6° Capítulo: O Dique dos Castores

A porta fora arrancada e partida em pedaços. Lúcia pareceu levar um choque. Os outros, pelo estado que se encontrava a porta, perceberam que tinha acontecido algo grave com alguém ali. Lúcia correu, e antes que Pedro e Luanna a alcançassem, ela atirou-se para dentro da casa do fauno. Os dois correram, com Edmundo no encalço.

Dentro da caverna, estava escuro, frio, úmido, desagradável, como se o local estivesse desabitado havia vários dias. A neve entrava pela porta e amontoava-se no chão, misturando-se com as lenhas mal queimadas e a cinza da lareira. Era como se alguém tivesse espalhado a cinza pelo chão para apagar as chamas das lenhas. A louça estava toda partida, e o retrato do pai do fauno fora esfaqueado e dilacerado.

– Bonito trabalho! – exclamou Edmundo. – Valeu a pena ter vindo aqui!

- Pedro! Pode ser perigoso. – Luanna encostou-se nele, primeiro porque estava com medo, e segundo porque ele tinha um cheiro muito bom, ela percebeu dentro do guarda-roupa.

– Que é isso? – falou Pedro, ao ver um pedacinho de papel pregado no tapete.

– Tem alguma coisa escrita? – perguntou Luanna.

– Acho que tem, mas não consigo ler com esta luz. Vamos para fora.

Saíram todos. Pedro leu o seguinte:

"O antigo inquilino deste prédio, o fauno Tumnus, está preso, aguardando julgamento, acusado de crime de alta traição contra Sua Majestade Imperial adis, Rainha de Nárnia, Castelã de Cair Paravel, Imperatriz das Ilhas Solitárias, etc. É acusado outrossim de auxílio aos inimigos da supracitada Majestade, abrigando espiões e confraternizando-se com humanos.

MAUGRIM, Comandante-Chefe da Polícia Secreta.

VIVA A RAINHA!"

Os quatro olharam uns para os outros.

– Deus!! Ele foi preso!!! – disse Luanna. – Que lugar é esse, afinal!? Confraternização com humanos...? Sinto-me num conto de fadas!!

– Quem é essa rainha, Lu? – perguntou Pedro. – Sabe alguma coisa a respeito dela?

– Não é rainha nada. É uma feiticeira horrorosa, a Feiticeira Branca. É muito odiada no bosque. Foi ela quem encantou as terras de Nárnia, para que aqui seja sempre inverno, e o Natal não chegue nunca.

Pedro e Luanna se olharam. Edmundo estava quieto, enquanto os dois mais velhos analisavam a situação.

- O que faremos!? – Luanna olhou para Pedro. Ela ainda pensava no "feiticeira" que Lúcia se referira, sem perceber o real sentido daquela palavra. – Pedro... isso é real!?

- Creio que sim. Estamos dentro do guarda-roupa, não estamos!? Acho que deveríamos voltar... os problemas dessa terra não são nossos... – ele falou, ponderando as palavras.

– Ah, isso é que não! Agora não pode ser! – disse Lúcia de repente. – Não podemos voltar depois do que aconteceu. Foi por minha causa que o fauno se meteu nesta confusão. Foi ele que me escondeu da feiticeira e me ensinou o caminho de casa. É isto que eles querem dizer com o "auxílio aos inimigos da rainha e confraternização com humanos". A feiticeira deve ter descoberto e... – ela nem gostava de lembrar no Sr. Tumnus preso. – Temos de fazer tudo para salvá-lo.

Edmundo engoliu em seco e com amargura.

– Grande coisa haveremos de fazer! – disse ele. – Nem temos o que comer!

– Cale a boca! – disse Pedro, ainda muito zangado com Edmundo. – Eu não sei... Qual a sua opinião, Luanna?

– Eu sei que Lúcia está certa! – disse Luanna. – Mas, não sei se dava mais um passo. Acho que pode ser perigoso, se essa rainha é assim tão perigosa o quanto Lúcia diz! E somos só quatro! O que mais pode ter nessa terra além de feiticeira e fauno?? Eu não sei, Pedro. Talvez temos de fazer alguma coisa pelo fauno. Seja lá o que for.

– Também acho. Concordo com você, Luanna. – disse Pedro. – Poderíamos voltar e trazermos... não sei... comida ou ajuda! Mas quem nos garante que, se a gente sair, vai poder entrar de novo neste país mágico? Acho que o melhor é continuar.

- O que você decidir, eu estou dentro, Pedro! – ela disse.

– Eu também. – disse Lúcia.

– Se ao menos a gente soubesse onde é que ele está preso! – disse Pedro.

Todos ficaram calados, imaginando o que podiam fazer, quando, de repente, Lúcia exclamou:

– Olhem aquele pintarroxo de papo vermelho. É a primeira vez que vejo um passarinho aqui. Prestem atenção! Está com uma cara de quem quer falar alguma coisa! Os passarinhos de Nárnia também serão capazes de falar?

Pedro e Luanna se seguraram para não rir. Mas Lúcia estava decidida. Voltou-se para o pássaro:

– Sr. Pintarroxo, seria capaz de nos dizer para onde levaram Tumnus, o fauno? – E deu um passo na direção da avezinha, que logo levantou vôo, mas para uma árvore ali pertinho. Empoleirada lá, ficou olhando para eles, como se tivesse entendido tudo o que haviam dito.

Quase sem querer, os quatro avançaram mais um passo ou dois. Os dois mais velhos, muito surpresos. O pintarroxo voou de novo para a árvore mais próxima. E ficou olhando. Aliás, não é fácil encontrar um pintarroxo de papo tão vermelho e de olhos tão brilhantes como aquele!

– Sabem de uma coisa? – perguntou Lúcia. – Acho que ele quer que a gente vá atrás dele.

– É o que parece – concordou Luanna. – Que acha, Pedro?

– Não se perde nada experimentando.

De fato, o pintarroxo parecia compreender tudo perfeitamente. Saltando de ramo em ramo, ia sempre uns metros à frente, para ser seguido sem dificuldade. E assim foi servindo-lhes de guia pela encosta abaixo. As nuvens se abriram e surgiu um belo sol de inverno; em volta, a neve tomou um brilho deslumbrante. Havia quase meia hora que caminhavam, as duas meninas sempre na frente, quando Edmundo disse para Pedro:

– Se por acaso você puder descer desse pedestal para falar comigo, tenho uma coisa séria para lhe dizer.

– Que coisa? – perguntou Pedro.

– Psiu! Não fale tão alto; não vale a pena assustar as meninas. Pensou bem no que estamos fazendo?

– O quê? – disse Pedro, baixando a voz num murmúrio.

– Estamos indo atrás de um guia que não sabemos quem é. Como vamos saber de que lado está o passarinho? Quem pode dizer se ele não está levando a gente para alguma armadilha?

Pedro o observou por alguns segundos. Ele estava mesmo dizendo aquilo sobre passarinhos serem inimigos e estarem levando-os para uma armadilha? Mas, pelo que parecia, Nárnia era mesmo parecido com um conto de fadas. Então ele respondeu:

– Você está vendo, trata-se de um pintarroxo. Em todas as histórias que li, os pintarroxos são sempre bons sujeitos. Ele nunca ficaria do lado errado.

– Ah, é assim? E como vamos saber qual é o lado errado? Como é que vamos saber se os faunos estão do lado certo e a rainha (sei, sei, já disseram que ela é feiticeira) está do lado errado? A gente não conhece os faunos e não conhece a rainha!

– O fauno salvou Lúcia.

– É o que ele disse. Mas podemos mesmo saber? Outra coisa: quem é que sabe qual é o caminho de volta?

– Droga!! – exclamou Pedro. – Acabei me esquecendo!

– E não há comida à vista! – concluiu Edmundo.

Assim conversavam os dois meninos, em voz baixa, quando as meninas gritaram ao mesmo tempo:

– Oh! – E depois pararam.

– O pintarroxo! O pintarroxo sumiu!

– Que vamos fazer agora? – perguntou Edmundo, lançando a Pedro um olhar que significava "Que é que eu falei?"

– Psiu! Olhem ali! – disse Luanna, num cochicho. – Tem uma coisa ali se mexendo, no meio das árvores. Mais para lá. – ela puxou Lúcia para próximo dela, e foi para o lado de Pedro.

Lúcia sempre à frente, com medo que fosse o Sr. Tumnus machucado. Luanna segurava-lhe no suéter, impedindo-a de correr em direção ao barulho. E com o outro braço, segurava o braço protetor de Pedro, que a abraçou. Ela o fitou com face preocupada por alguns segundos, mas confiante em sua segurança, e tornou a olhar para o barulho, assustada, sempre segurando Lúcia com o braço ao redor de seu pescoço. Pedro segurou Lúcia também, e os três ficaram juntos até que Edmundo segurou em Luanna, escondendo-se atrás dela, sempre procurando espiar o barulho com o pescoço levantado.

Olharam todos com atenção, meio desconfiados.

– Ah, agora eu vi – disse Pedro. – Está ali atrás daquela árvore.

– Mas o que é? – perguntou Lúcia, fazendo grande esforço para não parecer medrosa.

– Seja lá o que for... – disse Pedro – está se escondendo de nós. Acho que não quer ser visto.

– Vamos voltar... – suplicou Luanna ao ouvido de Pedro. E, embora ninguém se atrevesse a dizê-lo, todos compreenderam de repente aquilo que Edmundo segredava a Pedro. Estavam irremediavelmente perdidos. Ninguém lembrava o caminho de volta.

– Como é ele? – perguntou Lúcia.

– Eu acho... eu creio que é um bicho... um animal! – respondeu Luanna. – Olhe, depressa! Lá está ele!

E todos o viram desta vez: focinho peludo, grandes bigodes, parecia espreitá-los por detrás das árvores. Não fugiu logo, pelo contrário, levou a pata à boca, como fazem as pessoas quando põem um dedo nos lábios para nos dizer que devemos ficar em silêncio. E desapareceu de novo. Eles mal respiravam. Lúcia sorriu. Edmundo amedrontou-se. Luanna e Pedro se olharam mais uma vez com face desacreditada. Um minuto depois, o bicho tornou a sair do abrigo atrás das árvores, olhou em volta, com medo de que alguém o visse, e disse:

– Silêncio!

Luanna quase grita. Segurou a boca com as mãos, mais que surpresa. Pedro também ficou bastante surpreso, de olhos totalmente abertos e aterrorizados.

- Ele falou, Pedro! Estamos numa terra mágica, realmente mágica! Podemos esperar tudo! – ela deduziu tudo de uma só vez.

E o bicho apareceu novamente. Fez um sinal para que fosse encontrar-se com ele na parte mais cerrada do bosque, e desapareceu novamente.

– Já sei o que é – disse Lúcia, como se fosse normal. – É um castor. Conheço pela cauda.

– E quer que a gente vá lá; avisou para ninguém fazer barulho – disse Edmundo.

– Isso eu entendi! – falou Pedro, ainda embasbacado. – O problema é este: vamos ou não vamos?

– Acho que é um bonito castor – Lúcia falou, com simplicidade.

– Bem, mas como é que vamos saber... – começou Edmundo.

– Temos de correr o risco! – afirmou Luanna, que nem mais acreditava em suas próprias palavras. – Não adianta nada ficarmos aqui parados. Além disso, não sabemos como voltar.

Mal disse isso, o castor, atrás das árvores, já acenava para eles com certa aflição.

– Venham! – comandou Pedro. – Vamos ver no que vai dar. Mas todos juntos! Se for um inimigo, creio que... – ele tinha idéias absurdas sobre falar em "castores inimigos".

As crianças seguiram juntas a eles, passaram para o outro lado e chegaram perto do castor. Mas o animalzinho, atraindo-os mais para o meio da floresta, só lhes disse num sussurro rouco e gutural:

– Mais para frente, mais para frente! Aqui está bem. Ali na clareira era meio perigoso.

- Deus! Onde estamos? Pare de falar, castor! – Luanna sussurrava baixinho pra si mesma, e só Pedro escutou.

- Você mesma falou que devemos esperar tudo! – Pedro parecia divertir-se com ela.

Estavam agora num lugar sombrio, onde cresciam quatro árvores tão juntas que os ramos se tocavam; e o chão estava coberto de agulhinhas de pinheiro, porque ali a neve não entrava. O castor falou:

– Vocês é que são os Filhos de Adão e as Filhas de Eva?

– Somos sim – respondeu Edmundo, querendo parecer líder.

Filhos de Adão? Filhas de Eva? – Pedro e Luanna olhavam-se mais uma vez.

– Psssiu! – fez o castor para Edmundo. – Por favor, não fale tão alto. Nem aqui estamos muitos seguros.

– Mas... – Pedro sussurrou. – De que é que o senhor tem medo? – perguntou. – Estamos sozinhos aqui.

– E as árvores? – respondeu o castor. – Estão sempre escutando. Quase todas estão do nosso lado, mas há outras que são capazes de contar para ela. Já entenderam de quem estou falando... – E abanou a cabeça várias vezes.

– Se vamos começar a falar em partidos – observou Edmundo –, como é que vou saber se o senhor é amigo ou inimigo?

– Não queremos ofendê-lo, Sr. Castor – acrescentou Pedro. – Mas está vendo que não somos aqui da terra.

– Compreendo, compreendo. Aqui está a prova. – E mostrou-lhes uma coisa branca. Olharam todos admirados, até que Lúcia descobriu:

– Ah, é o meu lenço! O lenço que eu dei ao Sr. Tumnus!

– Perfeito! – confirmou o castor. – O infeliz soube da ordem de prisão com certa antecedência e entregou-me isso. Disse-me então que, se por acaso lhe acontecesse alguma coisa, eu deveria encontrar-me aqui com vocês, para levá-los... – e a voz do castor apagou-se de súbito. Fazendo sinais misteriosos, ele juntou as crianças num grupo apertado e acrescentou, num leve sussurro: – Dizem que Aslam está a caminho; talvez até já tenha chegado.

E aí aconteceu uma coisa muito engraçada. Nenhum deles ainda não tinha ouvido falar de Aslam, mas no momento em que o castor pronunciou esse nome, todos se sentiram diferentes. Talvez isso já tenha acontecido a você em sonho, quando alguém lhe diz qualquer coisa que você não entende mas que, no sonho, parece ter um profundo significado – o qual pode transformar o sonho em pesadelo ou em algo maravilhoso, tão maravilhoso que você gostaria de sonhar sempre o mesmo sonho.

Foi o que aconteceu. Ao ouvirem o nome de Aslam, eles sentiram que dentro deles algo vibrava intensamente. Para Edmundo, foi uma sensação de horror e mistério. Pedro sentiu-se de repente cheio de coragem, força e sabedoria. Para Luanna serviu de calmante e de companheirismo, foi como se um aroma delicioso ou uma linda ária musical pairasse no ar, fazendo-a perder o medo da terra desconhecida. Lúcia sentiu-se como quem acorda na primeira manhã de férias ou no princípio da primavera, cheia de uma grande alegria.

– E o Sr. Tumnus, onde está ele? – perguntou Lúcia.

– Pssssiu! Aqui, não! Vamos para um lugar onde possamos conversar tranqüilamente e comer alguma coisa.

Já todos agora confiavam naturalmente no castor, exceto Edmundo, é claro; e todos também, inclusive Edmundo, ficaram contentíssimos com a palavra "comer".

Seguiram apressados atrás do novo amigo, que, dando uns passinhos incrivelmente rápidos, foi guiando os quatro durante mais de uma hora, pelos recantos mais densos da floresta. Luanna e Pedro não se largavam um minuto, pois ela não queria ficar longe dele. Lúcia tentava acompanhar o Sr. Castor, e Edmundo vinha atrás dos mais velhos, caminhando pesado.

Já se sentiam exaustos e famintos quando, de súbito, as árvores começaram a rarear, e eles a descer por uma encosta íngreme. Minutos depois, já sob um céu sem nuvem, onde o sol brilhava ainda, depararam com uma vista maravilhosa. Estavam num vale estreito, no fundo do qual corria (deveria correr, se não estivesse gelado) um rio razoavelmente grande. Bem debaixo do ponto em que se encontravam haviam construído um dique sobre o rio; e os meninos se lembraram logo de que os castores são fabulosos construtores de diques. Aquela obra – não tiveram dúvida – era do Sr. Castor. Notaram que este tomava um ar modesto... o mesmo ar que as pessoas assumem quando visitamos o jardim que fizeram ou lemos uma história que escreveram. Por isso, era da mais elementar educação que Luanna dissesse:

– Que lindo dique!

E desta vez o castor não disse "silêncio!":

– Ora, ora! Isso não é nada. Não tem a menor importância. E ainda nem está terminado. – ele pareceu corar.

Acima do dique havia o que deveria ter sido um lago profundo, mas que agora não passava de uma superfície rasa de gelo esverdeado e escuro. Abaixo do dique, muito mais abaixo, havia mais gelo, mas, em vez de ser liso e plano, tinha as formas ondulantes e espumantes da água, como era no momento em que tudo ficou gelado. Nos lugares em que a água tinha escorrido por cima do dique, via-se agora uma fileira de pingentes brilhantes de gelo, como se fossem flores e grinaldas da mais imaculada brancura. No meio do dique, quase no alto, viram uma linda casinha, que mais parecia uma grande colméia de abelhas. De um buraco que havia no teto subiam nuvens de fumaça, que logo traziam a idéia (sobretudo a quem estivesse com muita fome) de um jantar excelente sendo preparado. E isso lhes aumentou ainda mais a fome.

Edmundo reparou ainda em outra coisa; um pouco mais longe, lá embaixo, corria outro rio menor por um vale estreito. Olhando pelo vale acima, viu lá adiante duas colinas, que era capaz de jurar serem as mesmas que a feiticeira lhe apontara ao longe, quando dele se separou perto do lampião. Entre as duas colinas devia estar o palácio, a pouco mais de um quilômetro. Lembrou-se do manjar turco e da promessa de vir a ser rei. ("O que ia dizer Pedro, se soubesse!") Começaram então a brotar-lhe no cérebro umas idéias terríveis.

- Apreciando a vista? – perguntou o Castor, que chegara bem perto dele sem que ele o percebesse.

Edmundo apenas olhou para ele, sério e desconfiado.

– Ora, aqui estamos todos! – disse o Sr. Castor para todos ouvirem. – E parece que a Sra. Castor está à nossa espera. Vou na frente para mostrar o caminho. Cuidado para não escorregarem!

Luanna mostrava a Pedro as flores congeladas e Lúcia também admirava aquilo, lamentando todo o gelo. A parte alta do dique era bastante larga, mas não era um bom lugar para os humanos caminharem, pois estava coberta de gelo; além disso, embora de um dos lados estivesse o lago gelado, do outro havia um abismo.

O castor conduziu-os em fila até o meio do caminho, de onde podiam contemplar todo o curso do rio, de um lado e do outro. Ao chegarem ao meio, lá estava a casinha.

– Chegamos, Sra. Castor – disse o marido. – Chegaram os Filhos e as Filhas de Adão e Eva.

Logo ao entrar, a atenção de Lúcia foi despertada por um som metálico, e a primeira coisa que viu foi a Sra. Castor, uma velhinha de ar bondoso, sentada de linha na boca, trabalhando a valer na máquina de costura. Era de lá que vinha o som. Parou com o trabalho e levantou-se.

Os outros entraram quietos, e Luanna logo notou que Lúcia estava totalmente a vontade naquele mundo novo. Ajudava a Sra. Castor. Pedro riu com ela, e ela percebeu que ainda segurava a mão dele. Ele também, e sorriu para ela.

Os dois se olharam por uns minutos, mas minutos bem significativos. Até que Edmundo entrou também e os separou, passando pelo meio deles.

– Ah, chegaram finalmente! – disse ela, juntando as patas enrugadas. – Finalmente! E pensar que eu ainda iria viver para ver este dia! As batatas estão cozinhando! E a chaleira já está cantando! Será que o Sr. Castor poderia arranjar-nos uns peixinhos?

– Já vou – disse o Sr. Castor. O Sr. Castor moveu-se com um balde nas mãos. Pedro observou Luanna, que parecia pedir-lhe com os olhos que ele oferecesse ajuda para o Castor. Este sorriu, e se convidou para ir com ele pescar.

Saindo de casa na companhia de Pedro, atravessou o lago até chegar a um buraquinho no gelo, aberto à machadinha. Levava o balde na mão. Sentou-se com jeito na beira do buraco, sem ligar para o frio; olhou atentamente lá dentro, enfiou de repente a pata e, num instantinho, agarrou uma linda truta. E assim fez várias vezes, até conseguir o que se chama de uma bela pescaria. Pedro ainda se divertia com ele, mesmo sabendo que ele era alguém mais velho e que merecia respeito.

Enquanto isso, as meninas ajudavam a Sra. Castor a encher a chaleira, arrumar a mesa, cortar o pão, pôr os pratos. Parecia que estavam numa casa muito harmoniosa e aconchegante. Em um barril que havia num dos cantos da cozinha, Luanna encheu uma grande caneca de cerveja para o Sr. Castor e Pedro, com um Edmundo reclamando que também queria e ganhando apenas um afago de Luanna na cabeça; por fim, Lúcia e a Sra. Castor puseram a frigideira no fogo para aquecer a gordura.

Lúcia achou que os castores tinham uma casinha bem aconchegante, mas que não lembrava em nada a caverna do Sr. Tumnus. Ali não existiam livros nem quadros pendurados, e, em vez de camas, havia beliches nas paredes, como nos navios. Do teto pendiam presuntos e réstias de cebola; encostados às paredes viam-se botas de borracha, oleados, machados, tesouras, pás, colheres de pedreiro, vasilhas de argamassa, caniços de pesca, redes e sacos. A toalha da mesa, embora limpa, era meio grosseira.

A frigideira começava a chiar quando Pedro e o Sr. Castor voltaram com os peixes, abertos a canivete e limpos lá fora. Imagine você agora o cheiro bom dos peixes fritando, e como todos eles, com muita fome, esperavam ansiosamente que ficasse tudo pronto, e a fome aumentando a cada segundo!

– Está quase prontinho! – disse o Sr. Castor.

Luanna preparou as batatas, enquanto Lúcia ajudava a Sra. Castor a colocar as trutas na travessa. Cada um puxou um banquinho (na casa dos castores só havia banquinhos de três pés, além da cadeira de balanço da Sra. Castor, junto da lareira), prontos para se fartar. Havia um jarro de leite cremoso para as crianças e Luanna, (o Sr. Castor, fiel a seus princípios, preferiu cerveja, convidando Pedro para juntar-se a ele) e, no centro da mesa, um bom pedaço de manteiga, de que eles se serviam à vontade para passar nas batatas. Aí as crianças e os jovens chegaram à conclusão de que não há nada melhor do que um peixinho de rio, que ainda há meia hora estava saltando na água, tirado da frigideira há menos de meio minuto. E, depois do peixe, a Sra. Castor tirou do forno um rocambole muito fofo, ainda fumegando, e pôs no fogo a chaleira. Depois de tomarem o chá, todos inclinaram os banquinhos para trás, para se encostarem à parede, e deram um profundo suspiro de satisfação.

– E agora – disse o Sr. Castor, afastando a caneca de cerveja vazia e puxando a xícara para mais perto –, se não se importam de esperar um momento, até eu acender o cachimbo, vamos às coisas sérias. – E acrescentou, depois de olhar pela janela: – Está nevando outra vez. Melhor! Assim não teremos visitas. E se, por acaso, alguém estiver tentando segui-los, não vai encontrar rastro.