18° Capítulo: A Caixinha e Seu Conteúdo
Como você vê, a história está quase acabando. Os dois reis e as duas rainhas governavam Nárnia, e o reinado foi muito feliz. A princípio gastaram grande parte do tempo destruindo o que restava do exército da Feiticeira Branca. Todos os narnianos que foram morar na Arquelândia, país vizinho a Nárnia, por causa da sentença de morte imposta pela Feiticeira a todos os humanos, souberam da profecia, e voltaram a Nárnia.
Durante muito tempo ainda, chegaram notícias de que espíritos maus se escondiam nos recantos desconhecidos da floresta. Uma emboscada aqui, uma morte ali, um lobisomem que aparecia, uma bruxa que dava o ar de sua desgraça... E os reis e as rainhas faziam leis justas, mantinham a paz, não permitiam que as árvores fossem derrubadas sem necessidade, libertavam os anõezinhos e os sátiros da tirania escolar. De modo geral, acabavam com todos os importunos e intrometidos... as criaturas chatas. E deram força para as pessoas comuns, que só querem viver e deixar que os outros também vivam. Expulsaram os gigantes maus (muito diferentes de Rumbacatamau) do norte de Nárnia, quando estes tiveram a audácia de atravessar a fronteira. Estabeleceram tratados de boa vizinhança e firmaram alianças com os países de além-mar. Visitaram esses países e deles receberam visitas oficiais.
Mas ainda falta uma parte da história a ser contada antes do fim.
Dois anos depois de destruírem a Feiticeira Branca, quando eles ainda tinham muitas coisas para resolverem para que Nárnia ficasse aquele sonhado reino feliz, houve um grande rebuliço entre os bichos. Não de revoltas, mas de felicidade. Ouviram boatos de que o Rei Pedro conversara muito tempo com um dos anões bons, um dos que eram mineradores. E com ele trazia uma caixinha muito pequena, enquanto entrava no Castelo de Cair Paravel, onde estava seu irmão, sua irmã e aquela que ele amava.
Com uma aparência mais adulta e muito austero, inclusive fisicamente, ele passou pelos bichos, com um leve sorriso nos lábios. Há algum tempo ele não sorria, e isso se deve ao fato de que, naquele primeiro ano deles governando Nárnia, ainda haviam muitos seguidores do mal para serem varridos de lá. E ainda, o principal motivo, recentemente os reis de Nárnia haviam recebido a visita do príncipe tarcaã da Calormânia, país vizinho a Arquelândia, ao sul de Nárnia. Rabadash se mostrou avidamente encantado com Luanna, a propondo em casamento no momento em que a viu. Sendo a oferta rejeitada rapidamente pela moça, Rabadash tomou de surpresa, aceitou o "não", mas seus olhos não conseguiram sair de cima dela, fazendo Pedro zangar-se imediatamente. Após esse episódio, todas as ofertas dos dois países foram negadas um pelo outro, deixando Edmundo, Lúcia e Luanna com a face de preocupação em se ter um país inimigo tão cedo. Rabadash ficou por uma semana inteira no palácio, não sem mais outras vezes lançar um olhar de possessão em Luanna, causando-lhe um frio na barriga, medonho que era aquela situação. Pedro havia ficado de mal humor todos esses dias, mas naquele dia ele sorria, o que causou o falado rebuliço nos bichos.
O Rei Edmundo, sábio como era, percebeu que ele chegava em Cair Paravel com outros ânimos. Achava que ele estaria esquecendo o tisroc, e foi ao seu encontro.
- Pedro, devemos...
- Oi, Edmundo. Onde estão as meninas?
- Estão com o Sr. Tumnus no salão principal. – ele disse, apontando a porta grande do castelo.
Pedro apenas foi até lá, sem falar nada para o irmão. E, aproximando-se dos três que acabavam de olhá-lo sorrir, meio assustados, pegou nas mãos de Luanna e a puxou. Não disse uma palavra. Luanna olhou para o Sr. Tumnus e Lúcia com face preocupada, e fez cara de pergunta pra Edmundo, que nem soube lhe responder.
Chegaram no mirante para o mar, descendo as escadas, Pedro ainda a segurando na mão. Ele então parou-a e olhou-a, sorrindo.
- O que houve? – Luanna perguntou-lhe, achando que ele, como normalmente o fazia, queria conversar algo longe dos irmãos.
Pedro apenas tornou a olhar para ela, mantendo o sorriso.
- Pedro... está me deixando...
Ele a interrompeu.
- Não pense que eu não deixei de olhar para você... mais bonita do que nunca.
Luanna corou com aquela forma que ele falava. Ele tinha diminuído seus freqüentes carinhos desde que havia monstros a solta para caçar, mas ela o entendia.
- O que... o que você está pensando? – ela então sorriu.
- Oh, e não acredite que sequer deixei de admirar esse seu belo sorriso.
Ele falava agora diferente do Pedro, Rei de Nárnia. Falava como ele sempre falava somente com ela, cheio de carinho. Ela olhou-o com um belo sorriso, o rosto corado, tentando perceber o que ele queria dizer com aquilo.
- A alegria que toma você me contagia. – ela disse. – Mas gostaria de saber o motivo!
- O motivo é... – ele a olhou mais profundamente, mais sério, com apenas um pequeno sorriso, mas diferente do que ele dava. Um sorriso sério. – Eu quero você para mim. Completamente. – disse, em sua voz de homem.
Luanna escutou aquilo, e seu rosto foi do curioso e normalmente corado para roxo, totalmente embaraçado.
- Você está dizendo... – ela conseguiu falar, dando um leve sorrisinho, sentindo a pele arder.
- Que eu quero casar-me com você. O quanto antes.
Ela então sorriu. Sorriu alegremente. Imaginava que eles esperariam mais um tempo para que eles casassem, mas Pedro nunca falara daquilo realmente com ela antes.
- E o que te levou a ver isso? O tarcaã Rabadash? – ela tinha que perguntar. Tinha que saber se ele não estava fazendo aquilo simplesmente porque ela poderia cansar de esperá-lo e casar-se com outro.
Pedro não pareceu surpreso, mas ficou incomodado apenas em ouvi-la falar aquele nome.
- Ele apenas me deu o empurrão. – falou, um pouco seco.
Ela então o olhou, tentando decifrar o que ele dizia, mas ele continuou.
- Aslam me perguntou sobre você quando ele me mostrou Cair Paravel pela primeira vez, antes da Batalha do Beruna. Eu ainda estava duvidoso sobre o que sentia. – ele começou a contar, e ela percebeu que mesmo sabendo que ele a amava, ela ainda não tinha escutado como ele tinha percebido aquilo. – Então Ele me disse: "Seu amor por ela o tornará o que você nasceu para ser". – ele repetiu Aslam. – Olhe onde estou. Você me fez o que sou hoje, sem dúvida porque eu também sentia a mesma coisa por você. Aquilo apenas cresceu. Você me fez um rei. Estou aqui por causa de você.
Ele ficou calado um pouco, deixando-a pensativa. Ela nada disse.
- Eu amo você, Luanna. Estando lado a lado com você, ou estando longe, caçando bruxas... Eu penso em você todos os minutos, eu a amo, e sempre amarei. Eu entendo agora porque mamãe decidiu mandar-nos para um lugar a salvo, e decidiu ficar com meu pai, enquanto ele lutava. – pensando naquilo, ele sentiu-se saudoso. Raras vezes lembrava do mundo exterior àquele que ele tomou como seu. De fato, eles foram se esquecendo aos poucos. – Foi o que você fez por mim, quando pedi para levar meus irmãos. Por amor a mim. Porque não queria estar longe de mim, assim como eu não quero mais estar longe de você. E olha onde estamos agora.
Ela sorriu. Ele continuou.
- Aslam me disse, naquele mesmo dia: "no tempo oportuno, poderá tornar a Rainha de Nárnia a sua Rainha". Passei um tempo pensando em quando saberia que o momento havia chegado. Acho que chegou. Porque Ele também me disse: "até esse tempo, deverá respeitá-la. É a primeira regra: a mulher a quem se foi destinado deve ser respeitada e guardada, até que os dois deixarão de ser dois, e se tornarão apenas um". Eu acho que esse tempo chegou, porque agora eu não suporto sequer olhá-la sem entrar em pânico. Quando estava longe, pensava em você, e quando chegava querendo o seu conforto e o seu abraço carinhoso, a encontrava sonolenta, numa cadeira, esperando por mim com o mesmo amor. Mas agora eu preciso de você, Luanna, ao meu lado, para que quando eu voltar dessas batalhas, eu encontre seu rosto e seu olhar esperando por mim, mas no meu quarto, e na minha cama, que é onde quero que você esteja. E que eu possa tocar o seu corpo! Para você ficar comigo, de uma vez por todas, para sempre. Para sermos um só.
Ela estava de olhos lacrimejados, corada, mas sorria muito feliz. Ele limpou uma lágrima que escorria do rosto dela. Ela então falou.
- Eu entendo o que disse, e sei do que está falando. Diversas vezes eu me imaginei esperando por você em seu quarto. Eu perguntei aquilo do príncipe calormano porque queria ouvir de você o que está me falando agora.
- Eu sei. E eu realmente queria dizer. Esse foi o empurrão que aquele... – ele rangeu os dentes.
Luanna sorriu.
- Eu te amo, Pedro. E eu vou ser sua.
Ele também sorriu, mais feliz ainda.
- Isso é bom... porque antes mesmo daquele Rabadash aparecer, eu tinha falado com Dufles, o anão que mora na fronteira Sul, próximo do Monte Piro, e pedi para ele me fazer isso.
E então ele mostrou a caixinha. Ela já imaginava o que seria, então ele abriu. Ela então viu o anel dourado, não muito grosso nem fino, com pequenos pontinhos vermelhos ao seu redor, cada um brilhando firme sua gema de rubi. Em cima, um grande e redondo diamante, preso elegantemente por folhas talhadas em ouro de cor branca, como em suas coroas.
- Pedro...
- No dia em que se tornar minha, usará isso.
- Eu... – ela agora derramava mais lágrimas, feliz.
- Vamos... deixe-me guardar. E vamos contar aos outros.
Ela sorriu, e, ao vê-lo puxando-a para o castelo, puxou-o de volta, e o enlaçou num beijo tão carinhoso que o tomou de surpresa. Ele abraçou-a, e correspondeu ao carinho dela.
- Desculpe se estive em falta com meus carinhos. Estava apenas tentando me controlar diante de sua beleza e do seu corpo. – ele disse, enquanto caminhavam de volta ao castelo.
Os três, Edmundo, Lúcia e o Sr. Tumnus, esperavam pacientemente, preocupados com o que teria sido aquela mudança de humor repentina de Pedro. Haviam chegado também o Sr. e Sra. Castor, assim como Bico, o centauro da corte. Todos pensando no que teria acontecido. Então Pedro entrou com uma Luanna lacrimejante, e foram em direção aos seus companheiros.
- Majestades. – cumprimentaram com uma reverência o Sr. e Sra. Castor e Bico.
- Temos novidades. – Pedro falou. Todos observaram seu rosto solene sorrir, e Luanna chorar de alegria.
- O que...? – perguntava Edmundo, olhando as lágrimas de Luanna caírem em seu bonito rosto.
- Nárnia irá celebrar conosco. Vai haver um casamento.
Eles ouviram um "oh" de Lúcia e da Sra. Castor, deixando Luanna sorrindo. Bico bateu as patas dando congratulações, e Edmundo e o Sr. Tumnus sorriram ao ver o Rei Pedro tão feliz, diferente do que ele estava antes.
- Nossa... vou ficar maluca com a festa para preparar! – Lúcia dizia a Luanna e a Sra. Castor, a explicando um pouco a tradição das festas de casamento das quais ela lembrava as vezes que já havia ido.
Ela beijou o irmão mais velho no rosto, e abraçou Luanna, dizendo:
- Vou querer alguns sobrinhos para mim.
E todos os demais da sala sorriram.
