14° Capítulo: A Batalha do Beruna
Já havia amanhecido agora, o sol fazia um calor um tanto frio. Muitos seres e bichos ouviram as notícias, mas esperavam ansiosos por Pedro sair da cabana-real e dizer que Aslam estava dormindo ali, e não morto pela feiticeira.
E quando Pedro saiu, com Oreius e Edmundo observando sua face, ao lado da cabana, ele disse:
- Ela tinha razão. – ele disse, a voz mais triste e profunda que já escutei. – Ele morreu.
Houve um silêncio entre aquele Conselho de guerra, e então Edmundo disse:
- Então você terá que nos liderar.
Pedro olhou para ele, sério, mas o irmão continuou:
- Pedro, há um exército lá fora pronto para segui-lo!
- Eu não posso! – Pedro suspirou, cansado, se sentindo terrível com a morte de Aslam.
- Aslam acreditava em você! – um silêncio, e ele continuou. – E eu também.
Então Pedro o olhou mais profundo, e em seguida para Oreius, este muito sério. E ele, de uma vez por todas, tornou-se o Pedro imponente e forte, invencível, que iria lutar por Aslam e liderar o Seu exército, para o descanso da família do Leão, como Ele próprio pedira.
- O exército da feiticeira se aproxima, senhor. Quais são as suas ordens? – Oreius falou, sério.
Pedro o olhou, sabendo o que tinha que fazer.
E de repente, o exército de Aslam, liderado por Pedro, formava-se no Passo do Beruna, pronto para quando o exército da feiticeira chegar. Um grifo (um ser enorme com corpo de leão e cabeça e asas de águia) observava a aproximação do exército inimigo. Bichos, seres e os dois Filhos de Adão em trajes de guerra, ansiosos, mas confiantes.
A grande colina por trás do exército de Pedro estava ocupada pelos seus seguidores, com Edmundo e o Sr. Castor no cume, tendo uma boa visão do que vinha para confrontá-los. A frente de todos, estavam Oreius e Pedro, com Nuvem.
O grifo pousou ao lado de Pedro, e anunciou:
- Estão chegando, em maior número e com mais armas que nós.
- Números não vencem batalhas! – Oreius interveio.
- Não... – Pedro comentou. – Mas aposto que ajudam.
Foi quando eles ouviram as cornetas anunciando o exército inimigo.
Um grande minotauro, o general, veio à frente, seguido pelos bichos e seres, como lobos, ciclopes, gigantes ruins, homens com cabeça de touro, ogros, orcs, anões, sátiros, e toda a corja da feiticeira. No meio destes milhares, vinha ela. Com um carro de duas rodas afiadas de ferro, puxado por dois grandes ursos polares, com uma roupa toda branca cor da neve, e na cabeça, preso à sua coroa, todo o pêlo cortado do Leão na noite anterior, fazendo-lhe um ornamento, como forma de zombaria da Sua Morte.
O exército inimigo parou. Houve um silêncio um tanto perturbador. Pedro entendia que ele tinha que seguir em frente, para que não desse tempo de seu exército perceber o número do exército inimigo, que cada vez mais subia a encosta e mostrava-se interminável.
Então, ele olhou para Edmundo, acima da colina. Este, acenou com a cabeça, os dois serenos e verdadeiros.
Foi quando ele levantou sua espada. Os faunos e centauros urraram, concordantes.
A feiticeira disse ao general, escutando os urros e gritos dos bichos à frente:
- Não tenho interesse em prisioneiros! Mate todos.
E seu exército partiu em frente, na direção do inimigo.
Em seguida, Edmundo também tirou sua espada, que brilhava ao sol. Pedro, destemido, continuava com a espada para cima. E nessa hora, fez um movimento com os braços, jogando a espada para frente.
Edmundo o imitou, e logo, centenas de pássaros enormes, grifos, águias e falcões sobrevoaram a colina, com rochas grandes em seus pés, prontos para serem jogados no exército da feiticeira. No momento certo, derrubaram suas pedras, e, embora o general tenha urrado para olharem para o céu, as rochas grandes caíram sobre muitos bichos, fazendo algumas baixas no exército da feiticeira. Alguns pássaros foram acertados pelas flechas inimigas, caindo no solo.
Ao som do pio do grifo, eles voaram em recuada para a colina novamente.
Em seguida, Pedro olhou para Oreius, e perguntou-lhe:
- Está comigo?
- Até a morte. – este lhe respondeu.
E Pedro respirou fundo, levantou sua espada mais uma vez, e gritou, em plenos pulmões:
- Por Nárnia. E por Aslam!
Houve uma resposta em forma de gritos e urros, e guinchados, e rugidos e piados felizes. Nuvem, com Pedro montado, e Oreius avançaram primeiro, e todos os demais seguiram seu Rei, para luta. Bandeiras com a insígnia do Leão flamulavam nas lanças, rugidos dos leopardos e grunhidos dos javalis assustavam o inimigo, que também corria para o grande encontro rumo a vitória ou derrota.
Edmundo e o Sr. Castor observavam de cima, sem respirar nem um pouco. O flanco de Edmundo o acompanharia a todo momento, ao seu comando. Os dois observavam aproximação do exército de Pedro do da feiticeira, e a tensão e aflição tomava de conta deles.
As bandeiras agora estavam apontadas para baixo, tornando-se lanças afiadas, e aproximavam-se cada vez mais do exército inimigo. Os leopardos rugiam mais furiosamente, as espadas dos centauros brilhando fortemente, cegando o inimigo. Prontos para a ação, por Nárnia, e por Aslam.
Então houve o encontro. Leopardos se atracaram com os tigres dentes-de-sabre. Espadas e lanças quebraram-se contra o inimigo. Ogros balançavam seu cajado grande, derrubando javalis e toupeiras. Pedro usava a espada firmemente, com coragem e imponência. Assim também Oreius. A guerra, propriamente dita, acabava de começar.
O sol iluminava fracamente a Mesa de Pedra, onde as meninas e o corpo de Aslam descansavam. Elas observaram que havia acabado de começar o amanhecer, e os demais deveriam estar se preparando para batalha. Os ratinhos desapareceram.
Afastaram do corpo de Aslam o que restava das cordas roídas. Sem elas, o Leão parecia outro. Seu rosto, com a luz progressiva, assumia expressão mais nobre.
No bosque, atrás delas, um passarinho fez um ensaio de gorjeio. Durante horas a fio, o silêncio tinha sido tão completo que elas se assustaram. Depois, outro pássaro respondeu. Daí a pouco as aves cantavam em toda parte.
Luanna olhou para o rostinho tristonho de Lúcia, e falou, com voz grave:
- Devemos ir.
Desceu de cima da Mesa de Pedra, e foi tirar Lúcia de lá, cuidando da menina com carinho.
- Sinto tanto frio. – Lúcia lhe disse, tristonha, abraçada a ela.
Desceram da grande Pedra e caminharam pelas escadas, com passos pesados. Olharam o céu por um momento. A grande estrela solitária desaparecera. Toda a paisagem da terra tinha um ar cinzento-escuro; mas, para além, muito longe, lá no fim do mundo, o mar brilhava, pálido. Havia tons róseos no céu. Andaram para lá e para cá, inúmeras vezes, do corpo morto de Aslam ao sopé da colina.
Em certo momento, ficaram imóveis olhando para o mar e para o castelo de Cair Paravel, que só agora começaram a distinguir. Luanna lembrava-se de Pedro beijando-a pela primeira vez, e seu coração pulava ao pensar na guerra e nele. E, enquanto ali estavam, no lugar em que a terra se acaba e o mar começa, o vermelho tornou-se dourado, e o sol começou a surgir devagarzinho. Foi quando ouviram um grande barulho, um barulho ensurdecedor de uma coisa que estalava, como se um gigante acabasse de quebrar um prato gigantesco. A terra onde estavam tremeu a ponto de desequilibrá-las.
– Que barulho foi esse? – disse Lúcia, agarrando-se ao braço de Luanna.
– Não sei... tenho medo de olhar.
– Devem ter voltado... – Lúcia pensava.
- Vou olhar! – E Luanna virou-se, obrigando Lúcia a fazer o mesmo.
O sol dera a tudo uma aparência tão diferente, alterando de tal maneira as cores e as sombras, que por um momento não repararam na coisa de fato importante. Até que viram. A Mesa de Pedra estava partida em duas por uma grande fenda, que ia de lado a lado. E de Aslam, nem sombra.
– Oh! Oh! Oh! – gritaram as meninas, correndo para a mesa.
– Isso é demais! Podiam ao menos ter deixado o corpo em paz.
Elas subiram as escadas para irem ao centro da Mesa de Pedra, mas foram tomada por uma grande surpresa, a maior de todas já existentes: Iluminado pelo sol nascente, maior do que antes, Aslam sacudia a Juba, que pelo visto, tinha voltado a crescer.
Ficaram silenciosas por um momento, até que Ele sorriu-lhes.
– Aslam! Aslam! – exclamaram as meninas, espantadas, olhando para Ele, ao mesmo tempo assustadas e felizes.
– Você não está morto? – Lúcia sentia-se infinitamente feliz.
– Agora, não.
Aslam abaixou a cabeça dourada e lambeu-lhe a testa. O calor de Seu bafo era de Criatura Viva.
–Você está vivo! Oh, Aslam! – gritou Lúcia, e as duas meninas atiraram-se sobre Ele com mil beijos.
– Mas explique tudo isso, por favor! – disse Luanna, ao recuperar um pouco da calma.
– Explico – Ele falou, com a voz suave, mas ao mesmo tempo grossa e rígida. – A feiticeira pode conhecer a Magia Profunda, mas não sabe que há outra magia ainda mais profunda. O que ela sabe não vai além da aurora do tempo. Mas, se tivesse sido capaz de ver um pouco mais longe, de penetrar na escuridão e no silêncio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortilégio. Saberia que, se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a própria morte seria revertida...
Aslam parecia mais imponente que nunca, e o brilho de Seu pêlo e Sua juba eram tamanhos que até cegavam as meninas um pouco. Ele sorria; Luanna olhou-O e disse:
- Está falando de Amor, meu querido Aslam! – e abraçou o Leão, com todas as forças.
Lúcia também o fez, sentindo as grandes patas Dele baterem em suas costas, alegre.
– Ah, meninas... Já me sinto mais forte. Vamos ver uma coisa: se vocês são capazes de me pegar! – Aslam disse, como quem estava louco para começar uma brincadeira.
Ficou quieto por um instante, com os olhos brilhando muito, as pernas fremindo de excitação, fustigando-se com a cauda. De um salto, passou-lhes por cima da cabeça e foi cair do outro lado da mesa. Rindo, sem saber de quê, Lúcia subiu à Mesa para pegá-Lo. Aslam escapou com um pulo. E começou uma corrida louca. Fugia, obrigando-as a correr pela colina, às vezes deixando que elas quase O agarrassem pela cauda. Mergulhava entre as duas, atirava-as ao ar com as patas enormes e aveludadas, para voltar a apanhá-las. Parava de repente, fazendo com que elas se amontoassem no chão, rindo alegremente, numa confusão de braços, pernas e pêlos.
Foi uma algazarra daquelas, como não existe fora de Nárnia. Lúcia não sabia bem se estava brincando com um gatinho ou com um furacão. O mais engraçado é que, quando por fim se deitaram ao sol, ofegantes, as duas já não estavam nada cansadas, nem com fome, nem com sede.
- Aslam... – Luanna Lhe disse, com face mais séria. – Avisamos a todos de Sua Morte. Pedro e Edmundo irão para a guerra.
Lúcia tirou seu canivete do bolso do casaco e disse:
- Temos que ajudá-los.
Aslam sorriu, calmamente, e disse-lhes:
- Nós ajudaremos, minha querida. Mas não sozinhos! – e tocou Lúcia com sua pata enorme, baixando seu canivete.
Caminhou para frente delas e disse-lhes:
- Subam nas minhas costas! Temos um longo caminho, e pouco tempo para chegar lá.
Com as meninas montadas, Ele avisou, com a Voz novamente solene e Real:
– Melhor taparem os ouvidos.
Foi o que fizeram. Quando Aslam abriu a boca, Seu rosto ficou tão apavorante que não tiveram coragem de olhar para Ele. As árvores em frente curvaram-se ao sopro do Rugido, como o capim se curva ao vento. O Leão ergueu-se e partiu em disparada, descendo a colina e entrando pela floresta.
Foi talvez a coisa mais fabulosa que lhes aconteceu naqueles dias em Nárnia. Você já galopou num cavalo? Então, faça de conta que vai a cavalo. Elimine o barulho dos cascos, o ranger do freio; imagine as passadas quase silenciosas do Leão. Agora, em vez do dorso preto, cinza ou castanho do cavalo, imagine o pêlo macio e dourado, e a juba esvoaçando ao vento. Imagine também que está galopando duas vezes mais depressa que o mais rápido cavalo de corrida.
E não se esqueça de que esta montaria não precisa ser guiada e que nunca se cansa. Galopa, galopa, sem tropeçar, sem hesitações, abrindo caminho com grande habilidade entre as árvores, saltando arbustos, moitas e riachos, atravessando os mais largos a vau, e a nado os rios maiores. Mas não é cavalgar por uma estrada, nem num parque, nem sequer por uma encosta gramada, mas através de Nárnia, na primavera, ao longo de bosques lindíssimos inundados de sol, entre brancos pomares de cerejeiras em flor, passando por barulhentas cachoeiras, percorrendo gargantas perigosas, descendo, descendo de novo para os vales agrestes e os campos enfeitados de flores azuladas.
Era quase meio-dia quando, do alto de uma vertente escarpada, viram um castelo – parecia um castelinho de brinquedo – todo espetado de torres. Mas o Leão descia a tal velocidade que ele crescia a cada momento. E, antes de qualquer pergunta, já estavam ao pé do castelo. Já não era de brinquedo. Nenhum rosto surgiu nas ameias e os portões estavam fechados. Aslam, sem diminuir a corrida, precipitou-se para ele como uma flecha.
– É a casa da feiticeira! – gritou. – Segurem firme!
E foi como se o mundo virasse de cabeça para baixo. Foi aquele frio gelado na barriga. Pois o Leão tomava distância para o maior salto da história, galgando – voando, posso dizer, por cima da muralha do castelo. Ofegantes, mas sem um arranhão, as duas se viram no centro de um grande pátio cheio de estátuas de pedra.
