17° Capítulo: Entre Reis e Rainhas
Havia quatro centauros tocando clarins na varanda de frente aos tronos, que dava para um mirante para a bela vista do mar, e com uma bonita escada de pedra que levava-os diretamente para lá. E várias flâmulas do Leão, avermelhadas e douradas, içadas por todo o salão. Os garotos continuaram a entrada, todos na mesma ordem, numa cerimônia muito solene. As espadas dos centauros erguiam-se e baixavam-se quando eles passavam por elas, e esses viravam a cabeça para vê-los chegarem próximo aos tronos. Cada um daqueles meninos e meninas sentia a importância e a seriedade daquilo tudo. Eles não eram mais aqueles meninos deslumbrados com as coisas, apenas Lúcia e Edmundo ainda sonhavam como seria ser rei e rainha. Mas ainda assim eles sentiam que não era brincadeira alguma, e que, por mais impossível que possa parecer, eles iriam governar Nárnia.
Então os garotos viram de perto os quatro tronos de pedra, cada um com um símbolo cravado no topo arredondado, percebia-se que indicavam seus donos. Os dois grandes do meio tinham uma espada, e o da sua esquerda, uma trompa. O da ponta esquerda tinha um frasco, e o da ponta direita, uma espada com as hastes para cima. Eram tão grandes e tão magníficos que os meninos sentiram na hora vontade de se ajoelharem perante eles. Havia um grande mural de vitral de ambos os lados do salão, e grandes e arredondadas janelas com símbolos do Leão, abertas, trazendo também o vento do mar. Aquele era o ponto central do grande Castelo. Os quatro tronos eram elevados por um tipo de palco de pedra, com três escadas curtas para se chegar a eles. E ainda, cada trono tinha uma pequena escada de marfim para subir, com bonitos adornos dourados em sua base e na própria escada.
Eles chegaram ao trono, cada um com um sentimento misto de felicidade e ansiedade. Pararam, no que, ao sinal de Aslam, foram até eles, e ficaram de frente para todos os seres narnianos. Então Aslam, ao centro, falou, com a sua voz firme e alegre.
- Em nome do cintilante Mar Oriental, apresento-lhes Rainha Lúcia, a Destemida.
Lúcia observou o Sr. e Sra. Castor aproximarem-se com lindos adornos, eram as coroas. Sr. Tumnus vinha logo atrás, e ela continuou encantada com eles. A Sra. Castor trazia as das meninas, uma de ouro e a outra de prata. As coroas tinham o formato de flores adornadas em círculos, e pareciam conter pedras brilhantes, como diamante. A de prata tinha algumas folhas em dourado. E a de ouro tinha pedras de brilhantes maiores. O Sr. Castor trazia a dos meninos, e Lúcia percebeu que eram mais grossas, mais masculinas. Havia uma de prata muito reluzente, com alguns adornos dourados, mas de leve. Não era pontuda, mas dava postura firme. E a outra era uma grande coroa de ouro reluzente, com vários adornos apontados para cima, de folhas. Era uma coroa muito imponente, que de certa forma fazia daquele que estava a usando um grande homem.
Então o Sr. Tumnus aproximou-se, sorrindo para a menina, mas muito timidamente, pegou a coroa prateada da Sra. Castor e foi em direção a Lúcia. Esta, mais do que ansiosa e contente, sabia do momento que estava presenciando. Ela teria que ser humilde para ser coroada Rainha de Nárnia, o reino de Aslam. Então a menina ajoelhou-se para o grande momento, baixou bem a cabeça e fechou os olhos. Sorria, o que fez Luanna derramar uma lágrima de tão contente. Foi quando o Sr. Tumnus a corou. Ela sentiu seu coração aos pulos, e mesmo assim levantou-se muito sorridente.
Então ele pegou a coroa de prata com o Sr. Castor, e foi em direção a Edmundo. Aslam, com a voz séria, falou:
- Em nome dos grandes Bosques do Ocidente, apresento-lhes Rei Edmundo, o Justo.
E o Sr. Tumnus repetiu o gesto de Lúcia, enquanto Edmundo também se ajoelhava para receber aquele presente tão importante. Ele sentiu realmente o peso da nomeação que Aslam dera, e percebia o quanto ele pôde aprender a ser justo. Animou-se mais do que podia imaginar. Edmundo sabia o que aquilo significaria. Não tinha nada a ver com o que ele pensava em ser quando a Feiticeira Branca o dissera que ele iria ser Príncipe. Era muito mais sério e muito mais responsável. Ele estava ciente de sua responsabilidade, e não deixou de ficar feliz com isso, sorrindo com os aplausos do povo de Nárnia para ele.
E então, o Sr. Tumnus, muito corado e envergonhado, pegou a coroa dourada da Sra. Castor. Luanna fechou os olhos como Lúcia, e ajoelhou-se. O Sr. Tumnus foi colocando a coroa dourada, enquanto Aslam falava, com a voz doce e firme dele.
- Em nome do radiante Sol do Sul, apresento-lhes Rainha Luanna, a Gentil.
E ela sentiu o peso do adorno na cabeça, e demorou alguns segundos a mais para se levantar. A mesma Luanna que entrara em Nárnia a primeira vez estava um pouco mudada. Agora, ela tinha um reino. E um Rei. Seu destino estava traçado diante de seus olhos, e ela também sabia da responsabilidade da decisão que tomara, desde que soubera que iriam lutar com os narnianos para uma Nárnia livre. Só agora ela poderia respirar aliviada, e saber que o que ela sentia sobre tudo estava correto, e principalmente, o que ela sabia que eles seriam para Nárnia, e o que ela seria ao lado de Pedro.
Foi quando ela se levantou que todos a viram sorrir. Era uma bela visão, pois a jovem parecia um dos mais belos elfos das histórias. Seu rosto alvo e límpido um pouco corado com os calorosos aplausos, e os olhares encantados dos outros bichos e seres. Os olhos cintilantes brilhando, e um sorriso bonito contornavam os lábios vermelhos.
E, por fim, com a voz mais austera e imponente vista somente na coroação do Primeiro Rei e Rainha de Nárnia, Aslam voltou-se para os narnianos e bradou, para que todos os seres ao longe escutassem:
- E em nome do límpido Céu do Norte, apresento-lhes Rei Pedro, o Magnífico.
Foi só o Sr. Tumnus pegar a coroa mais pesada, pois era ouro maciço, e, mais solenemente possível, colocá-la na cabeça de Pedro, também ajoelhado, que todos os seres e bichos de Nárnia respiraram aliviados, sentindo uma paz que jamais haviam sentido, pois agora Nárnia tinha os Quatro, e ainda mais importante, tinha o Rei Pedro. O jovem alourado ergueu-se, num suspiro quieto, e todos os que haviam o visto antes perceberam como seu rosto estava grandioso, majestoso e firme. Ele não sorriu como os outros. Seus olhos azuis cercaram o lugar e ele finalmente sentiu-se em paz.
Ele sabia que desde que o Professor Kirke dissera que os destinos deles estavam unidos com algo, era uma pessoa diferente. Tinha os irmãos e Luanna ao seu lado, então não podia mais fraquejar, não podia mais adiar as coisas, e tornar-se um adolescente novamente. Ele era um homem agora. E não foi como se ele tivesse ido lutar ao lado do pai na guerra do mundo deles. Mas lutara sua própria guerra, e agora arcava com as conseqüências dela. Se tornara Rei, não somente de Cair Paravel, mas de toda Nárnia. E aquela decisão que ele tomou de ficar e lutar só o fez entender que aquilo era inevitável.
E aconteceu mais: ele havia amadurecido. Ele sempre fora precoce, mas sabia que amadurecera diferentemente de qualquer outra coisa. Ele engoliu em seco, e finalmente sorriu ao som dos aplausos e calorosas vivas que os seres e bichos de Nárnia davam para ele.
E eles sentaram-se nos tronos, entre aclamações ensurdecedoras de "Viva o rei Pedro! Viva a rainha Luanna! Viva o rei Edmundo! Viva a rainha Lúcia!".
– Quem é coroado rei ou rainha em Nárnia será para sempre rei ou rainha. Honrem a sua realeza, Filhos de Adão! Honrem a sua realeza, Filhas de Eva! – disse Aslam, direcionado para eles.
Pela porta aberta para o mar, chegavam as vozes dos tritões e das sereias, que entoavam cânticos em louvor dos novos soberanos, nadando perto da praia.
Assim, os meninos ocuparam seus tronos, empunharam seus cetros e concederam recompensas e honrarias a todos os amigos: ao Sr. Tumnus, ao Senhor e Senhora Castor, ao gigante Rumbacatamau, aos leopardos, aos centauros, aos bons anões e ao leão.
Após isso, houve grande festa em Cair Paravel. O ouro reluzia e o vinho corria. A música do mar era como um eco à música da festa, porém mais doce e penetrante. Os reis e rainhas tiraram suas capas enormes, para aproveitar melhor a festa. Lúcia e Pedro permaneciam no trono, observando Luanna puxar Edmundo para dançar. Este, muito aborrecido por ela fazer aquilo, resmungava em seu trono.
- Ora vamos! O que e que custa? De fato, como arrumará uma bonita mulher para ser sua se não sabe dançar?
Ele olhava para ela, enquanto Pedro apenas sorria.
- Por que não vai com seu namorado? – ele ironizava o jeito que ele mesmo falava antigamente.
- Ora... porque quero ir com você. Venha.
Ela o puxou, não antes dele dizer a Pedro:
- Eu acho que ela me ama, não é? – e saiu rindo, com Pedro também aos risos.
Ela o puxou, e ambos se animavam com a música alegre dos faunos, sátiros, náiades e dríades. Lúcia batia palmas ao som da música, sempre muito alegre, observando o irmão tentar dançar, sem muito jeito para coisa. Foi quando a música ficou mais calma, que Pedro levantou-se e tocou no ombro do irmão:
- Por favor, posso pega-la emprestada por um minuto?
E Edmundo, sorrindo, disse:
- Ela é sua, não é mesmo? – e entregou a mão de Luanna a Pedro. Mas logo Lúcia o puxou para dançar também, o fazendo resmungar falsamente.
Pedro abraçou Luanna suavemente, e acarinho-a na face ruborizada. A calma da música inspirava-os a dançarem mais unidos. Luanna fechou os olhos, enquanto Pedro passava a mão levemente pelos seus cabelos dourados.
- Está feliz, meu amor? – ele perguntou-lhe
- Estou. – ela o mirou, levantando a cabeça. – Estou preparada, na verdade.
- Você sempre esteve, não é?
- Você sempre soube, não é?
Os dois riram. Comentavam sobre seus destinos, e ambos sabiam que o outro sempre soubera que acabaria assim.
- Posso te dizer uma coisa? – ele a olhou novamente.
- Pode. – ela aguardou, percebendo a face risonha dele.
- Você está linda. Estava tão linda quando foi coroada que todo o salão ficou uns minutos te admirando antes de aplaudir-lhe.
Ela o observou sorrindo por uns minutos. E então uniu os lábios aos dele, rapidamente. Ele sorriu de volta para ela, e continuou dançando abraçado a ela. Os dois reis estavam tão cúmplices um do outro na dança que não perceberam que eram o centro das atenções da festa. Todos os seres os olhavam, sorridentes. Algumas coelhas até derramaram lágrimas felizes.
Pedro aconchegou-a no peito e disse-lhe ao ouvido:
- Eu amo você... indubitavelmente. Minha querida, minha Rainha.
E Luanna sentiu uma alegria tão imensa que poderia passar dias e até anos dançando ali, que ela estaria contente do mesmo jeito.
Justamente quando a alegria estava no auge, Aslam desapareceu sem ninguém perceber. Quando souberam disso, os reis e as rainhas não fizeram comentários. O Senhor Castor já tinha avisado.
– Ele há de vir e há de ir-se. Num dia, poderão vê-lo; no outro, não. Não gosta que o prendam... E, naturalmente, há outros países que o preocupam. Mas não faz mal. Ele virá muitas vezes. O importante é não pressioná-lo, porque, como sabem, ele é selvagem. Não se trata de um leão domesticado.
E aquela festa durou o dia inteiro. Ao chegar da noite, logo após o jantar, Lúcia e Luanna seguiram acompanhadas de Pedro e Edmundo, do fauno Tumnus e do Sr. e Sra. Castor para conhecerem todo o castelo. Havia dois imensos arcos de cada lado do trono, que ligavam o salão principal ao restante do castelo, que parecia não ter fim na imensidade de quartos e portas e salas. O restante dos seres e bichos continuou farreando, enquanto eles se encantavam com o interior do grande lugar que iriam habitar.
Dizia a Sra. Castor para todos os que passavam pelos corredores.
- Minhas Rainhas, por aqui fica a cozinha. É uma grande sala, e temos várias lebres que já se organizaram com outros seres para trabalharem aqui.
- Oh... – elas observaram o interior da cozinha. Um enorme salão cheiro de fornos de pedra, com a comida já preparada, onde algumas tamanduás preparavam para a festa. Havia uma grande mesa num salão vizinho, que a Sra. Castor apontou ser a sala de jantar. As cadeiras de pedras junto da mesa, todas formando um grande retângulo. Luanna percebeu que haviam quatro cadeiras na cabeceira da mesa.
Eles viram também o salão de armas, o salão de reuniões, uma grande sala de estar com uma bela lareira e junto a uma vista para o mar, lateralmente. Vários depósitos, e uma área inteira vazia, que Edmundo pensou em colocar livros e relatos sobre Nárnia.
- Grande idéia, meu sábio Rei. – o Sr. Tumnus logo animou-se. E tratou de organizar aquilo ansiosamente.
- Temos nesse momento dríades e alguns bichos menores organizando os quartos reais. Um para cada, de acordo com a sua honraria e personalidade.
- Muito bom, podemos dormir agora? Estou cansada! – Lúcia segurou na mão de Luanna, como se perguntasse para ela.
- Bem... se os seres já organizaram, creio que sim. – ela falou. Em seguida lembrou-se. – Sra. Castor... os quartos reais possuem banheiro?
- Oh, sim. Grandes banheiros com água límpida saindo das fontes.
- Disso eu preciso. – as duas sorriram.
- De qualquer forma há vários andares nesse castelo, seria impossível conhecê-lo ao todo durante uma noite. Talvez durante dias. – disse o Sr. Castor, observando as duas se despedirem dos meninos e seguirem a Sra. Castor para um lance de escadas.
