5° Capítulo: A Lógica de Kirke

Na manhã seguinte, os dois chegaram à porta do escritório do professor.

– Depois escreverei a papai, se o professor achar que Lúcia não está boa da cabeça; não podemos fazer mais do que isso.

– Entrem – disse o professor, ao ouvir as pancadas na porta.

Ofereceu a Pedro a cadeira e disse que estava às ordens. Luanna sentou-se do lado dele, não sem antes cumprimentá-lo com um beijo no rosto.

O Professor escutou Pedro falando da terra imaginária de Lúcia, e acompanhou Luanna contando o quão triste a pequena Pevensie se encontrava pela casa. Ouviu-os com toda a atenção, dedos cruzados, sem interrompê-los até o fim da história. Ficou calado durante muito tempo. Tossiu para limpar a garganta. E disse a coisa que eles menos podiam esperar:

– E quem disse que a história não é verdadeira?

– Oh, mas acontece... – começou Luanna; e parou por aí. Via-se pela cara do velho que ele estava mesmo falando sério. Olhou para ele e disse: – Mas Edmundo confessou que eles estavam fingindo.

– Ora, aí está uma coisa – tornou o professor – que precisa ser considerada: e com muitíssima atenção. Por exemplo, se me desculpe a pergunta, meu jovem: qual deles, pela sua experiência, é mais digno de crédito, o irmão ou a irmã? Isto é, quem fala sempre a verdade?

– Isto é que é gozado, professor – respondeu Pedro. – Até agora, eu só posso dizer que é a Lúcia.

– E que acha você, minha querida Luanna?

– Bem, penso igual ao Pedro, mas aquela história do bosque e do fauno não pode ser verdade.

– É o que a gente nunca sabe – disse o professor. – Não se deve acusar de mentirosa uma pessoa que sempre falou a verdade; é mesmo uma coisa séria, muito séria.

– Mas o nosso medo não é que ela esteja mentindo – replicou Luanna. – Chegamos a pensar se ela não está doente da cabeça...

– Acham que ela está louca? – perguntou, calmamente, o professor. – Podem ficar descansados: basta olhar para ela, ouvi-la um instante para ver que não está louca.

– Mas, então... – disse Luanna, e calou-se. Pedro ouvia-o falar daquele jeito, e fitava Luanna com o mesmo rosto de pergunta. Ela sempre soube que o tio era sábio e poderia dizer algo que os ajudasse, mas ouvi-lo dizendo que Lúcia pode estar certa foi um tanto quanto surpreendente.

– Lógica! – disse o professor para si mesmo. – Por que não ensinam mais lógica nas escolas? – E dirigindo-se aos jovens declarou: – Só há três possibilidades: ou Lúcia está mentindo; ou está louca; ou está falando a verdade. Ora, vocês sabem que ela não costuma mentir, e é evidente que não está louca. Por isso, enquanto não houver provas em contrário, temos de admitir que está falando a verdade.

Luanna olhou para ele muito séria: o tio não estava brincando.

– Mas como é que pode ser verdade, professor? – Pedro perguntou-lhe.

– E por que você duvida?

– Bem – disse Pedro –, então, se é verdade, por que não encontramos sempre o tal país fantástico ao abrir a porta do guarda-roupa? Não havia nada lá quando olhamos; nem Lúcia teve coragem de fingir que havia.

– E isso prova o quê? – perguntou o professor.

– Ora, ora, se as coisas são verdadeiras, estão sempre onde devem estar.

– Tem certeza, Pedro?

Ele não foi capaz de responder.

– Mas ela não teve tempo! – disse Luanna. – Mesmo que esse país existisse, Lúcia não teve tempo de ir lá. Veio correndo atrás de nós, logo que saímos da sala. Demorou menos de um minuto, e ela diz que passou horas lá.

– Pois é exatamente isso que me faz acreditar na história – disse o professor. – Se, de fato, existe nesta casa uma porta aberta para um outro mundo (e devo dizer que esta casa é muito estranha, e eu mesmo mal a conheço), e se Lúcia conseguiu chegar a esse mundo, não ficaria nada admirado se ela houvesse encontrado lá um tempo diferente; assim, podia muito bem acontecer que, embora ela ficasse muito tempo lá, a gente não percebesse isso no tempo do nosso mundo. Lúcia, na idade dela, não deve saber disso. Logo, se estivesse fingindo, deveria ficar escondida durante mais tempo, para depois contar a mentira.

Os dois jovens se olharam, surpresos. O professor falava sério, e tinha fundamentos. Mas não poderia ser verdade que ele estivesse falando de um mundo que se via através de um guarda-roupa, podia?

– Mas, professor, acha mesmo que pode existir outro mundo, em qualquer lugar, tão pertinho? Será possível? – perguntou Pedro.

– É muito possível – disse o professor, tirando os óculos para limpá-los. – Eu gostaria de saber o que estas crianças aprendem na escola! – murmurou para si mesmo.

– Mas o que devemos fazer no momento? – perguntou Luanna, que sentia a conversa sair dos eixos.

– Minha querida Luanna – disse o professor, fitando ambos com um olhar penetrante –, há um plano ainda não sugerido por ninguém, e que talvez valha a pena experimentar.

– Qual?

– Cada um trate de sua própria vida.

E assim terminou a conversa. Daí por diante, Lúcia sentiu que o ambiente melhorava. Pedro via-se na obrigação de impedir as zombarias de Edmundo. E ninguém tinha vontade de tocar no assunto do guarda-roupa. Durante algum tempo foi como se as aventuras tivessem chegado a um fim. Mas não foi o que aconteceu.

A casa do professor – da qual ele mesmo tão pouco sabia – era tão antiga e famosa que vinha gente de toda parte para visitá-la. Era dessas que estão indicadas nos guias turísticos e até nos livros de História. E havia motivo para isso, pois corriam sobre ela muitas lendas, algumas mais estranhas do que o caso que estou contando. Quando apareciam turistas, o professor dava licença para verem a casa, e a Sra. MacReady servia-lhes de guia, contando o que sabia dos quadros, das armaduras e dos livros raros da biblioteca. A governanta não gostava quando também vinham crianças, e as deixava o tempo todo com Luanna. E também não admitia que ninguém a interrompesse enquanto falava como um papagaio.

Juntaram-se algumas pessoas para visitar a mansão, e ela os acompanhava desde os jardins. Havia deixado o recado para os Pevensie que estes também participassem da recepção na porta da frente junto com Luanna e as serviçais da mansão, mas que poderiam sair do caminho dela enquanto estivesse mostrando a casa aos visitantes.

– Como se a gente fosse perder tempo andando atrás dum bando de gente! – resmungou Edmundo a Pedro, baixinho. Os dois bem vestidos, Edmundo de bermuda com meias longas no sapato e camisa social branca listrada por baixo de um suéter de linho azul-petróleo. Já Pedro vinha de calça também azul-petróleo bem escura e uma camisa cinza social.

Lúcia e Luanna desceram juntas. As duas muito bonitas, Lúcia de vestidinho branco e bolinhas mínimas azuis, de tecido bem leve, junto com um suéter de linho verde escuro, com os cabelos negros caindo de lado davam um ar bem angelical; e Luanna vinha de saia azul até o joelho, e uma blusa também azul escura que descia pela cintura curvada e angulosa, com mangas até o cotovelo e decote pequeno em V. Os cabelos loiros estavam presos apenas na frente, deixando o rosto suave bem a vista.

As duas foram muito elogiadas pelas serviçais, e, sorridentes, se portaram ao lado de Pedro e Edmundo. Este resmungou para Luanna:

- Não estão tão especiais assim!

- Obrigada, Edmundo, você também está formidável. – ela lhe sorriu, passando as mãos nos cabelos negros dele, como quem cumprimenta uma criança.

- Eu acho que esteja muito bonita, Lúcia! – Pedro logo corrigiu. – E você também, Srta. Kirke!

Esta lhe sorriu abertamente, ouvindo o resmungo de Edmundo:

- Babão!

A Sra. MacReady entrou com os turistas para verem a casa. Dentre eles alguns rapazes que deveriam ter a idade de Pedro e Luanna. Estes perceberam a bonita jovem da casa, e, ao entrarem, foram cumprimentando-a.

- Bom dia, Srta.

- Bom dia. – Luanna respondia, sempre cordial e simpática.

Pedro pareceu um pouco irritado, para a satisfação de Edmundo. Eram dois rapazotes que assim como ele, deveriam estar loucos para irem pra a guerra.

- A Srta. mora aqui?

- Sim. Sou sobrinha do Professor Kirke.

- Oh. Pois bem. Vejo que a visita à velha casa nos trouxe algum proveito. – disseram, um olhando para o outro.

- Espero que possam seguir atentamente a Sra. MacReady para conhecer a casa! – Pedro se intrometeu, tentando fazer-se presente ali.

Os dois apenas o olharam, e, tendo Pedro uma face muito séria, se afastaram rapidamente. Luanna o olhou, preparada para agradecer.

- Bem, que posso dizer? Eu estava com a cortada na ponta da língua! – ela disse, divertindo-se. – Obrigada, Pedro.

A governanta levou os visitantes para começarem pelo andar de baixo, então os jovens subiram as escadas perguntando-se o que tinham que fazer quando eles subissem.

- Vou para a sala de armaduras. Queria fuçar algumas! – Edmundo adiantou-se.

- Não pode tocar nas armaduras! – Pedro tentou intervir.

- Deixe-o ir, ele na certa derrubará alguma, e MacReady irá adverti-lo com seus safanões. – Luanna falou.

- Não quero velhota nenhuma me batendo! – ele resmungou.

- Então vamos... vou com você!

- Eu e Lúcia estaremos na sala ao lado, olhando as pinturas. Tem umas que quero mostrar a ela. – Luanna puxou a pequena Pevensie novamente para seu lado.

Foi assim que as aventuras começaram outra vez.

Algum tempo depois, estavam Pedro e Edmundo contemplando as armaduras ainda, os dois doidos para desmontá-las, quando as duas meninas entraram na sala como um vendaval:

– Atenção! Aí vem a governanta com um batalhão atrás dela! – Lúcia anunciou.

– Ordinário, marche! – comandou Pedro, em brincadeira. E fugiram pela porta do fundo. Mal tinham penetrado na sala verde, e depois na biblioteca, ouviram vozes mais adiante, pois a governanta havia conduzido os turistas pela escada dos fundos. Assim, ou porque já estivessem meio avoados, ou porque MacReady estivesse de pé atrás deles, ou ainda por alguma força mágica que os impelia para Nárnia – o certo é que se sentiram perseguidos em toda parte, até que Luanna exclamou:

– Ora! Vamos para a sala do guarda-roupa até eles passarem. Lá não vai ninguém.

Mal tinham acabado de entrar, ouviram vozes no corredor, e viram a maçaneta da porta mover-se.

- O que ela dirá se nos vir aqui? Vai provavelmente morrer se souber que estávamos sozinhos numa sala fechada. Ainda mais com as visitas! – Luanna olhava para Pedro, em alerta.

– Depressa! – disse Pedro. – Não temos outro lugar. – E abriu de repente o guarda-roupa. Amontoaram-se os quatro lá dentro, acostando-se ofegantes no escuro. Pedro segurou a porta encostada, mas não a fechou completamente: como todas as pessoas de juízo, sabia muito bem que nunca devemos nos fechar dentro de um guarda-roupa.

– Deus permita que a MacReady despache logo aquela gente! – falou Luanna. – Estou toda encolhida!

Pareceu sentir alguma coisa segurando-a nas mãos. Era Pedro. Se ele pudesse vê-la, estaria observando seu rosto ficar escarlate em alguns segundos.

- Venha por aqui! Este guarda-roupa parece ser enorme! – ele lhe disse.

– Que cheiro horrível de cânfora! – exclamou Edmundo.

– Deve ser dos bolsos dos casacos, cheios de naftalina, para espantar traças – disse Luanna.

– Tem algo aqui me picando nas costas – disse Pedro.

– Não está ficando frio? – perguntou Luanna.

– E muito – disse Pedro. – E que umidade! Que diabo de lugar é este? Estou sentindo alguma coisa molhada no chão. E está cada vez mais úmido.

Foi com dificuldade que Pedro conseguiu segurar-se. Edmundo disse:

– Vamos sair, eles já foram embora.

– Oh! Oh! – gritou Luanna de repente. Todos perguntaram o que tinha acontecido. Pedro foi o primeiro a tentar segura-la pelas mãos, mas ela mesma se desprendeu dele.

– Estou encostada numa árvore – disse ela. – Olhem! Lá longe está clareando.

– Puxa vida, é mesmo! – disse Pedro. – E olhem pra lá... e pra lá... tudo cheio de árvores! E esta coisa molhada é neve. Eu acho... eu... acredito que estamos no bosque da Lúcia.

- Não se preocupe! Tenho certeza que é só sua imaginação!! – Lúcia brincou com eles.

- Não pode ser!!! Uma terra de faunos!?? – Luanna sorriu, lembrando-se dos livros de lenda.

- Você pode acreditar nisso!!?? – Pedro a olhou, e os dois seguiram para "fora" do guarda-roupa.

Já não podia haver a menor dúvida. Ficaram os quatro, imóveis, piscando na luz fria da manhã de inverno. Atrás deles, os casacos dependurados nos cabides, e, na frente, as árvores cobertas de neve. Pedro virou-se para Lúcia:

– Desculpe se eu não acreditei. Quer fazer as pazes?

– É claro. – ela estava radiante.

– E agora, que vamos fazer? – perguntou Luanna, excitada. Estava ansiosa demais para dar qualquer opinião sobre aquela fantástica terra.

– Ora, vamos explorar o bosque! – disse Pedro, excitado do mesmo jeito.

– Ufa! – exclamou Luanna, batendo com os pés no chão. – Está um frio de doer. E se a gente vestisse estes casacos? Não acham uma boa idéia?

– Não são nossos!... – disse Pedro, temeroso.

– Ninguém vai ligar! – replicou Luanna. – Além disso, não vamos levar os casacos para fora de casa: eles nem vão sair do guarda-roupa!

– Não pensei nisso! – falou Pedro, risonho.

– É mesmo, assim não vai haver problema. Ninguém vai dizer que pegamos os casacos se eles continuam no guarda-roupa; pois a minha impressão, por mais absurda que possa parecer, é que o país fantástico está dentro do guarda-roupa.

E logo puseram em prática a sensata sugestão de Luanna. Os casacos eram enormes para eles, chegando aos calcanhares, e pareciam mais imponentes mantos reais do que simples casacos. O importante é que se sentiam mais quentinhos, e cada um achava o outro muito elegante. Embora Edmundo resmungasse com Pedro porque este lhe dera um "casaco de menina".

- Você está muito chique, Edmundo! – Luanna lhe tirou do sério.

Foram andando na direção da floresta. No céu juntavam-se nuvens escuras, e tudo levava a crer que cairia mais neve antes do anoitecer.

– Escutem... – disse Edmundo. – Não acham que devemos cortar um pouco à esquerda, para irmos diretamente ao lampião?

Havia esquecido que o seu papel era continuar fingindo que não conhecia o bosque. Os outros pararam e ficaram olhando para ele. Pedro assobiou, raivoso.

– Ah, então, você já esteve aqui! Você disse que era mentira da Lu!

Fez-se um silêncio mortal.

– Se há uma coisa que eu odeio... – disse Pedro, mas logo se calou, encolhendo os ombros. Depois voltou a falar, calmo. – Peça desculpa a Lúcia! – disse a Edmundo.

Este apenas o olhou raivoso. Fez cara de poucos amigos e ia começar a andar, quando foi seguro por Pedro pelo casaco cinzento que usava.

- Peça desculpas! – disse ele, com autoridade que fazia até medo.

- Me desculpe!! – pareceu mais uma reclamação com Pedro, com medo, do que com as desculpas para Lúcia.

- Tudo bem! – Lúcia ainda ria. – "Essas crianças de hoje em dia não sabem quando têm que parar de fantasiar". – ela se divertiu, e Luanna riu com ela, toda contente.

E de novo puseram-se a caminho. Edmundo ia resmungando para si mesmo: "Cambada de gente pretensiosa! Um dia, vocês me pagam!", e imaginou Pedro lhe servindo manjar turco aos quilos.

– Aonde vamos? – perguntou Luanna, ansiosa para mudar o rumo da conversa.

– Acho que a Lúcia é quem deve nos guiar! – disse Pedro. – E ela merece, depois do que acabamos de ouvir. Para onde, Lu?

– E se fôssemos visitar o Sr. Tumnus? Que acham? É aquele fauno bonito...

Concordaram todos, apertando o passo, batendo os pés no chão.

A terra parecia imensa. Luanna e Pedro andavam juntos, animados com aquela imensidão de árvores e neve. Era frio, de fato. Mas tinha faunos!

- Pedro! Se Lúcia falou a verdade, então ele é mesmo um fauno! – aquilo era óbvio demais, mas Luanna estava ansiosa para encontrá-lo.

Este sorriu para ela, percebendo sua excitação. Estava igualmente animado em conhecer Nárnia. Lúcia saiu-se bem na missão de guia. A princípio, não estava muito certa se encontraria o caminho, mas foi reconhecendo, aqui, uma árvore de jeito estranho, ali, um tronco no chão, até chegarem àquele lugar em que o caminho piorava; por fim, deram com a porta da caverna do Sr. Tumnus. Mas aí os esperava uma triste surpresa.