Mal entrou no dormitório, foi logo tomar banho e vestir a camisa de dormir. A camisa era branca e justinha ao tronco bem delineado.
As mangas eram compridas e largas. Chegava até aos pés, como um vestido de seda de cor de pérola, com uma enorme racha de lado, que chegava até meio da coxa esquerda.
O cabelo encaracolado, agora húmido, estava ainda mais comprido do que o habitual. Em breve secaria, encolheria e renasceriam aqueles lindos caracóis bem definidos que suscitavam a inveja de tantas mulheres ali na Ópera.
Os seus ouvidos tinham se apurado desde o instante em que pisara o chão do seu dormitório, não fosse o Anjo dar algum sinal da sua presença. Mas até agora nada. Nem um único som. Silêncio, para além do crepitar do lume das velas nos castiçais de prata.
Será que ele vinha mesmo? Christine começou a entoar uma canção que uma vez tinha composto a pensar nele:
Um dia falaram-me de um anjo
E eu sonhei que ele vinha
Ao cantar posso senti-lo
Sei que está aqui
E que me chama docemente
Escondido algures dentro de mim
Anjo da Música
Guardião e guia
Concede-me a tua glória
Anjo da Música, não te escondas mais
Quem serás tu
Meu estranho e misterioso Anjo…
Subitamente, ouviu uma voz que a fez levantar do sofá. Ah, que felicidade, era o Anjo!
– Criança curiosa… és tão lisonjeira que me deixas sem palavras. Calas os Anjos com a tua linda voz!
Christine corou.
– A minha voz deve-se ao mestre que acreditou em mim… ao Anjo escondido. Tu que não te mostras! Não compreendo os teus motivos.
– Já falámos nisso, querida Christine.
– Sim… De qualquer maneira, queria contar-te uma coisa estranha que me aconteceu hoje… Na ceia de Natal!
– E o que é?
– Bom… apercebi-me que as pessoas gozavam comigo e troçavam de mim e falei disso com a Meg… Alguns minutos depois houve uma catástrofe no grande hall, todas as decorações caíram da árvore de Natal e partiram-se em pedaços! Depois o Fantasma da Ópera mandou uma carta aos directores a dizer que estava aborrecido por gozarem comigo! – disse Christine num só fôlego. Achava estranha demais a situação para deixar passar em branco e queria, de qualquer forma, saber a opinião do Anjo em relação àquilo. – O que achas disto tudo?
Ouviu-se um longo suspiro no ar, suspenso. Depois, silêncio.
Por fim, o Anjo falou:
– Não temas o Fantasma da Ópera pois ele nunca te fará mal…
– Mas já me contaram que ele é um homem pérfido e cruel! – interrompeu Christine.
– Não! Ele não é nada disso! São as circunstâncias da sua vida desgraçada que o fazem viver como tal… escondido do mundo… odiado por um, odiado por mil! E no entanto, não faz mal a ninguém… apenas deseja beleza e esplendor.
– Como sabes isso, Anjo?
– Sei… Os Anjos sabem tudo. Eu sei tudo sobre ele como sei sobre ti Christine, e estou certo de que não o magoarias.
– Magoar o Fantasma da Ópera? Mas como? Não é ele nada mais do que um simples fantasma, uma sombra, um espectro?
– Porque não lhe perguntas isso? Ele não te fará mal; quer-te demasiado bem para que tal acontecesse…
– Anjo, eu nunca o vi! Não sei quem é! Para mim é tão desconhecido como tu!
– Mas Christine, diz-me… Prometes-me que se o vires, e estiveres com ele não o vais renegar, não o vais abandonar?
– Prometo… – disse Christine decidida. Ia conhecer o Fantasma da Ópera! – Quando é que o posso ver?
– Espera, criança curiosa… Já o vais ver! – Dito isto, a sua voz parecia ouvir-se ainda mais perto que o habitual. – Criança curiosa, já o vais conhecer, perceber porque se esconde na escuridão… Olha bem para ti no espelho, vê-lo-ás lá dentro!
Christine olhou para o espelho com mais atenção. Não para o seu reflexo, para o espelho! Qualquer coisa estava lá dentro. Ou por detrás. E era um homem! (Um homem que, à medida que Christine se aproximava, lhe estendia a mão.) Como por magia, o espelho desapareceu e agora só havia a moldura. Dentro da moldura do espelho, o homem com uma máscara branca que lhe tapava um quarto da cara estendia-lhe uma mão com uma luva preta. Tudo nele emanava sofisticação, poder e mistério. Usava um fato preto e uma grande capa negra que chegava até ao chão. O casaco aberto estrategicamente até meio, mostrava um colete castanho com rosas bordadas a dourado. No pescoço, um lenço castanho-escuro que acabava por dentro do colete.
Christine deu a mão àquele estranho que ali estava, aquele estranho que era nada mais, nada menos do que…
– És o Fantasma da Ópera? – perguntou Christine. Parecia enfeitiçada pela luz das velas no corredor que havia para lá da moldura do espelho.
O homem anuiu com a cabeça. Era o Fantasma da Ópera. Puxou-a para o corredor oculto e juntos o atravessaram. Era enorme e sombrio. Nas paredes húmidas, candelabros pendurados seguravam velas brancas já muito gastas. Algumas mesmo estavam agora a gastar o que restava do pavio.
As paredes da passagem eram feitas de pedra. De vez em quando passavam por gárgulas em relevo nas paredes. Tudo estava silencioso.
– Como conheces o Anjo da Música? Como é que me conheces a mim? Porque escreveste sobre mim na tua carta? – Christine ia perguntando ao descer a passagem. Continuava de mãos dadas com o fantasma. Este, por sua vez, não falava. Continuava e continuava a olhar para ela… Olhava deslumbrado para a sua beleza, para a sua cara surpreendida, para os olhos castanhos que não desgrudavam dele, um estranho…
Chegaram a uma enorme escadaria. Ao fundo, um cavalo branco esperava-os. Christine continuava constrangida por o Fantasma não falar. Havia tanto mistério envolto naquele homem… Porque usava ele aquela mascara, se era tão bem parecido, tão cativante?
Quando chegaram ao final da escadaria, o Fantasma pegou nela muito delicadamente. Era a primeira vez que estava frente a frente, tão próxima dele. Quase podia sentir os seus olhos verdes a lerem-lhe a mente, a penetrarem em si clandestinamente, como se tivesse medo do próprio lugar onde penetrava.
Era um homem tão comum quanto os outros, não era um fantasma.
Ele pô-la em cima do cavalo branco e juntos continuaram a viagem pelos subterrâneos até ao seu covil, ela montando o cavalo e ele a pé, segurando as rédeas.
Aqueles subterrâneos eram repugnantes! Mil e uma aranhas formavam mil e uma teias em cada canto, pó em cada castiçal, humidade nas paredes de pedra… Como podia alguém viver ali?
No entanto, Christine olhava meio estupefacto, meio maravilhado para aquele mundo debaixo da Ópera, aquele universo desconhecido feito de escuridão e silêncio que era o universo do Fantasma da Ópera. Porquê viver ali? Era contraditório. Era ao mesmo tempo estranho e fascinante. Passaram por longos corredores com pequenas gárgulas em relevo nas pedras da parede, passaram por bifurcações, desceram escadarias e escadarias, descendo cada vez mais profundamente até chegarem a um lago. Com que então era verdade a história que contavam, que Ópera Garnier tinha sido construída sobre um lago subterrâneo! Christine, que nunca acreditara completamente na história, olhava agora para a água do lado que enchia o resto do caminho – os corredores do piso mais abaixo, submersos… Uma gôndola de madeira, com uma pequena candeia na dianteira que iluminava as águas escuras e limpas que a rodeavam, estava atracada a um pedaço de arame pregado ao chão.
O fantasma fez sinal a Christine para se sentar num grande banco de pedra que ali estava, perto do lago. Christine sentou-se e o Fantasma sentou-se ao seu lado. Abriu a boca mas não disse nada. Buscava as palavras certas. No entanto, o seu espírito era feito de medo e incertezas. Abriu a boca várias vezes mas no fim acabava por nada dizer. A coragem vinha e fugia com força. Enquanto isso, Christine olhava-o exactamente com uma expressão de criança, uma criança curiosa, como alguém que tem um brinquedo novo e espera ansiosamente que ele funcione.
Olhava-o à espera de algo da parte dele. Finalmente, ganhou coragem do mais fundo do seu espírito. Não podia continuar a esconder-lhe, a omitir-lhe quem ele era. Foi então que falou…
– Querida Christine…
Não foi necessário falar mais. A expressão de Christine passou de curiosa a surpreendida. Bastou dizer aquelas palavras. Reconheceria aquela voz em qualquer parte do mundo, fosse quando fosse…
O Fantasma da Ópera era o Anjo da Música!
Tanto tempo à espera para conhecer o Anjo da Música, tantas vezes ele lho negara e agora ali estava, sentado ao seu lado, olhando para ela com os seus olhos verdes cheios de paixão e solidão.
– Tu és o Anjo da Música… – murmurou ela boquiaberta. – O Fantasma da Ópera é o Anjo da Música… Afinal não és um anjo a sério, nem és um fantasma… És um homem… – No seu espírito, um misto de desilusão e alegria.
– Por isso é que tinha medo de me mostrar. Tinha medo que te desinteressasses de mim… Me tomasses como um simples homem e nada mais. – Estava nervoso. Brincava com os dedos à medida que falava. – E eu não queria que isso acontecesse. Eu sou Erik, o Fantasma da Ópera!
A solidão de Erik, explícita no seu olhar era tão sincera e reforçava a veracidade do que ele dizia. Christine sentia-o e quase conseguia sentir o seu desejo de a abraçar. Foi então que sorriu e passou a mão pela cara de Erik – o lado esquerdo, que não estava tapado pela máscara branca que tanto mistério lhe concedia. Ao mínimo toque na sua pele áspera, Christine sentiu que já o tinha tocado antes, já o tinha conhecido antes. O seu coração começou a bater cada vez mais depressa e retirou imediatamente a mão da sua cara. Que estranha sensação seria aquela?
Erik sentiu o mesmo. Não sabia o que dizer. Nunca sabia o que dizer. Tantos anos de exílio na sua casa do lago, nos subterrâneos da Ópera, com a senhora Giry como a sua única amiga, sabia que tinha de lidar respeitosamente com uma senhora. Sobretudo com Christine.
Levantou-se e pegou na mão direita de Christine. – Continuamos? – perguntou.
Christine anuiu com a cabeça. Erik conduziu-a até à gôndola que esperava pacificamente por eles. Ajudou-a a entrar na gôndola e depois entrou ele. Pegou no remo e começaram a deslizar sobre a água por entre os canais subterrâneos.
Formas sombrias saíam das paredes, nas estátuas em relevo. Christine entoava baixinho uma canção que ela e as outras bailarinas da Ópera tinham composto sobre o Fantasma da Ópera, devido ao todo o mistério envolto na sua personagem e por ser um óptimo motivo de conversa entre os mais cautelosos – e os mais aventureiros!
No meu sono ele cantou para mim
Nos meus sonhos ele veio até mim
Com aquela voz que chama por mim
Conseguirei sonhar outra vez?
Por agora tudo o que sei
É que o Fantasma da Ópera está aqui
Dentro de mim
Erik sentia uma enorme alegria a invadi-lo lenta e docemente. Como uma doce intoxicação. O caminho até à casa do lago parecia agora menos escuro e sombrio.
Christine sentia que todas as coisas ao longo dos canais subterrâneos chamavam por ela. Todas as coisas gritavam o seu nome em silêncio – era o espírito do Fantasma a chorar de felicidade. O seu espírito solitário vivia em cada coisa, em cada gota de água, em cada pedra, em cada gárgula saliente.
Após muitos canais subterrâneos passados, Christine e Erik avistaram um portão de ferro. Para lá do portão estava, na outra margem, o que parecia ser uma casa improvisada. Umas escadas nas rochas iam dar a uma plataforma feita de pedra plana onde se situava um lindo órgão. Parecia ser o local onde Erik mais passava o tempo. Estava muito bem cuidado e limpo.
Ao chegarem perto do enorme portão de ferro, o Fantasma puxou uma alavanca que emergia das águas. Os portões abriram-se e a gôndola de madeira arrastou-se pelas águas até chegar à margem.
Erik saiu primeiro. Olhou em volta e suspirou: – Este é o meu mundo. Solidão, escuridão e música. Sou uma criatura da noite, a luz aqui escasseia como a água nos desertos.
Christine fitava-o fascinada, ouvindo atentamente tudo o que dizia. Mas… quanto tempo mais levaria até tirar a máscara que lhe cobria parte do rosto?
Erik aproximou-se e estendeu-lhe a mão para a ajudar a sair da gôndola. Começaram então uma viagem pelo mundo do Fantasma da Ópera
