12° Capítulo: Jadis e Aslam

Mas, no meio da tarde, enquanto eles praticavam, os dois, no cavalo e no unicórnio, e as meninas próximas a eles, o Sr. Castor apareceu, aflito, e disse-lhes:

- Depressa! A feiticeira quer um encontro com Aslam! – o Sr. Castor falou apressado. – Ela está a caminho daqui!

Os dois meninos se olharam, e as duas meninas suspiraram pesadamente. O Sr. Castor explicou-lhes:

- O anão que serve à ela (Filho da Terra, foi como Aslam o chamou) pediu salvo conduto para que ela trate com Aslam. E Aslam disse: "Diga a sua senhora que o salvo-conduto está concedido, sob a condição de ela deixar a vara mágica debaixo daquele grande carvalho".

Os quatro apressaram-se para o centro da Mesa de Pedra, onde já havia um rebuliço de bichos. Aslam estava ao centro, mas a Feiticeira Branca não tinha chegado ainda. Pedro, Luanna, Edmundo e Lúcia chegaram juntos próximos a Oreius, que estava os protegendo com os dois leopardos.

Com poucos minutos de espera, o anão, com capuz vermelho, entrou, gritando:

– Jadis! A Rainha de Nárnia! Imperatriz das Ilhas Desertas!

– Ah! Rainha de Nárnia! – comentou o Sr. Castor. – Mas é muito cara-de-pau!...

– Calma, Castor! – disse Aslam. – Todos os títulos serão restituídos a quem de direito. Não vale a pena discutir por enquanto.

Muitas vaias seguiram-se após a apresentação. E então ela entrou. Num trono com quatro ciclopes (seres altos com um olho só no meio da testa). Ela, toda em branco, com sua coroa de gelo no alto da cabeça, com face séria e metida, empinando-o ainda mais ao escutar as vaias dos seres e dos bichos.

Dirigia-se sem hesitar para junto de Aslam. Os três, que nunca a tinham visto, sentiram um frio na barriga quando a olharam de frente. Alguns animais começaram a rosnar. Embora fizesse um sol magnífico, todos se sentiram gelados de repente. As únicas pessoas que pareciam estar absolutamente à vontade eram Aslam e a própria feiticeira. Estranho espetáculo: um rosto dourado e um rosto nevado... Tão perto um do outro. Não que a feiticeira olhasse Aslam bem de frente. A Sra. Castor não deixou de reparar nisso.

Os ciclopes baixaram o trono próximo a Aslam, e ela se estendeu, alta e imponente. Caminhando em direção a Aslam, ela olhou para o lado, e sorriu para Edmundo, que suspirou fundo, nervoso.

– Há um traidor aqui, Aslam! – declarou a feiticeira.

Todos os presentes entenderam. Pedro e Luanna se olharam, aflitos. Lúcia segurou em Edmundo. Mas este, depois da conversa pela manhã e de tudo mais, não deu bola. Continuou simplesmente a olhar para Aslam. Estava esnobando a feiticeira. Mas não deixava de temê-la.

– Não foi bem a você que ele ofendeu. – disse Aslam.

– Já se esqueceu das leis sobre as quais Nárnia foi criada!? A Magia Profunda? – perguntou a feiticeira.

– Digamos que sim – replicou Aslam, solenemente. – Fale-nos da Magia Profunda. – estava tão calmo, e risonho, que até pareceu que ele queria apenas irritá-la.

– Falar-Lhe da Magia Profunda?! Eu?! – disse a feiticeira, numa voz ainda mais aguda. – Falar-Lhe do que está escrito nessa Mesa de Pedra aí ao lado? Falar-Lhe do que está escrito em letras do tamanho de uma espada, cravadas nas pedras de fogo da Montanha Secreta? Falar-Lhe do que está gravado no cetro do Imperador de Além-Mar? Se alguém conhece tão bem quanto eu o poder mágico a que o Imperador sujeitou Nárnia desde o princípio dos tempos, esse alguém é Você. Sabe que todo traidor, pela lei, é presa minha, e que tenho direito de matá-lo!

– Ah! – disse o Sr. Castor. – Já estou entendendo por que foi que você se arvorou em rainha... Você era o carrasco-mor do Imperador!

– Calma, Castor, calma. – disse Aslam, em voz baixa e arrastada. – Eu estava lá quando foi Escrita!

– Portanto, – continuou a feiticeira. – essa criatura humana me pertence. A vida dela me pertence. Tenho direito ao seu sangue. O traidor pertence a mim.

– Então venha buscá-lo, se for capaz – disse Pedro, empunhando a espada. Todos fizeram um alvoroço, querendo interferir. As meninas olharam Pedro, mas permaneceram imponentes também ao lado dele. Edmundo surpreendeu-se.

– Débil mental! – disse a feiticeira, com um riso de fúria que era quase um grunhido. – Está tão convencido assim de que o seu Senhor me pode privar dos meus direitos pela força? Ele conhece bem demais a Magia Profunda para atrever-se a isso. Sabe que, a não ser que eu receba o sangue a que a lei me dá direito, toda a terra de Nárnia será subvertida e perecerá em água e fogo. – e, olhando para Pedro, desdenhou: - Reizinho... – e, com voz firme, continuou: - Aquele garoto morrerá na Mesa de Pedra! Conforme a tradição!

Outro alvoroço dos bichos, e dos garotos. Pedro olhou aflito para Edmundo. Lúcia se abraçou a Luanna, e esta colocou a mão sobre o ombro de Edmundo.

– Oh! Aslam! – sussurrou Luanna, ao ouvido do Leão. – Não podemos nós... quer dizer, isto é, não vai acontecer nada, não é? Não se pode dar um jeito nessa Magia Profunda?

– Enfrentar o poder do Imperador? – Ele respondeu noutro sussurro.

E voltou-se para ela, com o rosto ligeiramente carregado. E ninguém mais tocou naquele assunto.

Edmundo fitou Aslam o tempo todo. Sentia-se sufocado e perguntava a si mesmo se devia dizer alguma coisa: compreendeu que não devia dizer coisa nenhuma, só esperar e cumprir o que lhe fosse ordenado.

– Afastem-se – disse Aslam. – Preciso falar a sós com a feiticeira.

E os dois entraram na barraca-real.

Foram momentos terríveis de longa espera. Que estaria o Leão a combinar? Lúcia disse apenas "Oh, Edmundo!", e começou a chorar. Luanna abraçava Lúcia e tentava acalmá-la, olhando para Pedro, que estava de costas para os outros, olhando o mar distante. Cabisbaixos, os castores davam a mão um ao outro. Os centauros, nervosos, batiam com os cascos no chão. Por fim todos se acalmaram e foi um silêncio daqueles de ouvir zumbido de abelha, esvoaçar de passarinho e sussurrar de brisa na folhagem. E a conversa continuava.

Finalmente viram-se os dois saírem. A Feiticeira, muito quieta, e parecendo bastante feliz, fez Pedro tirar a espada novamente. E então, ouviu-se a voz de Aslam.

– Ela renunciou ao direito que tinha sob o sangue de Edmundo.

Pela encosta, ouviu-se um ruído, como se todos tivessem começado a respirar ao mesmo tempo. Foi um pipocar de opiniões. Comemorações à parte dos garotos.

A feiticeira, com uma expressão de feroz alegria, já estava se afastando quando parou e disse:

– Mas quem me garante que a promessa será cumprida?

Então Aslam rugiu. Mas um rugido tão estrondoso e forte, como quem estava provocando uma avalanche nos cumes gelados das montanhas. E suas fauces ficaram escancaradas. O rugido ribombou. A feiticeira, atônita, agarrou a saia e fugiu, como se tivesse a vida em perigo. Assim fugiram também seus seguidores.

Logo que a feiticeira desapareceu, Aslam disse:

– Temos de abandonar este lugar imediatamente, porque vai ser utilizado para outra coisa. Acamparemos esta noite na margem do Beruna.

Todos estavam ansiosos, é claro, para conhecer os termos do acordo. Mas a expressão de Aslam era tão severa, e o rugido que soltara ressoava ainda de tal modo nos ouvidos de todos, que ninguém teve coragem de interrogá-lo.

Pedro apenas abraçou-se a Luanna, e Lúcia cantarolava feliz ao lado de Edmundo, enquanto os bichos arrumavam as coisas para partir.

Depois de uma refeição ao ar livre, no cimo da encosta, ajudaram a desarmar a barraca real e a arrumar as coisas. Antes de duas horas estavam a caminho, rumo ao nordeste, avançando a passo moderado, pois o lugar para onde iam não era longe.

Aslam, mais afastado dos outros, explicou a Pedro seu plano de campanha:

– Logo que termine suas tarefas por aqui, a feiticeira deve voltar para o seu castelo e preparar-se para resistir a um cerco. Talvez você possa cortar-lhe o caminho, impedindo que ela chegue lá, mas também pode ser que não.

Aslam continuou a expor dois planos diferentes de batalha: um para atacar a feiticeira e sua gente no bosque; outro para assaltar o castelo. Aconselhou Pedro sobre a melhor maneira de conduzir as operações, dizendo coisas assim: "Deve colocar os centauros em tal parte", ou "Não esqueça suas sentinelas".

Por fim, disse Pedro:

– Mas você ficará comigo, Aslam.

– Nada posso prometer. – retrucou Aslam, e continuou a dar suas instruções.

Na segunda etapa da viagem, foram Luanna e Lúcia que lhe fizeram companhia. Aslam, entretanto, quase nada falou, dando-lhes a impressão de estar muito triste, deixando as duas sem saber o que falar pelo caminho inteiro.

Chegaram a um ponto onde o vale se alargava e o rio corria num leito amplo e pouco fundo. Era o Passo do Beruna. Aslam deu ordem para que acampassem do lado de cá. Pedro observou:

– Não seria melhor o lado de lá? Ela pode atacar-nos à noite.

Aslam, que parecia preocupado com outra coisa, levantou a cabeça, sacudiu a Juba Soberba e disse:

– Hum! Que foi?

Pedro repetiu a pergunta.

– Não! – disse Aslam, com voz indiferente, como se aquilo não tivesse a mínima importância. – Ela não ataca esta noite. – e soltou um profundo suspiro, acrescentando em seguida. – De qualquer modo, foi bem pensado. Só que não vale a pena.

E continuaram a armar as tendas.

Já se aproximava da noite quando Pedro chamou Luanna para conversar, enquanto ela e Edmundo tentavam fazer com que Lúcia comesse algo.

- Luanna, minha querida. Queria conversar algo.

- Sim... – ela se afastou de Lúcia e Edmundo, os dois muito risonhos.

Caminharam silenciosos de mãos dadas até quando encontraram um riacho, onde Pedro bebeu água, oferecendo um pouco a Luanna.

Depois, este a olhou profundamente, e, segurando-a nas mãos, disse:

- Percebeu que o Leão está triste?

- Sim. – ela baixou o olhar. – E isso me deixa preocupada.

- Ele não prometeu estar na guerra comigo.

Pedro revelou-lhe rapidamente aquela frase, temendo a reação de Luanna. Mas ela, para sua completa surpresa, o olhou, com olhos sinceramente pesados, mas sorridentes, se é que você entende como é um olhar desse tipo. Só tenho uma coisa a dizer: é um olhar preocupado, mas confiante. Depois, disse:

- Meu querido... eu confio no amor que sinto por você! E se ele o tornou o que é hoje, então venceremos essa batalha. Lutaremos por Aslam, com ou sem Ele conosco, mas sempre ao nosso lado.

Ele sorriu-lhe, com aquelas palavras dela. Acarinhou-a com as mãos em seu rosto. Ela, sorrindo, fechou os olhos para curtir o carinho. Então ele disse:

- Quero que tome cuidado. Não posso deixar que se afaste o mínimo possível de mim.

- Se tentar me proteger, poderemos perder a guerra.

- Luanna... – ele a olhou, preocupado.

- Pedro, tenho certeza que estaremos todos bem. Concentre-se na guerra, e não em mim. Para deixar-lhe tranqüilo, prometo que ficarei com Lúcia, o tempo todo, e longe de confusões. E posso chamá-lo a qualquer momento. Esqueceu do presente do Papai-Noel? – ela falou.

Ele a olhou mais uma vez. Suspirou fundo e disse-lhe:

- Eu te amo, Luanna.

Ela sorriu-lhe, e, encostando os lábios em sua pele, sussurrou:

- Eu também te amo, Pedro Pevensie.

E colou os lábios nos dele, num beijo carinhoso.

- Hum... cada vez que disser 'eu te amo', ganho mais desses? – Pedro brincou.

- Humrum... – ela confirmou.

- Eu te amo, eu te amo, eu te amo...