1° Capítulo: Os Pevensie, Os Kirke

Várias aventuras aconteceram no mundo de Nárnia, mas essa é a que verdadeiramente deveria ser contada com mais ênfase. Pois ao deixar o mundo de Nárnia na primeira aventura, o professor Digory Kirke não poderia saber o que e como realmente ficou lá. E era a hora de uma antiga profecia se tornar realidade, se todos os Narnianos quisessem a boa e providente Nárnia de volta.

E essa história começa com três irmãos: Pedro, Lúcia e Edmundo. Os três tiveram bruscamente que sair de sua casa por causa da guerra, pois os ataques aéreos estavam aproximando-se de seu bairro. Sua mãe despediu-se cuidadosamente dos seus filhos, mesmo sabendo que eles ficariam bem sob os olhos do filho mais velho, Pedro. Um rapaz compenetrado, quieto, cuidadoso com seu irmão Edmundo e a pequena Lúcia. Eles ficaram arranjados para permanecerem na casa de um velho professor, em pleno campo, a quinze quilômetros de distância da estrada de ferro e a mais de três quilômetros da agência de correios mais próxima.

O professor era solteiro, e morava numa casa muito grande, com a Sra. MacReady, a governanta, três criadas, Eva, Margarida e Isabel, e uma sobrinha, Luanna. Era a única filha de sua irmã Helena, que infelizmente havia falecido de grave doença. O pai dela era militar como o pai dos Pevensie, mas de uma patente mais alta. A jovem estudava com o tio pela manhã, preparando-se para começar o último ano no colégio. Ele preparou a sobrinha para a chegada daqueles estranhos, para que ela fosse boa com eles, como sempre era, bem educada e fina.

A Sra. MacReady, por outro lado, era uma mulher com acidez em sua face e palavras. Não gostava de muito barulho, e acabava por assustar Luanna dizendo que garotas como ela deveriam ser treinadas para o casamento, como ela fora, e sua mãe, e sua avó.

Os garotos Pevensie, esse era o sobrenome de Pedro, Lúcia e Edmundo, chegaram rapidamente, numa viagem bastante longa e cansativa de trem. A Sra. MacReady foi pega-los na estação, longe o bastante da mansão. Edmundo resmungava, como ele sempre fazia, para as outras crianças enviadas com eles para outras famílias cuidarem até o fim da guerra. Lúcia tentava apaziguar as coisas dizendo que tinha o sentimento de que eles se divertiriam muito. Pedro também estava quieto, e resmungava como Edmundo, mas por outros motivos. Lamentava não está na guerra, como o pai. Faltava 2 anos para ficar maior de idade, e por isso não fora para os campos de batalha na Inglaterra.

Eva foi avisar Luanna em seu quarto que os novos moradores iriam chegar para o jantar, e ela deveria estar pronta para sentar com eles à mesa. Luanna era uma garota bem madura e consciente de seus pensamentos. Geralmente exprimia-os com intensidade quando a Sra. MacReady ameaçava dizer ao seu tio Kirke que ela fizera algo desagradável. Ela jamais saberia dizer se ela alguma vez o fizera, pois sabia perfeitamente que Kirke gostava dela. Luanna sempre achou que MacReady era bastante antiquada. As garotas agora eram mais modernas, tudo isso por causa da guerra. Atendeu Eva com um aceno, e vestiu seu vestido floral, todo anguloso e acinturado. A moda da guerra trazia roupas escuras, mas ela queria estar alegre para os demais visitantes.

Ao descer as escadas da grande mansão onde o tio morava, ouviu MacReady contar as regras aqueles novos estudantes.

- Não toque em nada. Não mexa nas velharias, nos livros antigos, nas estátuas, em todas as coisas que o Sr. Kirke não autorizou-os a tocar.

"Que você não autorizou!", Luanna dizia em pensamento, brava.

- Não aborreçam o Sr. Kirke por nada deste mundo. Ele aprecia a paz nessa casa, e pretendo deixá-la como está para evitar aborrecimentos com ele.

- Estão avisados. Agora preparem-se para o jantar. O Sr. Kirke espera-os na mesa com sua sobrinha.

Lúcia animou-se com a perspectiva de mais uma garota na mansão, para não ficar sozinha com os irmãos. Edmundo resmungou, e disse para Pedro: "Outra delas. A Lúcia já me deixa bastante maluco!". Pedro apenas sorriu. Seria bom alguém para estar com Lúcia e eles não terem que deixar a garota sozinha quando quisessem fazer coisas de homens.

Ao descerem, observaram o professor e sua sobrinha, à mesa de jantar. O professor era um velho de cabelo desgrenhado e branco, que lhe encobria a maior parte do rosto, além da cabeça. As crianças gostaram dele quase imediatamente; Lúcia, à princípio, teve medo dele, mas depois acostumou-se a sua figura carrancuda e estranha. Luanna observou os três atentamente, antes de apresentar-se sozinha, para desgosto de MacReady.

- Sou Luanna Brent-Kirke.

Lúcia sorriu docemente para a garota, e disse o seu nome, alegre. Edmundo balançou a cabeça afirmativamente, sem dizer o nome. Pedro olhou-a bem em seus olhos azuis, observando se eram mesmo da cor do céu ou da água do mar. Era uma jovem cuja beleza perceptível cativava qualquer olhar, com lábios vermelhos e um sorriso encantador e charmoso. Não seria bem companhia para Lúcia em brincadeiras. Seria mais apropriado à sua companhia. E, pronunciou em boa voz:

- Sou Pedro Pevensie. – Edmundo quase começou a rir e, para disfarçar, teve de fingir que estava assoando o nariz. – E esse engraçado é Edmundo Pevensie.

- Olá. – Luanna olhou sorrateira para ele.

Todos sentaram-se à mesa. O professor não falou nada, apenas observava as crianças por debaixo dos óculos. Luanna quis comentar várias coisas sobre a mansão para os novos moradores, mas MacReady estava olhando atentamente para ela para evitar que falasse algo. Os Pevensie comeram quietos, apenas Lúcia parecia excitada enquanto observava a mesa.

Edmundo parecia divertir-se com o irmão mais velho, que passara a derrubar coisas à mesa, sempre pedindo desculpas quando isso acontecia. Não demorou muito e ele mesmo derrubara a molheira, fazendo MacReady crispar a boca em desaprovação, e pedir a Eva que limpasse. Luanna não agüentou e riu do menino ali mesmo, seguida de Lúcia; as duas cruzaram os olhares risonhos, e sorriram ainda mais.

- Srta. Kirke! – MacReady pediu silêncio a mesa, resmungando para a senhorita.

Edmundo percebeu sua vingança pela face vermelha de raiva de Luanna, por MacReady tê-la corrigido na frente de Pedro. Ela e Edmundo trocaram olhares assassinos durantes alguns segundos, até que ela voltou seu olhar para Pedro. Este continuou a olhar para ela, e ambos ficaram se olhando por mais um longos segundos. O professor pronunciou-se:

- Então, sobre o que gostam de estudar?

Pedro desprendeu-se do olhar, e virou pro professor, tentando achar a resposta correta.

- Eu amo livros! Poderia ler todos aqueles que estão na biblioteca de entrada! – Lúcia falou, com excitação, e depois amedrontou-se com a face repreensiva de MacReady.

O professor apenas lançou-lhe um sorriso de agrado, e olhou para os garotos. Pedro então respondeu:

- Gosto de História. E Cálculos! – cruzou o olhar com a garota de novo, sorrindo. Ela respondeu-lhe, com outro olhar, e agora todos esperavam a resposta de Edmundo.

Este soltou um sorriso de desdém e falou:

- Prefiro Ciências.

O professor balançou a cabeça alguns segundos, e falou:

- Poderá ler o que quiser, minha querida! – disse isso olhando para Lúcia.

Eles finalizaram o jantar logo depois daquela frase. O professor levantou-se e ordenou que as crianças (Edmundo não gostou dessa frase) terminassem e subissem aos seus quartos para dormir. Encarregou MacReady de mostrar-lhes onde ficariam. Logo que o professor saiu, Luanna levantou-se, pedindo licença, e, olhando para Lúcia, falou:

- Venha comigo, Lúcia.

MacReady observou-a, e disse:

- A Srta. Pevensie ficará num quarto só para ela, Srta. Kirke!

- Apenas irei mostrar-lhe onde fica o meu quarto, para que ela possa ir lá quando quiser! – falou aquilo trincando os dentes.

Lúcia se levantou e acompanhou-a. As duas sorriram escondido dos garotos, por terem que aturar MacReady enquanto subiam as escadas.

Não demorou nem cinco minutos, e MacReady veio tirar Lúcia do quarto de Luanna, para ir para o seu.

Naquela noite, depois de se despedirem do professor, os meninos foram para o quarto de Lúcia, onde trocaram impressões:

– Tudo perfeito – disse Pedro. – Vai ser formidável. O velhinho parece que irá deixar a gente fazer o que quiser.

– É bem simpático – disse Lúcia.

– Acabem com isso! – falou Edmundo, com muito sono, mas fingindo que não, o que o tornava sempre mal-humorado. – Não fiquem falando desse jeito!

– Que jeito? – perguntou Pedro. – Além do mais, já era hora de você estar dormindo.

– Querendo falar feito papai. – disse Edmundo. — Que direito você tem de me mandar dormir? Vá dormir você, se quiser.

– É melhor irmos todos para a cama – disse Lúcia. – Vai haver confusão, se ouvirem a nossa conversa. – intermediou a discussão, como sempre fizera.

– Não vai, não – disse Pedro. – Este é o tipo de casa em que a gente pode fazer o que quer. E, além do mais, ninguém está nos ouvindo. É preciso andar quase dez minutos daqui até a sala de jantar, e há uma porção de escadas e corredores pelo caminho.

– Que barulho é esse? – perguntou Lúcia de repente.

Era a maior casa que ela já tinha visto. A idéia de corredores compridos e fileiras de portas que vão dar em salas vazias começava agora a lhe dar arrepios.

– Foi um passarinho, sua boba – disse Edmundo, sempre irritando-a.

– Foi uma coruja – disse Pedro. – Este lugar deve ser uma beleza para passarinhos. E agora pra cama! Amanhã vamos explorar tudo. Repararam nas montanhas do caminho? E os bosques? Aqui deve ter águia. Até veado. E falcão, com certeza.

– E raposas! – disse Edmundo.

– E coelhos! – disse Lúcia. - E podemos convidar a Srta. Kirke, e...

- A namorada do Pedro não vai! Podemos ir sozinhos! – Edmundo lançou um olhar venenoso.

- Edmundo! Se comporte. Não deveria tratar assim as pessoas! – Pedro pareceu um pouco envergonhado, mas determinado a reclamar com o irmão.

- Tenho culpa se você ficou todo bobão quando a viu? Ela nem é tão bonita assim... – disse, desgostoso.

- Eu achei ela muito bonita! Com aqueles cabelos loiros bem bonitos, e aqueles olhos azuis grandes...

Pedro sorriu com a descrição de Lúcia. Pegou Edmundo pelo braço e saiu do quarto da garota.