7° Capítulo: Aslam Está Chegando

– E agora quer nos contar o que aconteceu ao Sr. Tumnus? – pediu Lúcia.

– Ah, é uma triste história – respondeu o Sr. Castor. – Muito triste mesmo. Mas não há dúvida de que foi levado pela polícia. Quem me contou foi um passarinho, que assistiu à cena.

Luanna e Pedro pareciam mais acostumados aos bichos falantes, mas era tão divertido ouvi-lo dizendo aquilo!

– Mas para onde é que o levaram?

– Bem, iam em direção ao norte, quando os viram pela última vez; e, infelizmente, todos sabem o que isso significa.

– Nós não sabemos – disse Luanna, enquanto a Sra. Castor balançava a cabeça com uma expressão sombria.

– Infelizmente significa que o levaram para a casa dela.

– E o que vão fazer com ele, Sr. Castor? – perguntou Lúcia, aflita.

– Bem – disse o castor –, nunca se sabe exatamente. Mas poucos podem dizer que lá entraram e de lá conseguiram sair. Estátuas! Dizem que está tudo cheio de estátuas de pedra: o pátio, a escadaria, o saguão. Seres que ela transformou... – Fez uma pausa e estremeceu. – Que transformou em estátuas de pedra.

– Mas, Sr. Castor, não podemos... quero dizer, temos de fazer tudo para salvá-lo. É terrível... por minha causa! – Lúcia lacrimejava, mas dizia aquilo com coragem.

– Tenho a certeza de que você iria salvá-lo, se pudesse, minha menina – disse a Sra. Castor. – Mas como vai fazer para entrar naquela casa, contra a vontade dela, e sair de lá com vida?

– Mas a gente não pode dar um jeito? – perguntou Pedro. – Puxa vida, o fauno arriscou-se para salvar minha irmã, Sr. Castor! Não podemos abandoná-lo assim, deixar que façam com ele uma coisa dessas!

– Não vale a pena, Filho de Adão! – disse o castor. – Nem vale a pena experimentar. Agora que Aslam está a caminho...

– Quem é Aslam??! – disse Edmundo cheio de curiosidade e aflição de ouvir aquele nome, enquanto os outros tinham sido envolvidos por aquela estranha sensação que lembrava os primeiros sinais da primavera, e que parecia trazer notícias maravilhosas.

– Aslam?! – exclamou o Sr. Castor. – Então não sabem? Aslam é o rei. É o verdadeiro Senhor dos Bosques, embora já há muito esteja ausente. Desde o tempo do meu pai e do meu avô. Agora chegou a notícia de que vai voltar. Neste momento mesmo está em Nárnia. Ele dará um jeito na Feiticeira Branca, não se preocupem. Ele, e não vocês, meus filhos, há de salvar o Sr. Tumnus.

– E se ela transformar também ele numa estátua de pedra? – perguntou Edmundo.

– Deixe com Ele, Filho de Adão. Não é tão fácil assim! – respondeu o Sr. Castor, caindo na gargalhada. – Transformar ASLAM em pedra? Se ela conseguir manter-se em pé diante Dele, olhá-lO cara a Cara, já é caso para dar-lhe os parabéns. Não, não. Ele vem botar tudo nos eixos. Assim diz um velho poema que costumamos cantar:

O mal será bem quando Aslam chegar,

Ao Seu Rugido, a dor fugirá,

Nos Seus Dentes, o inverno morrerá,

Na Sua Juba, a flor há de voltar.

– Quando vocês virem Aslam, hão de entender tudo.

– E chegaremos a vê-Lo, um dia? – perguntou Luanna.

– Mas é claro, Filha de Eva; foi para isso que eu os trouxe até aqui. Vou guiá-los até Ele.

Os quatro estavam ficando mais ansiosos com o rumo da conversa, e todos com faces curiosas.

– E Ele é um homem? – perguntou Lúcia.

– Aslam, um homem! – disse o Sr. Castor, muito sério. – Não, não. Não lhes disse eu que Ele é o Rei dos Bosques, Filho do Grande Imperador de Além-Mar? Então não sabem quem é o rei dos animais? Aslam é um leão... o Leão, O Grande Leão!

– Ah! – exclamou Luanna. – Um Leão!! Isso é maravilhoso!!! – ela sorria. – Acho que eles são muito austeros e sublimes! Mas... sei que vou ficar um pouco assustada.

– Ah, isso vai, meu anjo, sem dúvida – disse a Sra. Castor. – Porque, se alguém chegar na frente de Aslam sem sentir medo, ou é o mais valente de todos ou então é um completo tolo.

– Mas Ele é perigoso assim? – perguntou Lúcia.

– Perigoso? – disse o Sr. Castor. – Então não ou viu o que Sra. Castor acabou de dizer? Quem foi que disse que Ele não era perigoso? Claro que é, perigosíssimo. Mas acontece que é bom. Ele é REI, disse e repito.

– Estou louco para ver o Rei – disse Pedro –, mesmo que tenha muito medo.

– Muito bem, Filho de Adão! – aplaudiu o Sr. Castor, batendo com a pata em cima da mesa com tal força que os pires e as xícaras tilintaram. – Vai vê-Lo, pode estar certo. Recebi há pouco uma mensagem anunciando que vocês devem encontrar-se com Ele amanhã, na Mesa de Pedra.

– Onde é isso? – indagou Lúcia.

- Há mais gente que sabe que estamos aqui!? – Luanna preocupou-se, pois poderiam atrair a feiticeira antes de chegarem a Aslam.

– Sim, há. Eu lhes mostro o caminho – disse o Sr. Castor. – Ainda é uma boa jornada daqui até lá, seguindo pela margem rio abaixo. Mas eu os levo lá.

– Mas e o coitado do Sr. Tumnus? – perguntou Lúcia.

– O melhor meio para salvá-lo é procurar Aslam – disse o castor. – Enquanto Ele não chegar, não podemos agir. Aslam é o Rei, mas precisamos de vocês aqui. Há uma profecia cantada em velhas melodias:

"Quando a carne de Adão,

Quando o osso de Adão,

Em Cair Paravel,

No trono sentar,

Então há de chegar

Ao fim a aflição."

- Por isso, agora que Ele já chegou, e que vocês também chegaram, tudo se encaminha para o fim. Sabemos que Aslam já veio outrora a esta região, mas há muito, muito tempo, ninguém sabe bem quando. Mas os seus, os da sua raça, estes não há lembrança de terem estado aqui.

– Não entendo, Sr. Castor – disse Pedro. – Então a feiticeira não é humana?

– É o que ela nos queria fazer crer! – respondeu o castor. – É por isso que ela se diz com direito ao trono. Mas Filha de Eva é que ela não é. Sim, descende por um lado da primeira mulher do seu pai Adão (e a este nome, o Sr. Castor fez uma pequena reverência), a que se chamava Lilith, e era da raça dos gênios. Isso, por um lado. Por outro, descende dos gigantes. Não, na feiticeira não há nem uma gota de sangue humano.

– Por isso é que ela é ruim até a raiz do cabelo – disse a Sra. Castor.

– É pura verdade – disse o marido. – Pode haver duas opiniões sobre os humanos (sem qualquer ofensa para os presentes), mas não pode haver a menor dúvida acerca de seres que parecem humanos, mas não o são.

– Pois eu já encontrei anões bons – disse a Sra. Castor.

– Já que fala nisso, eu também – concordou o marido. – Mas pouquíssimos, e os melhores são até os que menos se parecem com os homens. Porque em geral, podem acreditar, quando encontramos um ser que vai ser humano, mas ainda não é, ou que o foi no passado, e depois deixou de ser, ou que devia ser humano, mas na verdade não o é, o melhor é ter cuidado e ficar de pé atrás. E por isso que a feiticeira anda sempre à procura de humanos em Nárnia. Há muitos anos que ela procura vocês, sem parar; e se soubesse que vocês são quatro, seria então muito mais perigosa.

– Mas que tem isso de especial? – perguntou Pedro.

– É que existe uma outra profecia. Lá embaixo, em Cair Paravel, no castelo que dá para o mar, junto da foz do rio, e que devia ser a capital se tudo corresse como devia... Lá, em Cair Paravel, há quatro tronos. A velhíssima tradição de Nárnia que nós cantávamos já anunciava que, quando dois Filhos de Adão e duas Filhas de Eva se sentarem nos quatro tronos, então será o fim, não só do reinado da feiticeira, mas da própria feiticeira. Foi por isso que usei de tanta cautela quando viemos para cá; por que, se ela suspeitasse da chegada de vocês, eu não daria uma truta pela vida dos quatro...

Os meninos estavam tão amarrados nos lábios do Sr. Castor, que por muito tempo não prestaram atenção a mais nada. Mas, no silêncio que se seguiu às suas últimas palavras, Lúcia, de repente, perguntou:

– Onde está Edmundo?

Foi um silêncio terrível; depois começaram a indagar:

– Quem foi o último a vê-lo?

– Há quanto tempo desapareceu?

– Terá ido lá fora?

Correram todos para a porta. Lá fora, a neve caía lenta e firme, e o gelo esverdeado do lago já estava coberto de um espesso lençol branco. Mesmo no meio do dique, mal conseguiam avistar as margens do rio. Enterrando os tornozelos na neve recente, deram voltas em todas as direções.

– Edmundo! Edmundo! – ficaram roucos de gritar. A neve, caindo silenciosamente, parecia abafar-lhes as vozes, e nem o eco respondia.

– Meu Deus!!! Ele saiu sozinho!?? Não deu para ver se alguém o levou... – disse Luanna, quando, por fim, resolveram voltar, já sem nenhuma esperança.

– E que vamos fazer agora? – indagou Pedro.

– Que vamos fazer? – disse o castor, já enfiando as botas de neve. – Que vamos fazer? Precisamos partir imediatamente. Não temos um minuto a perder.

– Vamos procurá-lo! Acho que eu vou por ali, e o Sr. Castor pode ir pelo outro lado. Deixemos as meninas aqui... – sugeria Pedro - Quem encontrar Edmundo, retorna logo para cá...

– Procurá-lo, Filho de Adão? – perguntou o Sr. Castor.

– Ele é meu irmão! É o que devo fazer!

– Valente, mas não vai adiantar nada! – disse o castor.

– Que quer dizer com isso? Ele não pode estar longe. Temos de encontrá-lo. Por que diz que não vai adiantar? – perguntou Luanna, nervosa.

– Não vale a pena procurá-lo, pois eu sei perfeitamente para onde ele foi! – Todos arregalaram os olhos, espantados. – Não estão entendendo? Foi encontrar-se com ela, a Feiticeira Branca. Traiu-nos a todos.

– Oh, francamente, essa não! – exclamou Luanna. – Ele não faria uma coisa dessas. – olhou para Pedro, procurando que ele concordasse.

– Acham que não? – perguntou o castor, olhando tão fixamente para os três, que eles perderam a vontade de falar, certos, no íntimo, de que Edmundo não tinha feito outra coisa.

– Mas como é que ele sabe o caminho? – perguntou Pedro.

– Ele já esteve alguma vez em Nárnia? Já esteve aqui sozinho?

– Já – respondeu Lúcia, quase num murmúrio. – Infelizmente, já.

– E contou o que fez aqui? Quem encontrou?

– Não, nunca! – respondeu Lúcia.

– Então, prestem atenção: ele já esteve com a Feiticeira Branca; está do lado dela; sabe muito bem onde ela mora. É triste dizer-lhes isso, porque, afinal de contas, é irmão de vocês, mas foi só olhar para ele e disse cá comigo: "Este é um traidor." Tinha todo o ar de já ter encontrado a feiticeira e comido de suas comidas encantadas. Quem vive há muito tempo em Nárnia não se engana: dá logo com essas alimentos. Nós os conhecemos pelos olhos.

– Seja lá como for – disse Pedro, numa voz um tanto sufocada –, temos de ir atrás dele. Afinal, é meu irmão, um pouco imbecil e mau, mas irmão. E, pensando bem, não passa de uma criança.

– E quer ir à casa da feiticeira? – perguntou a Sra. Castor. – Mas a única possibilidade de salvação, dele e de vocês, é fugirem dela, de qualquer forma.

– Não entendi – disse Lúcia.

– E isso mesmo, menina. O que ela quer é apanhar os quatro: está sempre pensando nos quatro tronos de Cair Paravel. Se insistirem em ir procurá-la, só vão ajudá-la a conseguir o que quer. É chegar lá e, antes de abrirem a boca, são mais quatro estátuas de pedra acrescentadas à coleção. Mas, pelo contrário, enquanto Edmundo for o único, ela há de querê-lo vivo, para servir-se dele como isca.

- Irei apenas eu, então!

- Não, Pedro! Não! – Lúcia reclamou, o abraçando, como se pudesse segura-lo. Luanna olhou para ele, assustada.

- Não, Pedro! Preferimos você inteiro e conosco. – ela falou, apreensiva e suplicante. – Ficaríamos eu e Lúcia à sua espera, e, como o Sr. Castor está falando, não voltaríamos a vê-lo. Nos separarmos não é boa idéia!

Ele aproximou-se dela, também aflito, mas compreendendo o que ela dissera. Lúcia permanecia abraçada a ele. Ele tocou na face de Luanna, fazendo um carinho. Ela o segurou na mão. O Sr. Castor se enrubesceu e pigarreou, fazendo Pedro olhar para ele.

– Mas... não há ninguém que possa ajudar a gente?

– Só Aslam – sentenciou o Sr. Castor. – Vamos procurá-lo. É a nossa única esperança.

– Meus filhos – disse a Sra. Castor –, o importante, para mim, é saber em que momento o irmão de vocês escapuliu. Conforme o que ouviu, podemos saber o que foi contar. Vejamos: já tínhamos falado de Aslam quando ele saiu? Se não, podemos ficar tranqüilos, uma vez que ela não sabe que Aslam já está em Nárnia, ou que nós vamos encontrá-lo...

– Acho que já não estava aqui quando falamos de Aslam... – disse Pedro, logo interrompido por Lúcia.

– Estava, sim – contrariou ela, tristemente. – Não se lembra? Foi ele quem perguntou se a feiticeira não podia transformar Aslam em estátua.

– É verdade! – disse Pedro. – E é mesmo o tipo de pergunta que ele costuma fazer.

– Então estamos fritos – disse o Sr. Castor. – Mas, vejamos: ele ainda estava presente quando eu disse que o ponto de encontro com Aslam era a Mesa de Pedra?

Ninguém soube responder.

– O negócio é o seguinte: se ele estava aqui e foi contar à feiticeira – continuou o castor – ela imediatamente vai disparar com seu trenó na direção da Mesa de Pedra e colocar-se em nosso caminho. É o que ela quer: impedir o nosso contato com Aslam.

– Está certo, mas, se a conheço bem – disse a Sra. Castor – não é isso que ela vai fazer primeiro. Quando Edmundo disser que estamos aqui, é capaz de sair em disparada para agarrar a gente ainda esta noite; como ele já saiu há meia hora, é bem provável que ela esteja aqui dentro de uns vinte minutos.

– Tem toda a razão, Sra. Castor – disse o marido. – Temos de cair fora imediatamente. Não há tempo a perder.