Cap. III – A hora da Verdade

Cada vez mais o barulho de passos pesados se aproximava dele. Um pouco mais próximo viu finalmente o que era.

Era algo que não se assemelhava nada do que já tinha visto. Uma criatura enorme, disforme, composta por pedaços disformes de animais e peles. O que se chamaria de braços era totalmente desproporcional ao resto do corpo. Um rabo longo completava o visual bizarro que aquilo tinha. E para seu temor se tornar completo, ele reconheceu na criatura as pernas de seu agente através dos sapatos de modelo incomum.

Victor descarregou todo o pente de sua arma e nada aconteceu. A criatura, a passos largos, não fora atingida por nenhum projétil.

" - Que porra é essa?!" – O agente, já tremendo de medo, correu floresta adentro, apavorado com o que viu. Dentro da escuridão tentava encontrar entre as árvores algum feixe de luz, alguma clareira ou qualquer coisa que indicasse que havia uma saída. Mas o medo que sentia, nunca antes sentido, dificultava o raciocínio lógico e frio, característicos do trabalho. Victor desarmado se sentia nu. Tentava manter a calma e se lembrar do treinamento em selva a que fora submetido algumas vezes a título de reciclagem, mas aquela situação era totalmente fora de qualquer hipótese que se podia imaginar.


- Belas férias, heim, amigo?

- Descobri que não dá pra se tirar férias nesta época do ano, pelo menos por aqui.

Brooke e Valery conversavam baixo e caminhavam floresta adentro, com toda a cautela, devidamente armados.

- Você tem certeza de que é um Golen, Brooke?

O caçador olhou-a sério. Fora os poucos fios de cabelos brancos que despontavam, não havia mudado nada desde que se conheceram. Era o homem centrado, meticuloso e amargo de sempre.

- Eu estou seguindo-o há três dias. Ele se deslocou para este lado do vale, mas até agora não entendi o roteiro dele. Bom, já que estamos em dois, podemos matá-lo sem maiores dificuldades.

- Engano seu, Brooke... Nosso desafio é matar esse bicho e trazer os agentes a salvo, mesmo contra a minha vontade – Valery afastava os galhos, mantendo a lanterna e a mira.

- Bom, isso não posso garantir.

- Feliz ou infelizmente, eu sei...

- Qual é, detetive... Pensei que você estava do lado deles.

- Estou. Eles é que não estão do meu lado, Brooke.

Ele o olhou com desconfiança.

- Inocência sua pensar que todos os agentes se conhecem e confiam uns nos outros. Ainda mais no nosso trabalho.


Os tiros de Victor foram ouvidos por Brooke e Valery, que correram na direção.

- Merda, devem ter encontrado o bicho! Vamos rápido! - Os dois se embrenharam mais fundo dentro da floresta.

Victor tentava correr, mas tropeçava nos galhos e plantas do seu caminho. Mesmo na escuridão achou uma estreita trilha, que pensou ter sido feita pelos seus agentes. Já era alguma coisa para quem estava perdido e com uma aberração atrás de si.

Foi quando escorregou e caiu de cara nas folhas molhadas pelo sangue de Valentin. Olhou para cima e viu a mesma cena de terror que Raymond vira.

" – Merda, então era isso!" – Victor constatava que perdera seus colegas de trabalho e se não agisse rápido, ele seria o próximo. Para sua sorte a criatura era lenta o suficiente para que ele colocasse alguns metros de distância entre eles.

Achou uma pequena clareira que fora formada pelo amontoado de árvores que, provavelmente, a criatura havia derrubado. Ainda garoava e aquelas toras deitadas uma por cima da outra talvez lhe servissem de abrigo para confundir a criatura e lhe dessem mais tempo para sair dali. Se meteu em meio à madeira que estava úmida e, como pôde, colocou alguns galhos e folhas na tentativa de disfarçar seu refúgio.

Quando a criatura chegou perto, ela parou e olhou para os lados. Parecia confusa. "- Anda, saia logo daqui, sua coisa!", pensava Victor.

A criatura parecia se guiar pelo calor dos corpos. Em segundos ficou de frente para as árvores onde Victor se escondia.

" – Merda!"

Caminhou em direção a Henricksen, que já não sabia mais o que pensar. Morreria ali, naquele lugar fétido, pelas mãos ou o que quer que fosse aquilo em que terminavam os braços da criatura. Se houvessem testemunhas, ninguém acreditaria naquilo.

Abaixou-se em frente à pequena fenda que formavam os troncos e esticou um de seus braços na tentativa de puxar o agente para fora. Aquilo era uma mistura de carnes de animais e humanos que exalava um odor insuportável, fazendo Victor recuar o tanto que podia dentro daquele esconderijo, que provavelmente, viraria o seu túmulo. Num gesto rápido a criatura conseguiu agarrar um dos braços de Victor e, na tentativa de puxá-lo para fora, quebrou-o.

De repente ouviu um tiro bem próximo deles. Por um momento a criatura soltou o braço de Victor, virando-se para ver de onde vinha o tal barulho. O grito do agente foi alto o suficiente para que os caçadores chegassem ao local onde estavam.

- Hey bichinho, venha se divertir com quem sabe brincar! – Era Valery que havia atirado para cima no intuito de chamar a atenção do Golen. Brooke estava do outro lado, por entre os arbustos, pronto para derrubar e imobilizar a criatura.

Victor não conseguia ver direito o que estava acontecendo lá fora, mas reconheceu a voz da detetive.

- Rood, deixe ele se aproximar o máximo que puder! – Brooke estava com uma besta preparada com uma lança de aço com ponta de ganchos, atada a um cabo de escalada. O combinado era que Valery atrairia a atenção da criatura e,quando estivesse na mira de seu colega, ele daria o tiro certeiro e tentaria tombá-la e amarrá-la às árvores. Eram necessários sangue frio e concentração, pois qualquer movimento em falso representava risco de vida.

A detetive deu alguns passos para trás, também não tolerando muito o cheiro ruim. O rifle emprestado cuspia a munição que parecia não ter efeito contra a criatura, deixando-a mais irritada e fazendo com que ela fosse na direção da mulher.

- Não corra, Rood... Preciso dela bem aqui! – Brooke dava as ordens para a detetive, que obviamente estava com medo, pois não estava na sua melhor forma. Ela parou de atirar, ficando frente a frente com a criatura. A visão que ela tinha era algo inenarrável.

" – Isso!"- Brooke pensou e, em seguida, atirou. Os ganchos atravessaram um dos pés do Golen, e o caçador num esforço sobre-humano puxou a corda, desequilibrando-o. Valery avançou com os pés no peito da criatura e passou por entre o pescoço e os braços mais alguns metros da corda de alpinismo que Brooke lhe dera antes de entrarem na floresta. Por fim a criatura estava no chão.

- Ache logo a inscrição, não temos muito tempo! – Brooke gritava para a detetive, usando algumas árvores próximas como apoio das cordas para manter a criatura no chão. A detetive iluminou melhor a cabeça da criatura tentando achar a inscrição que era a chave para que a neutralizassem. O Golen se debatia e tentava se livrar das cordas, que apesar de serem resistentes, não agüentariam por muito tempo.

- Achei! E agora! - Mesmo naquela escuridão Valery conseguiu identificar a palavra "Emeth" que parecia ser gravada a ferro quente no trecho de carne que representava a testa do Golen.

Victor apenas ouvia toda a cena, sem entender muita coisa. Estava com dor e com medo.

- A primeira letra, arranque-a! – As grossas luvas de couro que Brooke usava já estavam rasgando pelo atrito com as cordas, que lentamente se desfiavam pelo contato com o tronco da árvore.

A detetive sacou de uma faca e no momento que a levou à testa do Golen este conseguiu se livrar de uma das cordas que seguravam seu braço e lançou a mulher a alguns metros de distância.

Mas este foi também o exato momento em que ela cravou a faca na primeira letra da palavra, usando a força do próprio Golen para retirá-la, deixando somente a inscrição "meth".

- Rood, não! – Brooke viu arrebentar a corda que segurava e tentou pegar a ponta, em vão.

A criatura soltou um rugido que não parecia com nada que os caçadores conheciam. Em instantes ela parou de se debater, já sem vida. Brooke correu em direção à colega temendo pelo pior. Ela já se levantava do chão, recolhendo sua faca e batendo as folhas e a terra em suas pernas.

- Você está bem, Rood? - Brooke perguntou ajudando-a a se levantar.

- Já estive melhor, Brooke... Já estive melhor... – Valery levou a mão ao seu ombro, sentindo que estava ferida.

- Mas que porra era essa, afinal?! - Victor saía devagar do meio dos troncos, observando a criatura no chão, inanimada. Seus olhos não acreditavam no que viam.

A detetive foi ao encontro de Victor. Seus olhos faiscavam diante da incredulidade dele, mesmo com tudo que havia acontecido. Num instante agarrou-o pelo colarinho da camisa, empurrando-o contra um dos troncos próximos.

- Isso, Victor, foi o final que os seus homens tiveram. Isso, seria o seu final se a gente não tivesse livrado seu traseiro – Os olhos semicerrados, uma vontade incontrolável de quebrar a cara dele ali mesmo – Isso, é o dia-a-dia de gente que sacrifica a própria vida em favor de pessoas que, na maioria das vezes, nem sabem o que se passa e nem se dão conta de que sempre existe alguém disposto a protegê-las. E não estou falando da polícia, seu babaca...

- Rood – Brooke apertou com força proposital o ombro machucado da detetive – Vamos logo limpar essa bagunça. Quanto antes sairmos daqui, melhor pra todos – olhou rapidamente para a expressão de espanto do homem que estava encurralado pela sua colega.

Ela largou-o dando mais um tranco contra a madeira, soltando um suspiro. Henricksen tentou arrumar seu colarinho, sem saber o que dizer.

- Vamos, Victor. Não temos a noite toda – Brooke já caminhava em direção à saída da floresta no intuito de pegar seus utensílios para aquele momento pós – caçada: pás para enterrar os corpos.

Victor ainda atordoado e com dor por causa do braço quebrado, seguiu os dois caçadores. Aquela noite, de longe, foi a mais longa e surreal que já havia vivido.

- Rood, seu ombro precisa de cuidados.

- Pode deixar Brooke, eu sei me cuidar. Vamos acabar logo com isso e me deixe no vilarejo mais próximo. É só o que eu te peço.

Aquela resposta remeteu Brooke a algumas lembranças que sempre permeavam sua mente. Sua querida Clair era igualmente teimosa e independente. Se estivesse viva, teria aproximadamente a mesma idade da detetive.

- Nada disso, você volta comigo – Victor mesmo com a situação invertida mantinha sua prepotência.

Num reflexo, a mulher virou-se e apontou o rifle que carregava.

- Victor, neste momento você não está muito em condições de reivindicar alguma coisa – Brooke respondeu num sorriso de sarcasmo.


Cap. IV – Seguir em Frente

O sol já dava seus primeiros sinais de luz à terra, iluminando o pequeno ambiente da parada de beira de estrada onde estavam dois caçadores a conversar.

- Então há três dias você estava seguindo a criatura, Brooke?

- Sim – O homem de cabelos amarrados em rabo de cavalo tomava um gole de sua cerveja.

Depois de se separarem de Victor rumaram à parada mais próxima para descansar e conversar sobre o trabalho realizado na noite anterior.

- E o que era aquilo, afinal?

- Não sei se você sabe mas a minha especialidade são lobisomens. Estava seguindo o rastro de um deles por estas bandas, mas daí, me deparei com mortes fora do padrão.

- E por que não chamou algum outro caçador? – A detetive terminava sua refeição, a primeira depois de quase três dias.

- Porque não tenho um círculo de amizades tão grande quanto o seu – Respondeu secamente o homem.

- Sei, você é um 'Lobo Solitário'... - Valery olhava para o homem à sua frente, e naquele momento entendeu que a vida que ele levava era mais por obrigação do que por opção. Sabia também que, o motivo pelo qual Brooke tornara-se um caçador seria, para ela, sempre uma incógnita - Portanto, você pegou este caso, mesmo não sendo sua predileção...

- Não tive escolha. Com uma breve pesquisa da história local, descobri que aqui é uma região onde residem vários judeus.

- E provavelmente há uma lenda...

- Na mitologia judaica existe uma estória sobre uma entidade que é criada para servir a quem a criou. Geralmente é feita de barro e tem forma humana.

- Hum, acho que já li algo a respeito, mas não me recordo direito. É algo muito específico...

- Sim, não é uma lenda urbana, como tantas por aí. Bem, a essa criatura dá-se o nome de Golen e ela ganha vida através de um encantamento específico entoado durante sua confecção, além da inscrição da palavra em habraico "Emeth", que significa "verdade", seja em sua testa ou na forma de pergaminho colocado em sua boca.

- E uma vez que a adulteramos a criatura perde a vida...

- Não exatamente. É preciso retirar a primeira letra da palavra, restando assim a inscrição "Meth", que significa morte. Por essa razão é que eu mandei você apenas procurar uma inscrição na testa dele e retirar a primeira letra.

- De fato, se você me explicasse tudo isso na hora, certamente não estaríamos aqui – Valery sorriu discretamente - Mas no que encontramos não havia nada de barro... Era repulsivo!

- Pois bem... Nas minhas pesquisas descobri que há quase um mês atrás uma família de judeus morreu de maneira violenta e culparam o patriarca pela chacina. Realmente isso aconteceu. Ele estava muito endividado e não encontrava uma saída. Enlouqueceu e matou sua esposa e cinco filhos.

- E onde entra a tal criatura nessa história?

- Bem, o tal patriarca pegou os corpos dos seus familiares e, no mesmo ritual mitológico, criou o Golen, só que de carne.

- E como você soube de tudo isso? – A detetive se espantou com a quantidade de informações captadas em tão pouco tempo. Brooke era bom naquilo.

- Porque há um sobrevivente de um dos ataques do bicho que reconheceu o rosto da mulher do patriarca, montado na criatura. Ele está internado como paciente psiquiátrico no hospital regional porque ninguém acredita na sua história.

- E qual a ligação dele com a família?

- Na verdade ele é um dos credores do criador da aberração – Brooke terminava sua cerveja de uma vez – Ele foi atacado quando foi cobrar a dívida novamente e descobriu o que o cara tinha feito. Ele também é judeu e lembrou-se da história do Golen. Encontrou-o sem os braços e sem as pernas, na sua própria sala e o tal bicho dentro da casa. Ele agiu rápido, mas deixou a porta aberta e a criatura escapou.

- Se o bicho é criado para servir ao seu criador, algo deve ter dado errado. Era de se esperar, não é...

- Sim, o bicho se descontrolou e provavelmente descobriu que podia se 'montar' sozinho para permanecer vivo. Daí as mortes humanas e de animais e os corpos incompletos.

- Mas Brooke, ninguém viu essa coisa andando descontraída por aí? – A detetive ainda se espantava com tal história.

- Com quantas pessoas cruzamos até chegar aqui, Rood? – Brooke acenou para a garçonete para lhe trazer mais uma cerveja.

- É verdade... Aqui é um fim de mundo mesmo... – Ela riu, servindo-se da sua cerveja.

- Bom, o mais importante é que fizemos o trabalho – Brooke abria a outra longneck, causando um suave estampido.

- E o dia foi salvo! – Valery levantou sua garrafa em direção à de Brooke e os dois brindaram sorrindo.

Brooke pensava o quanto sua Clair lhe fazia falta. Se não tivesse acontecido tudo o que aconteceu, se eles seguissem com suas vidas normais, se...

- Lhe pago outra cerveja pelos seus pensamentos, Brooke – A voz da detetive fez o velho lobo voltar à Terra.

Nada que valha essa marca ruim – Ele sorriu amargamente.

Valery sentiu que a brincadeira foi numa hora imprópria e preferiu calar-se por alguns instantes.

- Brooke, nosso destino está em nossas mãos. Apesar de acreditar que tudo tem um propósito maior do que nós podemos imaginar, e saiba que eu realmente acredito nisso, nós é que devemos fazer as escolhas nas nossas vidas. E de certa forma escolhi essa vida. Pense bem se essa é a vida que você escolheu...

Valery não precisava ter o poder de ler pensamentos para dizer aquilo. Brooke olhava para a colega de trabalho e em sua mente vinha nitidamente a imagem de sua amada irmã.

- Destino maldito foi o que teve o outro agente que não foi morto pelo Golen... Que azar cair numa ribanceira e quebrar o pescoço! – O caçador respondeu num meio sorriso.

- Seria cômico se não fosse trágico... – Valery teve a mesma reação.

- E o que acontece agora, Rood? - Brooke se referia ao destino da detetive.

- Seguir em frente – Valery repousou a garrafa em cima da mesa. Estava sendo procurada pela própria agência e sem seu arsenal e sua moto. Mas daria um jeito em tudo, como sempre.

- É, seguir em frente... – Brooke tomou mais um gole da cerveja e em seguida deixou-a também na mesa. Discretamente colocou uma das mãos no bolso de sua jaqueta, onde guardava um pingente. Sem tirá-lo, passava seus dedos levemente nele, como se estivesse fazendo um carinho.

Existem certas cicatrizes nas nossas almas que nunca se fecham, mas é preciso seguir em frente.


Alguns dias depois...

Henricksen estava sentado em frente ao computador e a luz azulada que vinha do monitor era a única coisa que gerava luminosidade no escritório vazio.

Já passava da meia-noite e ainda estava lá. Enfim, voltara ao seu quartel general, mas infelizmente com duas mortes de colegas de trabalho em sua consciência.

Estava consultando a base de dados de criminosos procurados no país. Parou em duas fichas em especial e, durante alguns minutos, deixou-as na tela. Respirou fundo. Olhou para o gesso em seu braço e lembrou-se daquela noite que nunca seria apagada de sua memória. Ainda sentia dor. Mas a lembrança dos momentos de pavor eram maiores do que seu ferimento.

Encarou mais uma vez a tela. Digitou algumas letras e números e, em instantes, aquelas fichas foram apagadas do banco de dados. Novamente acessou e certificou-se de que não havia deixado nenhum rastro.

Afastou a cadeira, repousando os pés na beirada da mesa. Passou o polegar e o indicador na pequena medalha do Arcanjo Miguel que passou a carregar em seu peito após o incidente na Interestadual.


Entre os estados da Virginia e Carolina do Norte, descansava uma Shadow vermelha encostada próxima a algumas árvores na beira da estrada, onde em cima uma figura feminina falava ao celular.

Sim senhor... Compreendo, Senhor...Para mim é uma honra defender meu país, Senhor... Agradeço por tudo, Senhor.

" – ...Idiota", pensou logo após desligar o telefone.

Em sua mente só havia lugar para questionamentos. O quanto valia a pena "proteger e servir"? Por mais que se esforçasse, por melhor que fosse seu desempenho, ela sabia que nunca teria o crédito que merecia. Mas que crédito era esse? Um bônus na sua conta bancária, acompanhado de um tapinha nas costas e um 'belo trabalho detetive', ou um sincero 'muito obrigado por salvar minha vida' de alguém que de fato viu a vida passar pela frente?

O que era mais compensador, o que fazia valer a pena tudo aquilo?

Sua caçada pessoal ainda não terminara, pois Beatrice ainda estava foragida. Devia isso para as crianças que morreram pelas mãos da babá, pelas famílias envolvidas, pelo seu pai. E antes de tudo devia a si mesma, pois muitas perguntas ficaram sem respostas.

Enfim, sua quarentena havia acabado. Subiu em sua moto, com destino ao próximo trabalho.

FIM