3° Capítulo: Edmundo e a Sra. Branca
Lúcia saiu correndo da sala vazia e achou os três no corredor.
– Tudo bem, já voltei.
– Do que você está falando, Lúcia? – perguntou Luanna.
– O quê! – disse Lúcia, admirada. – Mas vocês não ficaram preocupados?
– Então, você andou escondida, hein? – disse Pedro. – Coitada da Lúcia! Ficou escondida e ninguém reparou! Você tem de ficar escondida mais tempo, se quiser que alguém se lembre de ir procurá-la.
– Mas eu estive fora muitas horas – disse Lúcia.
Os outros se entreolharam.
– Sua boba! – disse Edmundo, batendo de leve na cabeça. – Completamente boba!
– O que você está querendo dizer, Lu? – perguntou Pedro.
– Exatamente o que eu disse. Entrei no guarda-roupa logo depois do café. Fiquei fora muito tempo, tomei chá... Aconteceram muitas outras coisas.
– Não fique bancando a boboca, Lúcia – disse Edmundo. – Saímos da sala agora mesmo e você ainda estava lá.
– Ela não está bancando a boboca – disse Pedro. – Está imaginando uma história para se divertir, não é, Lúcia?
– Não é não, Pedro. É... é um guarda-roupa mágico. Lá dentro tem um bosque e está nevando. Tem um fauno e uma feiticeira. O nome da terra é Nárnia. Se quiserem, vamos ver.
Pedro e Luanna se entreolharam, um pouco assustados, mas curiosos. Edmundo a seguiu, pronto para irritá-la ainda mais.
Os dois mais velhos não sabiam o que pensar, mas Lúcia estava tão agitada que todos a acompanharam à sala. Ela correu à frente, abriu a porta do guarda-roupa e gritou:
– Vamos, entrem, vejam com os seus próprios olhos!
– Mas que pateta! – disse Edmundo, metendo a cabeça lá dentro e afastando os casacos. – É um guarda-roupa comum. Olhem: lá está o fundo.
Olharam todos, depois de afastarem os casacos, e viram – Lúcia também – um guarda-roupa muito comum. Não havia bosque, nem neve, apenas o interior de um guarda-roupa, com os cabides pendurados. Pedro entrou e bateu com os dedos, certificando-se da solidez da peça.
– Boa brincadeira, Lúcia – disse ao sair. – Você nos pregou uma boa peça. Quase acreditamos.
– Mas não é mentira coisa nenhuma! Palavra de honra! Há um minuto estava tudo diferente. Palavra que estava!
– Vamos, Lu – disse Pedro. – Você está exagerando; já se divertiu muito. Tenho certeza que é só sua imaginação!
Lúcia ficou vermelha até a raiz dos cabelos. Quis murmurar qualquer coisa e desatou a chorar. Luanna ficou penalizada por ela, e a abraçou. Ela então olhou para a moça e disse:
- Você acredita em mim, então?
Luanna, sem ter o que dizer, apenas olhou para Pedro. Este, tinha os olhos azuis brilhantes de preocupação. Lúcia, entendendo a resposta dela, continuou abraçada e chorando. Edmundo irritava do lado dela, risonho pela brincadeira.
- Ei... deixe de ser tão enjoado! – Luanna falou para ele, que resmungou em resposta.
Aquela noite, depois do jantar, eles estudaram História com o Professor. Lúcia ainda estava muito infeliz com o vexame do guarda-roupas. Logo que acabaram a aula, eles se retiraram para ir dormir. Luanna aproximou-se de Pedro no corredor para os quartos e, tocando-lhe a mão, o fez parar. Teve um leve arrepio no estômago, corando facilmente. Ele olhou-a mais uma vez, e então disse:
- Sei que está preocupada com Lúcia. Mas ela ficará bem.
- Tem certeza? Ela me parecia tão convincente. E estava tão triste durante o almoço e o jantar!
- Ela nunca foi de inventar mentiras... então deve ter sido uma brincadeira que ela quis pregar em nós... Lúcia tem uma imaginação muito grande. – ele sorriu.
- Então tudo bem. Se você acha que é isso...
Ele sorriu-lhe novamente. Os dois coraram, e foram cada qual para seus quartos.
Naquela noite, Lúcia desatara a chorar no quarto. Sentia-se muito infeliz. Podia resolver a questão num instante, bastando declarar que tinha inventado aquela história. Mas ela gostava de falar a verdade, e tinha certeza de que não estava enganada. Os outros, pensando que era tudo mentira, e mentira boba, davam-lhe um grande desgosto. Os dois mais velhos faziam isso sem querer, mas Edmundo costumava bancar o mau, e estava sendo mau daquela vez. Zombava de Lúcia, chateando-a o tempo todo, perguntando se ela não tinha achado outras terras misteriosas nos numerosos armários que existiam por toda a casa.
No dia seguinte, eles tinham pedido ao professor permissão para caminhar do lado de fora. Pedro perguntou a Sra. MacReady se Luanna poderia ir também, e esta lhe deu um resmungão em resposta. Como ele estava acostumado a agüentar Edmundo, esperou que ela saísse dos aposentos do tio, e a convidou também.
- Vamos aos jardins da casa? Os outros querem conhecer, e como chovia ontem, adiamos para hoje!
- Oh, sim! - ela ficara bem feliz com o convite. Sorriu para ele, causando desgosto em MacReady.
A velhota, sem perder tempo, entrou nos aposentos do professor Kirke, e resmungou:
- Não acho que seja confiável deixar a Srta. Kirke caminhando pelas terras da mansão com esse jovem.
Os dois pararam à porta para escutar. Luanna estava risonha, e isso deixava Pedro mais a vontade, pois ficava incomodado em saber que era a causa da Sra. MacReady resmungar com Luanna o tempo todo.
O professor apenas respondeu:
- Deixe-a ir, Sra. MacReady. O jovem Pevensie é confiável. Conheci muitos jovenzinhos, mas este está me parecendo confiável e responsável.
- Mas a Srta. Kirke... – MacReady parecia ainda cheia de desgostos.
- Trouxe minha sobrinha para cá porque tenho certeza que devo cuidar dela, pois é minha família e me faz companhia, que eu aprecio muito. Estimo que ela já é grande o suficiente para escolher seus caminhos. Sua mãe, minha estimada irmã, a ensinou bem, o quanto pôde. E o seu pai, bem, este pôde lhe dar educação o bastante para saber escolher o certo ao invés do errado.
Luanna fez que sim com a cabeça, e os dois iam sair, quando escutaram as palavras do Sr. Kirke:
- Quanto aos jovens, estes me parecem ter um grande propósito aqui, que eu não sei qual é, mas me pego a pensar várias vezes. E devo dizer que este propósito me parece ter relação com minha sobrinha.
Luanna fez cara de pergunta, enquanto Pedro também pegou-se pensando naquilo. O que ele queria dizer? Os dois, sem demorar muito, pois escutavam MacReady resmungar enquanto saía, seguiram para fora da mansão. Pedro continuou pensando em como eles teriam algum propósito na mansão. Edmundo e Lúcia já esperavam por ele, e este já foi reclamando:
- Ah... então a demora era por causa da sua namorada!
Pedro corou, e ficou com a face muito odiosa para o irmão. Luanna parecia achar engraçado. Jogou uma cesta de palha para Edmundo e disse:
- Ei, cresça, e leve isto para colhermos algumas frutas!
Ele olhou raivoso, mas acolheu a cesta e seguiu acompanhando Pedro. Luanna foi com Lúcia na frente, esta ainda muito triste. Luanna comentou que seu vestidinho amarelo era muito bonito, mas ela somente lhe deu um tímido obrigada. Por todo o caminho eles admiraram os grandes jardins e as grandes árvores do terreno do Professor Kirke. Lúcia achou que deveria estar animada, mas a todo tempo lembrava-se do guarda-roupas, e aquilo lhe causava uma tristeza enorme.
Luanna e Edmundo colhiam algumas frutas pelo caminho, este sempre reclamando por ela não alcançar os galhos altos com um pulo, e ela alegando que estava vestindo uma saia (cinza e muito bonita), que poderia subir-lhe nas pernas com o salto. Pedro, por sua vez, tentava dissuadir Lúcia a sorrir um pouco e se animar. O tempo estava lindo.
Chegaram no riacho com verdes gramados ao redor, e árvores que tinha galhos que iam até o deque de madeira. Edmundo e Pedro correram e subiram nas árvores de galhos e tronco grande, enquanto Luanna chamava Lúcia para irem colher flores no bosque. A pequena continuava chateada, e apenas sentou-se no deque, que fora construído para admirar o riacho, solitária. Luanna voltou-se para os garotos, pensativa.
- Ei, pirralho. – referiu-se a Edmundo. – Não quer ir comigo colher flores? Podemos fazer as pazes e sermos pessoas civilizadas. – ela perguntou, sorridente. Este a olhou com raiva, e sorriu, provocando-a.
- Se seu namorado não se importar... – ele irritou Pedro. Este estava quase empurrando-o árvore abaixo quando ela falou:
- Ele não se importará! Você vai comigo apenas para levar a cesta, que vai voltar muito pesada. Além disso, corre o risco de você se perder no bosque, e ele ficará muito feliz se me livrar de você pra ele!
Pedro sorriu para ela, e olhou para Edmundo. Finalmente alguém que poderia irritá-lo tão bem o quanto ele fazia com os demais.
- Por que não o chama para ir com você? Assim, vocês podem beijar-se a vontade longe de nós!
Dessa vez Luanna corou. Pedro, ao vê-la daquele jeito, reclamou com o irmão:
- Ed!!! Seja mais respeitoso!!!
Ela fez menção de voltar-se para onde Lúcia estava, mas Edmundo já pulava da árvore e recolhia a cesta das mãos dela.
- Vamos logo!!! Me mostre esse tal desse bosque! – resmungou para ela.
Foi andando na frente, enquanto Pedro a parou:
- Desculpe-me por ele. Ele é tão mal-educado as vezes! Mas não o leve a mal... tentarei corrigi-lo durante esse tempo aqui.
- Ora... tudo bem! Ele é meio birrento, mas é porque não tem nada melhor para fazer. Não o deixo atingir-me porque sei como lidar com crianças como ele. Alguns dos convidados do meu tio são assim.
- Vem muitos jovens para cá? – Pedro perguntou, um tanto ciumento.
- Alguns vêm para visitar a mansão. E muitos destes eram insuportáveis. Não sou de levar desaforo para casa, por isso corto logo qualquer piada para cima de mim. As crianças são diferentes, elas se divertem comigo. – e, olhando para Lúcia, disse: - Cuide da pequena Lúcia, está bem? Faça com que ela venha colher flores também. Acho que ela vai amar os jardins floridos do meu tio.
E, dizendo isso, seguiu Edmundo, que já estava na frente, tentando achar o caminho para os jardins sozinho, sempre resmungando. Pedro a olhou ir embora, e depois seguiu para onde Lúcia estava.
O passeio não durou nem algumas horas, e já estava chovendo novamente. Eles voltaram para mansão correndo, e bastou entrarem em casa para os primeiros pingos caírem, grossos.
Naquela tarde, como o tempo continuasse ruim, resolveram, para ver se Lúcia se alegrava, brincar de esconde-esconde. Luanna era o pegador e, mal se dispersaram para se esconder, Lúcia dirigiu-se à sala do guarda-roupa. Não queria esconder-se lá dentro, pois isso certamente faria com que os outros voltassem a se lembrar daquele assunto desagradável. Mas queria pelo menos dar uma espiada, porque, naquela altura, ela própria já começava a se perguntar se Nárnia e o fauno não passavam de um sonho. A casa era tão grande e complicada, tão cheia de esconderijos, que ela pensou que teria tempo de dar uma espiada e se esconder em outro lugar. Mas, mal tinha se aproximado, ouviu passos no corredor, e não teve outro remédio: pulou para dentro do guarda-roupa e segurou a porta, pois sabia muito bem que era uma idiotice alguém fechar-se num guarda-roupa, mesmo num guarda-roupa mágico.
Eram os passos de Edmundo, que entrou na sala ainda a tempo de ver Lúcia sumir dentro do móvel. Sem hesitar, resolveu entrar também – não porque o considerasse um bom esconderijo, mas porque tinha vontade de continuar a chateá-la com o seu mundo imaginário. Abriu a porta. Os casacos estavam dependurados como sempre, cheirando a naftalina; tudo era escuridão e silêncio, e não havia vestígios de Lúcia. "Ela pensa que sou a Luanna e que vim pegá-la, por isso está quietinha lá no fundo" – pensou Edmundo.
Ele pulou para dentro e fechou a porta, esquecendo-se de que estava fazendo uma grande bobagem. Começou a procurar Lúcia no escuro. Ficou muito admirado quando não a encontrou. Resolveu abrir de novo a porta para deixar entrar luz. Mas também não foi capaz de dar com a porta. Nada satisfeito, começou a andar desnorteado, às apalpadelas, em todas as direções. Chegou a gritar: "Lúcia! Lu! Onde você está? Sei que está aí, sua boba!".
Mas ficou sem resposta. Notou até que a própria voz tinha um som curioso – não o som que é de esperar dentro de um armário, mas um som ao ar livre. Observou também que de repente estava sentindo frio; depois viu uma luz.
– Graças a Deus! A porta se abriu sozinha.
Esquecendo-se completamente de Lúcia, começou a andar em direção à luz, julgando ser a porta do guarda-roupa. Mas, em vez de dar na sala vazia, ficou espantado ao passar da sombra de umas árvores grossas para uma clareira no meio de um bosque. Sentia sob os pés a neve dura, e havia neve também nos ramos. O céu era azul-pálido, céu de uma bela manhã de inverno. Na frente dele, entre os troncos, o sol nascia, vermelho e brilhante. Poderia ser um dos bosques do professor Kirke, se não estivesse todo pintado de branco, pela neve. Pairava uma calma enorme, como se ele fosse o único ser vivo naquela terra desconhecida. Nem sequer um passarinho ou um esquilo por entre as árvores. E o bosque estendia-se a perder de vista em todas as direções. Edmundo tiritava de frio. Lembrou-se então de que andava à procura de Lúcia. Lembrou-se também de que a tratara mal por causa desse país imaginário, que de imaginário nada tinha. Talvez ela estivesse ali por perto. Começou a gritar:
– Lúcia! Lúcia! Estou aqui também, Edmundo!
Mas ficou sem resposta. "Deve estar zangada comigo" – pensou. E embora não lhe agradasse muito reconhecer que procedera mal, também não lhe agradava nada estar sozinho naquele lugar estranho, deserto e frio. Gritou de novo:
– Lu! Estou arrependido por não ter acreditado. Você tinha razão. Pode aparecer. Vamos fazer as pazes.
Mas para si mesmo dizia: "Isso é mesmo coisa de menina. Embirrada num canto por aí, não querendo aceitar minhas desculpas." Olhou mais uma vez em volta e concluiu que o lugar não lhe despertava muita simpatia. Quase decidido a voltar, ouviu lá longe, no bosque, um tilintar de sinetas. Escutou com atenção. O som ia se aproximando cada vez mais, até que surgiu um trenó, puxado por duas renas.
As renas eram do tamanho de um cavalinho, de pêlo tão branco quanto a neve. Os chifres eram dourados e brilhavam ao sol. Os arreios, de couro escarlate, estavam cheios de sinetas. Conduzindo as renas, sentado no trenó, ia um anão forte que, em pé, não devia ter nem um metro de altura. Vestia peles de urso polar e trazia um capuz vermelho, de cuja ponta pendia uma grande borla dourada; uma comprida barba cobria-lhe os joelhos, servindo-lhe de manta. Atrás dele, em lugar muito mais importante, no meio do trenó, ia sentada uma criatura muitíssimo diferente: uma grande dama, a maior mulher que Edmundo já vira. Estava também envolta em peles brancas até o pescoço, e trazia, na mão direita, uma longa varinha dourada, e uma coroa de ouro na cabeça. Seu rosto era branco (não apenas claro), branco como a neve, como papel, como açúcar. A boca se destacava, vermelhíssima. Era, apesar de tudo, um belo rosto, mas orgulhoso, frio, duro...
Como era bonito o trenó aproximando-se, as sinetas tilintando, o anão estalando o chicote, a neve saltando dos lados!
– Alto! – disse a dama, e o anão deu um puxão tão forte que as renas quase caíram sentadas. Depois ficaram mordendo os freios, arquejantes. No ar gelado, o bafo que lhes saía das narinas parecia fumaça.
– Ei, você! O que é você? – perguntou a dama, cravando os olhos em Edmundo.
– Eu... eu... meu nome é Edmundo — respondeu ele, meio atrapalhado. Não estava gostando nada do jeito dela. A dama franziu as sobrancelhas:
– É assim que você fala a uma rainha?
– Perdão, Majestade, mas eu não sabia.
– Não conhece a rainha de Nárnia!? – exclamou ela, mais severa. – Pois vai passar a me conhecer daqui por diante. Repito: o que é você?
– Queira desculpar, Majestade. Não estou sabendo o que a senhora quer dizer. Eu ainda estou na escola... pelo menos estava... agora estou de férias.
