20° Capítulo: As Aventuras Estão Apenas Começando

Os anos passaram-se e eles tiveram o tão prometido reinado longo e feliz. E eles próprios foram crescendo e mudando à medida que o tempo passava.

Pedro ficou um homem alto e parrudo: foi chamado Grande Rei Pedro, o Magnífico. Luanna virou uma mulher alta e muito bonita, mais ainda, de cabelos loiros e longos. Foi chamada Bela Luanna, a Gentil. Edmundo era mais grave e calado do que Pedro, muito sábio nos conselhos de Estado. E foi chamado de Edmundo, o Justo. Lúcia, esta continuou sempre com os mesmos cabelos negros e a mesma alegria, e todos os príncipes desejavam que ela fosse a sua rainha. E foi chamada de Lúcia, a Destemida.

Assim viveram em grande alegria. Só lembravam a vida neste mundo de cá como quem se lembra de um sonho.

Mas ainda falta um finzinho de nada para que a história se acabe. Se é que pode se dizer que acabou.

Durante os anos de casamento de Luanna e Pedro, eles viveram numa união e numa afeição tão grande um com o outro que era impossível de se dizer quem era quem. Durante o primeiro ano de casado eles pensavam que poderiam ter filhos para dar sucessão ao reinado. No segundo ano eles pensavam que seria muito bom ter filhos para fazer companhia e alegrar ainda mais a vida deles. No terceiro ano, eles desejavam ter filhos. No quarto ano, não se falava mais em ter filhos na frente de Luanna, se não quisesse fazê-la ficar triste, e fazer Pedro ficar emburrado e briguento por isso. Nos anos seguintes, ninguém falava de filho para ninguém.

Um certo ano, Luanna caiu em doença. Fazia alguns dias que ela ficara deitada, na companhia de Lúcia. Tivera febre, chegou a delirar de tão quente. Aqueles que entendiam de cura não sabia o que havia acontecido. Pedro parecia mais preocupado do que jamais estivera. Edmundo as vezes cuidava das coisas em Nárnia para que ele ficasse um pouco com ela.

- Não entendo, Minha Senhora. A dor me toma, e chego a exasperar-se em desespero.

- Não se sinta de tal forma, leal esposo. Há de ser coisa passageira.

Ele olhava sem esperança, e continuava com ela, mesmo quando ela pedia para que ele dormisse em separado.

- Poderás adoecer também, meu amante.

- Não importo com isso. – ele dizia.

Uma noite dessa ela levantou-se e andou pesadamente em direção ao banheiro longo de mármore. O vento do mar vinha das janelas do grande quarto. Então ela sentou-se no chão, chorando angustiadamente.

- Aslam, Grande Leão... o que me diz dessa doença? Eu mereço algo assim?

Então ela sentiu uma grande dor no peito. E lembrou-se da fauces do Leão ao rugir. Lembrou ou viu, ela não soube dizer. Sentiu-se firme, e então entendeu. Balançou a cabeça, limpou seu rosto com suor e lágrimas, e voltou para cama, ao lado do esposo.

Naquela manhã ela teve uma melhora repentina, e todos perceberam que ela parecia voltar ao normal em alguns dias. Sua face voltou a corar, ela passou a caminhar mais e não ficava mais confinada no quarto, sempre resmungando alguma coisa.

- Queria poder entender o que houve contigo, Senhora! – Edmundo perguntou a ela durante o jantar.

Ela apenas balançava a cabeça, deixando seu olhar fitar o prato em vez do Rei.

Quando se aproximava o aniversário do 8° ano de casamento, Tumnus, já agora um fauno de meia-idade, trouxe notícias de que o Veado Branco voltara a aparecer. O Veado Branco, quando apanhado, trazia consigo a satisfação de todos os desejos. Pedro imediatamente quis caçá-lo, querendo fazer a sua Rainha um pouco mais feliz. Avisou Edmundo, e tratou de preparar os cavalos e os demais que iriam com ele. Lúcia e Luanna disseram que também iriam com eles.

Luanna parecia diferente daqueles dias depois da doença. Ela sorria agora, o mesmo sorriso que dava quando chegou a Nárnia. Agora ela parecia mais bela ainda. Lúcia sorriu quando a viu daquele jeito, e disse-lhe: "Irá contar-me o motivo do sorriso quando chegarmos da caça!".

Os dois reis e as duas rainhas, acompanhados dos principais membros da corte, partiram à caça do Veado Branco nos Bosques do Ocidente, conduzindo cães e fazendo soar as trompas. Não tinham cavalgado muito quando o avistaram. Correram em sua perseguição por montes e vales, por bosques e planícies, até deixarem para trás, cansados, os cavalos dos cortesãos. Só eles quatro continuaram a persegui-lo. Viram o veado desaparecer numa capoeira tão cerrada que os cavalos não conseguiram entrar. Então o rei Pedro disse (sendo reis e rainhas há tantos anos, usavam agora um estilo muito diferente):

– Leais consortes, desmontemos, deixando aqui os nossos corcéis, e sigamos o veado pela floresta; pois nunca meus olhos viram tão nobre animal. – Pedro dissera.

– Senhor – disseram os outros –, façamos com soante o vosso desejo.

Prenderam os cavalos às árvores e penetraram a pé na floresta cerrada. E mal tinham entrado, quando Lúcia disse:

– Gentis amigos, eis que vejo uma grande maravilha; parece-me uma árvore de ferro.

– Senhora – replicou Edmundo –, se olhardes bem, vereis que é um pilar de ferro, com uma lanterna em cima.

– Pela Juba do Leão! – exclamou Pedro. – Que idéia é essa, de afixar uma lanterna num local em que as árvores crescem tão juntas e tão alto, que, mesmo acesa, não daria luz a ninguém!

– Meu Senhor – disse Luanna –, é provável que, quando este poste e esta lâmpada aqui foram colocados, talvez fossem as árvores pequenas, ou poucas, ou nem árvores existissem. Porque este bosque é jovem e o poste é velho. – E ficaram todos olhando para ele. Disse Edmundo:

– Não sei bem o que é, mas aquela lâmpada faz-me sentir um não sei quê. Não me sai do pensamento que já a vi em outro tempo, como se fosse em um sonho, ou no sonho de um sonho...

– Senhor – responderam todos –, o mesmo acontece a nós.

– E a mim me parece – acrescentou Lúcia – que se passarmos para além do poste e da lanterna, encontraremos estranhas aventuras, ou então haverá grandes transformações em nossas existências.

– Senhora – disse Edmundo –, o mesmo pressentimento me agita o âmago.

– Também a mim, meu excelso irmão – disse Pedro.

– E a mim – declarou Luanna, ainda sorrindo. – Por isso, sou de opinião que voltemos sem demora ao sítio onde deixamos os cavalos e deixemos de perseguir o inatingível Veado Branco.

– Senhora – disse Pedro –, perdoai, se vos contradigo. Porque, desde que somos reis e rainhas de Nárnia, jamais encetamos uma alta empresa (batalhas, demandas, feitos de armas e atos de justiça) para depois desistirmos. Sempre levamos a bom termo tudo quanto iniciamos.

– Minha Rainha – disse Lúcia –, o vosso real esposo tem razão. Grande vexame seria para nós se, por qualquer terror ou pressentimento, deixássemos de perseguir tão nobre animal, como o que nos propusemos caçar.

– Faço minhas as vossas palavras – declarou Edmundo. – E tão grande é o meu desejo de descobrir o sentido daquele objeto, que nem pela jóia mais rica que possa existir em Nárnia, nem por todas as suas ilhas, eu voltaria atrás, por meu querer.

– Então, em nome de Aslam – disse Luanna, vencida –, se o desejo de todos vós é esse, continuemos em busca da aventura que nos aguarda.

Assim, reis e rainhas entraram no bosque, e ainda não tinham dado meia dúzia de passos quando notaram que o objeto visto era um lampião. E pouco mais tinham andado quando perceberam que não seguiam entre ramagens, mas entre casacos de peles. E daí a um pouquinho saltavam todos da porta do guarda-roupa para a sala vazia. Já não eram reis e rainhas em traje de montaria, mas simplesmente Pedro, Luanna, Edmundo e Lúcia, nas suas roupas antigas. E era o dia e a hora em que todos tinham entrado no guarda-roupa para se esconderem. MacReady e os visitantes falavam ainda no corredor, mas, felizmente, nunca chegaram a entrar na sala vazia, e as crianças não foram apanhadas.

E este seria o fim da história se as crianças não se sentissem na obrigação de explicar ao professor por que quatro casacos tinham desaparecido do guarda-roupa. E o professor (um sujeito de fato fora do comum) não lhes disse que deixassem de ser bobos ou de inventar histórias. Acreditou.

– Não! – disse ele. – Realmente. Não creio que valha a pena entrar pelo guarda-roupa para procurar os casacos. Por esse caminho, nunca mais irão a Nárnia. Nem os casacos serviriam para muita coisa agora. Hein? Que tem isso? É claro que um dia vocês voltarão a Nárnia. Quem é coroado rei em Nárnia, será sempre rei em Nárnia. Mas não tentem seguir o mesmo caminho duas vezes. Na verdade, vocês nem devem fazer coisa alguma para voltar a Nárnia. Nárnia acontece. Quando menos esperarem, pode acontecer. E não falem muito sobre o que aconteceu, mesmo entre vocês. Sobretudo, não digam nada aos outros. A não ser se descobrirem que eles próprios visitaram países do mesmo gênero. O quê? Como irão saber? Ora, ora, não é nada difícil, não se incomodem. Coisas que as pessoas dizem... Até pelo olhar... e lá se foi o segredo. Abram bem os olhos! Céus! O que é que estão ensinando às crianças na escola?

E chegamos ao fim das aventuras do guarda-roupa. Mas, se o professor tinha razão, as aventuras em Nárnia estavam apenas começando.