11° Capítulo: A Volta Para o Bem

Quando amanheceu, Luanna saiu da barraca. Lúcia ainda dormia, e ela sabia que era cedo demais para Pedro estar acordado, mas a verdade é que ela não dormiu direito. Procurou por Aslam, pois gostava da companhia do Leão, assim como todos dali. Mas Ele não estava. Alguns bichos ajudavam a Sra. Castor a fazerem o desjejum, um pouco aflitos. Luanna iria perguntar qual a causa da aflição, mas ouviu um ruído de alguém sair da barraca de Pedro. Ele também acordara.

Pedro também não tinha dormido direito. Escutava o barulho dos bichos aflitos de madrugada, mas não ouvira sobre o que seria. Demorou pouco e então resolveu levantar-se. Foi ao riacho que ficava atrás de sua barraca e lavou o rosto. Ainda era cedinho, e ele não costumava acordar essa hora. O Sol havia acabado de nascer.

E então, ao sair da barraca, viu que Luanna já acordara, e observava os bichos com cara de quem iria oferecer ajuda. Falou-lhe:

- Bom dia, Srta.

- Oh... bom dia! – ela sorriu-lhe. – Está vendo os bichos aflitos? Está até engraçado de ver! – ela apontou-os.

- Sim... acho que estão querendo dar o seu melhor para o banquete do desjejum! – Pedro continuou.

Os dois continuaram calados, olhando um ao outro. Até que Luanna disse:

- O que vai me mostrar? Estou curiosa.

- Algo muito bonito. Sei que vai gostar... e também preciso falar sobre o que faremos quando Edmundo voltar.

Ele entrou na barraca dele, e calçou as botas de couro marrom. Pegou a espada (garantiu que depois do café Oreius iria treinar-lhe!) e acinturou-a, e então saiu.

Luanna já o esperava, pronta. Comia uma fruta suculenta com gosto de morango que uma Náiade trouxera apressadamente. Jogou uma para Pedro, e este, a pegando pela mão, disse:

- Venha... não é lá muito longe...

Então eles saíram até um penhasco. O mesmo penhasco que Aslam o levara no dia anterior, com a vista do mar bonito, e mais ao fundo, o bonito e austero castelo.

- Oh... – ela surpreendeu-se.

- O Castelo dos Quatro Tronos... – Pedro revelou-lhe.

- Cair Paravel! – ela lembrou-se. – É lindo!! – ela apontou para paisagem. Pássaros recém acordados cantarolavam baixinho, e flores despertavam na beira do penhasco. A relva verde se estendia por baixo, e o mar azul brilhava intensamente à pouca luz do Sol, grande e resplandecente. – É tudo muito bonito!

Pedro então, nervoso, tremeu um pouco, mas disse, sorridente:

- Tão bonito quanto você.

Ela o olhou, pouco corada, e foi até ele, com um sorriso tímido. Observou seu rosto austero, diferente de antes do lobo. E lhe disse:

- Você é muito gentil. – sorriu, e continuou. – Pedro, eu... não agradeci a você pelo que fez por mim ontem! Eu realmente...

- Na verdade... foi você quem fez por mim, ontem. Muito, aliás. – ele suspirou, procurando palavras que se supusessem ao nervosismo à flor da pele.

Ela ficou com a face pensativa, e em seguida falou-lhe:

- Eu faria novamente. A Lúcia é como uma irmã para mim. E não saberia dizer o que teria sido de mim se não tivesse a tirado da vista e do faro dos lobos.

- Sim... também pelo que fez por Lúcia. Mas falo relacionado ao que fez me tornar ontem. – ele começava a relaxar.

- Não fui eu quem o fiz se tornar um Cavaleiro de Nárnia...

- Foi, sim, na realidade!

Ela pensou um pouco no que ele dissera, tentando ver as entrelinhas e verificar se tinha perdido alguma coisa. Mas continuou sem entender.

Pedro deu um suspiro nervoso, e ela percebeu, sabendo que viria algo mais forte do que ele sabia.

- Foi o amor que sinto por você que me tornou o que sou hoje! – Ele tocou-lhe nas mãos, um pouco trêmulas. – Porque eu amo você. – enfim falou. Seu coração ia aos pulos, como se voltasse a ser o adolescente da Inglaterra.

Ela tremeu um pouco, mas o olhou fixamente, com a face feliz e surpresa. Ele continuou, percebendo que as palavras sairiam agora mais facilmente, enfim relaxando:

- Poderia dizer que estava apaixonado pela moça bonita e simpática da Inglaterra, mas, ao entrar em Nárnia, percebi, através de Aslam, que é o amor que me completa o coração. O amor por você, a moça bonita e simpática da Inglaterra, e também a Rainha de Nárnia.

Pedro tremeu por dentro, agora estava um silêncio curto e constrangedor. Era hora dele se acalmar, porque ela iria falar. Então ele tocou-a gentilmente na face, fazendo um pequeno carinho. Ela sorriu, sem corar nem um pouco, e disse:

- Também posso dizer que amo você... não foi tão difícil de descobrir isso depois do que fez por mim. E depois do medo que senti ao ver o que ganhou de Papai-Noel. – Pedro suspirou aliviado, e seu coração preencheu-se de uma alegria extraordinária. Olhou-a, compreensivo, ainda acarinhando a face dela.

- Temo porque sei que vai para a batalha. – ela abriu o seu coração.

- Sei que teme. – ele a consolou. – ...tenho também que falar sobre isto. Edmundo irá voltar. Aslam prometeu fazer o que pode. Eu confio plenamente Nele e na Sua Promessa! Então... o que queria que fizesse é pegar ele e Lúcia e levá-los para o caminho de casa. Ficarão longe do perigo... e...

- Nárnia precisa de nós também. E os quatro tronos? – ela o interrompeu.

- Eu acredito na Profecia, e sei bem que nós quatro somos destinados à Nárnia. Lembra-se também do que seu tio disse?? Nossos destinos estão aqui em Nárnia, o dos quatro, e juntos. Mas... não sei o que faria se, na batalha, um de vocês perecesse.

- Oh... Seu grande herói... – ela derramou uma lágrima, mas falou sorridente. – Não lhe prometo nada. Quando Edmundo chegar, conversaremos, os quatro, e assim, decidiremos juntos o que fazer. E devemos aceitar nosso destino!

Alguns sons de clarins tocaram longe deles. Um som muito doce e carinhoso. Náiades cantavam e dríades dançavam. Pedro então olhou para Luanna, suavemente acarinhando-a na face. Aproximou-se de seus lábios bonitos e vermelhos, e a beijou ternamente. Um beijo muito bonito e cheio de sentimentos. Passarinhos cantaram de alegria, e a música suave e doce se tornou muito mais bonita do que já estava.

E então, se abraçaram. Ele acolheu-a, ainda temendo. Sabia que eles ficariam em Nárnia. No fundo ele queria isso também. Ele sabia que Nárnia precisava da ajuda dos quatro. Aslam precisava dos quatro para proteger Sua família.

Oreius apareceu, sorridente ao ver os dois daquele jeito, e com muito respeito e cautela, anunciou:

- Jovens... venham. – e saiu, deixando-os sorridentes e felizes.

O Sol já esquentava feliz a terra de Nárnia, e eles seguiram o centauro, caminhando de mãos dadas. Então viram. Uma Náiade trouxe Lúcia da barraca, e ela ficou risonha ao ver os dois, mas voltou-se para onde eles olhavam surpresos, e ela também viu. Edmundo conversava ao longe, de pé, com Aslam. Os dois com faces sérias, e amorosas. As duas ao mesmo tempo.

Lúcia fez menção de ir até lá, mas Pedro a segurou. E ela percebeu que era uma conversa bastante significativa para Edmundo, pois ele precisava Dela. Não é preciso dizer para você (e o fato é que ninguém ouviu) o que Aslam dizia. Fique sabendo que foi uma conversa da qual Edmundo jamais se esqueceu. A Sra. Castor sussurrou-lhe que Edmundo fora trazido ao acampamento altas horas da noite. Quando os outros se aproximaram, Aslam voltou-se e, acompanhado por Edmundo, foi ao encontro deles.

– Aqui está o quarto Filho de Adão. E... bem... não vale a pena falar do que aconteceu. O que passou, passou.

Edmundo olhou os três com a face triste, e disse:

- Desculpe.

Então Lúcia abraçou-lhe, tão feliz que lágrimas caíam sem o menor esforço. Ele a acolheu no abraço, procurando o calor do amor da irmã. Este também muito feliz. Então Luanna se aproximou dele, com a face muito bondosa. Passou a mão nos cabelos dele, como gostava de fazer para irritá-lo.

- Ei, pirralho! – disse, feliz. Estendeu a mão, em sinal de paz, e este a segurou. Então Luanna puxou-lhe, e também o abraçou. Ele seguiu abraçado, um pouco surpreso, mas também querendo um pouco do amor dela por ele. O amor fraternal.

- Desculpe por chamá-la de namorada de Pedro o tempo todo, para irritar-lhe. – ele disse.

- Tudo bem... acho que pode me chamar assim agora. – e sorriu-lhe mais uma vez.

Ele olhou-a sorrindo, e então olhou para Pedro. Este, ao invés de sorrindo, estava sério. Então ele se aproximou, e Pedro perguntou-lhe:

- Está cansado?

Ele respondeu, sincero:

- Um pouco...

- Descanse um pouco. – este disse.

Edmundo fez menção de sair para ir à barraca de Pedro, quando este o chamou.

- Edmundo. – e ao se virar para saber do que se tratava, Pedro disse: - Tente não se afastar muito! – e sorriu, seguido por outro sorriso de Edmundo. As outras meninas sorriam, felizes, Luanna acalentando Lúcia, abraçada a ela. Pedro juntou-se a elas, abraçando Luanna e Lúcia, sorridentes.

Mais tarde, Luanna apareceu à porta da barraca de Pedro, e chamou:

- Edmundo!

Este, com cara de sono, apareceu-lhe, alguns minutos depois. Então ela disse, sorridente:

- Venha... vamos tomar café. Os quatro.

Ele seguiu com ela, e chegaram onde estava Lúcia e Pedro. Todos muitíssimos felizes com a chegada de Edmundo e a reunião dos quatro humanos em Nárnia. Edmundo sentou-se e comeu grandes torradas, rapidamente. Estava faminto, pois a feiticeira não lhe dera nada para comer o tempo todo. Lúcia, muito risonha, falou:

- As torradas de Nárnia não irão acabar amanhã, Ed!

Os outros dois riram. Então Luanna olhou para Pedro, ao seu lado, e fez a face de quem dizia: "Está na hora de conversarmos sobre permanecer em Nárnia". Então Pedro levantou-se, e começou a dizer.

- Bem, eu pedirei que preparem os mantimentos para a viagem de volta.

Então Lúcia e Edmundo o olharam, surpresos.

- Estamos indo embora??? – perguntou uma Lúcia, desolada.

- Você irão... eu ficarei! Prometi a mamãe que manteria vocês em segurança. Mas isso não significa que eu não possa ficar e ajudar!

Os dois ficaram pensativos. Luanna pensava se ela poderia deixar Edmundo e Lúcia no guarda-roupa, se é que eles achariam o caminho, e voltar para ajudar Pedro.

- Mas... eles precisam de nós! – Lúcia disse, tristonha. Edmundo permaneceu calado. – Nós quatro! – ela olhou para Edmundo, procurando apoio.

- Lúcia... é perigoso demais!! Você quase se afogou! E Edmundo quase foi morto!!

Então Edmundo achou que devia se intrometer, cautelosamente.

- Por isso temos que ficar! – ele disse, devagar e baixinho.

Pedro o olhou surpreso, e Luanna acompanhou, com um sorriso de esperança.

- Eu vi o que a Feiticeira Branca é capaz de fazer! Eu a ajudei! – Lúcia e Luanna o olharam dizer aquilo, como se fosse outro Edmundo falando. – Não podemos abandonar essa gente!

Eles se olharam uns segundos. Lúcia abraçou as mãos de Edmundo, trazendo-o carinho e compreensão. Pedro então olhou para Luanna, e perguntou-lhe, mas foi uma pergunta retórica:

- O que diz, Luanna?

Esta, sorrindo, se levantou, sendo observada por todos, e disse:

- Está decidido. – e caminhou em direção a barraca.

- E para onde vai?? – Pedro parou-a mais uma vez.

Ela, mais sorridente ainda, pegou na cadeira seu arco e flecha, e falou:

- Praticar um pouco!

E todos eles terminaram o café, e foram treinar naquela manhã.

Enquanto Luanna atirava flechas no alvo pintado numa grande tábua pelos faunos, Lúcia assistia, e até atirava seu punhal, algumas vezes melhores do que Luanna, quando acertava bem no meio do vermelho no alvo.

Os meninos treinavam na espada, com Oreius. Após o almoço, ele e Edmundo foram treinar nos cavalos. Edmundo montou um preto chamado Philip (ele mesmo dissera a Edmundo, quando este o chamou de "cavalinho"), e Pedro pôde subir no unicórnio mais bonito que eles já tinham visto. Este fez uma reverência muito grande a Pedro, e disse:

- Poderei servir na guerra com Vossa Majestade?

Pedro, desacostumado ainda com essas coisas pomposas, disse:

- Poderá lutar aonde quiser.

- Então ajudarei com meu chifre, protegendo Vossa Majestade, o Rei Pedro.

E ele, então, subiu no grande corcel branco, chamado de Nuvem. E juntos estudaram as armas e os prováveis ataques do inimigo, até a hora do almoço.