10° Capítulo: No Campo de Aslam
Em poucos minutos, os castores e os três caminhavam no que lhes parecia o melhor dos sonhos. Havia muito que tinham abandonado os casacos. Tinham deixado até de dizer uns aos outros:
– Um pica-pau!
– Que lindas campânulas!
– Que perfume maravilhoso!
– Como canta bem aquele passarinho!
Caminhavam em silêncio, passando de clareiras inundadas de sol para bosques frescos e verdejantes, voltando para planuras cheias de musgos e olmos gigantescos. Já há tempo haviam secado e estavam aquecidos pelo sol amarelo e grande, bem maior do que o do mundo deles.
A surpresa tinha sido tão grande para eles como para Edmundo, ao verem o inverno sumir e o bosque mudar, como se o tempo tivesse dado um grande salto. Nem mesmo sabiam ao certo (ao contrário da feiticeira) que era isso mesmo que devia acontecer quando Aslam chegasse a Nárnia. Mas sabiam todos que, por encantamento dela, surgira o inverno sem fim.
Quando a primavera mágica começou, eles todos concluíram que alguma coisa estava falhando, desastrosamente falhando, nos planos da feiticeira. Chegaram a compreender com alegria que a feiticeira já não poderia usar o trenó. Deixaram de andar tão depressa e se deram ao luxo de descansos mais freqüentes e demorados. Também já estavam cansados e exaustos, por toda a aventura no gelo, mas muito calmos por dentro, como acontece quando se chega ao fim de um longo dia ao ar livre. Lúcia tinha uma pequena bolha no pé.
Tinham deixado de seguir o rio e viraram um pouco para o sul, onde ficava a Mesa de Pedra. Mesmo que não fosse o caminho certo, teria sido impossível continuar pelo vale durante o degelo, porque, com toda a neve que derretia não demorou para que o rio transbordasse e a corrente caudalosa inundasse a vereda por onde seguiam. O sol declinava, a luz ficava mais vermelha, as sombras alongavam-se e as flores recém-nascidas já começavam a pensar em dormir.
– Falta pouco – disse o Sr. Castor, guiando-os encosta acima sobre o musgo macio da primavera (tão fofinho sob os pés cansados) para um lugar onde só existiam árvores muito altas e espaçadas. Estavam ofegantes quando chegaram ao topo. Eis o que viram.
Encontravam-se numa grande clareira verde, abraçada por uma floresta que se estendia a perder de vista em todas as direções, menos em frente. Porque aí, longe, no oriente, alguma coisa cintilava e fazia ondas.
– O mar! Puxa! Que maravilha... – murmurou Pedro, sorrindo para Luanna.
No centro da clareira estava a Mesa de Pedra. Era uma grande pedra cinzenta, bem tosca, sustentada por outras quatro. Parecia muito antiga e estava toda gravada com linhas e figuras esquisitas, caracteres talvez de uma língua desconhecida. Dava uma sensação estranha olhar para ela. Em seguida viram, a um canto, várias barracas armadas, pequenas, médias e grandes. Tinha uma barraca no meio, maior que todas elas, e colorida. Era um pavilhão magnífico, sobretudo quando os raios do sol incidiam sobre ela. Estava revestida de alguma coisa que parecia seda amarela, cordões vermelhos e cavilhas de marfim; flutuando no alto de uma haste, uma flâmula com um leão rubro, agitada pela brisa do mar. Ouviram música, que vinha da direita.
Então, haviam chegado ao acampamento de Aslam. Luanna adentrou-se naquilo muitíssimo surpresa e feliz. Pois havia acabado de ver uma dríade dançar a chegada deles, e explicou rapidamente para Lúcia o que eram. Os três foram a frente, pois os Castores disseram que os Filhos de Adão e Eva tinham que ser os primeiros a adentrarem e a falarem com Aslam. "Os Filhos de Adão e Eva são sempre primeiro que os bichos!", disse o Sr. Castor, repetitivo. Luanna ainda permitia-se encantar com os bichos e os outros seres. Havia espíritos que moram nas árvores e espíritos dos bosques e fontes (dríades e náiades, como são chamados no mundo deles). Levavam nas mãos instrumentos de corda. Eram eles que tocavam. Viam-se também quatro grandes centauros: uma das metades lembrava um cavalo grande, enquanto a metade humana parecia um gigante de expressão séria, mas bonita. Havia ainda um unicórnio, que Lúcia quase chorou de emoção ao ver, e um touro com cabeça de homem, um pelicano, uma águia e um cachorro enorme. Tinha também outros faunos, vestidos em roupas de combate. E, ladeando a barraca do meio, que eles supuseram ser de Aslam, dois leopardos seguravam, um, a coroa, e outro, a insígnia.
Eles os observavam, curiosos, e alguns muito respeitosos. Pedro ia a ponta esquerda, com Luanna no meio e Lúcia à direita. Atrás vinham os castores.
- Por que eles tanto olham para nós? – Luanna perguntou, risonha, e um pouco envergonhada.
- Talvez eles achem você engraçada! – Lúcia riu.
Luanna olhou-a se divertir com ela. Então Pedro disse:
- Talvez eles achem você bonita. – e então sorriu.
Ela olhou-o sorridente. Ele respondeu o sorriso com outro. E disse, jovial:
- É a verdade! Você tem que admitir! – disse, em tom de brincadeira.
Lúcia riu ainda mais, e Luanna passou a mão na cabeça dela, como gostava de fazer com Edmundo. Então lembrou-se dele. E de Aslam. Então eles veriam Aslam. Seu coração pulava.
Chegaram até a barraca bonita, ao centro. Quando eles pararam, todos os que os seguiam pararam também. Então Pedro fez um ato bonito, desembainhando a espada, e, com ela esticada para cima, disse, firmemente:
- Nós viemos falar com Aslam! – foi em direção a um centauro negro.
Então o centauro olhou em direção a barraca, e eles ficaram ansiosos, olhando para a barraca também. Foi uma questão de segundos, então sentiram que algo ia sair da barraca. E então a coisa mais bonita aconteceu: todos os bichos, seres e espíritos que ali estavam ajoelharam-se.
E então Aslam saiu da barraca. Era de fato a Criatura mais linda e majestosa de toda Nárnia. Era enorme, e Sua juba dourada brilhava e reluzia como ouro, e uns grandes olhos, régios, soleníssimos, esmagadores. Assim, também Pedro, Luanna e Lúcia se ajoelharam à Sua presença solene e firme. Quem nunca esteve em Nárnia há de achar que uma coisa não pode ser boa e aterrorizante ao mesmo tempo. Os meninos entenderam logo. Pois, logo quando olharam para Ele, já não tiveram mais forças e começaram a tremer como varas verdes.
E então, Aslam falou:
– Seja bem-vindo, Pedro, Filho de Adão! Bem-vindas, Luanna e Lúcia, Filhas de Eva. Bem-vindos, Sr. e Sra. Castor.
A Voz, profunda e generosa, teve o efeito de um calmante. Ficaram alegres e animados, não mais perturbados por estarem ali sem dizer uma palavra.
– Mas por onde anda o quarto humano? – perguntou Aslam.
Eles se entreolharam e Lúcia fez uma face tristonha.
- É por isso que estamos aqui, Senhor. – disse Pedro, embainhando a espada novamente.
- Tivemos um probleminha no meio do caminho! – Luanna também falou.
- Ele foi seqüestrado pela Feiticeira Branca. – continuou Pedro.
- Capturado? – continuou a voz solene e calma de Aslam. – Como isso pôde acontecer?
– Ele os traiu, Aslam – respondeu o Sr. Castor, vendo que os outros estavam muito calados para falar.
- Então traiu a todos nós! – disse o centauro negro. E ouve um rebuliço entre os bichos e seres.
- Paz, Oreius! – ordenou Aslam, e imediatamente todos se calaram. – Estou certo de que há uma explicação.
Então, num impulso, Pedro disse:
– Foi culpa minha, Aslam. Fui duro demais com ele.
Luanna segurou-o no braço e falou, calmamente:
- Todos nós fomos! – olhou para Aslam.
- Senhor, ele é nosso irmão! – disse Lúcia, com sua vozinha calma, mas preocupada.
- Eu sei, minha cara! – a voz de Aslam foi compreensiva e penosa, e pareceu um carinho para a pequena Pevensie. – Isso só torna a traição ainda pior.
E ficou simplesmente olhando para Pedro com os seus olhos enormes.
– Por favor... Aslam – disse Lúcia –, não podemos fazer algo para salvar Edmundo?
– Faremos o que for preciso. Mas pode ser mais difícil do que você pensa.
O Leão guardou silêncio por certo tempo. Lúcia então reparou que sua expressão (apesar de imponente, régia e calma) também era triste. Mas a tristeza não demorou muito. Ele sacudiu a juba, bateu as patas ("Que terríveis patas seriam" – pensou Lúcia – "se Ele não soubesse como torná-las macias!") e disse:
– Enquanto isso, preparem o festim! Senhoras, levem para a barraca real estas Filhas de Eva e tomem conta delas.
Afastadas as meninas, Aslam pousou a pata (apesar de aveludada, muito pesada) em cima do ombro de Pedro:
– Venha, Filho de Adão; vou mostrar-lhe o palácio onde um dia será rei.
Empunhando a espada desembainhada, Pedro acompanhou o Leão ao extremo leste do topo da colina. O Sol se punha por detrás deles: embaixo, estendiam-se a floresta, montanhas, vales e o rio a colear como uma serpente de prata. Além, muito além, ficava o mar; além do mar, o céu, coberto de nuvens avermelhadas pelo pôr-do-sol.
Onde o país de Nárnia se encontra com o mar – na foz do grande rio – brilhava alguma coisa no alto de uma colina. Era um castelo com todas as janelas voltadas para Pedro e para o poente, refletindo a luz do Sol. Parecia uma estrela imensa a descansar na praia.
– Aquilo, ó humano, é Cair Paravel, dos quatro tronos, num dos quais você há de sentar-se como rei. É o primeiro a vê-lo por ser o primogênito; e será o Grande Rei, acima de todos os outros.
Pedro então pensou no que aquilo poderia significar para todo mundo. Ele não era rei de nada. Era apenas um rapaz que mal chegara na idade de ir para guerra com o pai. E tinha Edmundo, e a irmã pequena. E tinha Luanna, por quem sentia enorme afeição, mais do que ela imaginaria.
O Leão olhou-o uma outra vez, e disse, compreensivo:
- Duvida da Profecia?
- Não. – Pedro foi firme em respondê-lo. – Esse é o problema. Bem... eu não sou quem vocês todos pensam que eu sou.
- Pedro Pevensie, de Finchley! – Aslam falou. E Pedro ficou a olhá-lo, surpreso. Então ele continuou. – Pedro, existe uma Magia Profunda, muito antiga, que controla todos em Nárnia. É muito mais forte que todos os seres. Separa o certo do errado, e governa todos os destinos. O seu e o Meu. – e Ele ficou triste por uns minutos. Pedro apenas olhando em seus olhos profundos.
- Eu nem fui capaz de proteger toda a família!
- Você trouxe-os até aqui em segurança.
- Nem todos! – então Pedro pensou em Edmundo. E a culpa lhe corroeu o estômago.
- Eu farei o que puder para ajudar o seu irmão. Mas considere o que Eu lhe pedi. – e, olhando para todo o acampamento, e depois para toda Nárnia, disse: - Também quero minha família em segurança.
E Pedro ficou pensativo alguns minutos. Então Aslam sorriu-lhe e disse:
- Agora vamos falar sobre a moça que veio com vocês Pevensie.
O que fez Pedro corar, mas colocar seu olhar firme de volta a Aslam.
- Ela também faz parte do destino de Nárnia, não é? – sorriu.
Aslam sorriu, e confirmou com a cabeça de Leão. Continuou, mais sério.
- Pedro, nada criado neste mundo é mais belo que o amor. É o amor que nos move à proteção de Nárnia. E é o amor que vai levá-lo a se tornar o que você é.
Então ele ficou pensando no que aquilo significaria. Seria mais uma outra profecia? E então lembrou-se das palavras do professor. A sensação que ele tivera sobre o propósito dos Pevensie na Mansão com Luanna o fazia pensar se era sobre isto que ele falava.
- A Magia Profunda baseia-se no amor. Foi por amor que ela foi Criadora, e por Amor, ela triunfará.
- Então o amor que sinto... por meus irmãos e Luanna... me tornará o que eu tenho que ser.
- O amor fraterno que sente pelos seus irmãos já o tornou o que é agora. E o amor por Luanna, este lhe abrirá os olhos para o que terá que ser.
Pedro apenas acompanhou Aslam com o olhar, pensativo, mas sincero. Aslam continuou:
- Quando a batalha for iniciada, tudo será mais difícil. Mas você estará preparado, pelo amor. E sobre seu triunfo poderemos festejar. E então você, seus irmãos, e Luanna (pois Aslam não era como a feiticeira e sabia bem que Luanna não era irmã deles) sentarão no trono de Cair Paravel, e reinarão os quatro, sob pé de igualdade, mas obedientes ao Grande Rei. E então, no tempo oportuno, poderá tornar a Rainha de Nárnia a sua Rainha.
Pedro pensou nessas palavras por uns minutos, até que Aslam terminou a frase:
- Mas, Filho de Adão, até lá, deverá respeitá-la. Pois não haverá de ter desentendimento entre os Reis em Nárnia enquanto estes reinam. E esta é a primeira regra: a mulher a quem se foi destinado deve ser respeitada e guardada, até que os dois deixarão de ser dois, e se tornarão apenas um. E que o seu destino seja iniciado e terminado a seu tempo, a partir de agora.
E só foi Aslam ter dito isso, que Pedro escutou um ruído estranho ferir o silêncio. Era como um som de clarim, só que mais impressionante.
– É sua Luanna que faz soar a trompa – disse Aslam a Pedro, falando baixinho, tão baixo que parecia um rosnado, se não é falta de respeito falar assim.
Pedro então lembrou-se da trompa que Luanna ganhara de Papai-Noel. Ela precisava de ajuda. Os dois desceram a colina rapidamente, em direção ao som da trompa. Adentrando próximo de um pequeno lago, Pedro viu Luanna e a irmã sendo atacadas por dois monstruosos bichos pardos. A princípio, Pedro julgou que fosse ursos; achou depois que eram pastores-alemães, se bem que fossem grandes demais para serem cachorros. Só então viu que eram lobos, que empinavam, rosnavam e enfureciam-se, quase pulando em Luanna, os pêlos todo eriçados.
As náiades e as dríades fugiam em todas as direções. Pálida como a neve, Lúcia estava em cima da árvore, mas Luanna mal conseguiu subir. Pedro logo entendeu o que se passava: Lúcia e ela estavam no lago, e os dois bichos apareceram. Luanna colocou Lúcia na árvore, e como não dava tempo de subir sem que um dos lobos pulassem em suas costas, ela ficou em baixo, e tocou a trompa.
Então ele correu com todas as suas forças até eles; outros animais, e Oreius, também vieram. Então Aslam prendeu um dos lobos com a grande pata e ordenou para os demais bichos:
– Para trás! Deixem que o príncipe conquiste o seu reino! Esta batalha é de Pedro.
E percebeu Pedro que ele estava sozinho. Mas mesmo assim, não teve medo.
Correu direto ao monstro que ameaçava Luanna, e gritou:
- Afaste-se! – chegou junto a Luanna. Lúcia gritou seu nome, aflita.
Fez menção de vibrar-lhe um golpe com a espada. O golpe não chegou ao alvo. Como um relâmpago, a fera voltou-se, os olhos em fogo, boca escancarada, uivando de raiva. Teria despedaçado o jovem, se não estivesse tão raivoso. Então Pedro mostrou a espada a ele, apontando-a. O lobo disse:
- Já passamos por isso antes! – e Pedro percebeu que era Maugrim. – Acho que você não é disso. – rosnou, apontando o nariz para a espada.
- Pedro! Cuidado! – Luanna dizia, amedrontada.
O lobo olhou-a mais uma vez, e Pedro ficou com mais raiva. Então Maugrim disse:
- Você pode achar que é rei, mas vai morrer logo... como um cão.
E, dizendo isso, pulou em direção a ele. Com toda a força, Pedro enterrou a espada entre as patas do lobo, bem no coração. Seguiu-se um momento pavoroso, de tremenda confusão, como num pesadelo. Pedro lutava desesperadamente. As meninas gritaram. O lobo não parecia nem vivo nem morto. Os dentes do animal bateram em sua testa. Era tudo sangue, calor, pêlos e cabelos... Um momento depois, percebeu que o monstro estava morto; desenterrou a espada, endireitou-se, limpou o suor que lhe cobria o rosto e os olhos. Estava exausto o herói!
Luanna então aproximou-se dele, e Lúcia desceu da árvore. As duas correram, empurrando o restante do lobo de cima das pernas de Pedro. Então os três se abraçaram, as duas meninas chorando. Lúcia levantou-se, deixando os dois se olharem.
- Eu... – dizia Luanna, ou tentava dizer, mas nada saía.
Então Pedro percebeu que estava feliz, e não sentia culpa pelo que fizera, pois estavam todos bem. Luanna estava bem. Ele a tocou na face, carinhoso, limpando as lágrimas e o suor dela. Então Aslam soltou o lobo e ordenou ao restante dos bichos.
– Depressa! – gritou Aslam – Centauros! Águias! Vão atrás dele. Deve estar à procura da dona. É a oportunidade de descobrir a feiticeira e de salvar o quarto Filho de Adão.
Num instante, com um bater de cascos e um tatalar de asas, um grupo de velozes criaturas desapareceu nas trevas.
Pedro, ainda respirando mal, viu Aslam juntar-se aos dois, e a Lúcia. Então Aslam disse:
- Pedro! Esqueceu de limpar a espada. – disse o Leão.
Verdade. Pedro corou ao ver a lâmina brilhante manchada de sangue e de pêlos do polícia secreta. Esfregou a espada na relva, enxugando-a depois no casaco.
– Dê-me a espada. Ajoelhe-se, Filho de Adão! – disse Aslam. E Pedro o obedeceu.
Tocou-o com a lâmina da espada e disse, com a voz mais solene e bonita que eles já tinham escutado:
– Levante-se, Rei Pedro! Ruína dos lobos, e Cavaleiro de Nárnia.
Então Pedro levantou-se, e a profecia que falava do amor que abrir-lhe-ia os olhos estava cumprida, pois ele agora estava se sentindo, mais do que a outra vez, mais forte, austero, imponente e valente. Lúcia ajudou Luanna a se levantar, as duas sorrindo muito. Lúcia aproximou-se de Pedro e disse:
- Ela me colocou na árvore, e me salvou dos lobos.
Então Aslam sorriu para Pedro, e disse:
- E, aconteça o que acontecer, nunca se esqueça de limpar a espada!
E deixou os três, que já não eram mais os três que chegaram em Nárnia amedrontados com bichos falantes. Eram três dos quatro reis de Nárnia.
Estava anoitecendo depois que os dois Pevensie e Luanna voltaram do lago. Não haviam demorado lá, pois algumas náiades vieram avisar do banquete de jantar. Primeiro, teriam que tirar aquelas roupas sujas e colocarem outras. Luanna e Lúcia foram chamadas pelas dríades na barraca real. Duas delas, com cheiro de flores, colocaram arranjos feitos com pequenas flores em suas cabeças, e outras estendiam um bonito vestido azul marinho acinturado para Luanna, com mangas longas de cortes bonitos, e uma bonita saia que parecia roupa de princesa, bem longa. E um parecido e também bonito vestido azul celeste para Lúcia. Tiraram os sapatos ("minha bolha estourou!", Lúcia sorriu feliz) e colocaram outros de couro muito bonitos. As roupas e o sapato pareciam feitos sob medida!
Pedro também estava muito bonito, com roupas diferentes. Tinha longas botas de couro marrons nos pés, e calça verde bem escura. Uma camisa de longas mangas azul cinzento davam ar de adulto, coberta apenas com um colete longo marrom, de couro muito fino, e o cinturão de sua espada, em tom vermelho.
Eles esperavam as garotas para começarem o banquete. Então as dríades e náiades anunciaram sua chegada. Pedro percebera como Lúcia estava bela e sorridente, envergonhada. Mas seus olhos permaneciam em Luanna. Alguns dos bichos e seres realmente admiraram-na, uns mais exageradamente que os outros, cantarolando canções bonitas. E Pedro levantou-se, educadamente, ainda com olhos pousados na face de Luanna. Elas sentaram, Lúcia empurrando Luanna para sentar-se mais próxima a Pedro. E fartaram-se com o jantar, conversando com os demais bichos sobre Nárnia. Pedro permaneceu quieto, sem poder desviar os olhos de Luanna, enquanto ela sorria para os bichos que contavam histórias bonitas daquele país mágico e lhes traziam comida. Ele parecia estar sob um encanto, e muitas vezes alguém o acordava, oferecendo comida. Ele aceitava, e então voltava seus olhos hipnotizados na jovem.
A lua saiu de seu esconderijo e brilhou no céu quando eles acabaram a ceia. Lúcia bocejava de sono, e então chamou Luanna para entrarem em sua barraca. As duas tinham se divertido bastante no jantar, com as músicas dos faunos e a dança das dríades. Algumas dríades tentavam ensiná-las a dançar também, fazendo a maior festa. Na porta da barraca delas, Pedro apareceu, e falou:
- Garotas? Estão aí?
- Sim, Pedro. Pode entrar! – Lúcia pediu.
Ele entrou na barraca timidamente, mas, ao perceber que elas apenas estavam sentadas conversando, logo relaxou. Elas o olharam quieto, e riram.
- Então!? – Lúcia caiu na risada. – Vai fica aí feito um bobão? Passou a noite feito um bobão!
- Eu vim apenas agradecer a você, Luanna... pelo que fez pela Lúcia hoje. – ele falou, ignorando o que Lúcia dissera.
- Não me agradeça... você também o fez por mim, não foi?
- Sim. Fiz.
- Isso o deixou diferente! – disse Luanna, pensativa.
- Eu sei. – ele analisou aquilo cautelosamente, por uns momentos, e depois continuou. – Bem, na verdade, também vim fazer um convite.
- Convite? – Luanna ficou curiosa.
- Oh... adoro convites! Sempre levam às festas e coisas legais... – Lúcia continuou alegre. – É para mim também, o convite?
Pedro então ficou pensativo, mas respondeu-lhe.
- Querida, eu adoraria levar você, mas preciso falar com a Luanna.
- Coisa de pessoas velhas, então! – Lúcia deitou-se na grande cama que tinha na barraca, desapontada.
Luanna olhou Pedro, curiosíssima para saber do que se tratava. Confiava em Pedro e sabia que ele tinha algo para falar, sem estar enrolando Lúcia. Então ela respondeu-lhe:
- Tudo bem. Faça-me o convite.
- Amanhã, quando já tiver o Sol, quero mostrar-lhe uma coisa.
- Hum... tudo bem, então!
Ele levantou-se, e permaneceu com o mesmo olhar de bobo, ao se despedir:
- Boa noite, Lúcia!
- Boa noite, Pedro!
- Boa noite, Luanna!
- Boa noite, Pedro. – ela sorriu, o observando sair.
Depois de andar mais do que imaginava que alguém fosse capaz de andar, Edmundo parou; parou por ordem da feiticeira, num vale escuro. Deixou-se cair sem forças e ficou imóvel, cara no chão, nem se importando com o que pudesse acontecer, contanto que o deixassem ali deitado. Tão cansado estava que não sentia nem fome nem sede.
– Agora, Majestade, não adianta. Já devem estar na Mesa de Pedra. – disse o anão desanimado.
– Talvez o lobo fareje onde estamos e nos traga notícias.
– Boas não podem ser.
– Quatro tronos em Cair Paravel. E se só três forem ocupados? A profecia não se cumprirá.
– Que importância tem isso, agora que Ele chegou? – O anão não tinha coragem de pronunciar o nome de Aslam na presença de sua senhora.
– Pode ser que não fique aqui muito tempo. E então... cairíamos em cima dos três em Cair Paravel.
– Seria melhor conservar este como refém. – disse o anão, chutando Edmundo.
– Para que os outros venham salvá-lo? – replicou a feiticeira, com ar desdenhoso.
– Então o melhor é fazer logo o que se tem a fazer.
– Gostaria que fosse na Mesa de Pedra e não aqui. É o lugar adequado. Essas coisas sempre foram feitas lá.
– Longe ainda está o dia em que a Mesa de Pedra voltará a servir para o fim que lhe convém – disse o anão.
– É verdade. – concordou a feiticeira. – Assim sendo, vamos à coisa...
Nesse momento, um lobo precipitou-se ao encontro deles, rosnando:
– Estão na Mesa de Pedra com Ele. Mataram o capitão Maugrim. Vi tudo, escondido. Foi um Filho de Adão. Fuja! Fuja!
– Fugir, isso nunca! Convoque todo o meu povo aqui. Chame os gigantes, os velhos lobos e os espíritos das árvores que estão ao nosso lado. Reúna os vampiros, os duendes, os ogros, os minotauros. Chame os vulpinos, as bruxas, os espectros, as almas dos cogumelos bravos. Vamos lutar. Ah! Não tenho ainda a minha vara? Com ela não transformei as hostes deles em estátuas de pedra? Agora vá. Tenho um trabalhinho a fazer na sua ausência.
O bruto fez um sinal com a cabeça, deu meia-volta e se foi.
– Ora, mesa não temos... Espere aí... O mais prático é atá-lo ao tronco de uma árvore.
Edmundo sentiu-se agarrado brutalmente e forçado a manter-se de pé. O anão amarrou-o fortemente a uma árvore. A vista de Edmundo, a feiticeira abriu o manto, deixando aparecer dois braços nus, aflitivamente brancos. E só os viu porque eram mesmo muito brancos, mas não distinguiu quase mais nada, tal era a escuridão que reinava.
– Prepare a vítima.
O anão desabotoou a camisa de Edmundo. Pegando o menino pelos cabelos, puxou-lhe a cabeça para trás, forçando-o a levantar o queixo. Edmundo ouviu um ruído esquisito... zzz... zzz... zzz... A princípio não conseguiu perceber o que era, mas depois compreendeu que alguém estava afiando uma faca.
E ouviu gritos que vinham de todas as direções. Um repicar de cascos, um tatalar de asas... E um grito agudo da feiticeira... Reinava em torno a maior confusão. Alguém o desatava da árvore. Vozes vibrantes e bondosas falavam com ele...
– Deitem-no... Dêem-lhe um pouco de vinho... Beba isso... Coragem!... Não é nada...
E havia outras vozes: "Quem agarrou a feiticeira?" "Pensei que você a tivesse agarrado"... "Sumiu depois que soltou o facão"... "Corri, mas foi atrás do anão"... "Quer dizer que ela fugiu?"... "Ei, o que é aquilo? Ah, não é nada, apenas um tronco caído". Foi quando Edmundo perdeu os sentidos.
Os centauros, os unicórnios, os veados e os pássaros puseram-se a caminho, de regresso à Mesa de Pedra, levando consigo o menino. Mas teriam ficado se pudessem ter visto o que aconteceu em seguida naquele vale.
O silêncio era absoluto. A lua começava a brilhar. Se você estivesse lá, teria visto o luar banhar um velho tronco de árvore e uma rocha arredondada. E, se continuasse a olhar, teria pouco a pouco notado qualquer coisa de estranho no tronco e na rocha. O tronco era parecidíssimo com um homem baixo e gordo, agachado no chão. Veria o tronco caminhar ao encontro da pedra e a pedra sentar-se e começar a conversar com o tronco. Porque eram, muito simplesmente, a feiticeira e o anão. Fazia parte dos poderes da feiticeira dar às coisas a aparência daquilo que não eram. Tivera bastante presença de espírito para fazer uso desse dom no instante em que o facão lhe saltou das mãos.
