Avisos: Saint Seiya não me pertence. Todos os direitos a Masami Kurumada, Toei Animation, Bandai, Conrad Editora, Shonen Jump, entre outras que obtem direitos sobre a obra.

Fic sem fins lucrativos, visando apenas entretenimento. Contém yaoi(relacionamento homossexual masculino), lemon (relacionamento sexual entre homens) e temas um tanto "pesados" ao longo de seus capítulos. Se você não curte, se sente ofendido, sua religião não permite, peço encarecidamente que não leia.

Aos que gostam, boa leitura!!


Capítulo IV -Until Dawn

A senhora Fitzroy chegou à casa cedo, como de costume. Girou as chaves, abrindo a porta apenas o suficiente para deixar o seu corpo roliço passar. Acendeu as luzes do pequeno hall; ninguém em casa. Deixou sua bolsa dentro do armário de casacos, não sem antes vestir um alvo avental e prender os cabelos grisalhos num coque. Percorreu os demais cômodos, a analisar o serviço daquele dia.

Elsa Fitzroy não tinha o que reclamar. Seu patrão -aparentemente um empresário muito bem-sucedido e ocupado -era muito generoso. Pagava-lhe bem -bem mais do que a maioria das governantas recebia -, sem contar benefícios como plano de saúde, vale transporte, entre outros que ele insistia em lhe oferecer. E, além disso, não lhe causava transtorno algum! Quase não ficava em casa, por isso não fazia qualquer espécie de bagunça. Era um homem muito organizado. Perfeccionista até, arriscava-se a dizer.

-Muito bonito e jovem também, pelo que me lembro -murmurou a si mesma enquanto principiava a organizar o quarto.

De fato, o vira apenas umas poucas vezes. Duas, se muito. Sempre à noite, muito bem vestido. Por vezes achava uma pena alguém tão jovem não ter tempo nem para se divertir. Mas também era notável que alguém em tão tenra idade estivesse em situação mais que confortável. Se ela tivesse se estabilizado mais cedo, agora estaria aproveitando as regalias de uma conta bancária recheada e de sua aposentadoria, e não gastando seus ossos já desgastados varrendo, lavando e passando.

-Mas também não posso reclamar -ralhou baixinho, a estender um lençol limpo sobre a enorme cama de casal. -Se não fosse pelo senhor Sorento eu provavelmente estaria em um emprego bem pior. Afinal, o que uma velha que mal concluiu o ginásio, nascida num país pobre, pode fazer?

Sacudiu a cabeça, repreendendo-se por essa insistente mania de falar sozinha, e prosseguiu com a limpeza, agora levando as roupas sujas para a lavanderia. Separou as peças que soltavam muita tinta das demais e as brancas das coloridas. Estava vasculhando os bolsos, para garantir que o patrão não esquecera nada, quando algo lhe chamou atenção.

-Que mancha estranha... -comentou a senhora que observava de forma cuidadosa o colarinho da camisa azul-marinho. Levou-a ao nariz com brevidade -Parece sangue -alarmou-se, jogando a camisa na máquina de lavar -Espero que o senhor Sorento esteja bem. Vou deixar-lhe um recado depois, expressando minha preocupação -espiou dentro da máquina, pensativa -Só espero que essa mancha saia...

OooOoOooO

Via-se no alto de um edifício; o sobretudo negro esvoaçando às suas costas ao sabor da brisa noturna. Acima de sua cabeça a lua fulgurava, tão cheia e bela quanto nunca vira na vida. Abaixo, podia enxergar tudo com perfeição num raio de dois quilômetros. Talvez até mais longe. Ouvia milhões de ruídos. Vozes. Pensamentos também. A ecoarem e ecoarem em sua mente. Essas percepções exacerbadas causavam-lhe incômodo.

Levou as mãos aos ouvidos, ajoelhando-se no chão gélido, torturado pelos ruídos que não lhe davam trégua. Sentiu uma mão pousar com suavidade em seu ombro, como se o quisesse confortar. Ao erguer o rosto, no entanto, não conseguiu ver nada além de um par de olhos de fulgor avermelhando.

Abriu os olhos, assustado, sem saber se acordara ou se ainda dormia. Seu coração batia acelerado contra sua caixa toráxica, como se desejasse sair dali. Inconscientemente, levou a mão ao alvo pescoço, esfregando de leve o local. Focalizou o radio-relógio. Ainda era cedo. Suspirou, sacudindo em seguida os fios avermelhados. Estava com sono, mas sua mente parecia recusar-se a desligar. Colocou uma vez mais a coberta sobre o corpo e, virando-se de lado, tentou não permitir que nenhum pensamento tomasse forma. Talvez assim conseguisse dormir novamente.

A solução, de fato, mostrara-se eficaz. Despertou algumas horas depois, descansado e sem qualquer lembrança mais profunda do sonho que tivera. Ergueu-se de uma vez, estranhamente faminto. Lavou o rosto, para tirar qualquer traço de sono, vestiu uma roupa qualquer e desceu. Eram 7 da manhã, a maioria dos garotos ainda estava na cama. Somente Alberich encontrava-se de pé, um sorriso irritantemente superior no rosto. Os olhos verdes faiscavam ao perceber quem se aproximava.

-O que houve? -questionou em tom repleto de malícia -Está pálido como um cadáver. Foi atacado por um succubus¹ ou algo do tipo? -soltou uma breve risada -Porém, se assim fosse, seria um incubus², não é? -o sorriso perverso aumentou de forma considerável.

Um arrepio involuntário perpassou o corpo de Mime. Não acreditava nesse tipo de bobagem, mas ainda assim as palavras de Alberich, somadas aos poucos vislumbres de seu pesadelo, causaram-lhe um profundo desconforto. Encarou-o, o rosto impassível, porém nem assim o sorrisinho torto se desfez.

-Não, e mesmo se esse fosse o caso, não seria da sua conta, correto? -replicou laconicamente, o que fez o ar malévolo do outro se intensificar.

-Hum... mau humor matinal, heim? Ou será que um certo loiro não lhe causou muita satisfação noite passada? -perguntou, levando o copo de café à boca.

-Nenhum dos dois -comentou, a servir-se de café também -"Apenas é muito agradável que você seja a primeira pessoa que vejo ao acordar ..." -pensou -E então, como foram as negociações ontem? -não era do seu feitio se interessar pela vida alheia. Tocara no assunto apenas para tentar mudar de assunto e não prosseguir com conversas regadas a veneno e malícia.

-Difíceis -respondeu Alberich num suspiro -O Cassius não queria negociar de jeito nenhum. Isaac teve de usar muita perspicácia e persuasão para dobrá-lo. Maaas... -estendeu os braços, espreguiçando-se -conseguimos. Antes do meio-dia já estarei fora daqui.

-Boa sorte lá fora -disse de forma polida, sem erguer a vista do seu café da manhã.

-Agradeço. Quem sabe você não é o próximo? -opinou, outro sorrisinho nos lábios.

-Hum? -fez, confuso.

-Você já é "exclusivo". O próximo passo talvez seja a liberdade, meu caro. Aquele loiro parece realmente interessado em você -disse, a observar atentamente as reações do outro.

"Realmente interessado" -pensou Mime com desprezo -"Gostaria de ver quanto tempo isso duraria se, de repente, não correspondesse mais às suas carícias ou não estivesse mais apto a atender seus desejos" -muito internamente, o ruivo não acreditava nas palavras que acabara de proferir em pensamento. Estava mais propenso a escolher acreditar nas palavras que Sorento lhe dissera noite passada. Mas, de forma alguma, admitiria isso a si mesmo.

Notou o olhar indagador e simplesmente deu de ombros, sem saber o que dizer. Os orbes verdes brilharam de forma intensa.

-Ainda me arrisco a dizer que ele vai querer tirá-lo daqui. Cassius é que morrerá só de pensar em perder o seu melhor produto -deu uma piscadela divertida, a qual não foi correspondido. Mirou brevemente o velho relógio pendurado na parede -Melhor terminar de ajeitar minhas coisas, antes que os demais acordem -ergueu-se, ainda a encarar o ruivo -Sei que você não acreditará, mas eu sentirei a sua falta. Duvido que encontre mais alguém tão divertido para conversar -sorriu, aproximando-se gradativamente do rosto pálido -Adeus -murmurou, segundos antes de segurar-lhe a face com firmeza e beijá-lo nos lábios, pressuroso. Afastou-se em seguida, rindo da expressão aturdida do outro.

OooOoOooO

O sol estava para se pôr. Seus últimos raios a incidir sobre os edifícios acinzentados. Pessoas caminhavam apressadas, de um lado ao outro, ansiosas para descansarem após uma extenuante jornada de trabalho. O trânsito, como sempre, estava caótico. Para dizer o mínimo. Odores de diferentes tipos de comida pairavam pelo ar, juntando-se ao cheiro de fumaça expelido pelos automóveis.

Mime caminhava em passo ligeiro, a desviar-se com destreza das pessoas que eventualmente vinham em sua direção. Fora à pequena livraria do bairro, há dois quarteirões do velho cortiço, para pesquisar sobre o preço de um livro e acabara perdendo a noção do tempo. Quando dera por si, a hora já avançara em demasia. Se chegasse um minuto atrasado no "Santuário de Eros", Cassius com certeza o espancaria. Bem, talvez não muito, já que o cafetão sabia que não havia lucro algum em deixar um de seus garotos ferido ou inconsciente. De qualquer forma, não estava disposto a pagar para ver, por isso tentava vencer a distância o mais rápido que conseguia.

Suas pernas trabalhavam automaticamente, já acostumadas ao caminho, enquanto sua mente se ocupava com coisas mais importantes como examinar alguns pensamentos que se repetiam sem cessar. As palavras de Alberich o perseguiram durante o dia. "Aquele loiro parece realmente interessado em você". "Ainda me arrisco a dizer que ele vai tirá-lo daqui". Quanto menos desejava refletir sobre isso, mais freqüentemente elas lhe rondavam a cabeça. Estaria Alberich certo? O "amor" que Sorento dizia sentir seria o bastante para tirá-lo dali?

"Pare de pensar bobagens" -repreendeu-se com severidade -"Você não é mais nenhum garotinho ingênuo para acreditar em promessas infundadas. Vários clientes já lhe disseram palavras mais doces e juras mais convincentes. Porque acreditar justo nas dele, se não acreditou em nenhuma das anteriores?"

Ele sabia a resposta. Porque não vira qualquer traço de mentira ou hipocrisia no loiro. Seu rosto transmitia sinceridade. Seu olhar transmitia sinceridade. Por isso que chegava a quase acreditar. Por essa razão é que não era fácil dizer que suas frases eram apenas bobagens ditas sem pensar.

"Não sou capaz de aceitar que outro tenha o privilégio de tê-lo e desfrutar de seus favores. Sou seu escrevo e apenas sinto-me vivo ao seu lado." Quase podia ouvir aquela voz profunda e melodiosa a lhe sussurrar ao ouvido. Apenas tal lembrança o fazia arrepiar-se inteiro, como um rapazote que não tem qualquer controle sobre os próprios hormônios. Irritava-lhe o fato de o misterioso loiro possuir o poder de lhe despertar sensações tão intensas.

Seguia adiante, tão distraído que sequer notou que alguém vinha na direção contrária, o que gerou num esbarrão. Mime cambaleou como se tivesse se chocado contra uma estátua particularmente rígida.

-Desculpe-me -murmurou, recuando alguns passos para ver em quem ou no que esbarrara. Deparou-se com os olhos azuis mais claros e brilhantes que já vira na vida. Suspendeu momentaneamente a respiração ao observá-lo melhor. Era tão... lindo. Os cabelos muito loiros, pele branca como cera, porte elegante e jovem. Sua beleza parecia tão perfeita e irreal que o ruivo sentiu-se diante da obra-prima de algum escultor famoso, não de um ser vivente.

-Sou eu quem deve pedir-lhe perdão -tinha uma voz suave, musical, que parecia retinir como sinos de prata -Distrai-me e sequer o notei -um discreto sorriso surgiu nos lábios perfeitamente desenhados antes que retomasse a caminhada, a passos charmosos e lânguidos.

O norueguês passou algum tempo atônito, antes de perceber que não saíra da mesma posição. Expirou, a notar que seus batimentos cardíacos haviam acelerado. Olhou por cima do ombro, mas o rapaz desaparecera. Tornou a andar, estranhamente achando algo naquele rapaz muito semelhante a Sorento.

OooOoOooO

Despertara, apreensivo. Senti um estrondoso pode a envolvê-lo. Poder que não lhe pertencia. Não havia mais como evitar. Ele chegara. Estava em algum lugar daquela cidade, embora não pudesse precisar onde. Afastou a pesada tampa do esquife, um suspiro a escapar dos lábios gélidos. Teria de procurá-lo, encontrá-lo, ainda esta noite. Ou ele o encontraria, o que poderia ser muito pior. Vampiros milenares podiam ser assustadoramente temperamentais e destrutivos. E, apesar de saber de quem se tratava com quase cem por cento de exatidão, torcia para que este não fosse o caso.

Arrumou-se de maneira apressada. Calças marfim, camisa negra de tecido diáfano, sapatos negros, um pequeno crucifixo de prata no pescoço. Quase sorriu ao colocá-lo. Sempre achara as crendices acerca dos vampiros muito cômicas. Estacas no coração. Crucifixos. Balas de prata. Alho. Falta de reflexo em espelhos. Bobagens sem qualquer fundamento. Apenas uma coisa pode matar os vampiros: calor excessivo. O fogo e seu poder de destruição. O sol em si não era o suficiente para matar um vampiro, mas para deixá-lo suficientemente debilitado e vulnerável. Bem, a falta de sangue por um período demasiado longo também poderia causar problemas. Não os matava, propriamente, mas os fazia entrar numa espécie de coma.

Deixou as conjecturas a respeito da vida imortal e sua forma de extingui-la de lado. Dedicou algum tempo ao sagrado ritual de deixar algum serviço para a senhora Fitzroy fazer. Ao descer para o pequeno hall, notou um bilhete sobre uma mesinha. Pegou-o, levemente intrigado, deparando-se com a caligrafia grande, redonda e meio irregular de sua governanta.

"Caro senhor,

Espero que esteja tudo bem. Decidi escrever porque, enquanto punha a roupa para lavar, percebi que havia uma mancha de sangue no colarinho de sua camisa e fiquei muito preocupada.

Torço para que não tenha acontecido nada sério. O mundo anda perigoso para qualquer um. Não é mais como era no meu tempo.

Desculpe por enchê-lo com minhas besteiras de velha, mas realmente fiquei preocupada com o senhor.

Encarecidamente,

Elza Fitzroy

PS: Felizmente a mancha de sangue saiu na lavagem."

Franziu o cenho ao concluir a leitura. Sangue? Não se lembrava de sangue algum em sua camisa. De qualquer forma precisava se policiar com mais atenção se não desejasse qualquer espécie de escândalo, ou mesmo preocupação. Pobre senhora! Sentia-se grato por seu gesto terno. Rabiscou uma resposta, pressuroso, e saiu. Encontraria-se antes com seu amado mortal. Depois procuraria o outro ser noturno e teria, muito provavelmente, uma longa conversa. Porém, sua real prioridade no momento era alimentar-se bem. Com certeza iria precisar de energia extra.

OooOoOooO

Mirava a paisagem do alto de um suntuoso arranha-céu. Tudo cinza. Sem qualquer beleza. Sem vida. Em qualquer lugar que fosse, era sempre isso que via. Um mundo sujo. Triste. Decadente. Desesperado. Pessoas guerreando umas contra as outras inutilmente. Agarrando-se a bens fúteis para não enlouquecerem. As ruínas de tempos antigos, de velhos castelos, grandiosas igrejas, lugares históricos, causavam melancolia e geravam saudade. Uma saudade tão grande que parecia fazer seu coração imortal apertar.

Imortalidade. Para que servia a vida eterna? Por que prolongar o sofrimento que já era demasiado longo? Não sabia responder. Vivia. Viveria para sempre, se não decidisse se jogar numa fogueira ou deixar-se permanecer sob o sol por horas a fio, até tostar. Estranhamente não queria fazê-lo. Não agora. A insaciável curiosidade o movia. Desejava assistir até onde os mortais chegariam. Quanto mais o mundo mudaria -se é que mudaria. Isso e tão somente isso o motivava a continuar existindo. Não havia quase nada a prendê-lo à vida.

Nalgum canto da cidade sentiu o cheiro de sangue sendo derramado. Não era como os assassinatos corriqueiros, nos quais o odor de sangue vinha misturado à pólvora ou qualquer outro odor estranho. Era apenas sangue. Se esvaindo. Sendo sugado. Podia ouvir o barulho sobrenatural. O rufar a passar de um corpo para o outro. A suave sucção. Batimentos cardíacos cada vez mais lentos.

"Não está longe. Deveria ir encontrá-lo?" -questionou-se mentalmente, o olhar vagando a esmo pela cidade acinzentada -"Melhor não. Até o final da noite ele virá ao meu encontro."

OooOoOooO

Permanecia acordado, apesar de não ter mais forças para fazer nada. Tinha os olhos fechados, pois eles se recusavam a abrir. Os cabelos ruivos espalhados na cama desfeita. Sorento saíra há pouco, após outra noite de desejo intenso e juras de amor desconcertantes. Fechara a porta com um ruído surdo, provavelmente a pensar que já dormia. Antes de sair, afagara seus cabelos com ternura e lhe murmurara palavras ao ouvido, dentre as quais se recordava apenas de "anjo", "amor" e "eternidade".

Desconhecia o motivo de se cansar tanto quando transava com o formoso loiro. Talvez a maneira como seu corpo reagia a cada mínimo toque do outro o desgastasse mais rapidamente. Ou mesmo a intensidade daquilo o exaurisse. Bom, ignorava os porquês de mal se agüentar em pé naquele momento. Algo que reparara e que realmente o impedia de se entregar ao convidativo sono era o fato de que Sorento parecera muito estranho essa noite. Parecia distraído. Preocupado seria a palavra correta. Sim, preocupado com alguma coisa. Mas com o quê?

Notara essa preocupação desde que ele adentrara seu quarto. Por diversas vezes tentou ler naqueles olhos de brilho rosado a resposta para tamanha apreensão, mas eles nada diziam! Refletiam apenas a si mesmo, o que se passava em seu olhar, não no dele. Como um espelho. Frustrou-se ante o insucesso. Seria o loiro sempre um enigma? Jamais conseguiria captar nada que se passasse em sua mente? Nem para essas perguntas tinha a resposta.

Suspirou, ainda de olhos fechados. Pensou em virar-se de lado, mas só o esforço de pensar já lhe cansava. Por fim, decidiu por as conjecturas de lado e mergulhar de vez nos convidativos braços de Morpheu.

OooOoOooO

Adentrou a antiga catedral sem sequer ser notado pelos poucos fiéis que ali se encontravam àquela hora da madrugada. Compreendia o motivo de gostarem tanto de ir a igreja. A sensação de paz e serenidade se fazia muito presente ali. As colunas, os vitrais, a perfeição dos detalhes, tudo aquilo sempre o fascinou.

Lembranças de quando era vivo afloraram em sua mente. Há séculos não surgiam com tamanha clareza e vivacidade.

Era um garotinho, com pouco mais de 10 anos. Já estava ajoelhado à beira daquele altar havia cerca de meia hora. Rezava fervorosamente para que não o encontrassem. E provavelmente não o encontrariam mesmo. Há muito seu pai desistira de ir à igreja. Freqüentava apenas para se mostrar "cristão" aos olhos dos outros. Desde a morte de sua mãe -uma morte horrível, decorrente de uma doença mal curada -seu pai não acreditava em mais nada. Deixava-o participar do coral somente porque a esposa, pouco antes de falecer, fizera-o jurar que deixaria o filho estudar canto e música, seu sonho desde que aprendera a falar.

Sorento gostava de igrejas. Elas passavam uma sensação de paz e ao mesmo tempo de respeito que deixavam-no maravilhado. Não gostava muito dos padres, tão severos e tristes. Sempre a falarem do demônio, de tentações e pecados. Mas àquela hora, se algum padre aparecesse, lhe rogaria ajuda. Outra vez seu pai bebera mais que o sensato e ameaçara espancá-lo por dizer que devia parar de beber. Que isso não era bom para sua saúde.

Olhou uma vez mais ao redor, despertando de seus devaneios. Quase vira-se ali, vivo, ajoelhado, implorando para que não o encontrassem e para que seu pai ficasse melhor. Afastou-se rapidamente, tonto por conta de recordações tão vívidas. Alcançou uma ruazinha silenciosa e escura. Sentiu aquela estonteante presença, que apenas um ser milenar poderia possuir, martelando em seus ouvidos.

Estava perto.

Muito perto.

Lançou, por cima do ombro, um último olhar à suntuosa catedral ao longe, antes de se retirar da lúgubre ruela, atraído pela familiaridade daquele poder. Percorreu todo um quarteirão; a cada passo a fonte daquela energia ficava mais e mais próxima. Finalmente localizou-o. Sentado placidamente na sacada de um luxuoso quarto de hotel.

Ele virou-se para encará-lo, seu rosto inexpressivo como uma escultura feita em mármore. Não conseguia desviar-se os orbes azuis, chamejantes. Tão azuis quanto os vira pela primeira vez, há cerca de dois séculos e meio atrás. Pareciam enxergar além de sua carcaça, que um dia fora mortal. E provavelmente viam mesmo. Não havia nada em sua natureza imortal que ele já não tivesse vislumbrado. Aproximou-se, cauteloso, e o outro lhe sorriu.

-Sabia que me encontraria... -comentou, a voz doce e suave a lhe arrancar um sorriso involuntário -Filho.

Sem conseguir se conter, sem medir as conseqüências, aproximou-se ainda mais, colando-se ao corpo gélido e rijo num abraço. Como podia sentir tamanha saudade se, há poucos minutos atrás, sequer ansiava por vê-lo outra vez? Passou algum tempo a contemplá-lo, sem dizer palavra. Não mudara em qualquer traço físico. Era exatamente o mesmo contra quem se rebelara há tanto e tanto tempo atrás, agora sem conseguir recordar o exato motivo de sua revolta. Os cabelos loiros, perfeitamente ondulados. O rosto jovem. O ar melancólico. O semblante sereno, inexpressivo até, mesmo quando atormentado ou completamente fora de si. De que maneira conseguira passar tanto tempo sem ver seu rosto, sem ouvir sua voz?

-Não era tão sentimental quando mais jovem -disse em tom plácido, afastando-se do abraço do mais novo, algum tempo depois.

-Os séculos nos forçam a mudar -respondeu Sorento, a sentar-se ao lado de seu criador -Deve saber disso melhor do que ninguém, Orpheu.

O filho das Eras fez um gesto afirmativo, o olhar mais melancólico do que nunca.

-Sim, mas o mundo muda mais rápido, assim como os mortais -murmurou -Se não tentamos seguir a correnteza e nos adaptamos, acabamos definhando e, por fim, sucumbindo ao desespero -os orbes azuis focalizaram o céu acinzentado e quase sem estrelas -Por isso tantos de nós acabam por dormir sob a terra... Se bem que existem mortais que também sucumbem a um desespero e um desejo de morte quase tão forte quanto o nosso.

Sorento encarou-o, intrigado. Conhecia Orpheu o suficiente para saber que suas palavras não eram vazias de significado. Que outro motivo o teria levado ali se não o de alertá-lo sobre algo que julgava de suma importância? Vampiros milenares não se deslocam por aí à toa. Porém, estava incerto quanto ao real significado daquelas palavras. Como se tivesse captado seus pensamentos -o que não seria de todo impossível, embora, teoricamente, seres noturnos e suas "crias" não sejam capazes de vislumbrar pensamentos entre si -o outro prosseguiu.

-Hoje, fortuitamente, encontrei-me com o mortal pelo qual estás enamorado -disse-lhe, sério -Foi breve, mas o suficiente para entrar em contato com sua alma e seus pensamentos.

-Compreende então porque o escolhi? -questionou-o, sentindo-se repentinamente ansioso -Porque o amo? Jamais vi outro mortal como ele, nem provei outro sangue tão doce.

Orpheu ergueu-se, as costas voltadas para o mais novo -Compreendo. Ele possui de fato alguma coisa que os demais não possuem... Mas isso apenas torna o fato de querê-lo um agravante.

-Por quê? -elevou o tom de voz, a levantar-se também -Por que não posso desejá-lo? Fazê-lo meu por toda eternidade? Nunca dei meu sangue a ninguém, por que não posso escolhê-lo para ser o primeiro e único?

-Sorento -suspirou, ainda a manter a face séria -Estou tentando aconselhá-lo, não se exalte. Por favor.

-Então mostre-me argumentos coerentes do porquê -replicou em tom mais baixo, mas não destituído de ira.

-Você tem convivido com ele. Julgo que já tenha notado quais os verdadeiros desejos daquela alma...

Afirmou. De fato, desde a noite em que o vira pela primeira vez, procurou descobrir cada vez mais sobre ele. Mergulhou em suas lembranças, viu seus sofrimentos, seus traumas, sentiu o profundo desejo de não prosseguir e afogou-se em seu desespero como se lhe pertencesse. Talvez, e apenas talvez, estivesse começando a compreender o que Orpheu lhe dizia.

-Então sabe porque não deve fazê-lo... -Sorento abrira a boca para replicar, mas o outro prosseguiu -Não pense que não compreendo suas motivações. Ele é apaixonante, sem dúvidas. Mas deseja mesmo torná-lo um de nós, sendo a morte seu desejo? Você sabe as conseqüências de se criar um vampiro. Sabe que muitas coisas podem ocorrer. Ele pode se rebelar contra você. Pode enlouquecer no transcorrer de seus primeiros dias como imortal. Pode te odiar com uma força tão poderosa quanto o amor que outrora nutria. Reflita, meu filho, é isso mesmo o que deseja? Seria capaz de sacrificá-lo para satisfazer a sua vontade?

Baixou os olhos, sem forças para contra-argumentar. Sabia de tudo aquilo, como praticamente todo vampiro que teve contato com os antigos, porém ouvi-lo diretamente dos lábios de seu criador... era como se cada palavra fosse uma pequena chama a torturá-lo. Queria tanto tê-lo, seu anjo ruivo, a seu lado, que sequer cogitou a hipótese de algo sair errado. A transição de mortal para imortal era complexa e delicada. Muitas davam errado. Por isso os vampiros eram tão seletivos em escolher seus futuros "filhos". Se ele mesmo, cuja transformação fora um sucesso, apesar de tudo, rebelou-se contra seu "pai", quem garantiria que Mime não faria o mesmo? Ou pior. Seria incapaz de prosseguir se o ruivo passasse a odiá-lo. Mas seria tampouco sem ele, vendo-o definhar e envelhecer, até a morte.

-Apenas não quero que sofra o que sofri -aquela voz antiga e melodiosa ecoou em seus ouvidos como uma carícia -Por isso vim -os olhos azuis perderam-se nos seus -Eu o amo demais para deixá-lo sofrer -sentiu os lábios gélidos prenderem-se aos seus num beijo. Retribuiu, embora a quantidade absurda de pensamentos o impedisse de raciocinar com clareza.

-Também te amo -permitiu-se responder com sinceridade, pouco depois -Mas não será como foi para você. Será diferente. Sei que vai.

-Você é quem sabe. Já lhe disse o que tinha para dizer. Não me cabe decidir. Apenas quero que reflita a respeito. Tenho que ir, entretanto, não estarei tão longe. Chame-me caso necessite. Virei o mais rápido que puder.

-Obrigado, Orpheu -disse em tom baixo, observando o outro se afastar rapidamente, com uma elegância que nenhum outro imortal possuía.

Ergueu o olhar para a paisagem à sua frente. Escuridão. O doentio tom acinzentado em todo lugar. Nem as estrelas se atreviam a brilhar diante de tanta melancolia. O vento gélido das últimas horas da madrugada perpassou seu corpo de forma suave. Andaria mais um pouco, até o amanhecer. Precisava urgentemente colocar as idéias no lugar e ponderar muito sobre o que Orpheu lhe dissera.

Continua...


Notas:

¹Succubus- Figura de aparência feminina que suga a energia dos homens por meio da relação sexual.

² Incubus - Equivalente masculino do succubus. (Fonte: O Livro dos Vampiros -A enciclopédia dos Mortos-Vivos, por J.Gordon Melton).


Comentários da autora:

Nem dá pra acreditar que esse capítulo realmente saiu. E tudo num período de mais ou menos duas semanas (o que demorou mesmo foi digitar #preguiiiça#). Simplesmente me veio a idéia e tudo surgiu. Legal, né?

Estou meio enferrujada em Saint Seiya, mas espero que este cap não tenha decepcionado (muito). #puppy eyes#

Mudando de assunto... o que acharam do Orpheu vampiro? Ele já estava para aparecer há séculos xDD (alguém se lembra da menção à seu nome no cap 1??) Então, cá está ele!! Não sei se pra ficar ou não, mas adorei escrever sobre ele. É outro que tem muita história pra contar...

E sobre a lembrança do Sorento? Ele com 10 aninhos? Gostariam de saber mais sobre o passado dele? Heim?

Sem dúvida, apesar de ser um completo fiasco como escritora de fics longas, essa é minha fic favorita x) A The Rage Beat só perde dela porque me dá dor de cabeça demaaaais. Falando nela, cara, preciso desenterra-la... Até andei escrevendo um pouquinho, mas falta 85 por cento pra formar de fato um capítulo. Bem, só estou falando tudo isso pra avisar que eu não a abandonei, tá?

Como sempre, sugestões, críticas construtivas, elogios e etc são muito bem vindos!!

Beijos especiais para: Lamari (vê se dá sinal de vida, moça, ou vou morrer de preocupação!!), Nuriko-Riki, Sara, Gustavo.Strawberry, Aquarius Chann e Chibi Psique.

Well that's all, folks!!

See you soon, I hope.

Tchauzinhooo!!

Mi-chan #A escritora de quinta mais lerda do mundo ¬¬#