16° Capítulo: O Novo Começo de Nárnia
Alguns minutos depois, a batalha terminava. A maior parte do inimigo fora destroçada por Aslam e seus companheiros. Os outros, vendo a feiticeira morta, renderam-se ou fugiram em debandada. Lúcia viu, então, Pedro e Aslam apertarem-se as mãos. Inacreditável o ar que Pedro tinha agora: face pálida e grave, um ar muito mais velho. Sujo de terra e sangue, e suor e lágrimas.
Luanna foi buscá-la na encosta da colina, e elas desceram juntas para junto de Pedro e Aslam. Ele logo voltou-se, e abraçou a irmã com saudades, distribuindo beijos e abraços entre as bochechas de Lúcia. Luanna olhava no terreno grande, os corpos empilhados e sujos. Nervosa, ela procurava algo. Pedro então, olhou-a, ao que ela disse:
- Onde está Edmundo? – sua face preocupada e aflita o fez lembrar de que a feiticeira o acertou.
Então, eles foram até ele. Deitado ao verde gramado, Edmundo segurava ainda no estômago. Luanna aproximou-se de sua cabeça, tirando-lhe o elmo, e repousando sua mão preocupada na testa ardente do menino. Ela então olhou para Pedro, que a entendia com o olhar. Edmundo estava morrendo.
- Ed... – ela tentou falar, mas lágrimas desceram de seu rosto.
Só então, pela primeira vez, Lúcia se lembrou do licor precioso que recebera de presente de Natal. Suas mãos tremiam tanto que mal conseguiu abrir o vidrinho. Tirou a rolha e deixou cair umas gotas nos lábios do irmão. Pedro e Luanna choravam nervosos.
Edmundo não deu nenhum sinal de que melhorara, no que Lúcia já chorava triste. Então ele tossiu. Eles o olharam novamente, e o viram abrir os olhos. As meninas sorriram. Pedro então o puxou e o abraçou. Este, deu apenas um pequeno resmungo de dor, mas abraçou o irmão.
Pedro voltou-se para ele e disse:
- Quando vai aprender a fazer o que deve!?? – e sorriu, feliz.
– Há outros feridos – disse Aslam a Lúcia.
– Sei disso. – respondeu Lúcia.
Durante meia hora, os dois não tiveram mãos a medir; ela tratava dos feridos, ele restituía a vida aos mortos, isto é, às estátuas.
Edmundo, quando ficou de pé, estava não só curado dos ferimentos, mas com uma aparência bem melhor do que antes. Com uma aparência melhor até do que no tempo em que entrou para a escola e começou a seguir pelo mau caminho. Agora não. Já podia olhar as pessoas de frente. Por isso mesmo, Aslam o chamou pelo nome e disse:
- Ajoelhe-se, Filho de Adão.
Este se ajoelhou em frente ao Leão, surpreso e feliz por poder estar vendo o Rei vivo. E Aslam o nomeou Cavaleiro, em pleno campo de batalha.
Lúcia permanecia abraçada ao irmão recém curado, quando Luanna puxou Pedro para virar-se para ela, debaixo os olhos curiosos dos dois pequenos Pevensie e do Sr. Tumnus, mais curioso e corado ainda.
- Está vivo, grande herói! – e o abraçou, fazendo-o gemer um pouco por causa dos cortes da batalha.
Ele sorriu, e a abraçou, profundamente feliz.
- Tentei ficar vivo... para você! – ele sorriu.
Ela o olhou, com o olhar mais calmo e límpido que ele já vira, e disse:
- É. Com alguns cortes e algumas dores, mas nada que uma noite bem dormida não resolva. – e passou a mão pelo corte de seu rosto, no qual o sangue já endurecia. – Cuidarei de você.
Este tocou-lhe na face alva e sem nenhum arranhão dela, ternamente. A olhou, com um olhar compenetrado. Ela sorriu e disse:
- Estou olhando para o Rei de Nárnia. – ela disse.
Ele sorriu.
- Eu te amo. – ele falou, sério.
- Eu te amo, Pedro.
Ele sorriu, e, tocando-lhe a face, a beijou. Doce e romântico, sob os olhos de Lúcia, Edmundo, que sorriam felizes, e o Sr. Tumnus, sem-graça.
Passaram a noite ali mesmo. Não sei dizer onde Aslam arranjou comida para aquela gente toda. O fato é que às oito horas estavam todos sentados na relva, para uma excelente refeição. Luanna apenas abraçava-se a Pedro e Edmundo, e escutava o relato de Lúcia sobre a ressurreição de Aslam. Este, sempre presente entre eles, mas calado e sorridente.
Depois fora a vez de Edmundo contar sua história da guerra, dizendo as meninas, que ficaram temerosas, como eles souberam da Morte de Aslam, e como iniciou-se a batalha do Beruna. Pedro e Luanna permaneciam calados, sentados abraçados, um segurando a mão do outro, com a pequena Lúcia no colo de Luanna, escutando atentamente as história de Edmundo.
Quando Lúcia se lembrou de algo muito importante, chamou a atenção deles.
- Pedro! Esqueci de apresentá-lo ao Sr. Tumnus!
O Sr. Tumnus, que estava próximo da fogueira usada para esquentá-los, ficou com a face rubra, mas seguiu a pequenina que lhe puxava o braço. E então, ao chegar perto de Luanna e Pedro, fez uma reverência.
- Sr. Tumnus, este é o meu irmão Pedro. E este aí, como já deve saber, é o meu irmão Edmundo! – apontou para Edmundo, que continuava a história da guerra para três centauros que estavam no castelo da feiticeira.
- Majestades. – o Sr. Tumnus fez uma reverência a Pedro, sob sorrisos de Luanna.
- Então é o famoso fauno! – Pedro sorriu, simpático.
- Oh... fauno sim. Famoso, não. Meu pai que foi famoso. Mas eu não.
- Obrigado por cuidar de Lúcia. – Pedro agora foi quem lhe fez uma reverência, que o Sr. Tumnus tomou de surpresa.
- Oh, a Filha de Eva na verdade foi quem cuidou de mim. – ele falava dos machucados que Lúcia curou.
- Mas cuidou dela desde que ela chegou em Nárnia pela primeira vez, sozinha. Poderia tê-la entregue a feiticeira, mas não o fez. Não sei como lhe agradecer. – Pedro tinha agora a feição mais adulta e severa, depois da guerra. – E ainda cuidou dela e de Luanna na guerra, pude perceber.
O fauno corou, e sorriu timidamente.
- Não fique tímido, Sr. Tumnus. Sua bravura foi nossa força. – Luanna sorriu-lhe. – Agora fique alegre. Hoje é dia de alegria em Nárnia!
E o fauno fez outra reverência, e saiu, sendo puxado por Lúcia para contar-lhes histórias de Nárnia, a ela e a Edmundo. Os dois mais velhos acabaram por adormecer durante a festa, tendo horas depois os mais novos juntado-se a eles.
No dia seguinte, todos os bichos acordaram cedo, e, depois do café da manhã, desceram ao longo do grande rio, chegando à foz ao cair da tarde. Caminhavam lentamente para o Castelo de Cair Paravel, os bichos todos alegres a cantar, retomando os versos antigos da profecia. Lúcia e Luanna rodopiavam na frente de todos, e Edmundo e Pedro conversavam alegres.
Uma hora depois, o grande castelo de Cair Paravel erguia-se, altaneiro, no cimo da colina. Em frente, havia areia e pedras, pequenas poças de água salgada, algas, cheiro de mar e ondas azuis e verdes a perder de vista. E, ia-me esquecendo, o grito das gaivotas! Altas torres cor de marfim erguiam-se, entre os quatro cantos do castelo. Ao centro, tinha um grande salão, que não dava pra ver direito, pois Aslam ordenou que apenas os bichos e seres entrassem, para organizarem as coisas para os futuros Reis e Rainhas, enquanto estes foram para uma tenda armada no canto esquerdo da entrada do castelo. Lá, eles lancharam e conversaram sobre Nárnia, muito felizes.
Depois do lanche, os quatro voltaram à praia e tiraram os sapatos e as meias para molhar os pés.
- Puxa, queria entrar no Castelo! – Edmundo falou.
- Não resmungue, Edmundo. – Pedro o olhou com mais cuidado.
- Tudo bem... mas estou curioso para saber como é lá dentro.
- Ei... garotos... – as meninas chamaram os dois para a beira da praia. – Vejam!
E os quatro observaram, da beira da praia, pequenas coisinhas parecidas com peixes pularem do mar azul e rodopiarem no ar até que caíssem na água do mar novamente.
- São sereias e tritões! – Luanna revelou, e os quatro ficaram olharam felizes, até que dríades os chamaram para trocarem-se. Eles imaginaram que tratava-se da cerimônia de coração.
Era o início da tarde quando eles se reuniram nas portas do grande salão de Cair Paravel. Aslam estava esperando-os parecendo muito mais dourado e grande. Seu pêlo todo brilhante e vivo como se tivesse acabado de tomar banho. Lúcia e Edmundo foram os primeiros a chegarem. Edmundo vestia uma bonita túnica prateada por cima de outra azul petróleo. A calça era também branco-prateada, e ele usava botas que iam ate o joelho, de cor azul petróleo. Um bonito prendedor com a insígnia do Leão dourado prendia a capa prata à túnica.
Lúcia vinha sorridente, com um lindo vestido branco-prateado, cheio de botões prateados (com uma bolota branca na parte de cima) espalhados por ele. Também vinha com uma capa avermelhada, muito bonita, de veludo, com detalhes de folhas douradas nela. A parte interna da capa era branca, e também era presa por um broche dourado com a insígnia do Leão. E usava um bonito sapato prateado, bem macio e confortável aos pés, mais pareciam sapatilhas de bailarina. Seus cabelos negros enrolados, formando doces cachos. Edmundo percebeu que as capas deles quase encostavam no chão.
Logo, uma dríade trouxe Luanna, e Pedro chegou logo depois. E ambos tiveram que prender os olhos neles para observar todos os detalhes. A jovem tinha os cabelos loiros soltos e com leves cachos, assim como Lúcia. Usava também sapatilhas pratas, e vestia um longo vestido prata, justo ao corpo no tronco, com decote em meia-lua. O vestido era todo detalhado, com riscos em espiral, todos dourados. Uma fileira de botões dourados subiam do inicio da barriga ao decote. Havia um bonito detalhe na linha do decote, com bolinhas escuras acompanhando os desenhos em ziguezague. Havia também o mesmo efeito numa parte das mangas. Essas eram de cor mais escura que o vestido, no tom azul petróleo, e eram longas, com a parte de trás mais longa, passando do punho. Para completar, a capa que a cobria era azul petróleo, que também quase encostava no chão, e era também presa pelo broche dourado do Leão.
Pedro encantou-se com ela, e os três mais jovens puderam olhá-lo bem, enquanto ele permanecia de olhos presos em Luanna. Ele estava um grande homem, e não mais um garoto duvidoso. Tinha botas escuras, sem nenhum detalhe ou botão, como as de Edmundo (que tinha botões dourados). Usava uma calça dourada, e uma túnica azul petróleo também, com um detalhe dourado no saiote, e um grande detalhe de folhas dourado bordado ao peito (Edmundo também tinha, mas era prateado). A túnica vinha por cima de uma camisa de mangas longas, num azul bem prateado. A capa era de um grande esplendor: dourada e reluzente. Também ia quase ao chão e era presa pelo mesmo broche. Aquele era o Rei Pedro.
Cada um se cumprimentou, admirando o outro, até que Aslam disse:
- Vamos entrar, meus Reis e Rainhas.
Luanna e Pedro olharam-se mais uma vez, Aslam se posicionou no meio deles, com Edmundo ao lado de Pedro, e Lúcia ao lado de Luanna, e então dois faunos abriram as portas pesadas de pedra do Grande Salão do Castelo de Cair Paravel. E os jovens viram toda a maravilha do castelo apenas olhando àquele salão. Um salão formidável, com teto de marfim; uma parede coberta de penas de pavão muito coloridas, ornamentando toda a pedra do castelo. Havia alguns pilares dourados na entrada, como se fosse um pequeno saguão na entrada.
O salão aparecia, a medida que eles caminhavam. E agora eles viam que o saguão era todo aberto, devido a brisa na entrada e o cheiro do mar que ardia lá embaixo da colina de onde o castelo alçava. O teto de marfim nesse salão maior era muito alto, que fez Lúcia perguntar-se como tinha sido feito, se tinham tido ajuda de escadas.
Tinha também muitos seres ali dentro, e eles só puderam mesmo ver os grandes e marrons centauros erguerem suas espadas enquanto eles passavam por baixo. Todos os seres festejavam com vivas e calorosos aplausos.
