13° Capítulo: A Paixão do Leão

Nessa noite, ao retornarem ao acampamento, a tristeza de Aslam projetou-se em todos os outros. Pedro não se sentia bem ao lembrar que ia assumir sozinho a responsabilidade da batalha. Fora um grande choque o fato de Aslam não prometer estar presente. A ceia foi silenciosa, muito diferente da refeição da noite passada ou daquela mesma manhã. Era como se os dias felizes, que mal tinham começado, já chegassem ao fim.

Pedro e Edmundo despediram-se das garotas desejando-as boa noite ao entrarem na cabana, seguidas pelos dois. Elas deitaram em suas camas montadas naquela tarde, e os dois falaram sobre a guerra, Lúcia cada vez gostando menos da conversa. Pedro combinou com Edmundo as posições, e as mesmas coisas que tinham conversado com Oreius e os outros centauros e soldados de Aslam. E assim, com beijinhos e abraços (Edmundo resmungou quando Luanna o puxou várias vezes para abraçá-lo), eles se retiraram.

Mas Luanna nem conseguiu dormir, inquieta. Depois de muito tempo acordada, virou-se e ouviu Lúcia suspirar.

– Você também não consegue dormir, Lu?

– Não. Achei que você estava dormindo. Tenho um pressentimento horrível, Luanna, como se qual quer coisa estivesse para acontecer com a gente.

– É mesmo? Eu também.

– É alguma coisa com Aslam. Ou algo pavoroso está para acontecer com Ele, ou é Ele que vai fazer algo assim.

– Esteve preocupado o dia inteiro, Lúcia! Ele disse que não poderá estar conosco na batalha. Será que está pensando em ir embora esta noite?

– Onde Ele está agora? Na barraca?

– Acho que não.

– Luanna! Vamos procurá-Lo. – a garota fez voz chorosa e preocupada.

– Está bem, vamos. É melhor do que ficarmos acordadas, especulando.

Muito de mansinho, as duas meninas pegaram suas armas (por precaução, garantiu Luanna) e saíram da tenda. O luar estava claro e reinava o silêncio. Luanna agarrou-se ao braço de Lúcia de repente:

- Lá!

No extremo oposto do acampamento, onde começavam as primeiras árvores, o Leão dirigia-se lentamente para o bosque. Sem trocar palavras, elas foram atrás.

Aslam afastou-se do vale e continuou a andar. Parecia seguir o mesmo caminho que tinham percorrido durante o dia, quando vieram da Mesa de Pedra. Foi seguindo sempre, levando-as ora para lugares escuros, ora para outros banhados de luar. Os pés das meninas estavam úmidos de orvalho. Aslam tinha uma aparência diferente. Cabeça baixa, cauda caída, caminhava devagar, como se estivesse muito cansado. Ao atravessarem uma clareira, onde não havia sombras nas quais pudessem esconder-se, as meninas viram-no parar e olhar em volta. Não adiantava fugir, então elas foram ao seu encontro.

– Crianças, por que estão me seguindo?

– Não conseguimos dormir. – disse Lúcia, sentindo que não era preciso dizer mais nada.

– Por favor, deixe-nos ir com Você, a qualquer lugar... – implorou Luanna.

– Bem... – E Aslam pareceu refletir. – Vou gostar de ter amigos esta noite. Podem vir... Desde que me prometam parar quando Eu lhes disser, e Me deixem depois continuar sozinho.

– Muito obrigada... Prometemos!

A marcha prosseguiu: o Leão entre as duas meninas. Como andava devagar! A grande Cabeça Real ia tão baixa que o nariz quase roçava a relva. A certa altura tropeçou e deixou escapar um gemido.

– Aslam! Aslam querido! – disse Lúcia. – O que há? Por que não nos diz o que tem?

– Está doente, Aslam querido? – perguntou Luanna.

– Não. Estou triste. Estou só. Ponham as mãos na minha juba, para que eu sinta que vocês estão aqui, e caminhemos assim.

Foi assim que as meninas fizeram o que, sem licença Dele, jamais teriam tido a coragem de fazer; ainda que o desejassem ardentemente, desde o primeiro instante em que O viram... Enfiaram as mãos frias na juba farta, acariciando-a, e foram andando ao lado Dele.

Repararam que subiam a encosta do monte sobre o qual estava a Mesa de Pedra. Chegaram à última árvore antes da clareira. Aslam parou e disse:

– Crianças, vocês ficam aqui. Aconteça o que acontecer, fiquem bem escondidas. Adeus!

Então Luanna e Lúcia começaram a chorar, embora mal soubessem o motivo. Agarraram-se ao Leão, deram-lhe beijos na juba, no nariz, nas patas, nos grandes olhos tristes. Lágrimas grandes caíam sem que elas se importassem de fazê-lo. Depois, Ele se afastou e foi sozinho para o alto da colina. Escondidas nas últimas moitas, Luanna e Lúcia ficaram espiando.

Vou lhe contar o que elas viram, pois a Mesa de Pedra agora estava lotada de figuras não tão magníficas de se ver numa história.

Uma imensa multidão estava reunida em torno da Mesa de Pedra. Embora o luar clareasse tudo, muitos traziam tochas, que ardiam com sinistras chamas vermelhas e fumo negro.

Que bicharada! Ogros de dentes monstruosos! Lobos! Homens com cabeça de touro! Hienas, espíritos de árvores más e de plantas venenosas, morcegos, bestas de todos os tipos! Vulpinos, bruxas, íncubos, fúrias, horrores, espectros, sátiros, lobisomens... Estavam ali todos os que eram do partido da feiticeira, convocados pelo lobo. No centro, em pé junto da mesa, estava a própria feiticeira.

No momento em que viram o enorme Leão dirigir-se para elas, aquelas criaturas soltaram uivos e grunhidos de terror. Até a feiticeira pareceu por um instante paralisada de medo. Mas dominou-se e deu uma selvagem gargalhada.

– O louco! O louco está chegando!

Ao se aproximar da Mesa de Pedra, a feiticeira falou, com voz fria e horrorosa:

- Contemplem! O grande leão.

E ouviu-se risadas de todos os tipos, grunhidos e rugidos de bichos ruins, parecendo zombarem de Aslam. As meninas fizeram caretas de reprovação e confusão, querendo entender o que eles estavam fazendo ali.

- Amarrem bem o louco! – gritou a feiticeira.

Lúcia e Luanna pararam de respirar, aguardando o rugido de Aslam e o ataque ao inimigo. Mas nada! Quatro bruxas, rindo zombeteiras (a princípio, a uma certa distância, receosas de cumprir sua missão), aproximaram-se dele.

– Amarrem o louco, já disse!

As bruxas correram para Ele com um uivo de triunfo, ao verem que não oferecia resistência. Anões e macacos malignos chegaram de todos os lados para ajudá-las. Derrubaram Aslam, para que Ele deitassem. Lúcia e Luanna horrorizavam-se diante de tamanha violência.

- Por que Ele não reage!?? – Lúcia perguntou, chorando, a Luanna. Esta, não soube responder, com lágrimas nos olhos.

Amarraram-Lhe as quatro patas, gritando e dando vivas, como se tivessem cometido um ato de bravura. Claro que, se o Leão quisesse, uma patada seria a morte para eles. Mas ficou quieto, mesmo quando os inimigos rasgaram a Sua Carne de tanto esticarem as cordas. Depois, começaram a arrastá-Lo para o centro da mesa. Lúcia e Luanna pareciam sem ação, nem ao menos respirar conseguiam.

– Alto! – disse a feiticeira. – Primeiro, cortem-Lhe a juba!

Uma gargalhada mesquinha ressoou quando um ogro de faca e tesoura na mão avançou e se pôs de cócoras junto da Cabeça do Leão. A tesoura rangia, e montes de caracóis dourados tombavam ao chão. Faziam festa enquanto o ogro cortava-Lhe o pêlo. O anão oferecia os cachos do Leão, jogando-os para os seres ruins. O ogro então afastou-se, e, do esconderijo, as meninas puderam ver o rosto de Aslam, pequenino e tão diferente sem a juba! Os inimigos também notaram isso:

– Vejam: não passa de um gatão!

– E é disso que a gente tinha medo?

Rodearam Aslam, zombando Dele a valer:

– Miau! Miau! Coitadinho do bichano! Quantos camundongos você papou hoje? Quer um pires de leite, bichinho?

– Que audácia! – disse Lúcia, com lágrimas correndo pelo rosto. – Perversos! Malvados!

Passada a primeira impressão, a cara tosquiada de Aslam parecia-Lhe ainda mais valente, mais bela e mais resignada do que nunca.

– Amordacem-No! – gritou a feiticeira. Mesmo agora, quando Lhe punham a focinheira, uma dentada Dele bastaria para decepar, pelo menos, as mãos de dois ou três. Ao vê-Lo amordaçado e amarrado, os mais covardes ganharam ânimo. Por instantes, as meninas nem sequer conseguiram vê-Lo, rodeado como estava por aquela horda infernal, que Lhe batia, dava pontapés, cuspia-Lhe em cima, insultava-O.

Por fim os monstros ficaram cansados. E o Leão, amarrado e amordaçado, foi arrastado para a Mesa de Pedra, puxado por uns, empurrado por outros. Era tão grande que, mesmo depois de O terem arrastado até lá, só com o esforço de todos foi possível içá-Lo e colocá-Lo em cima da Mesa. Depois, amarraram-No e apertaram-Lhe outra vez as cordas.

– Covardes! Covardões! – soluçava Luanna. – Será possível que ainda tenham medo Dele? – ela pensava. – Estamos tão longe dos outros. Não adiantaria nada sair daqui, sem ver o que farão com Ele! – soluçava ainda mais apertado.

Logo que acabaram de amarrar Aslam à Mesa de Pedra (mas tão amarrado que mais parecia um novelo), fez-se silêncio. Quatro bruxas, aos quatro cantos da mesa, erguiam seus fachos. A feiticeira desnudou os braços, como fizera na noite anterior com Edmundo. Depois, começou a afiar um facão. Quando o brilho do facho caiu sobre ele, Luanna e Lúcia acharam que o facão era de pedra e não de aço, e tinha uma forma esquisita e nada agradável.

- Não! Oh, não! – Luanna apertou o olhar.

Por fim, a feiticeira aproximou-se. Parou junto da cabeça do Leão. Seu rosto vibrava e contorcia-se de ódio. O Dele, sempre calmo, olhava para o céu, com uma expressão que não era nem de ira, nem de medo, um pouco triste apenas. Então fez-se um silêncio. Logo, um ogro bateu com um cajado no chão, fazendo um barulho grosso. Outros acompanharam, fazendo parte do ritual. A feiticeira então, abaixou-se, e disse ao Leão, vibrando com a voz:

– Quem venceu, afinal? Louco! Pensava com isso poder redimir a traição da criatura humana?! Está me dando Sua Vida, por nenhuma! Tudo por amor. – ela sorriu, desdenhosa. Aslam apenas respirava pesado, sem falar nem rebater nada do que ela dizia.

Ela então levantou-se, falando alto para todos os monstros ouvirem:

- Hoje a noite, a Magia Profunda será realizada. Mas amanhã, tomaremos Nárnia para sempre.

Os bichos urravam e gemiam de felicidade e um prazer exacerbados.

E então, olhando para Aslam ao chão, que não fazia um mínimo barulho possível, de pé e em alta voz, disse-lhe:

- Vou matá-Lo, no lugar do humano. Mas, quando estiver morto, poderei matá-lo também. Você me entregou Nárnia. Ciente disso, desespere-se... e morra.

Levantou o facão bem ao alto, e desferiu o golpe, enquanto Aslam voltava seu olhar para as meninas, escondidas. E depois de um suspiro e gemido de dor, Morreu o Leão.

"E disse: 'Está consumado'. E, inclinando a cabeça, entregou o Espírito" – Evangelho de São João – Cap. 19; 30

As meninas não chegaram a ver exatamente este último momento. Luanna abraçou Lúcia, e virou o rosto para o outro lado, as duas tremendo e chorando copiosamente.

"Ali estava a Luz Verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu. Veio para o que era Seu, e os seus não O receberam". Evangelho de São João - Cap. 1; 9-11

Ainda cobrindo o rosto de Lúcia com as mãos, Luanna e ela ouviram a voz da feiticeira:

– Sigam-me todos e acabemos com o que resta da batalha. Não será difícil esmagar o verme humano e os traidores, agora que o grande louco, o gatão, está morto.

As meninas suspiraram forte, soltando-se. Pois, com gritos selvagens e som de trombetas, aquele restolho da Criação partiu em disparada do alto da colina para a encosta, passando rente ao esconderijo. Os espectros foram como um vento gelado; o chão tremeu com o galope dos minotauros. Esvoaçou sobre as cabeças das duas garotas uma grande mancha imunda de abutres e morcegos gigantes. Em outra situação, teriam tremido de medo, mas agora tinham a alma tão cheia de tristeza, vergonha e horror pela Morte de Aslam que nem tempo tiveram de ter medo.

Quando aqueles seres todos saíram da mesa de pedra, Luanna e Lúcia foram para o alto descoberto da colina. Ainda era possível distinguir, apesar das nuvens delicadas que ocultavam a lua, o vulto do Leão, que jazia morto nos grilhões. Ambas se ajoelharam na relva molhada, beijaram o rosto frio de Aslam, acariciaram Seu bonito pêlo – o que ainda restava dele – e choraram amargamente, sem dizer uma palavra. Olhando uma para a outra, deram-se as mãos, porque se sentiam sós, e choraram de novo. Depois voltaram a calar-se. Lúcia disse, por fim:

– Não suporto vê-Lo com esta horrível mordaça. Conseguiremos arrancá-la?

Tentaram. Depois de muito esforço, pois tinham os dedos gelados e estava muito escuro, conseguiram. E ao verem o rosto de Aslam sem a focinheira, desandaram a chorar outra vez. E beijos. E carícias. Limparam-Lhe o melhor que puderam o sangue e a espuma. Não tenho nem palavras para lhe contar a solidão, o desespero, a desolação daquele momento.

– Será que conseguimos também desamarrá-Lo? – perguntou Luanna. Mas os inimigos, só de maldade, tinham apertado tanto as cordas, que as meninas não puderam desfazer os nós.

Espero que ninguém que esteja lendo esta história alguma vez na vida tenha sido tão infeliz quanto Luanna e Lúcia naquela noite. Mas se você sabe o que é isso, se já passou a noite toda acordado e chorou até acabarem as lágrimas... Então sabe que, no fim, desce sobre a gente uma grande calma. Chegamos até a ter a sensação de que nada mais nos poderá acontecer.

Pelo menos, foi isso o que as duas meninas sentiram. Passaram horas naquela calma absoluta, e nem notaram que estavam ficando regeladas. Mas Lúcia reparou em duas coisas: uma era que o céu sobre a colina estava muito mais claro do que antes, e a outra era que um movimento quase imperceptível percorria a relva a seus pés. A princípio não se importou: já nada importava agora. Mas viu que algo começava a subir pelas pedras verticais que sustentavam a Mesa de Pedra. Qualquer coisa andava agora de um lado para outro sobre o corpo de Aslam. Chegou um pouquinho mais perto. Eram umas coisinhas cinzentas.

– Que horror! – exclamou Luanna. – Só faltavam estes ratos! Sumam daqui! – E ergueu as mãos para assustá-los.

– Espere! – disse Lúcia, que os observara com mais atenção. – Repare no que estão fazendo.

Ficaram olhando, inclinadas.

– Parece que... Mas que coisa estranha! Estão roendo as cordas!

– Exatamente! Estes ratinhos são boa gente, coitadinhos... não percebem que Ele está morto. Acham que ainda podem fazer alguma coisa.

Estava bem mais claro agora, e cada uma reparou na palidez da outra, enquanto continuavam a observar os ratos a roer as cordas, dezenas, centenas mesmo, de ratinhos do campo. Por fim, uma a uma, as cordas todas estavam roídas.

O céu estava esbranquiçado no oriente e as estrelas empalideciam também. Menos uma muito grande, perto da linha do horizonte. O frio era mais intenso do que nunca.

- Temos que avisar aos outros! – Luanna disse. – Pedro tem que saber!

- Não podemos deixá-Lo aqui! – Lúcia chorou.

- Não há tempo! Eles precisam saber! – Luanna continuou.

E então, Lúcia chamou a atenção dela para um vento muito calmo, que sussurrava-lhes nos ouvidos. As árvores se mexiam, dançando tristemente.

- Olhe! As árvores! – Lúcia apontou. E Luanna percebeu que as folhas das árvores moviam-se juntamente com o vento. E elas andaram mais ao longe, e mais ao longe, e mais ao longe delas.

O sol demorava a aparecer naquela madrugada. Mas o vento gelado caminhava suavemente de árvore em árvore, até que um ipê rosa florido deixou cair todas as suas folhas e escorregou-as para dentro da cabana real, onde estavam Pedro e Edmundo.

Pétalas rosas acarinhavam o rosto de Pedro, que acordou assustado, puxando a espada e acordando o irmão com o barulho, diante da figura feminina que surgia na frente deles.

- Preparem-se, meus príncipes.

Pedro olhou Edmundo, e voltou-se para a dríade.

- Eu trago graves notícias de sua irmã e sua rainha.

Então ele se levantou, imponente. Edmundo o acompanhou, escutando o espírito do ipê rosa falar.