2° Capítulo: O Guarda-roupas
Mas, quando amanheceu, caía uma chuva enjoada, tão grossa que, da janela, quase não se viam as montanhas, nem os bosques, nem sequer o riacho do quintal.
– Tinha certeza de que ia chover! – disse Edmundo, parecendo chateado.
Haviam acabado de tomar café com o professor e sua sobrinha, e estavam na sala que lhes fora destinada, um aposento grande e sombrio, com quatro janelas. Os três esperavam a chuva passar para irem explorar o lado de fora.
- Srta... acho que não deveria... – eles escutavam MacReady falar alto com alguém no início do corredor.
O rosto de Luanna apareceu, um pouco zangada, mas feliz de encontrá-los. Pedro observou que ela parecia cada vez mais adulta, pois vestia-se diferente de Lúcia. Vestia-se como uma mulher, embora ele soubesse que provavelmente ela tinha a idade dele, ou um ano mais jovem. Alegrou-se em estar bem vestido aquela manhã, pois ela também estava, com seu vestido liso de um azul escuro, todo acentuado na cintura, e cheio de curvas no corpo dela.
- Ah... estão aqui, então! Posso ficar aqui também?
- Claro! – Lúcia foi a primeira a responder. Edmundo deu de ombros, mas resmungando. Pedro sorriu levemente, acenando com a cabeça.
MacReady pareceu insistir.
- Srta. Kirke... eu realmente acho que... francamente... poderia sair com a pequena Pevensie, mas ficar aqui com... – ela nem falou, mas dava pra ver que se referia a Pedro. Ele pigarreou, e Edmundo riu.
- Está tudo bem, Sra. MacReady! Meu tio disse que devo mostrar-lhes os livros.
MacReady deu-se por vencida, mas saiu irritada da sala, como se manter a jovem ali fosse um ultraje, inaceitável.
Ela se aproximou deles, enquanto Lúcia ainda sorria simpaticamente.
- E então? O que estão fazendo? – perguntou, encostando na poltrona que Lúcia estava sentada.
- Ah... estamos tentando achar algo para fazer agora e... – a pequena Pevensie respondeu, mas foi interrompida logo.
- Por que ela fica ao seu redor o tempo todo? – Pedro perguntou-lhe, mencionando a porta para dizer que era MacReady.
- Ah, ela acha realmente que pode acontecer algo horrível comigo se eu me sentar, me levantar, comer, ler, rabiscar, correr, dormir, andar, piscar, sorrir, falar... ah, principalmente falar... ela acha que damas não deveriam falar. – Luanna falou com voz esnobe, imitando MacReady.
Lúcia e Pedro sorriam, enquanto Edmundo olhava para a jovem sorridente.
- E você fala demais, não é? – disse ele, ríspido.
- Edmundo!! – Pedro repreendeu-o. Edmundo o olhou, irritado, pronto para iniciar uma discussão.
- Tudo bem! Não fui ofendida. É... falo! – ela voltou a sorrir para ele.
- Sua mãe mora aqui? – Lúcia perguntou-lhe.
- Bem, minha mãe morreu há muito tempo, e meu pai teve que ir para a guerra. Ele é militar, então não teve como cuidar de mim. Desde então, vivo com o meu tio.
Lúcia ficou bem triste, e todos fizeram um silêncio constrangedor. Luanna apenas modificou o olhar triste e continuou:
- Mas já faz tempo. Meu tio sempre cuidou de mim, e junto com ele veio MacReady. Ela tenta ser minha mãe, acho.
- Nossa mãe também está lá, no meio da guerra. E nosso pai também está na guarda. – Pedro falou. Lúcia olhou-o, e continuou por ele.
- É horrível. Preferiria que ela estive aqui conosco.
- Ela está segura lá, tenho certeza. – Pedro consolou-a.
- Mesmo que estive aqui, não teria nada para fazer. Olhe só essa chuva! – Edmundo ainda reclamava.
- Você resmunga o tempo todo, não é? – Luanna disse para ele, no mesmo tom que falara com ela minutos atrás.
Este a olhou, irritado. Pedro apenas confirmou com a cabeça, e os dois sorriram.
– Podemos explorar a casa.
Todos concordaram, e começaram a aventura. Luanna já conhecia tudo, mas deixou-os descobrir sozinhos todas as coisas. Era o tipo da casa que parece não ter fim, cheia de lugares surpreendentes. As primeiras portas que entreabriram davam para quartos desabitados, como aliás já esperavam. Mas não demoraram a encontrar um salão cheio de quadros, onde também acharam uma coleção de armaduras. Havia a seguir uma sala forrada de verde, com uma harpa encostada a um canto. Depois de terem descido três degraus e subido cinco, chegaram a um pequeno saguão com uma porta, que dava para uma varanda, e ainda para uma série de salas, todas cobertas de livros de alto a baixo. Os livros eram quase todos muito antigos e enormes.
- Por que você mesmo não foi à guerra? Já aparenta está na idade! – ela perguntou a Pedro. Este pigarreou um pouco, mas Edmundo o interrompeu, e respondeu por ele:
- Ah... ele não tem idade ainda. E ficou muito irritado com isso.
Pedro o olhou odioso, enquanto Lúcia sorriu, tentando acalmá-lo.
- É melhor ele estar aqui conosco! Não agüentaria muito tempo sem metade da família.
- Você não agüentaria tempo algum sem ninguém. – Edmundo continuou irritando.
Lúcia iria lhe responder, mas ficou calada para ver o que viria mais para explorar. Agora, espiavam uma sala onde só existia um imenso guarda-roupa, daqueles que têm um espelho na porta. Nada mais na sala, a não ser uma mosca morta no peitoril da janela.
– Aqui não tem nada! – disse Pedro.
- Meu tio ama aquele guarda-roupa. Já peguei desenhos dele em seu escritório. E ele vinha aqui, as vezes. – Luanna comentava enquanto todos saíam da sala.
Todos menos Lúcia. Para ela, valia a pena tentar abrir a porta do guarda-roupa, mesmo tendo quase certeza de que estava fechada à chave. Ficou assim muito admirada ao ver que se abriu facilmente, deixando cair duas bolinhas de naftalina.
Lá dentro viu dependurados compridos casacos de peles. Lúcia gostava muito do cheiro e do contato das peles. Pulou para dentro e se meteu entre os casacos, deixando que eles lhe afagassem o rosto. Não fechou a porta. Foi avançando cada vez mais e descobriu que havia uma segunda fila de casacos pendurada atrás da primeira. Ali já estava meio escuro, e ela estendia os braços, para não bater com a cara no fundo do móvel. Deu mais uns passos, esperando sempre tocar no fundo com as pontas dos dedos. Mas nada encontrava.
"Deve ser um guarda-roupa colossal!", pensou Lúcia, avançando ainda mais. De repente notou que estava pisando qualquer coisa que se desfazia debaixo de seus pés. Seriam outras bolinhas de naftalina? Abaixou-se para examinar com as mãos. Em vez de achar o fundo liso e duro do guarda-roupa, encontrou uma coisa macia e fria, que se esfarelava nos dedos. "É muito estranho", pensou, e deu mais um ou dois passos.
O que agora lhe roçava o rosto e as mãos não eram mais as peles macias, mas algo duro, áspero e que espetava.
– Ora essa! Parecem ramos de árvores!
Só então viu que havia uma luz em frente, não a dois palmos do nariz, onde deveria estar o fundo do guarda-roupa, mas lá longe. Caía-lhe em cima uma coisa leve e macia. Um minuto depois, percebeu que estava num bosque, à noite, e que havia neve sob os seus pés, enquanto outros flocos tombavam do ar.
Sentiu-se um pouco assustada, mas, ao mesmo tempo, excitada e cheia de curiosidade. Olhando para trás, lá no fundo, por entre os troncos sombrios das árvores, viu ainda a porta aberta do guarda-roupa e também distinguiu a sala vazia de onde havia saído. Naturalmente, deixara a porta aberta, porque bem sabia que é uma estupidez uma pessoa fechar-se num guarda-roupa. Lá longe ainda parecia divisar a luz do dia.
– Se alguma coisa não correr bem, posso perfeitamente voltar.
E ela começou a avançar devagar sobre a neve, sem se importar se só estava de vestidinho marrom por cima de um blusão de linho, pois a chuva tinha esfriado um pouco a mansão. Caminhou na direção da luz distante.
Dez minutos depois, chegou lá e viu que se tratava de um lampião. O que estaria fazendo um lampião no meio de um bosque? Lúcia pensava no que deveria fazer, quando ouviu uns pulinhos ligeiros e leves que vinham na sua direção. De repente, à luz do lampião, surgiu um tipo muito estranho.
Era um pouquinho mais alto do que Lúcia e levava uma sombrinha branca. Da cintura para cima parecia um homem, mas as pernas eram de bode (com pêlos pretos e acetinados) e, em vez de pés, tinha cascos de bode. Tinha também cauda, mas a princípio Lúcia não notou, pois aquela descansava elegantemente sobre o braço que segurava a sombrinha, para não se arrastar pela neve.
Trazia um cachecol vermelho de lã enrolado no pescoço. Sua pele também era meio avermelhada. A cara era estranha, mas simpática, com uma barbicha pontuda e cabelos frisados, de onde lhe saíam dois chifres, um de cada lado da testa. Na outra mão carregava vários embrulhos de papel pardo. Com todos aqueles pacotes e coberto de neve, parecia que acabava de fazer suas compras de Natal.
Era um fauno. Quando viu Lúcia, ficou tão espantado que deixou cair os embrulhos.
– Ora bolas! – exclamou o estranho.
– Boa noite – disse Lúcia. Mas o fauno estava tão ocupado em apanhar os embrulhos que nem respondeu. Quando terminou, fez-lhe uma ligeira reverência:
– Boa noite, boa noite. Desculpe, não quero bancar o intrometido, mas você é uma Filha de Eva? Ou estou enganado?
– Meu nome é Lúcia – disse ela, sem entender direito.
– Mas você é, desculpe, o que chamam de menina?
– Claro que sou uma menina – respondeu Lúcia.
– Então é de fato humana?
– Evidente que sou humana! – disse Lúcia, bastante admirada.
– É claro, é claro – disse o fauno. – Que besteira a minha! Mas eu nunca tinha visto um Filho de Adão ou uma Filha de Eva. Estou encantado. Isto é... – e aí parou, como se fosse dizer alguma coisa que não devia. – Encantado, encantado – continuou. – Meu nome é Tumnus.
– Muito prazer, Sr. Tumnus. Desculpe, mas o que é você?
- Eu? Eu sou um fauno! – ele respondeu, como se fosse óbvio. – Posso perguntar, Lúcia, Filha de Eva, como é que veio parar aqui em Nárnia?
– Nárnia? Que é isso?
– Aqui é a terra de Nárnia: tudo que está entre o lampião e o grande castelo de Cair Paravel, nos mares orientais. Você veio dos Bosques do Ocidente?
– Eu entrei pelo guarda-roupa da sala vazia.
– Ah! – disse o Sr. Tumnus, numa voz um tanto melancólica. – Se eu tivesse estudado mais geografia quando era um faunozinho, saberia alguma coisa sobre esses países estrangeiros. Agora é tarde.
– Mas não são países coisa nenhuma – disse Lúcia, quase desandando a rir. – É logo ali atrás, acho... não tenho certeza. Lá é verão.
– Mas em Nárnia é sempre inverno, e há muito tempo. Aliás, vamos apanhar um resfriado se ficarmos aqui conversando debaixo da neve. Filha de Eva das terras longínquas de Sala Vazia, onde reina o verão eterno da bela cidade de Guarda-Roupa, que tal se a gente tomasse uma xícara de chá?
– Muito obrigada, Sr. Tumnus, mas eu estava querendo voltar pra casa.
– É ali, virando aquela esquina – disse o fauno –, e lá tem uma lareira acesa, torradas, sardinha, bolo...
– É muita bondade de sua parte. Só que não posso demorar muito.
– Segure no meu braço, Filha de Eva. Assim a sombrinha dá para dois. O caminho é por aqui.
Foi assim que Lúcia começou a andar pelo bosque, de braço dado com aquela estranha criatura, como se fossem velhos amigos. Ela ainda era pequena para se pegar pensando em como um guarda-roupas a levara aquele mundo que aquele fauno chamara de Nárnia. Estava excitada demais com a aventura de conhecer aquele lugar, do que para se preocupar no que Pedro iria dizer se demorasse muito.
Ainda não tinham andado muito quando chegaram a um lugar em que o chão era mais áspero, e havia rochas por toda parte e pequenas colinas para subir e descer. Ao chegarem ao fundo de um valezinho, o Sr. Tumnus voltou-se de repente para o lado, indo direto ao encontro de uma rocha colossal. No último instante, Lúcia percebeu que ele a conduzia para a entrada de uma caverna.
Mal se acharam lá dentro, ela começou a piscar à vista de uma bela lareira acesa. O Sr. Tumnus tirou do fogo um tição e acendeu um fogareiro.
– Não demora – disse, pondo a chaleira no fogo.
Lúcia nunca estivera num lugar tão agradável. Era uma caverna quentinha e limpa, aberta numa rocha de tons avermelhados, com um tapete no chão e duas cadeirinhas. ("Uma para mim e outra para um amigo" – disse o Sr. Tumnus.) Havia ainda uma mesa, uma prateleira e uma chaminé por cima da lareira; e, dominando tudo, o retrato de um velho fauno de barba grisalha.
Num canto, uma porta. "O quarto do Sr. Tumnus", pensou Lúcia. Encostada à parede, uma estante cheia de livros, que ela ficou examinando enquanto ele preparava o chá. Os títulos eram esquisitos: A vida e as cartas de Sileno; As ninfas e as suas artes; Homens, monges e guardas do bosque; Estudo da lenda popular; É o homem um mito?
– Vamos, Filha de Eva.
Foi de fato um chá maravilhoso. Um ovo mal cozido para cada um, sardinhas fritas, torradas com manteiga, torradas com mel em seguida, e depois um bolo todo coberto de açúcar.
Quando Lúcia já não podia comer mais, o fauno começou a falar. Sabia histórias maravilhosas da vida na floresta. Falou das danças da meia-noite; contou como as ninfas, que vivem nas fontes, e as dríades, que vivem nos bosques, aparecem para dançar com os faunos. Falou das intermináveis caçadas ao Veado Branco, branco como leite, que, se for apanhado, permite que a pessoa realize todos os desejos. E dos banquetes, e dos bravos Anões Vermelhos procurando tesouros nas minas profundas e nas grutas. Depois falou do verão, quando os bosques eram verdes e o velho Sileno vinha visitá-los num jumento enorme, e, algumas vezes, até o próprio Baco. Então corria vinho nos riachos, em vez de água, e toda a floresta ficava em festa durante semanas.
– Infelizmente agora é sempre inverno – acrescentou o fauno, tristemente.
E, para distrair-se, tirou de uma caixinha uma flauta pequena e esquisita, que parecia feita de palha, e começou a tocar. A melodia dava a Lúcia vontade de rir e chorar, de dançar e dormir, tudo ao mesmo tempo. Passaram-se horas talvez, até que ela deu por si e exclamou, sobressaltada:
– Oh, Sr. Tumnus! Sinto muito ter de interrompê-lo... Além disso, gosto tanto dessa música! Mas, francamente, tenho de ir para casa. Não podia demorar mais do que uns minutinhos.
– Agora já não é possível – disse o fauno, deixando a flauta e abanando tristemente a cabeça.
– Não é possível?! – disse Lúcia dando um salto, toda assustada. – Por quê? Os outros devem estar preocupados. Tenho de ir para casa imediatamente.
Mas no instante seguinte ela perguntou:
– Que aconteceu, Sr. Tumnus? – pois os olhos castanhos do fauno estavam cheios de lágrimas, que começaram a correr-lhe pelo rosto até a ponta do nariz. Depois ele cobriu a cara com as mãos e começou a soluçar.
– Sr. Tumnus, Sr. Tumnus! – disse Lúcia, muito aflita. – Não chore. Que foi que aconteceu? Não se sente bem? Diga o que é.
Mas o fauno continuava a soluçar, como se tivesse o coração partido. E mesmo quando Lúcia lhe deu um abraço e lhe emprestou o lenço, ele não parou de soluçar. Depois, torceu com as mãos o lenço todo encharcado. Em poucos minutos, Lúcia quase que andava dentro d'água.
– Sr. Tumnus! – disse-lhe, fazendo-o estremecer. – Acabe com isso. Logo! Devia ter vergonha de estar fazendo esse papel: um fauno tão grande, tão bonito! Por que está chorando desse jeito?
– Oh! Oh! Estou chorando porque sou um fauno muito ruim.
– Não acho nada disso. Penso até que é um fauno muito bonzinho, o fauno mais simpático que já encontrei.
– Oh! Oh! Você não diria isso, se soubesse de tudo! Não, sou um fauno mau. Acho que nunca existiu um fauno tão ruim desde o começo do mundo.
– Mas, então, que foi que você fez?
– Estou pensando no meu velho pai – disse o Sr. Tumnus. – Aquele do retrato em cima da lareira. Ele nunca teria feito uma coisas dessas.
– Mas que coisa?
– A coisa que eu fiz! Trabalhar para a Feiticeira Branca. É o que eu faço! Estou a serviço da Feiticeira Branca.
– Mas quem é a Feiticeira Branca?
– Ora, é ela quem manda na terra de Nárnia. Por causa dela, aqui é sempre inverno. Sempre inverno e nunca Natal. Imagine só!
– Que horror! – exclamou Lúcia. – E que serviço você presta a ela?
– Aí é que está o pior de tudo – disse Tumnus, com um profundo suspiro. – Por causa dela, roubo crianças. É o que eu sou: ladrão de crianças! Olhe para mim, Filha de Eva: acredita que eu seja capaz de encontrar no bosque uma pobre criança inocente, que nunca fez mal a ninguém, fingir que sou muito amigo dela, convidá-la para vir à minha gruta, e depois fazer com que ela adormeça, para entregá-la à Feiticeira Branca?
– Não! Tenho a certeza de que o senhor nunca seria capaz de fazer isso.
– Pois eu faço, sim, senhora!
– Bem – disse Lúcia, devagarinho (porque ela queria ser justa, mas, ao mesmo tempo, não queria ferir muito o fauno) – bem, isso foi muito malfeito. Mas, já que está arrependido, tenho a certeza de que não fará de novo.
– Filha de Eva, não está entendendo? Ainda não fiz! Estou fazendo agora!
– O quê?! – gritou Lúcia, pálida.
– A criança é você. A ordem da Feiticeira Branca foi esta: se alguma vez eu visse um Filho de Adão ou uma Filha de Eva no bosque, deveria atraí-los e entregar para ela. Você foi a primeira que eu encontrei. Fingi que era muito seu amigo, convidei-a para tomar chá, esperando que você adormecesse; aí, eu iria contar para ela...
– Oh, não faça uma coisa dessas, Sr. Tumnus! Não! O senhor nunca deve fazer isso.
– Mas, nesse caso – e ele recomeçou a chorar –, ela vai descobrir tudo. E vai mandar que me cortem a cauda, serrem meus chifres, arranquem minha barba. Com a vara de condão é capaz de transformar meus bonitos cascos fendidos em horrendos cascos de cavalo. Mas, se estiver zangada mesmo, é capaz de me transformar em estátua de fauno. Vou ficar naquela casa horrível, até que os quatro tronos de Cair Paravel sejam ocupados... Sabe-se lá quando isso vai acontecer.
– Tenho muita pena, Sr. Tumnus, mas, por favor, deixe-me ir pra casa.
– Claro que sim. Tenho mesmo de deixar. Agora percebo. Não sabia como eram os humanos até encontrar você. Não iria entregá-la à feiticeira, principalmente agora, que a conheço. Vou acompanhá-la até o lampião. Você tem de achar o caminho até Sala Vazia e Guarda-Roupa.
– É claro que eu acho!
– Temos de ir bem caladinhos e escondidos. O bosque está cheio de espiões. Existem até árvores do lado dela!
O Sr. Tumnus abriu a sombrinha, deu o braço a Lúcia, e lá se foram pela neve. O caminho de volta não foi o mesmo que os levara à caverna do fauno; deslizaram silenciosamente, o mais depressa possível, sem dizerem nada, enquanto Tumnus escolhia sempre lugares mais escuros. Lúcia sentiu um alívio quando chegaram outra vez ao lampião.
– E agora, Filha de Eva, já sabe o caminho?
Lúcia olhou atentamente entre as árvores e conseguiu distinguir, à distância, um raio de luz que parecia ser a luz do dia.
– Sei; estou vendo o guarda-roupa.
– Então, já para casa. Espero que me perdoe por aquilo que eu desejava fazer...
– Está perdoado – disse Lúcia, apertando-lhe a mão com afeto. – Só espero que não lhe aconteça nada de mal por minha causa.
– Adeus, Filha de Eva. Posso ficar com o lenço?
– Pode, é claro.
E Lúcia correu na direção do distante raio de luz. E logo, em vez de ramos ásperos, passou a sentir os casacos e, em vez da neve desfazendo-se debaixo de seus pés, encontrou o chão de madeira. Depois, deu um salto para fora do guarda-roupa e se viu na mesma sala vazia do início de toda aquela aventura. Fechou bem a porta e olhou em redor, toda ofegante. Chovia ainda, e ela ouviu as vozes dos outros no corredor.
– Estou aqui! – gritou ela. – Estou aqui de volta! Tudo bem.
