N/a: I am sooooo sorry! Minha única desculpa para ter atrasado a postagem é a de ser uma professora em plena volta às aulas - tive algumas semanas intensas. Mas aqui está, o próximo capítulo, e bem intenso. :)
Capítulo 15 - Sem chão
As duas cruzaram a porta da biblioteca de mãos dadas, então Georgiana soltou a mão da amiga suavemente, indo à frente para receber o irmão. Foi como se um peso repentino caísse sobre Elizabeth, toda a leveza dos momentos anteriores tendo desaparecido. Ela caminhou até a sala de visitas, aliviada por encontrar os tios lá. Não tinha ideia se Georgiana mencionaria algo da conversa entre as duas para Darcy, mas ela esperava que não. Ela considerou se esconder em seu quarto sob o pretexto de uma dor de cabeça mas tinha certeza de que todos saberiam ser apenas uma desculpa. Bom, talvez todos menos seu tio.
Os minutos pareceram intermináveis, mas Darcy finalmente entrou na sala para cumprimentar os visitantes. As palavras trocadas foram educadas e calorosas, e ele parecia calmo. Ela ergueu os olhos para ele mas, assim que ele a mirou de volta, ela teve que desviar o olhar. Ela tinha medo de descobrir mágoa ou desprezo direcionados a ela, por isso mais uma vez covardemente olhou para o outro lado.
Uma caminhada pela propriedade na parte da tarde foi sugerida, para explorar os lugares que o tour de Mrs. Reynolds não havia coberto. Georgiana andava entre o irmão e Elizabeth, falando mais do que normalmente falava, e Mr. e Mrs. Gardiner iam atrás, de braços dados.
-Irmão, posso mostrar o pavilhão de verão aos Gardiners? Eles manifestaram mais cedo o apreço que têm pela flora da região, com certeza irão gostar.
-É claro, podemos todos ir até lá, Georgie.
-Eu já vim aqui com Elizabeth mais cedo. - mentiu ela, sem pestanejar. - Ela acordou cedo, tenho certeza que vai apreciar um descanso. Assim como você, que cavalgou a manhã toda.
Elizabeth tentou, por expressões faciais, implorar para que Georgiana parasse o que quer que estivesse tramando, mas a menina não viu, ou escolheu ignorar.
-Eu não me importaria de ir com vocês… - ele começou a dizer, para ser interrompido pela menina.
-Por favor, avise à Mrs. Reynolds que estaremos de volta em uma hora, terei que falar com ela mais tarde.
Elizabeth viu um pequeno sorriso cobrir o rosto de Darcy, o que achou curioso. Ele finalmente concordou, mudando de direção e esperando Elizabeth fazer o mesmo.
-Ela tem encontrado desculpas para evitar as sessões com Mrs. Reynolds. - ele disse, como se falasse com a paisagem. Elizabeth acompanhava os passos dele, andando ao seu lado mas não muito próxima, tampouco olhando em sua direção. - Eu insisti para que nossa governanta a instruísse nas responsabilidades que Georgiana terá ao ter que cuidar de sua própria casa, mas ela não me dá ouvidos.
-Ela é nova ainda. - disse Elizabeth, sentindo que deveria adicionar algo à conversa.
-Ela tem 16 anos. Imagino que a senhora não fosse muito mais velha que isso quando se casou. Ou me engano?
Ela sentiu ele a olhar, mas não se virou.
-Eu tinha 16 anos. Mas, se pudesse dar um conselho a mim mesma à época, diria para não me casar.
Os dois ficaram em silêncio e Elizabeth percebeu tarde demais que havia mencionado um assunto extremamente delicado entre os dois.
O silêncio se prolongou. A paisagem era de tirar o fôlego, mas nenhum deles prestava atenção. Depois de vários minutos, ele finalmente disse.
-Gostaria de pedir desculpas por ter lhe enviado a carta da forma como enviei. Eu não deveria ter tomado tal liberdade, eu…
-Está tudo bem. - ela disse, forçando-o a se calar. Estava mortificada que o assunto havia sido mencionado, ficaria ainda mais se ele se desculpasse novamente. - Fiquei feliz que o tenha feito.
-Você ficou? - ela ouviu o falhar da voz dele no fim da frase, e isso a deixou mais nervosa, fazendo-a apenas menear a cabeça. Ela respirou fundo duas vezes antes de continuar.
-Eu sinto tanto, Mr. Darcy. Não tinha ideia a respeito de seu filho, se eu soubesse...
Ele a interrompeu.
-Você não tinha como saber, não há por que se desculpar.
-Eu perdi um bebê no início de meu casamento. - ela disse baixinho, sem entender por que compartilhava tal fato, tão íntimo, com ele. Nunca havia contado para ninguém, apenas James e Grace, a empregada que estava com eles em Norfolk à época, sabiam. - Não posso dizer que entendo sua dor, pois ao menos eu tive a oportunidade de segurar meu filho. Mas acredito conhecer o sentimento.
Ele parou de andar.
-É como... é como se metade de meu coração batesse fora do peito. Talvez por isso que eu nunca mais tenha me sentido completo.
Os dois ficaram em silêncio. Elizabeth viu ele passar a mão pelo rosto, que estava levemente virado para o outro lado, de forma que ela não pudesse vê-lo. Então a mirou com determinação e ela sustentou seu olhar, pela primeira vez desde o pedido de casamento. Ela viu tristeza e cansaço, mas também uma serenidade de que não se lembrava.
-Devíamos… voltar, Mrs. Sheffield.
~X~
Quando a tia voltou da caminhada, Elizabeth descobriu que Georgiana havia conseguido convencê-los a passar mais uma noite na propriedade. Sabendo ser pouco polido recusar o convite, ela se rendeu a seu destino.
Mais tarde ela, a tia e Georgiana caminhavam para a ceia quando passaram por um trecho do corredor com teto mais baixo e pouca iluminação. De repente, parou.
-Lizzy? - chamou sua tia, vendo que ela mirava um quadro.
Georgiana também se virou, olhando para a pintura que as duas observavam.
-Essa era a esposa do meu irmão. - ela disse, em voz baixa. - Sophia Morgan, então Sophia Darcy.
-Ela era bonita, com certeza. - disse Mrs. Gardiner, vendo que a sobrinha iria ficar em silêncio.
-Vamos? - estimulou Georgiana.
Elizabeth se forçou a virar o rosto, deixando de olhar a mulher de olhos verdes e cabelos castanhos. Se forçou a andar atrás de Georgiana e da tia. Mas sua respiração estava acelerada e as mãos, tremendo.
Naquela noite um jantar especial lhes foi oferecido, assim como uma noite de entretenimento. Mas Elizabeth estava o tempo todo distraída e nervosa, tendo se recolhido mais cedo. A noite não lhe trouxe descanso e no dia seguinte acordou cedo para que pudesse tomar seu café da manhã em silêncio e, esperava ela, sem companhia.
Ela se serviu de ovos e pães e se sentou para comer, pensando nas decisões que tinha a tomar, mas sem nenhuma clareza a respeito do que fazer, mesmo tendo passado grande parte da noite pensando no assunto.
-Mrs. Sheffield!
Ela ergueu os olhos assustada, certa de que o sussurro havia sido fruto de sua imaginação. Mas ali estava Darcy, o rosto corado de uma aparente caminhada.
Ela se levantou para cumprimentá-lo, mas ele dispensou o gesto com um movimento da mão. Então, parecendo tomar uma decisão, entrou na sala e sentou-se na cadeira à direita dela.
-Mrs. Sheffield, eu pouco consegui dormir na noite passada. E não pude deixar de notar que depois de nossa conversa a senhora me pareceu mais distante.
Ele fez uma pausa e ela pousou a colher que ainda segurava, percebendo que estava a aplicar força demais no pobre talher. Ela tentou olhar em seus olhos mas não conseguiu e, ao baixar os olhos, percebeu que ele não usava um lenço no pescoço.
-O que quero dizer é que meus sentimentos não mudaram nem um pouco. Mas se sua posição se mantiver contrária à nossa união, me diga, e nunca mais falarei sobre o assunto. Seria difícil para mim, mas preferiria sabê-lo…
-Mr. Dar..! Desculpe interrompê-lo, senhor! - Um empregado esbaforido estava à porta, parecendo surpreso. Ele provavelmente começara a falar antes de chegar à porta e com certeza não esperava encontrar tal cena à mesa de café da manhã.
Darcy se levantou.
-Grant, está tudo bem. Vejo que tem um recado.
O homem olhou para a própria mão, como que surpreso que a nota ainda estivesse ali.
-Sim, acabou de chegar, e o entregador me disse que havia urgência para que chegasse ao destinatário. É para Mrs. Sheffield.
Darcy pegou o envelope, agradecendo o funcionário, então virou-se para Elizabeth.
-Peço desculpas, Mrs. Sheffield, tenho perdido o senso de propriedade ultimamente. Por favor, se ocupe de sua carta, poderemos conversar mais tarde.
Elizabeth achou que nada poderia distraí-la do que ele havia acabado de falar, mas ao pegar a carta das mãos dele, viu que era de seu advogado. Ela franziu a testa, preocupada. Notícias urgentes nunca eram notícias boas. Ela olhou para Darcy e ele imediatamente entendeu o pedido em seu olhar.
-Caso precise de um lugar com privacidade para ler, pode usar meu escritório. - ele disse, apontando a porta oposta do corredor.
Ela nada falou, o coração pesado com a carta nas mãos, sua disposição ainda abalada.
-Estarei aqui se precisar de mim. - ele disse, deixando-a entrar no cômodo e fechando a porta.
Cara Mrs. Sheffield.
Espero que você esteja bem de saúde. As notícias que tenho não são boas, infelizmente. O tio de seu marido, Lord Henry, esteve em meu escritório. Você me alertou de que este dia provavelmente chegaria mas ainda assim temo que estava despreparado para o que ele alegou. Ele requer a casa em Londres, Portland Place, e os ganhos da fábrica, sob a alegação de que a carta que James deixou não tem validade. Eu atestei a ele que, perante a lei, a carta tem total validade. Então ele me estendeu uma declaração, assinada por uma de suas antigas empregadas, Mrs. Sheffield, de nome Grace Owens, que alega que Lucy não é a filha biológica de James Sheffield. Como a senhora bem sabe, Mr. Sheffield atesta na carta que deixa os bens para sua filha biológica, Lucille Sarah Anne Sheffield. Diante deste fato a carta pode, realmente, perder sua validade. Eu irei, é claro, entrar em contato com Miss Owens ainda hoje para atestar a veracidade do fato, Lord Henry poderia simplesmente tê-la chantageado. Também irei até Norfolk à procura de pessoas que possam atestar que Lucy é sua filha. Peço que a senhora me informe de pessoas que podem fazê-lo, como a parteira, por exemplo. Decidi escrever esta nota para a senhora para que tenha conhecimento e também para que seja sincera comigo, como seu advogado. Se há a chance da alegação de Lord Henry ser verdadeira, temo que não há nada a ser feito contra a requisição dele. Neste caso aconselho-a a preparar-se para o pior.
Edward Wright
A carta não fez total sentido na primeira vez que foi lida, tampouco na segunda ou terceira. Depois de vários minutos Darcy bateu à porta, preocupado.
-A senhora está bem?
Ela olhou para a porta fechada, os olhos marejados. Como iria enfrentá-lo? Ele era a última pessoa que gostaria de ver naquele momento. Mas também a única.
Ela tentou responder, mas a voz saiu quebrada, e ela cobriu a boca com as mãos.
-Mrs. Sheffield, eu vou entrar. -ele avisou antes de abrir a porta.
Ela estava parada no meio da sala, a carta aberta em uma das mãos, a outra sobre a boca para segurar os soluços.
-Mrs... Elizabeth... - ele disse baixinho, se aproximando o suficiente para que ela soubesse que estava ali caso precisasse, mas que não iria impor sua presença.
Depois de alguns segundos de um choro silencioso, ela conseguiu proferir:
-Eu preciso voltar para Londres... com urgência... um parente de James conseguiu... ele finalmente conseguiu me tirar tudo...
Darcy não fez perguntas, e ela se sentiu imensamente grata por isso. Precisava lidar com o problema mais urgente em mãos, para então decidir o que fazer e o que falar a ele.
-Você pode usar minha carruagem pessoal. Vou pedir que um de meus empregados cheque se seus tios desejam fazer a viagem com você, ou partir mais tarde. Eles são bem-vindos para ficar, é claro
Ela tentou agradecer, mas as palavras novamente falharam e ela simplesmente meneou a cabeça.
