmo com habilidade e evitando excessos inúteis, ensinou-o a filosofia por trás da manipulação da energia, além de coisas que toda criança 'normal' deveria aprender como: história, ciências, geografia, matemática...
É bem verdade que Mu o havia ensinado algumas técnicas de combate e lutas, mas nunca o deixou lutar contra outro aprendiz. Miro, aspirante a cavaleiro de escorpião, dizia que Kamus também não permitia que ele fizesse isso, mas nenhum dos dois sabia exatamente a razão. Aiolia se lembrava de que toda vez que tentava por em prática alguma coisa era severamente repreendido por Mu.
Apesar de ser seu Mestre, Mu ainda era um grande mistério para ele. Não sabia nada sobre sua vida antes de ser cavaleiro além do fato que ele foi treinado pelo próprio homem que hoje era o Grande Mestre dos cavaleiros de Athena. Percebia que este era um assunto que Mu evitava, como se não gostasse de falar sobre seu mestre. Talvez fosse porque ele era rigoroso em excesso e isso explicaria a razão de Mu ser tão disciplinado.
Mu também nunca havia lhe mostrado suas técnicas mais efetivas, lembrava-se apenas da barreira invisível que ele podia criar, mas suas técnicas de ataque eram um mistério.
Treinava dia após dia as técnicas de ataque e defesa que Mu havia lhe ensinado e estava ficando muito bom em controlar as explosões de sua energia. Mas ainda faltava uma coisa: o sétimo sentido. Por muitas vezes chegou a atingir aquele que era dito como o sentido supremo que todo cavaleiro de ouro deve ter, equiparando por alguns instantes seu poder ao de Mu, mas em seguida era miseravelmente derrotado por seu mestre.
Estava cheio disso. Não podia ser como Mu. Ele não era igual a ninguém. Sua natureza era intempestiva e agitada, o que contrastava com a calma e serenidade de seu mestre. Teria sido melhor se seu mestre fosse uma pessoa mais... explosiva? Talvez não.
Aiolia sabia reconhecer que seu mestre usava de muita paciência com ele. Era bem verdade que vez ou outra Mu lhe atirava um olhar atravessado, e essa ferocidade repentina o intimidava. Sabia que havia cruzado o limite e que seria punido por isso. Mu nunca deixou nenhum ato de desobediência passar impunemente.
Estava perdido em pensamentos sentado nas escadarias das arenas e quando percebeu algo encobria o sol. Somente quando notou que todos os aprendizes da arena faziam uma reverência em sua direção foi que decidiu olhar o que bloqueava os raios na sua direção. Ficou espantado quando percebeu a presença de seu mestre. Antes que pudesse levantar ou explicar o que fazia lá, Mu disse:
"O que te disse sobre as arenas?" – perguntou com descaso.
"Que aqui não é o meu lugar." – respondeu Aiolia, baixando a cabeça. O som dos treinos era substituído pelo mais completo silêncio. Estava óbvio para todos ali presentes que o jovem estava levando uma bronca do cavaleiro do primeiro templo. Ninguém ousava se mexer. Os cavaleiros de ouro impunham um respeito enorme nos demais, e sua presença era sempre intimidadora, ainda que não houvesse qualquer razão para receio.
"E o que faz aqui?" – Mau sinal. Quando Mu começava com perguntas curtas era porque estava muito chateado. Não era para menos. Há mais de dois anos ele sempre ordenava que Aiolia parasse de freqüentar as arenas, mas o inquieto aluno o desobedecia. Ainda que fosse punido depois, voltava a repetir a desobediência semanas mais tarde.
"Só observando os treinos, Mestre."
"Com que finalidade?" – dizia Mu, sem voltar os olhos na direção dele, como se buscasse nas arenas o que tanto atraía a atenção do jovem aspirante.
"Como?"
"Responda."
"Observando possíveis oponentes." – respondeu. Isso também era verdade, mas também gostava de observar uma certa aspirante a amazona de cabelos ruivos. Ainda não sabia o nome dela.
"Já pro templo." – ordenou Mu, iniciando o caminho de volta para as doze casas.
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Aiolia entrava enfurecido na casa de áries atrás de seu mestre. Nunca Mu chamara sua atenção na frente de outras pessoas. Tudo era sempre feito em particular, mas desta vez todos que estavam nas arenas viram que ele foi repreendido.
"Por que fez isso?" – perguntou, observando que seu mestre ainda lhe dava as costas e sequer respondia sua perguntas. – "Eu lhe fiz uma pergunta, Mu!" – provocou.
Mu ainda permanecia em silêncio, de costas para ele, dando atenção a uma armadura de ouro. O traje de peixes estava no primeiro templo para reparos, e isso só significava uma coisa, que Afrodite e outro eventual aspirante iriam fazer o teste logo.
"Mu estou falando com você!" – gritou e avançou contra o cavaleiro, que num golpe rápido o dominou como se ele ainda fosse uma criança. Odiava se sentir impotente desse jeito. Mu o largou depois de alguns segundos, fazendo pouco caso de sua atitude.
"Você não fala assim comigo. O Mestre aqui sou eu." – disse ele, voltando a atenção para a armadura que resplandecia em contato com os raios de sol do fim da tarde. Mu a inspecionava minuciosamente a procura de falhas ou imperfeições. Os olhos perspicazes analisando cada milímetro.
"Então me responda, por que chamou minha atenção na frente de todos nas arenas?" – questionou com sua raiva duplicada. Não estava recebendo a menor atenção de seu Mestre. Ele nunca chamara sua atenção em público nem lhe fora indiferente, mas percebeu-se enciumado contra o 'pedaço de lata' ao qual áries dedicava tanta devoção.
"Você não gostou?" – perguntou Mu, no mesmo tom insosso de sempre, sem se voltar.
"Claro que não! O que vão pensar de mim agora?" – esfregava as mãos nos cabelos tentando conter a raiva.
"Desde quando você se importa com o que pensam de você?" – Mu sorriu.
"Desde sempre!" – Sempre se importou com o que os outros pensavam, em como as outras pessoas o viam, o que sentiam por ele e sempre tentava mudar para se adequar aos desejos dos outros. Nunca soube o que Mu esperava dele, além de que se tornasse cavaleiro.
"Isso é mau." – Mu sabia que tudo isso era por causa da 'traição' cometida por Aiolos. Aiolia sempre se preocupou em mostrar para todos que era cem por cento diferente de seu irmão.
"Aonde quer chegar?"
"A lugar nenhum. Só quero saber por que você acha que tem o direito de desobedecer minhas ordens e continuar indo até as arenas, quando eu te proibi expressamente; mas não acha que eu tenho o direito de te punir por isso?" – Mu mudava de assunto. Aiolia tinha que descobrir o que queria de si mesmo, então iria fazê-lo pensar.
"Agora todos acham que eu ainda sou um pirralho que obedece suas ordens."
"E não é? Quando foi que você deixou de ser? Deixa eu te explicar uma coisa, moleque, qualquer um naquela arena daria um braço para estar no seu lugar!" – Mu não gostava de usar este tipo de tática, mas o fato era que Aiolia tinha que amadurecer depressa. Não lhe restava muito tempo para torná-lo cavaleiro. Em breve teria de deixar o santuário novamente.
"Você não podia ter me repreendido lá!" – Respondeu Aiolia muito agitado. Havia sido envergonhado diante dos demais aspirantes e ainda não conseguia entender a razão disso tudo.
"E você não podia dar o direito de Shura me dizer que eu não tenho autoridade sobre você. Acho que isso nos empata." – Mu respondia as questões sempre com o mesmo inexpressivo e monótono tom de voz. Era difícil definir se ele estava com raiva, se era indiferente... por que ele simplesmente não ralhava de uma vez?
Aiolia não sabia bem o que dizer. Que estava errado era público e notório, que Mu estava danado da vida com ele, também.
"Mu, em breve eu vou ser um cavaleiro de ouro. Isso acaba com a minha moral!"
"Aiolia, eu JÁ SOU um cavaleiro de ouro e é você quem acaba com a minha moral. E quanto a você, já não é mais uma criança para ser tão inconseqüente. Não tenho certeza de que será um cavaleiro de ouro um dia."
"Isso é culpa sua... porque não me deixa treinar com outros aspirantes?"
"Que aspirantes?"
"Os outros que vão disputar a armadura de ouro de leão comigo! Quem mais?"
"Quem falou em disputa?"
"Ora, como é que se ganha o direito de ser um cavaleiro? Em uma disputa!"
"Isso para as classes inferiores! Prata e bronze. Esses têm que reconhecer quem é o mais hábil e forte. Não há disputas entre cavaleiros de ouro. Se tivesse prestado atenção nas coisas que te ensinei anos atrás saberia."
"Você NUNCA me disse isso!" – Aiolia parecia decepcionado. Treinara tanto e jamais poria em prática o que aprendeu?
"Disse sim, mas você não percebeu!" – respondeu Mu, enquanto recolocava a armadura de peixes novamente dentro da urna.
"Claro que não disse."
"Disse sim, e vou provar:" – falou revirando os olhos. Começava a pensar que não tinha sido um mestre tão bom assim e isso o deixava decepcionado consigo mesmo. - "O que eu disse a você sobre o poder dos cavaleiros de ouro que os diferencia dos demais?"
"O poder é maior por causa do domínio do sétimo sentido, que os outros cavaleiros desconhecem." – respondeu a lição de forma decorada. Há anos lutava com essa coisa de sétimo sentido e havia decorado as exatas palavras do mestre, ainda que não fizesse qualquer sentido para ele.
"E em relação aos cavaleiros de outro entre si, há diferença de poder?"
"Não. Você me disse que todos se equivalem em poder. Não tem um mais forte que outro."
"E se lembra do que te disse sobre o que acontece se dois cavaleiros de ouro lutam entre si?" – Estava começando a ficar chato repetir o mesmo discurso toda vez que tinha que demover as idéias de combate da cabeça do aluno.
"Há um combate de mil dias, mas não há vencedor; ou então eles destroem um ao outro." – novamente uma resposta decorada.
"Então, por que razões você acha que haveria uma disputa por uma armadura de ouro, se não há diferença entre as forças? Ou você achou que fariam uma luta covarde entre cavaleiros de ouro contra os de prata ou bronze? Isso mancharia nossa honra."
Aiolia finalmente entendia onde Mu queria chegar. Cavaleiros de ouro não lutavam entre si, não havia mais de um aspirante para cada armadura de ouro. Por isso a seleção era tão rigorosa e os treinos tão árduos. Era por isso que não via outros aspirantes treinando.
"Viu o que eu te disse? Você não presta muita atenção em detalhes. É isso o que diferencia num combate. Detalhes. Lembre-se sempre disso."
"Então... como eu vou merecer uma armadura de ouro?"
"Se você for digno dela, não se preocupe."
"Como assim?"
"Não é você que obtém a armadura. É ela quem decide se aceita ou não você. Novamente: lembra-se que te disse que os trajes sagrados são criaturas vivas, e que tem vontade própria?"
"Sim. Mas como vou saber se ela vai me aceitar?"
"Não saberá até chegar a hora. Mas você reúne tudo o que é necessário para ser um cavaleiro. Não é somente sua força que conta. É o domínio da técnica, sabedoria, honestidade, lealdade, humildade que compõem um cavaleiro. Mas para que possa fazer o teste, tem que dominar o sétimo sentido. Antes disso não posso permitir que o faça."
"Mas eu já alcancei o sétimo sentido por alguns instantes."
"Não é o bastante! Tem que ter o domínio pleno dele. Eu decido quando você fará o teste. Você tem uma semana." – Dizendo isso Mu pegou a urna da aradura de peixes de dirigiu-se para a saída do templo.
"Como?! Uma semana?! Mu, aonde você vai?"
"Hoje, dois novos cavaleiros de ouro serão nomeados pelo Grande Mestre. Eu devo estar presente, e levar a armadura de peixes restaurada."
"Quem são?"
"Shaka para a armadura de Virgem e Afrodite para a armadura de Peixes. Agora só faltam leão e escorpião. Sagitário ainda não tem aspirante. Miro fará o teste na semana que vem, e você junto com ele. Não me decepcione."
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Desde a noite em que Mu havia lhe dito que faria o teste uma semana havia se passado. Aiolia treinava exaustivamente dia e noite, buscando sempre fortalecer sua concentração e elevar o cosmo até o que parecia ser o infinito. Aos poucos foi alcançando o sétimo sentido e agora suas manifestações eram prolongadas. Mu tinha razão quando dizia que o sétimo era a junção em perfeita harmonia dos demais 6 sentidos. Era um estado pleno, que o tornava capaz de qualquer coisa. Como seu mestre havia mencionado, por mais que treinasse não se sentia cansado, provavelmente pelo domínio da técnica que lhe permitia movimentos na velocidade da luz como se os fizesse normalmente sem esforço algum.
Era isso que tornava os doze cavaleiros de ouro os mais fortes defensores de Athena, e dignos de ocupar o posto mais próximo da Deusa.
Mas também foi a semana mais rápida de sua vida. Antes Mu não tivesse lhe dito nada. Até o sono o havia abandonado naqueles dias em razão da concentração e da tensão. Seu mestre pouco dava as caras no templo, e das poucas vezes que o fazia estava meditando e não era possível falar com ele. Aquilo tudo era um teste. Ele teve que relembrar todos os conhecimentos aprendidos para dominar o último sentido completamente. Queria, quase desesperadamente, que Mu se orgulhasse dele, e que todos no santuário o respeitassem. Secretamente também queria que Aiolos se orgulhasse dele. Isso era algo que ele matinha em segredo até de seu mestre.
Ainda não entendia como Aiolos poderia ter, de alguma forma, se prestado a trair o santuário, e abandonar tudo o que conquistou com todo seu esforço. Mu nunca se referia ao seu irmão como traidor e nem evitava pronunciar seu nome como faziam os demais cavaleiros. Quem sempre evitava falar sobre o assunto era ele mesmo, Aiolia. Isso parecia desapontar Mu, de alguma forma, mas este nunca lhe disse nada.
Recostou-se contra um dos pilares do primeiro templo. Amanhã seria o grande dia. O dia em que saberia se tanto treinamento árduo valeu de alguma coisa. Mu conversaria com ele mais tarde, para explicar como seria o 'procedimento'. Estava ansioso. Suas mãos suavam frio e sempre tinha uma sensação estranha no estômago que lhe acompanhava o tempo todo. Percebeu quando Shura adentrou o templo. Toda a tensão que reunia dos últimos dias reuniu-se uma só vez. Levantou-se, para sair, mas Shura foi mais rápido.
"Aonde vai?" – perguntou, ainda parado na entrada do templo.
Aiolia virou-se. Não queria conversa com ele. Shura nunca lhe dirigia a palavra a não ser que fosse para lhe ofender.
"Mestre Mu não está, e eu não queria falar com o Senhor, se fosse possível." – Respondeu. Há muito Mu já havia lhe dito que Shura deveria respeitá-lo como respeitava os demais aspirantes, e quando se tornasse cavaleiro deviam se tratar como iguais.
"Bem, tenho certeza que seu mestre lhe ensinou melhores maneiras do que estas, mas... Bom, eu só queria desejar boa sorte para você amanhã."
Aiolia o olhou surpreso. – "Por que isso?"
"Não é por que goste de você nem nada assim, que fique claro. Mas acontece que nunca um aspirante a cavaleiro de ouro foi renegado no teste. Mu e eu tivemos nossos problemas mas, ainda assim eu o respeito. Ele é um dos mais poderosos cavaleiros da guarda de Athena e ferreiro das armaduras, um posto muito nobre. Se você não for agraciado amanhã, significa que ele falhou como seu mestre, e se ele falhou isso também significa que o Grande Mestre não o tornou tão sábio quanto deveria ser, e isso manchará irremediavelmente a honra dos cavaleiros de ouro."
Shura estava, de forma muito sutil, buscando deixar o jovem mais nervoso do que nunca, para que ele falhasse no teste, por duas razões muito simples: primeiro porque achava uma afronta o irmão de um traidor se tornar um cavaleiro da elite do santuário; segundo, porque Mu iria pagar por tê-lo feito pedir desculpas publicamente à ele e seu aluno desprezível anos atrás; por tê-lo humilhado. Mu ser apontado por incompetente seria a melhor de todas as revanches. Ainda tinha seu orgulho ferido irremediavelmente pelo cavaleiro de áries, e isso jamais mudaria. Agora faria Mu pagar por isso.
"Obrigado." – Aiolia respondia desconfiado com a cara de pouco caso que Shura fazia, antes que lhe concedesse passagem pelo templo.
"Não me agradeça. Passe no teste." – dizendo isso saiu da casa de áries.
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Mu retornava ao primeiro templo no meio da noite, com ares de preocupação. Sabia que seu tempo no santuário havia se esgotado e que com o fim das nomeações de cavaleiros de ouro, muito provavelmente o mestre requisitaria o retorno da armadura de áries ao grande salão do templo de Athena, e isso ele não podia permitir. Na noite seguinte teria de deixar o santuário e recolher-se a Jamiel novamente.
Podia sentir algo estranho acontecendo.
Naquela tarde havia ido ao salão dourado para verificar o estado das armaduras de Escorpião e Leão. Nenhuma das duas necessitava de qualquer reparo. Reluziam como novas. Provavelmente foram os últimos trabalhos de Shion. Foi quando aquela estranha sensação começou a perseguí-lo.
Podia perceber uma mudança sutil no cosmo do homem que ocupava o lugar de grande mestre. Olhou para a enorme porta que mantinha sempre fechado o salão do Patriarca. Algo acontecia ali. Não era uma sensação de todo desagradável, mas deixava o cavaleiro de áries deveras inseguro.
Sempre percebeu que a energia que acompanhava o Grande Mestre era agressiva e de certa forma maldosa. O cosmo que emanava daquele salão, naquele momento era idêntico na essência, mas era calmo e pacífico, como se fosse outra pessoa que estivesse ali. Quase lembrava a energia de Shion.
Aquilo era muito estranho. Parecia que podia mudar de uma hora para outra. Essa calmaria deixava o ariano atento. Há anos ninguém via o rosto do Grande Mestre, nem mesmo Mu, que foi seu discípulo direto. Ele bem sabia a razão disso. Sempre que o importunavam demais ele alegava que estaria em reunião com Athena... Mu sabia que Athena não estava mais no santuário desde a noite em que Aiolos 'os traiu'.
Bando de idiotas cegos... será que não percebiam que Athena ainda era um bebê? Ainda que fosse a encarnação de uma deusa ela estava fadada a algumas limitações dos mortais relativas ao seu crescimento e era exatamente por isso que os cavaleiros de ouro nunca deixavam os templos ainda que em tempos de paz?
Falando em cavaleiros de ouro lembrou-se de Saga, cavaleiro de ouro de gêmeos. Desde pouco antes do incidente com Aiolos ele não era mais visto no santuário; jamais retornou para nenhuma das cerimônias de nomeação de outros cavaleiros; não ocupava o templo para o qual foi designado defensor e sua armadura permanecia no salão dourado. O que teria acontecido a ele? Nenhum dos outros cavaleiros e nem o próprio Grande Mestre o mencionavam.
Tudo o que sabia era que ele havia desaparecido depois de trancar Kanon, seu irmão gêmeo, na prisão do Cabo Sounion, de onde este também desapareceu. Pensar nesses dois causava arrepios no cavaleiro de áries.
Enquanto atravessava o seu templopode perceber o silêncio que dominava o ambiente, mas também uma certa atmosfera angustiante. Vasculhou rapidamente todos os cantos até achar o que procurava: Aiolia
"O que foi?" – perguntou ainda distante, enquanto se aproximava do discípulo que estava recostado contra uma das pilastras. Observou-lhe os olhos o nariz vermelhos e levemente inchados, percebendo que ele buscava abafar os soluções. Sentou-se no chão ao seu lado.
Aiolia relatava a conversa que teve com Shura algum tempo antes. Mu quase não conseguia acreditar que depois de tantos anos Shura ainda pensasse em revanche por causa da apologia pública. Respirou fundo, enquanto esperava o sangue parar de ferver em suas veias. Fosse só por sua vontade talvez já tivesse subido ao templo de capricórnio em 'ensinado' Shura algumas coisinhas sobre a personalidade dos arianos irritados com golpes covardes, mas para o bem de Aiolia e dele mesmo, teve de se contentar em contar até dez milhões.
"Aquele miserável... " – por mais que tentasse conter, era demais. – "Não se preocupe com o que ele falou. Ele fez isso só porque não quer que você passe."
"Ele disse que se eu não passar, a culpa será sua, e que será uma vergonha para os cavaleiros de ouro e para você." – Aiolia realmente se preocupava com a imagem de seu mestre perante os outros cavaleiros. Na verdade se preocupava com Mu de maneira geral, da mesma forma que Mu se preocupava com ele. Havia desenvolvido laços muito estreitos nesse anos de convivência apesar de tudo.
"Mentira. Muitos não passaram até hoje, e isso não te nada a ver com os mestres. Nós apenas treinamos os aspirantes, mas não temos qualquer poder sobre a vontade das armaduras de ouro. A única coisa que pode derrotar você no teste é você mesmo. Ele só disse isso para apavorar você." – Mu estava mais calmo que o de costume. Nesses quase três anos que viveu no santuário aprendeu a camuflar sua raiva com frieza, o que lhe dava uma calma aparente.
"Conseguiu..." – soluçou Aiolia. – "E se eu não digno de ser um cavaleiro?" – Olhou para Mu buscando uma resposta.
"Você é. Só não sabe disso. Mas me diga uma coisa... você está em paz consigo mesmo?"
Lá vinha ele novamente com aquelas perguntas enigmáticas que sempre fazia nas horas mais impróprias. Aiolia olhou-o pensativo. – "Como assim?"
"Você não sabe?" – Perguntou Mu levantando-se. Aiolia fez um sinal de negativa com a cabeça. – "Pense bem... tem algum assunto pendente? Guarda mágoa de alguém? Precisa perdoar ou ser perdoado? Sabe, esse tipo de coisa que muita gente não dá valor mas que tira o sono de noite?"
"Que saber se eu ainda penso no meu irmão?" – Mu sorriu. Estava satisfeito com seu aluno. Ele estava preparado para ser um cavaleiro. Aiolia sentiu corar quando Mu o olhou nos olhos diretamente. Era estranho como aquele cavaleiro parecia ler sua alma naqueles momentos. – "Penso muito." – respondeu baixando a cabeça.
"E pensa o que?"
"Muita coisa."
"Isso é mau. Pensar pouco e agir muito é ignorância, mas pensar muito e não agir é tão ignorante quanto. Pense Aiolia, o que você esperava do seu irmão?"
"Que ele fosse um cavaleiro honrado. Mas no fim ele era um traidor de Athena." – respondeu novamente tentando evitar o assunto, mas Mu não deixou, desta vez.
"Você acha mesmo que ele foi um traidor?" – perguntou Mu. Precisava fazê-lo ver que o rancor que guardava dele não lhe faria bem algum.
"No fundo, no fundo eu não queria que ele fosse, mas ele é..." – finalmente estava confessando o que realmente sentia em relação a seu irmão. Mu o olhava de forma encorajadora, dando sinal de sua aprovação.
"Mas você seria capaz de perdoá-lo pelo que ele fez? Algum dia? Você sabe que todos nós erramos. Mas não devemos ser punidos para sempre por isso."
"E eu, Mu? Eu não estou sendo punido por toda minha vida por ser irmão dele?" – questionou com raiva.
"Punido como? Amanhã você se tornará um cavaleiro de ouro. Você podia dizer que estava sendo punido se, por causa dos atos do seu irmão, você nunca tivesse a chance que teve. Agora me diga, Aiolia, como você está sendo punido?"
"Shura sempre diz que eu sou o irmão do traidor."
"A amanhã você e ele serão iguais, serão ambos cavaleiros de ouro, e ele deverá te respeitar como um de nós. Não são pessoas como Shura que punem você, é você que faz isso consigo mesmo, por causa dessa raiva que você tem do seu irmão. Se algum dia puder perdoá-lo por ele ter deixado você, nesse dia você será um homem completo."
Aiolia permanecia em silêncio.
"Mas eu acho que você já é... Só diz essas coisas do seu irmão da boca para fora, para não destoar do coro dos demais. Seja como for, você ainda tem algumas horas para pensar nisso até seu teste. Se estiver tranqüilo amanhã nada impedirá que a armadura de Leão seja sua." – dizendo isso Mu desapareceu nas sombras do templo.
Aiolia ainda ficou algum tempo a fitar as estrelas pensando no que seu mestre disse há pouco. Será que algum dia, de verdade, odiou seu irmão? Fosse como fosse, a conversa que acabara de ter com Mu o deixou mais leve. Ele sabia o que devia fazer.
"Obrigado Mestre." – disse enquanto rumava para o cemitério dos cavaleiros para pedir perdão a Aiolos, ainda que isso fosse feito diante de uma lápide sem nome. Ele seria um defensor de Athena, mais leal do que Shura, por ele mesmo e para compensar a ausência de seu irmão.
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Aiolia nunca achou que pudesse ficar tão nervoso em sua vida quanto no momento em que inflamava seu cosmo para abrir a urna da armadura de ouro de leão naquela sala, e pensou que jamais teria felicidade igual a do momento em que a mesma se abriu para ele. Era um sinal de que a armadura o havia aceito como cavaleiro. Mal podia conter sua felicidade e com muito esforço deveria esperar que ela lhe fosse entregue pelo Grande Mestre numa cerimônia.
Miro e Aiolia esperavam ansiosamente que o Patriarca dos cavaleiros entregasse as urnas das armaduras de ouro a cada um. Nunca havia entrado naquele enorme salão. Os dois olhavam cada centímetro dele, reparando nas esculturas de Athena em mármore que o adornavam, bem como nas doze pilastras que sustentavam o teto, cada uma com o símbolo de um dos doze signos do zodíaco, distribuídas circularmente.
Aos pés de cada uma a escultura do signo representado, como um pedestal para que as armaduras fossem depositadas sobre eles. O carneiro, o touro, duas figuras iguais em gêmeos, o caranguejo, o leão, a mulher que representava virgem, a balança de libra, o escorpião, o bode de capricórnio, o centauro com a flecha em sagitário, uma ânfora representando aquário e o peixe.
Todas estavam vazias. O farsante que ocupava o posto de líder dos cavaleiros havia mandado recolher todas as armaduras para outro salão. Caso contrário saberiam que a armadura de sagitário não mais estava no santuário, bem como a de libra, que permanecia na posse do Mestre Ancião e da de áries, que ainda se encontrava em poder do discípulo de Shion.
No centro do salão redondo, no chão de mármore branco, havia uma enorme rosa dos ventos em mármore negro e ouro, representando todas as direções e ao fundo o Templo de Athena e cadeira do Grande Mestre. Os dois novos cavaleiros estavam eufóricos. Shura estava um tanto quanto desapontado e sentiu o sangue espanhol ferver quando Mu lhe deu um sorrisinho. Ele bem sabia o que aquilo queria dizer.
Aiolia e Milo, ao lado de seus mestres foram nomeados cavaleiros de ouro, recebendo ordens de protegerem os respectivos templos e Athena com suas vidas se necessário, jurando lealdade a Athena e ao Grande Mestre, e respeito mútuo aos demais cavaleiros de ouro.
Já de madrugada, Aiolia voltava ao templo de áries. Queria agradecer seu mestre por todos os ensinamentos. Graças a ele, agora Aiolia também era um cavaleiro de ouro como sempre sonhou. Sentia algo estranho naquele templo, mas não sabia identificar.
"Mestre Mu, vim lhe agradecer". – Disse entrando devagar no templo.
"Pelo que? O mérito é todo seu." – respondeu a voz de Mu do outro lado do salão.
"Por me treinar. E ter paciência comigo, mas por não desistir de mim. Obrigado." - Mu sorriu, e nesse momento Aiolia percebeu o que havia de errado. A armadura de áries estava dentro da urna coberta. Isso significava que o cavaleiro estava de partida, por isso o templo parecia tão escuro e deserto.
Assim como as armaduras os templos dos cavaleiros beneficiavam-se de seus cosmos como criaturas vivas, e o templo de áries estava se ressentindo pela partida do cavaleiro.
"Mestre..." – recusava-se a acreditar que o cavaleiro de áries deixaria o santuário.
"Não precisa mais me chamar de 'mestre'. Agora você é um cavaleiro de ouro como eu. Somos iguais." – Disse Mu, sentando-se sobre a urna.
"Está bem, Mu." – era estranho chamá-lo pelo nome. Mu lhe despertava um respeito enorme, seria sempre seu mestre.
"Eu queria conversar com você. Saber como devo proceder para ser um bom cavaleiro. Mas acho que é uma conversa longa, pode esperar até amanhã de manhã."
"Não estarei aqui amanhã?" – respondeu Mu, voltando os olhos para fora do templo, fixando-os em algum lugar distante e em seguida voltando-se triste para o cavaleiro de leão.
"Depois de amanhã, então?" – Aiolia tinha entendido bem o recado da primeira vez, mas recusava-se a acreditar que seu mestre o deixaria. Talvez ele não fosse se afastar por um longo período.
"Nem depois. Estou voltando para o Tibet, e não tenho data para voltar." – respondeu simplesmente, deixando Aiolia um tanto quanto perdido. Seu mestre estava o abandonando.
"Mas... mas vai voltar, um dia, não vai?" – perguntou receoso da resposta.
"Sim. Algum dia. Mas talvez esse dia somente chegue daqui a dez ou quinze anos." – Mu respondia olhando-o diretamente.
"Mas... mas por que? Por que tem que ficar longe por tanto tempo?" – Aiolia estava se sentindo mais do que inseguro. O que seria dele sem seu mestre para guiá-lo, de agora em diante?
"Algum dia você vai saber. Mas até lá, não se esqueça de sua missão. E como eu te disse, nem tudo é o que parece. Tome cuidado. E quanto a sua pergunta, siga a vida que você levou até hoje, pautado nos mesmos princípios e você sempre será digno de ser um cavaleiro de ouro. Mas se você vier a se desviar do seu caminho, o que eu não acredito, a própria armadura se encarregará de te abandonar." – sorriu enquanto deixava seu último ensinamento.
"O Grande Mestre sabe que está partindo?"
"Não."
"Então... vai desertar?" – perguntou preocupado.
"Também não. Continuo sendo o cavaleiro de áries. Só que não aqui. Minhas obrigações como ferreiro das armaduras devem ser executadas em outro lugar, e é lá que pretendo permanecer." – respondeu, pegando a urna da armadura de áries. – "Se algum dia precisar reparar a armadura de leão o cavaleiro de Touro saberá onde me encontrar, caso eu não esteja aqui."
"Mestre..." – chamou Aiolia, já com a voz embargada.
"Sim..." – respondeu Mu, voltando-se para ele.
"Promete que um dia vai voltar?"
"Adeus, Leão". – Mu sorriu e desapareceu diante de seus olhos.
"Adeus, Áries" – respondeu Aiolia para o vazio e a escuridão da noite, voltando a subir as escadas que o levariam ao, agora seu, templo de Leão.
FIM.
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Pois é, finalizei mais uma fanfic.
Um beijo para quem leu. Até a próxima.
