9° Capítulo: Natal Acumulado
Lúcia teve a impressão de que tinham passado uns poucos minutos. Na realidade, foram horas. Acordou com frio, o corpo doído, sonhando com um banho quente. Depois sentiu uns compridos bigodes que lhe faziam cócegas no rosto e viu que a luz fria da manhã já entrava pela boca da caverna. Mas estava totalmente acordada, e os outros também. Todos estavam sentados, boquiabertos e de olhos arregalados, dando toda a atenção a um som – aquele mesmo som que estavam imaginando (e que quase chegaram a escutar) durante o passeio da noite anterior. Era o tilintar de muitas sinetas.
O Sr. Castor saiu do esconderijo, rápido como uma flecha. Lúcia achou que foi uma bobagem da parte dele. Mas ele sabia que podia rastejar entre as moitas, sem ser visto, até o alto da montanha. Queria saber, antes de tudo, que rumo tomava o trenó da feiticeira. Os outros ficaram à espera, imaginando o que poderia ter acontecido. Esperaram cinco minutos, até que ouviram algo que os fez estremecer de pavor. Eram vozes!
– Só pode ter sido apanhado! – pensou Lúcia.
Foi grande o espanto geral quando ouviram a voz do Sr. Castor, do lado de fora da caverna:
– Não há perigo. Pode vir, Sra. Castor. Venham todos, Filhos de Adão. Tudo bem! Não é ela.
A Sra. Castor, Lúcia, Luanna e Pedro correram para fora, piscando por causa da luz, sujas de terra, descabeladas, muito desarrumadas, e esfregando os olhos de sono.
– Venham! – repetia o castor, quase dançando de alegria. – Venham só ver! Que surpresa para a feiticeira! O poder dela já está balançando.
– Que se passa, Sr. Castor? – perguntou Pedro, ofegante, subindo pela encosta íngreme.
– Não disse a vocês que, por artes dela, era sempre inverno e o Natal nunca chegava? Não disse? Pois vejam agora!
E, de fato, lá em cima todos puderam ver.
Era um trenó puxado por duas renas, com sinetas tilintando nos arreios. Renas muito maiores que as da feiticeira, mas eram castanhas, e não brancas. No trenó estava alguém que todos reconheceram à primeira vista. Era um homem alto, vestido de vermelho-vivo como as bagas do azevinho, com um capuz forrado de pele, uma barba branca, tão comprida que lhe cobria o peito como uma queda d'água espumante.
Todos o reconheceram porque, embora essas pessoas só existam em Nárnia, puderam vê-las em gravuras e ouvir a respeito delas, mesmo no mundo que fica do lado de cá da porta do guarda-roupa. Mas quando se tem a sorte de ver essa gente em Nárnia é muito diferente! Alguns dos postais coloridos de Papai Noel que podem se ver em nosso mundo mostram um velho engraçado e bonachão. Não era bem assim para eles ali, a admira-lo. Era tão grande, tão alegre e tão real, que ficaram paralisados de espanto. E, apesar de todo o contentamento, sentiam também que era um momento solene.
- Sem essa! – Luanna se encantava.
– Aqui estou, afinal! – disse ele. – Ela me impediu de vir durante muito tempo, mas acabei chegando. Aslam está a caminho. O poder mágico da feiticeira já começou a declinar.
Lúcia sentiu-se percorrida por aquele calafrio de alegria que só sentimos nas solenidades imponentes e tranqüilas,
– E agora – prosseguiu Papai Noel – vamos aos presentes! Aqui está uma máquina de costura nova, último modelo, para a Sra. Castor. Vou deixá-la na casa, quando passar por lá.
– Queira desculpar – disse ela, fazendo uma reverência –, mas a casa está fechada.
– Fechaduras e chaves não têm a menor importância para mim – respondeu Papai Noel. – Quanto ao seu presente, Sr. Castor, quando voltar, vai encontrar o seu dique terminado, consertado em todos os pontos onde vazava água e, além disso, uma comporta novinha em folha.
O Sr. Castor ficou tão alegre que sua boca se abriu totalmente, mas então ele descobriu que não conseguia dizer uma palavra.
– Pedro, Filho de Adão – continuou Papai Noel, mas de forma austera e solene.
– hum... oi! – disse Pedro, ouvindo o respeito de que se tratou Papai Noel para falar com ele.
– Presentes para você. Já está um pouco grandinho para as crianças humanas que visito, mas também são ferramentas, e não brinquedos. Talvez não esteja longe o dia em que precisará usá-las. E com honra!
E entregou a Pedro um escudo e uma espada. O escudo era cor de prata, com um leão rubro no centro, lustroso como um morango pronto para ser colhido. A espada tinha punho de ouro, bainha, cinto, tudo, e parecia feita sob medida. Pedro recebeu os presentes em grave silêncio, sentindo que se tratava de uma coisa muito séria. Seus pensamentos iam longe, tratando-se da guerra que seu próprio mundo vivia.
– Luanna, Filha de Eva! – ele acordou Luanna da surpresa de ver Pedro com a espada e o escudo. – Isto é para você. – E Papai Noel entregou-lhe um arco, uma aljava cheia de setas e uma trompazinha de marfim. – Só deve usar o arco em grande risco, pois não quero que você tome parte ativa na luta. Raras vezes falha o alvo. Quanto à trompa, é só levá-la aos lábios e tocar: auxílio lhe virá de alguma parte.
Ele a viu olhar para sua face, calada, mas séria. Seus olhos faziam uma pergunta para ele, que prontamente respondeu, sorridente:
- Não se preocupe! Posso dizer que os que vão lutar estarão juntos com Aslam!
Ela olhou de volta para Pedro, este sem perceber, admirado com sua espada.
– Lúcia, Filha de Eva! – Papai Noel estendeu-lhe uma garrafinha, que parecia de vidro (houve mais tarde quem dissesse que era de diamante) e um punhal muito pequeno. – Esta garrafa contém um tônico feito do suco de uma flor de fogo que cresce nas montanhas do sol. Se um amigo estiver ferido, bastam algumas gotas para curá-lo. O punhal é para a sua defesa, em caso de extrema necessidade. Porque você também não deve entrar na luta. Batalhas são mais feias quando as mulheres tomam parte nelas. E agora – continuou, com uma expressão muito menos solene – agora aqui está para vocês todos!...
E Papai Noel apresentou-lhes (deve ter tirado do grande saco, mas a verdade é que ninguém deu por isso) uma enorme bandeja, com cinco taças de chá, com os respectivos pires, um açucareiro, uma tigelinha de creme de leite e uma grande chaleira ainda a chiar. E gritou em seguida:
– Feliz Natal! Viva o Verdadeiro Rei! – Estalou o chicote e desapareceram, ele, as renas, o trenó, tudo, antes que os outros se dessem conta de que tinham ido embora.
Pedro mostrava a espada desembainhada ao Sr. Castor quando ouviu a voz da Sra. Castor:
– Vamos deixar de conversa, que o chá esfria. Os homens, vocês sabem, são um caso sério. Vamos, ajudem-me a levar a bandeja lá para baixo e vamos ao chá. Ainda bem que não me esqueci de trazer a faca de pão.
Luanna olhou novamente para Pedro e sua espada, fazendo com que Lúcia a puxasse para ir com elas. Desceram a encosta íngreme de volta à caverna, onde o Sr. Castor, em meio ao contentamento geral, cortou o pão e o presunto para fazer sanduíches. A festa ainda estava animada quando Sr. Castor anunciou:
– Está na hora, pessoal. Vamos em frente.
Enquanto isso, Edmundo estava cada vez mais descontente da vida. Quando o anão desapareceu para aprontar o trenó, esperava que enfim a feiticeira voltasse a ser boazinha, como no primeiro encontro. Mas nem abriu a boca, a malvada. Edmundo juntou todas as suas energias para dizer:
– Majestade, não poderia dar-me um pouquinho de manjar turco? A senhora... a senhora disse...
Foi logo interrompido:
– Silêncio, debilóide humano!
Depois pareceu mudar de idéia e, como se falasse para si mesma, disse:
– Mas não me convém que este fedelho tenha um chilique no caminho. – E bateu palmas.
Apareceu um outro anão.
– Dê de comer e beber ao debilóide humano.
O anão voltou daí a pouco com uma tigela de ferro contendo água e um pedaço de pão seco num prato também de ferro. Exibiu um repelente sorriso de escárnio ao colocar as coisas no chão:
– Manjar turco para o principezinho! Ah! Ah! Ah!
– Tire esse troço daí! – ordenou Edmundo mal-humorado. – Nunca comi pão seco em minha vida.
Mas a feiticeira voltou-se para ele com uma cara tão terrível que o menino pediu desculpas e começou a mordiscar o pão, tão duro que mal lhe descia pela garganta.
– E fique contente com isso, por enquanto – disse a feiticeira.
Edmundo não tinha acabado de mastigar, quando o primeiro anão veio avisar que o trenó estava pronto. A feiticeira ordenou a Edmundo que a seguisse. A neve caía de novo quando chegaram ao pátio, mas ela nem notou, obrigando Edmundo a sentar-se a seu lado no trenó. Antes da partida, chamou Maugrim, que se aproximou aos saltos, como um cão gigante.
– Escolha o mais rápido dos seus lobos e parta imediatamente com ele para a casa dos castores. Mate tudo o que encontrar por lá. Se já tiverem partido, siga para a Mesa de Pedra a toda a velocidade, sempre sem ser visto. Depois esconda-se e espere por mim. Tenho de andar muitas léguas para o poente até encontrar um lugar onde atravessar o rio. Pode ser que você encontre criaturas humanas antes de chegar à Mesa de Pedra. Nesse caso, já sabe o que fazer! – Edmundo ficou quieto, mas percebeu que a ordem era de morte.
– Ouvir é obedecer, ó rainha – rosnou o lobo, desaparecendo imediatamente na escuridão, veloz como um cavalo em disparada.
Dentro de dez minutos, acompanhado de outro lobo, chegava ao dique, farejando a casa dos castores. Nada encontraram, naturalmente. Teria sido horrível para os castores e as crianças se não tivesse começado a nevar, pois os rastos estariam visíveis... e quase certamente teriam sido apanhados antes de chegar à caverna.
Enquanto isso, o anão castigava as renas. A feiticeira e Edmundo, passando por debaixo do arco, penetraram na escuridão gelada. Para Edmundo, que nem tinha casaco, foi uma viagem horrorosa. Quinze minutos depois, já estava todo coberto de neve. Desistiu até de sacudi-la, pois não adiantava nada. E sentia-se tão cansado! Estava molhado até os ossos. Como se sentia desgraçado! A feiticeira não tinha a intenção de torná-lo rei. Via agora a burrice que fora tentar convencer a si mesmo de que ela era boa pessoa e que tinha razão. Naquele momento, daria tudo para estar com os outros... até com Pedro! Só tinha um consolo: pensar que tudo não passava de um sonho, e que podia acordar de um momento para outro. A medida que as horas corriam, tudo acabou mesmo por lhe parecer um sonho.
Depois de longas horas, a neve cessou de cair e eles deslizavam com a luz do dia. Foram seguindo sempre, sempre, num silêncio apenas cortado pelo chiar da neve e pelo estalar dos arreios. De repente, a feiticeira exclamou:
– O que é aquilo? Parem!
Pararam.
Edmundo aguardou ansioso que ela falasse em almoço. Mas era outra coisa. A pouca distância, debaixo de uma árvore, estava um grupinho alegre, do qual faziam parte um esquilo, com a mulher e os filhos, dois sátiros, um anão e uma velha raposa. Todos sentados em banquinhos em volta de uma mesa. Edmundo não conseguiu distinguir a comida, mas o cheiro era uma delícia e pareceu-lhe ver decorações próprias da época de Natal. E não chegou a ter muita certeza se viu ou não algo parecido com um pudim de passas. Quando o trenó parou, a raposa, que era a mais velha entre os presentes, tinha acabado de levantar-se e erguia uma taça na pata dianteira, preparando-se para dizer algumas palavras. Mas, logo que os membros do grupo viram o trenó parar e compreenderam quem ia nele, a alegria sumiu. O esquilo pai deteve o garfo a meio caminho da boca; um dos sátiros parou o garfo já dentro da boca; e os esquilinhos começaram a berrar de medo.
– Que audácia é essa? – perguntou a Feiticeira Branca sem obter resposta. – Falem, seus vermes! Ou preferem que o meu anão lhes abra o bico na ponta do chicote? Que esganação é essa? Onde é que foram arranjar esses enfeites? E esse pudim de passas?
– São presentes que recebemos. Se Vossa Majestade permite, bebo à saúde... – a raposa ia falar.
- Claro que não permito! Como ousa perguntar-me uma coisa dessas!?
- Com o perdão da interrupção, não era à senhora a quem me referi! – e fez uma grande reverência a Edmundo. A feiticeira o olhou com olhos odiosos, e se dirigiu aos outros.
– Quem deu tudo isso?
– Foi o... foi o Pa-pai No-el – gaguejou a esquilo mãe.
– Quem?! – rugiu a feiticeira, saltando do trenó e chegando perto dos pobres animais. – Mas ele não esteve aqui! Não pode ter estado aqui! Como se atreve... Mas, se for mentira, está perdoada...
Um dos esquilinhos perdeu então a cabeça, inteiramente:
– Teve aqui... teve aqui... teve aqui, sim, senhora! – E tascava a colher de madeira na mesa.
Edmundo viu a feiticeira morder os lábios com tanta força que uma manchinha de sangue pintou sua face pálida. Depois, ela levantou a vara mágica.
– Oh, não! Não! Por favor! – implorou Edmundo.
Mal disse e, onde pouco antes estivera aquela turminha alegre, viam-se agora estátuas de bichos (um deles com o garfo de pedra a meio caminho da boca de pedra), todos sentados em torno de uma mesa de pedra, sobre a qual estavam colocados pratos de pedra e um pudim feito da mesmíssima pedra.
– E você – disse a feiticeira, dando em Edmundo uma bofetada que o deixou tonto – aprenda a não pedir misericórdia para espiões e traidores. Vamos!
Edmundo, pela primeira vez desde que esta história começou, sentiu pena de alguém que não fosse ele mesmo. Pareceram-lhe tão dignas de dó aquelas figurinhas de pedra, sentadas ali, entra ano sai ano, dias de silêncio, noites de escuridão, até que o musgo as cobrisse e os séculos as desfizessem em pó!
A alguns momentos e alguns quilômetros antes da feiticeira, os outros três andavam sôfregos pelo frio. Deram-se com uma parede enorme de pedras. Um grande rio congelado, com uma parede inteira de gelo, que era a cachoeira. Mas saía dele um som diferente, que só quando se aproximaram perceberam. O rio se derretia.
Isso era bom e ruim. Bom, porque parecia que o inverno estava acabando, e eles não soubera, a principio, o porquê. E ruim porque tinham que atravessá-lo para chegarem ao lado oposto, e caminharem para o lugar da Mesa de Pedra.
O Sr. Castor se propôs a ir primeiro. A camada de baixo da parede de gelo do rio parecia ser fina, mas ele estava disposto a tentar, o que deu bastante coragem aos outros.
Pedro desceu a parede de pedras das margens do rio, ajudando Luanna, e depois, Lúcia. A Sra. Castor mal acabara de descer quando avistaram a alcatéia da polícia-secreta do lado de cima, descendo pelas pedras que estavam quase descongelando, mas fortes o bastante para agüentá-los mais alguns segundos.
- Oh, não! – gritou Lúcia, assustada.
Pedro gritou para correrem e atravessarem o máximo que puderem, enquanto ele e Luanna olhavam para cima, a ponto de ver alguns dos lobos descerem pela frente deles, e os outros na retaguarda, deixando-os encurralados. Em um ato de bravura, o Sr. Castor gritou:
- Pedro, fique com estes da frente, e eu pego os detrás. – mal acabara de dizer isto, e o lobo mais a frente, próximo a Maugrim, que ameaçava Pedro, as meninas, e a Sra. Castor, agarrou-lhe pelo pescoço e segurou-o com força.
Luanna e a Sra. Castor gritaram assustadas, Luanna segurando Lúcia para ela não ver. Pedro não sabia o que fazer, então desembainhou a espada.
- Abaixe isso, rapaz! Alguém pode se ferir. – disse Maugrim, com voz rasteira e horrorosa.
Pedro estava aflito, a tensão tomava conta de seu corpo, e animais como lobos percebem isto facilmente. Luanna tentava pensar em algo, mas seu cérebro esquecera-se de trabalhar com aquela correria. Maugrim continuava se aproximando, enquanto o Sr. Castor berrava de longe:
- Não ligue para mim... acabe com ele!! – ele dizia, o que para Lúcia foi uma estupidez, estando ele dentro da boca de um lobo.
- Saiam enquanto podem, e seu irmão se juntará a vocês! – Maugrim permitia-se rir irônico.
Luanna, no auge da aflição, chegou para Pedro e disse:
- Acho que devíamos ouvi-lo! – ela falou. Estava com muito medo de Pedro tentar atacar o lobo, e acontecer-lhe algo horrível.
- Garota esperta! – Maugrim a escutou, fazendo-a ter calafrios com aquela voz fria dele.
- Não escutem a ele. Ele é um inimigo... inimigo de todos nós! Inimigo de Nárnia!!! – o Sr. Castor continuava gritando. – Mate-o, mate-o agora!!! – dizia, sendo seguro firme pelo lobo.
Pedro ouvia aquilo, e não soube o que fazer. Era novo para ele aquela sensação de coragem e vontade de lutar por Nárnia. Aquele mundo precisava deles. Mas tinha Edmundo. O lobo poderia falar sério, e eles iriam embora... mas Nárnia ficaria ainda no inverno frio e no gelo sem fim.
- Oh, vamos! Essa não é sua guerra!! – o lobo continuava. – Pegue sua família e vá!
Então, Pedro pensou em algo que não previra. O rio congelado quebrava-se, e eles todos iriam ficar embaixo d'água gelada em pouco segundos. Então, ele cravou a espada no chão de gelo, e segurou as garotas com os braços, tentando protegê-las dos ataques do lobo antes que seu plano desse certo.
- Pedro!!! – gritou Lúcia, apavorada, mostrando-os a queda-d'água congelada partir-se. O rio descongelava-se bravamente.
- Segurem-se em mim! – ele disse a Luanna e a Lúcia. Abraçou firme Lúcia no seu lado direito, bem firme, enquanto segurava a espada cravada no gelo com a mão direita. As duas seguraram firmes, mas com medo. A Sra. Castor ficou o mais próximo possível deles.
E então a cachoeira do rio quebrou-se. O lobo ficou com cara de assustado e tentou escapar, mas a água foi forte, e o levou com ela. O lobo que segurava o Sr. Castor o soltou, a ponto de escapar pela lateral, deixando-o no gelo.
Pedro, Luanna, a Sra. Castor e Lúcia continuaram num bloco grande de gelo, no qual Pedro cravara a espada e estava segurando-a firme, e a força da água o arrastou para longe, virando-o por dentro de uma onda formada pela queda brusca da água congelada. O bloco voltou à tona, ainda tendo Pedro segurando na espada, enquanto as duas se seguravam o máximo que puderam nele e no bloco.
Lúcia dava umas escapulidas, e Pedro soltava a espadas alguns segundos para levantá-la pelo suéter. O casal de castores nadou até eles, empurrando o bloco para a margem do rio. Luanna levantou-se rapidamente, encharcada. Os castores se assanharam, fazendo aquilo que os cachorros fazem quando tomam banho.
Luanna cuspiu água que engolira enquanto fora coberta pela onda. E depois virou-se para ver Pedro e Lúcia. Assustou-se ao ver a face de Pedro, aterrorizada. Em suas mãos, estavam apenas o suéter de Lúcia.
- Oh, não!! – ela foi até ele. Os dois voltaram-se para o rio e desataram a gritar por ela.
A água do rio corria forte, e ambos ficaram atônitos por alguns segundos. Até que ouviram alguém tossir de longe. Era Lúcia. Ela chegou perto deles, ainda falando alegre, como era seu jeito:
- Alguém viu meu casaco?? – se segurava nos braços, com frio.
Pedro abraçou-a feliz, e Luanna fez o mesmo. O Sr. Castor falou para Lúcia:
- Não se preocupe, minha querida! Seu irmão vai cuidar muito bem de você!
A Sra. Castor virou-se para a margem em que eles estavam, e falou:
- Mas acho que não precisaremos mais dos casacos!! – e apontou para uma árvore ao lado deles. Então eles viram as pequenas folhas verdes surgirem, e as flores desabrocharem,como se estivesse com pressa de ver o sol que demorou tanto para aparecer. Então Pedro recolheu a sua espada, e a guardou.
Puseram-se a correr novamente, e então Edmundo reparou que a neve era muito mais úmida que na noite anterior. Reparou também que sentia muito menos frio e que um pouco de nevoeiro ia-se formando. E o trenó já não deslizava com tanta rapidez. Pensou a princípio que as renas estivessem cansadas, mas logo compreendeu que a verdadeira razão não era essa. O trenó balançava, sacudido por solavancos, como se estivesse batendo em pedras. E por mais que o anão as chicoteasse, as renas avançavam cada vez mais lentamente.
Ao mesmo tempo, havia um ruído estranho em torno, mas o barulho da corrida e os tropeções e os gritos do anão não permitiam a Edmundo perceber o que era. Até que, de repente, o trenó ficou enterrado e não mais andou. Um momento de silêncio. E, no silêncio, o menino pôde prestar atenção ao ruído: era um som estranho, agradável, cantante, sussurrante... No fim das contas, não era assim tão estranho: tinha ouvido aquilo antes... mas não sabia dizer onde. Lembrou-se de repente. Era barulho de água corrente.
Por toda parte, invisíveis, corriam fios de água – cochichando, conversando, cantando, borbulhando e até rugindo, distante. E o coração de Edmundo deu um pulo (mesmo sem saber o motivo) quando ele verificou que não havia mais geada. Gotejava dos ramos. Ao examinar atentamente uma árvore, viu desprender-se dela uma pesada crosta de neve: era a primeira vez, desde que entrara em Nárnia, que via o tronco de um abeto. Já não teve tempo de observar, porque a feiticeira gritou:
– Não fique aí de boca aberta, seu paspalhão! Ajude-o!
Edmundo teve de obedecer. Pulou para a neve – que era uma lama líquida – e começou a ajudar o anão a puxar o trenó do buraco lamacento. Conseguiram, por fim. O anão, tratando cruelmente as renas, fez com que avançassem um pouco mais. A neve agora derretia-se pra valer; tapetes de relva começavam a surgir em todas as direções. Se você nunca viu um mundo de neve por tanto tempo, como Edmundo, não poderá compreender o alívio que eram aquelas manchas verdes, depois das grandes e brancas solidões. Mas o trenó parou de novo.
– Não há nada a fazer! – exclamou o anão. – Não podemos continuar de trenó com a neve se derretendo.
– Então vamos a pé – declarou a feiticeira.
– Não conseguiremos apanhá-los – resmungou o anão. – Estão muito na frente.
– É meu conselheiro ou meu escravo? É uma ordem: amarre as mãos do debilóide humano nas costas e segure a ponta da corda. Pegue o chicote e solte as renas, que elas hão de achar o caminho.
O anão obedeceu. Edmundo foi forçado a andar com a rapidez que as pernas lhe permitiam, com as mãos amarradas para trás. Escorregava na neve derretida, na lama, na relva úmida, e, cada vez que isso acontecia, o anão soltava uma imprecação, às vezes acompanhada de uma chicotada. Atrás, a feiticeira ia repetindo:
– Mais depressa! Mais depressa!
Os tapetes relvados iam aumentando e as extensões nevadas diminuíam. De minuto a minuto, outras árvores decidiam sacudir os mantos alvos de neve. Não tardou que, para onde quer que se olhasse, em vez de vultos brancos, surgissem o verde-escuro dos abetos e os ramos negros e espinhosos dos carvalhos, das faias, dos olmos. Depois, o nevoeiro de branco passou a dourado, até desaparecer por completo. Deliciosos raios de sol projetavam-se sobre a floresta, enquanto, lá no alto, o céu azul olhava entre as copas das árvores. Outras coisas maravilhosas foram acontecendo. Numa clareira de plátanos prateados, o chão estava todo coberto de florzinhas amarelas; o ruído das águas, cada vez mais forte. Ali perto passava um riacho; do outro lado desabrochavam narcisos.
– Deixe as flores de lado! – repreendeu o anão, vendo que Edmundo virava a cabeça a toda hora, e deu um puxão perverso na corda.
Mas Edmundo continuava vendo. Botões de açafrão cresciam em torno de uma velha árvore, em tons de ouro, púrpura e branco. E chegou uma música ainda mais deliciosa que o murmúrio das águas. Empoleirado num ramo, um passarinho começou a chilrear. Um outro respondeu mais adiante. Como se fosse um sinal, ouviram-se trinos e gorjeios por toda parte e todos começaram a cantar ao mesmo tempo. Em poucos minutos, o bosque ressoava com a música da passarada. Eram passarinhos por todos os recantos, pousando nas margens, levantando vôo para o céu, perseguindo uns aos outros, discutindo, alisando as penas com o bico.
– Mais depressa! Mais depressa!
O céu estava todo azul; só de vez em quando umas nuvens brancas passavam, apressadas. Nas grandes clareiras havia malmequeres. A brisa leve atirava gotas de orvalho dos ramos oscilantes no rosto de Edmundo. As árvores voltavam à vida, algumas vestidas de verde, outras cobertas de dourado. Uma abelha atravessou o caminho zumbindo.
– Isso não é degelo – disse o anão, parando de repente. – É a própria primavera! E agora, que vamos fazer? O seu inverno está sendo destruído, Majestade! Não há dúvida alguma! Só pode ser obra de Aslam!
– Se alguém mencionar de novo esse nome, morre imediatamente! – esbravejou a feiticeira.
