Nota da autora: no presente capítulo, os gêmeos tem trinta e três anos de idade, e o mesmo se passa na época do Torneio Galáctico. Lembrando que, em minha cronologia de fics, os gêmeos tem cinco anos a mais do que na obra original. Ou seja, começaram aquela rebelião toda aos vinte anos, e passam pelas batalhas do clássico aos trinta e três. A fic, enfim, se direciona para sua fase final.

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Meu menino, meu milagre

X

Volto afinal à consciência novamente, após passar por mais um período de tempo dominado pelo demônio. Com cada vez mais frequência, tenho sido tomado pela entidade maligna. Odeio isso, como sempre odiei. Resisto a ele o máximo que posso. Mas não consigo dominá-lo, como aliás nunca consegui. Não completamente.

Sei porque isso acontece: finalmente Atena se revelou. Eu sabia, sabia que ela havia conseguido se salvar. Na verdade, foi salva por Aioros; como exatamente, não sei. Deve ter sido mais um milagre, com certeza. Enfim a deusa se demonstrou. Ela, tendo sido acolhida por um homem japonês excepcionalmente rico, atualmente lidera um torneio de supostas artes marciais, o qual em teoria visa premiar seu vencedor com a Armadura de Sagitário.

A mesma que Aioros levou embora do Santuário há treze anos.

Aioros. Ele conseguiu. A armadura também ficou nas mãos de Atena, apesar de todos os contratempos.

Sorrio em meu interior. Deu certo. Nem esse ser imundo que me habita, nem Kanon, conseguiram matar Atena.

E é claro que tanto o demônio quanto Kanon estão completamente aturdidos com isso. Ficam conversando um com o outro até de madrugada, e eu às vezes consigo me manter consciente a fim de ouvir o que confabulam entre si.

- Então é ela de fato? - pergunta meu irmão, o qual nunca chegou a ver a deusa encarnada pessoalmente.

- É ela com certeza - responde a entidade que me habita, com raiva - Ela está viva. Eu sabia que estava viva!

- De fato é muito ousada. Muito corajosa! Quem, sendo tão jovem - apesar de rica - teria a coragem de se expor dessa maneira? A menina sabe... sabe que não se trata tão-somente de um simples torneio de artes marciais!

- Sabe. É claro que sabe! E quem diria! Quando se poderia imaginar que as vestes sagradas, bem como os Santos, seriam expostos ao mundo dessa maneira tão franca?

- Ela fez de propósito. Fez para percebermos que está viva, e no Japão. Com a Armadura de Sagitário.

- Colocando um monte de Santos para lutar por causas pessoais! Atena fazendo isso!

E então Kanon ri de maneira desabrida. O demônio, ao contrário do que geralmente faz, fica em silêncio. Logo a seguir, continua a conversa:

- Ela fez isso para nos tirar do lugar. Quer que venhamos a agir; que eu - e você enfim, não sei se ela sabe que você existe - me levante contra ela. Que eu entre em guerra contra ela. Tola! Acha mesmo que, por ser abastada, pode contra mim!

- Bah, ela não sabe que eu existo. Claro que não. Até parece que Atena tomaria conhecimento sobre mim, ou se importaria com a minha vida! Se ninguém nunca o fez, por que ela o faria?

Meu irmão respira fundo, provavelmente aturdido pela total compreensão de sua solidão no mundo. Mas logo retoma a fala:

- Atena espera que nós venhamos a reagir. Que faremos afinal?

- Por enquanto vamos ficar quietos. Você continua incógnito no Templo do Mar, e eu vou dirigindo as coisas por aqui. Deixa estar. No tempo certo, eu agirei.

Kanon sorri, e beija o demônio na boca. E me beija junto. Enfim, é sempre assim, desde que esse ser horrendo se colocou no nosso caminho.

Algum tempo depois, eu acordo. Kanon já se apronta para sair; usualmente, meu gêmeo passa a noite aqui e ao amanhecer volta para o Reino Submarino. Enquanto ele se prepara para ir embora, eu observo a vista ao longe, pela janela do quarto. Ele enfim vem falar comigo:

- Bem, Saga. Se o que você diz é verdade - ou seja, que você e o "outro" não são o mesmo, então sua opinião sobre tudo isto que está acontecendo é bem diferente da dele, não é? Bem, o que me diz?

Fico em silêncio contemplativo por um tempo, antes de dizer a ele afinal:

- Você sabe o que eu penso. E sabe também que eu não gosto de compartilhar esse tipo de coisa com você, pois pensamos de maneira tão diversa um do outro neste aspecto... mas enfim. Falarei. Kanon, eu confio em Atena. Eu sempre confiei em um milagre, apesar de este milagre não ter ocorrido em minha própria vida. Mas se ela sobreviveu, então acredito que prevalecerá.

- Se ela prevalecer... não tem medo? Hein? Ela jamais o deixaria ficar nesta posição, da maneira que está!

- Ela de fato não deixará, Kanon. Ela é deusa, e portanto tem todo o poder de combater esse ser que carrego dentro de mim. Embora creia que a entidade que me dominou não sou eu propriamente dito, também mereço a punição. Porque fui um fraco. Porque não consegui eliminar o demônio antes de ele fazer mal ao Santuário e subverter a ordem que havia nele. E enfim... por ter deixado que o amor que sinto por você me enfraquecesse o suficiente para que ele me dominasse por completo. Eu jamais deveria ter dado uma chance para sobrevivermos, eu e você. Eu deveria ter matado você e ter me matado logo em seguida, para cortar o mal pela raiz de uma vez. Por isso, por minhas decisões erradas, eu mereço toda a punição que vier. E não se engane: ela vira para você também.

Meu irmão sorri, de maneira desdenhosa, como sempre. Parece não acreitar no que digo. Pelo visto, tem muita confiança em seu próprio poder!

- Ora, Saga! Se tudo isso fosse verdade, se Atena fosse assim tão poderosa... não teria deixado toda essa bagunça acontecer dentro de seu próprio Santuário! De mais a mais, sempre vi a mão do Destino a guiar nosso caminho. Você tentou me punir, e de forma indireta me deu ainda mais poder. Seu corpo também não conseguiu escapar do demônio; enfim, tudo isso é o Destino!

- Acredita que o mesmo sempre será favorável a você, Kanon? Ainda estamos no meio da história; até o desfecho da mesma, muita coisa pode acontecer.

Meu irmão e amante continua a sorrir, incrédulo no que digo e ainda muito confiante de que o Destino o continuará favorecendo, como aliás sempre o favoreceu até agora.

Ele vem até mim, sorrindo, me beija na boca e enfim se vai, tomando as sendas ocultas as quais poucos conhecem no Santuário. Eu o observo partir, pensando que minha última esperança ainda reside no fato de que Atena tenha poder para confrontar toda essa situação absurda. É contra tudo o que Kanon sempre quis, mas paciência. Não poderei vê-lo redimido, como desejei no início. Mas o tal Torneio Galáctico, organizado pela jovem encarnação de Atena, é a prova de que tudo está prestes a terminar, seja lá como venha a ser este término.

E por mais que eu tenha sofrido inúmeras decepções ao longo de todos esses anos, ainda permaneço, de maneira tardia e insistente, a esperar por um milagre - mesmo quando toda a esperança já parece ter-se esvaído.

To be continued

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Aqui temos mais um capítulo dessa fic, rsssss! Tardo mas não falho. Confesso que fiquei pensando sobre o Torneio Galáctico e, justamente por causa de, na obra original, toda a atenção ter ficado nos Santos de Bronze, não se diz muito, antes das batalhas contra os Cavaleiros de Prata, como o Saga e o Santuário reagiram a isso.

No mangá, Saori já sabia que era Atena desde que o Mitsumasa Kido faleceu. Mas no anime, até mesmo ela só descobre que é Atena muito depois. O curioso é que a gente passa um tempão sem entender o principal objetivo da série - que é justamente os Santos protegerem Atena. Fica aquele torneio esquisito, a gente sem entender nada. E as coisas só vão sendo reveladas aos poucos. Como eu era criança na época em que assisti pela primeira vez, não dei muita importância. Mas após ficarmos adultos, começamos a questionar as coisas.

Embora esse tipo de recurso seja interessante, para o enredo de CDZ, que é cheio de "meandros", isso dificulta um pouco a compreensão da obra. Muita coisa é detalhada sem necessidade de o ser, e outras coisas nem sequer são mencionadas. Como por exemplo, a reação inicial do Santuário ao saber que Atena estava viva, no Japão e com a Armadura de Aioros.

E isso sem contar que a aparição do Saga nessa época é marcada somente pelo Lemur (lado mau, encosto, etc) e, no anime, pelo filler horrível do mestre Ares. Gente, ficou muito ruim. Eles podiam ter feito de outra forma.

Aliás, outro furo horroroso: Saori é tida como japonesa, mas na verdade seu corpo "brotou" na Grécia. Como ela teria se passado por japonesa nativa, se os traços étnicos do Japão são tão característicos e diferentes dos traços étnicos gregos? A mulher já nasceu com cara de japonesa? Rsssss!

Só se o Mitsumasa a mencionasse como neta adotada desde o início, mas isso jamais foi colocado nem no mangá, nem no anime.

Bom, é isso. Até o próximo capítulo, espero que estejam gostando da história!