... Elas ficam!

Terça-feira, 30 de janeiro

Na manhã seguinte, Lily acordou mal-humorada. Comentou superficialmente com suas amigas sobre a detenção que apanhara na noite anterior. Claro que não contara sobre o passeio nos jardins com James. Disse apenas que passaram na cozinha e encontraram Filch pelo caminho, e receberam a detenção.

- Mas isso é um absurdo! – protestou Marlene, no caminho para a aula de Transfiguração – Vocês são monitores-chefes, têm permissão para andar por aí à noite! A não ser que vocês estivessem... – sugeriu ela, maliciosa. Lily não precisou se esforçar para parecer incomodada com tal insinuação. Já estava irritada com tudo aquilo.

- Claro que não, Lene! Acha que sou louca? E depois, por mais que estejamos 'de bem', ele ainda é o Potter!

- Desculpa, só estava brincando. – disse a morena, surpresa pelo comportamento da amiga. Era comum ver Lily mal-humorada com tais brincadeiras, mas não tão seca e alterada.

- Tudo bem, eu é que estou de mau-humor mesmo. Eu nunca peguei uma detenção na minha vida! – Marlene sorriu compreensiva e tristemente para a amiga, como que para confortá-la, sem muito efeito.

Depois da aula de Transfiguração, Lily e James, que não haviam se falado desde o incidente da noite anterior, se viram juntos à frente da escrivaninha da professora McGonnagal.

- Bom dia, professora. – cumprimentou Lily polidamente, mas sem entusiasmo algum. A professora não devolveu o cumprimento. Olhou os dois com as narinas infladas de indignação e decepção.

- Srta. Evans. Sr. Potter. A detenção de vocês começa esta noite, às cinco da tarde, e durará até a hora do jantar. Apresentem-se na sala do Sr. Filch no horário. Ele dirá o que terão de fazer.

- Mas, professora... – começou James – E os treinos de quadribol? A senhora sabe, o próximo jogo será daqui a duas semanas, eu tenho que treinar a equipe e...

- É uma pena, mas você não poderá treinar ninguém durante este período. – disse Minerva, organizando alguns papéis sobre sua mesa.

- Mas... – Lily lançou um olhar de repressão ao garoto, que se calou em seguida.

- Sinto muito, Potter. Por mais que torça pelo time da Grifinória, nada posso fazer quanto ao seu erro. Agora, vão. Ou se atrasarão para a próxima aula.

Com um último olhar intimidador por cima dos óculos quadrados, a professora os mandou para fora.

Lily e James caminharam lado a lado em silêncio, em direção à sala de Feitiços.

- É... parece que temos um encontro hoje à noite... e pelo resto da semana... – falou James, sorrindo marotamente.

Lily se virou para ele, os olhos injetados de raiva.

- Você se acha tão engraçado. Tão legal. Mas no fundo é um idiota.

E saiu batendo o pé, deixando James para trás completamente confuso.

- Ela é doida! Só pode ser doida!

xXxXxXx

16:20

Naquela tarde, Lily e Emmeline estavam no dormitório, arrumando algumas coisas e pintando as unhas, por falta de ter o que fazer. Não tinham tido a aula das quatro horas por causa de um acidente na sala de Adivinhação. Mas Lily não lamentava. Não gostava muito dessa disciplina. Era interessante, admitia, mas até certo ponto. Mas certas coisas simplesmente pareciam bobagens... Subitamente, a porta do quarto se abre, entrando por ela uma Marlene furiosa.

- Lene, ta tudo bem? – perguntou Emmeline preocupada.

- Eu e o Sirius terminamos! – gritou, sentando-se bruscamente sobre sua cama.

- O quê?! – perguntaram Lily e Emmeline, ao mesmo tempo. – Mas... Lene, como isso foi acontecer? – continuou Lily. A ruiva e a loura pularam para a cama da morena.

- Argh! Ele é tão... e eu fui tão... ugh! – resmungava Marlene, enraivecida, grunhindo de vez em quando.

- Conta, como foi isso? – perguntou Emmeline.

Marlene inspirou e expirou profundamente, acalmando-se, e começou a narrar tudo o que acontecera naquela tarde...

- Flashback –

Marlene tinha dado uma passada na sala de Feitiços, pouco depois do almoço, para tirar umas dúvidas sobre uma aula altamente importante que cabulara para ficar com Sirius. Riu. Fora um tempo bem aproveitado com o seu namorado. Depois pedira para Lily ajudá-la com a matéria perdida, mas ao saber o motivo de Marlene, recusou-se a ajudá-la, e disse que procurasse o professor.

Bem, Marlene fizera isso. Teria feito durante a semana, mas não podia deixar de encontrar com Sirius no pouco tempo livre que tinham. Por isso só conseguiu procurar o pequeno professor de Feitiços naquela tarde, e teve longas explicações sobre feitiços avançados de último grau, e estava louca para encontrar Sirius e passar deliciosas horas junto à ele, sem preocupações.

Era isso o que adorava no maroto. Sempre que estava exausta e cheia de preocupações na cabeça – como as notícias de sua família e sua complicada relação com ela – procurava Sirius, e junto a ele ficava tranqüila. Serena. E é claro, se divertia! Sirius estava se mostrando um namorado bem legal. Diferente de todos os que ela já tivera.

Não que fossem muitos; uns cinco, talvez, tanto em Hogwarts como em casa, nas férias. Todos duraram em média um mês. Não que ela fosse volúvel, como muitos pensam. Mas porque tinha o péssimo hábito de se apaixonar pelos caras errados. Pareciam perfeitos cavalheiros no início, românticos e sensíveis... mas depois se mostravam grosseiros, estúpidos e frios. Não sabia o que acontecia. Não sabia porquê sempre acontecia isso. Justo com ela. Que não parecia, mas era, de fato, uma romântica. E que parecia atrair caras completamente o oposto.

Por isso, estava feliz com seu relacionamento com Siris. Nunca tivera algo assim. Claro que no início suspeitava que ele acabaria sendo como todos os outros, e por isso o evitara por tanto tempo. Mas naquela noite de ano-novo, sentiu que as coisas estavam mudando. E que sua vida mudaria pra melhor. E quando viu, já estava num relacionamento sério com Sirius Black. E estava completamente feliz.

E agora, naquela tarde monótona de terça-feira, ia fazer uma visitinha ao seu namorado no campo de quadribol.

Sorriu ao avistá-lo dos jardins, voando alto. Correu e chegou ao campo, torcendo para que ele a visse e ficasse feliz. Mas quando o avistou, já estava no chão, rodeado por garotas frenéticas e histéricas.

"Tudo bem", pensou Marlene. Acontecia sempre, mesmo. Já estava acostumada. Afinal, namorava o cara mais gato da escola inteira – bem, havia controvérsias sobre James ser mais gato que Sirius; talvez os dois estivessem empatados...

Mas quando se aproximou para surpreendê-lo, ignorando o bando de garotas barulhentas, escutou uma delas fazer uma pergunta a Sirius:

- Ai, Sirius, é verdade que você está namorando sério? Está comprometido?

O peito de Marlene inflou de orgulho. Estava pronta para ouvir: "Sim, estou namorando uma garota maravilhosa, e não penso em nenhuma outra garota", mas o que saiu da boca do maroto foi bem o contrário...

- Ahn... – fez ele, sorrindo e jogando os cabelos encantadoramente – Sirius Black, comprometido? Mas que heresia! Tem Black para todas vocês, garotas!

- Mas... e a McKinnon? – perguntou Marlene, com uma voz de falsete, por detrás da multidão de garotas. O rapaz respondeu sem perceber que era a própria Marlene que estava ali.

- Bom... McKinnon é um caso especial... saímos juntos algumas vezes... mas é só isso...

Marlene não pôde agüentar. Está certo, eles não tinham combinado nada oficialmente. Ele não a tinha pedido em namoro oficialmente. Mas estavam namorando! Não estavam? Não era isso o que seus amigos diziam? Até os outro marotos concordavam com essa afirmação! E eles tinham se visto todos os dias, passavam quase todo o tempo que podiam juntos, fazia um mês! Como não podia ser namoro?

- Que bom que esclareceu tudo, Black. – falou dura e friamente, afastando as garotas para que ele a visse. O rapaz empalideceu. – Fico feliz de saber que não namoro um canalha como você!

E saiu pisando duro, o maroto no seu encalço. As garotas do campo logo se eriçaram, começando a fofocar como galinhas desesperadas.

- Lene, espera! Olha, aquilo tudo o que eu disse lá... – falou ele, correndo para alcançar a garota que já entrara no castelo.

- Era a mais pura verdade. Tudo bem, eu já entendi. Fui só mais uma pra você. Pode deixar que eu vou largar do seu pé! – disse furiosa, subindo as escadas com pressa.

- Não, não é! – ele a segurou pelo braço, fazendo-a olhar para ele - Eu só disse aquilo porque...

- Porque você queria parecer legal na frente delas, não é? Queria continuar tendo um fã-clube te seguindo o tempo todo. Acha mais emocionante ter um monte de garotas do que uma namorada só, a mesma de sempre. Não é mesmo? – ele se calou, fitando-a com seus olhos cinzentos e tristes. Não tinha o que dizer. – Você acabou se mostrando exatamente o tipo de cara que dizia não ser!

E com essas palavras finais, seguiu para a Torre da Grifinória, no dormitório feminino, a fim de se jogar da janela por ter sido tão estúpida em acreditar naquele cafajeste...

- Fim do Flashback -

- Que safado! – exclamou Lily, indignada. Marlene tinha se levantado e estava à janela, olhando o sol se pôr lentamente, controlando-se para não chorar.

- Eu... eu não consigo acreditar que ele realmente tenha feito isso com você! que canalha! – exclamou Emmeline, surpresa. Era amiga de Sirius por causa do quadribol, e achou que o conhecesse bem, e que no fundo ele não era essa cara superficial e insensível. Mas parece que tinha se enganado...

As três ficaram em silêncio por um instante, sem ter o que dizer. Até que a porta do quarto se escancarou novamente, revelando uma Alice pálida que parecia que iria explodir em prantos a qualquer momento.

- Lice! O que houve?

- O Frank terminou comigo! – exclamou, irrompendo em prantos e se atirando na cama, chorando no travesseiro.

- Bem-vinda ao clube... – falou Marlene amargamente, deixando a janela para sentar-se na cama da amiga e ouvir a história.

- Mas como aconteceu? – Emmeline estava chocada. Era informação demais para menos de meia hora! Lily também estava surpresa, pensando se aquele novo ano não tinha trago uma maré de azar para ela e suas amigas no campo do amor... até agora, apenas Emmeline não tinha tido uma decepção amorosa...

- Eu... ele... – soluçava Alice, tendo Lily acariciando-lhe os cabelos castanhos – E-eu o vi na biblioteca c-conversando com uma garota toda oferecida... daí eu fui falar com ele, e ele logo foi me enxotando... disse que eu era uma ciumenta e enxerida, que nunca desgrudava dele... daí eu disse que ia apenas dar um 'oi', que não queria atrapalhar a conversa... a garota ficava soltando risinhos, e ele só gritava comigo, me mandando embora, dizendo que eu era uma chata e que eu o sufocava demais... e que queria sair com outras garotas... e aí ele terminou comigo!

A garota terminou o relato e voltou a chorar. Lily estava impressionada.

- Nossa. Parece que hoje é o dia nacional dos homens cafajestes... – comentou Marlene, secamente. Alice ergueu os olhos para ela. – Terminei com o Sirius. - escplicou.

Marlene resumiu a história para a garota, que se sentiu um pouquinho melhor por não estar passando pela mesma situação sozinha. Mas por dentro seu coração doía. Por que Frank tinha feito aquilo? Por que havia sido tão grosseiro? Não era de seu feitio. Ele era sempre tão calmo e sensato... Não havia sentido em tudo aquilo. Por mais que tentasse relaxar e esquecer, tudo o que Alice conseguia fazer no momento era chorar. E foi o que fez.

xXxXxXx

Sirius adentrou o dormitório masculino do sétimo ano da Grifinória com desespero e se jogou na cama. Ficou a encarar o teto.

Bateu a mão na testa, com uma careta. Idiota! Por que fora dizer tudo aquilo? Ele não estava namorando Marlene? Não estava feliz? Não gostava dela? Por que tinha que estragar tudo, ao espalhar para o seu fã-clube que não tinha nenhum relacionamento sério?

Estúpido! Agora já era. Marlene nunca mais o perdoaria. Mas por outro lado... tinham tantas garotas que aceitariam sair com ele com apenas um chamado... era só escolher... e não eram de se jogar fora...

Chacoalhou a cabeça. Burro! Cafajeste! Era por isso que a perdera! Por ser tão volúvel e metido a garanhão! A única garota que ele já... hum... amara? Não; gostara verdadeiramente... é, soava melhor; tinha menos responsabilidade assim...

Enfim, perdera-a para sempre!

Estava a esmurrar a mão fechada na parede, deitado de bruços sobre a cama, a cara escondida no travesseiro. Um 'click' se fez, e a porta do quarto se abriu.

- Ahn... Sirius... você ta legal? – perguntou Remus, deixando os livros e a mochila sobre o malão ao pé da sua cama, delicadamente.

- Não. – respondeu Sirius, a voz abafada pelo travesseiro, depressiva. E num movimento rápido, se pôs sentado sobre a cama, dizendo de uma só vez. – Eu e a Lene terminamos.

- Quê? – fez James, que adentrava o quarto naquele momento, atirando mochila e livros para cima de sua cama, embaixo de um das janelas estreitas. – Eu ouvi direito?

Sirius então contou o que acontecera. Os dois amigos ficaram calados por um tempo, pensativos. Até que James disse, de repente:

- É, cara, você está ferrado.

- Puxa, obrigado! – falou Sirius sorrindo sarcasticamente, e emburrando a cara logo depois.

- Bom, pelo que eu vi o erro foi seu... você devia pedir desculpas... – disse Remus. Sirius grunhiu.

- Pode ser. Mas não sei se ela me perdoaria...

Os três permaneceram calados. James se levantou e disse por fim:

- Bem, daqui a pouco são quase cinco. Tenho que ir para a minha detenção... – suspirou.

- Rá! Aposto que vai se divertir com a sua querida ruivinha... – brincou Sirius.

- É... quem sabe... mas ela está brava comigo... – disse tristemente. Os outros dois riram.

- E quando a Lily não está brava com você, James? – perguntou Remus. James sorriu contrariado e atirou alguns travesseiros nos dois amigos.

- Ah, estamos melhorando... ficamos amigos, não foi?

- É... mas depois dessa detenção... – ponderou Sirius – Acho que vocês vão voltar pra estaca zero! Hahahaha!

- Ah, cala a boca... – falou James, emburrado, e se dirigindo para a porta – Tchau pra vocês.

xXxXxXx

O clima no dormitório estava deprimente. Por mais que Lily quisesse ficar ali para amparar suas amigas, não conseguia respirar naquele ambiente. E ainda tinha suas próprias preocupações, como arrancar a cabeça do Potter assim que possível, por tê-la convencido a infringir as regras da escola, quase perder seu tão estimado cargo de monitora-chefe, e ainda, arranjar-lhe sua primeira detenção. Ele merecia ter a cabeça arrancada, ah sim!

Ou a única culpada de tudo tinha sido sua consciência liberal que dominara a consciência controladora naquela noite? "Hum... não, a culpa era do Potter mesmo."

E ainda por cima, era orgulhosa demais para admitir seu próprio erro.

- Meninas, eu vou indo. – pronunciou-se enfim, acordando da pasmaceira mórbida do quarto. – Melhor não me atrasar para essa maldita detenção...

- Ok... boa sorte... – desejou Emmeline, que lia um de seus romances, deitada de bruços na cama.

16:59

Lily estava à porta da sala do zelador Filch. Respirou fundo. Ia girar a maçaneta, quando ouviu um chamado.

- Ei, Lily! – era o Potter. A garota suspirou.

- Oi. Pontual, hein? – falou, sem nenhuma intenção de puxar papo, abrindo a porta em seguida e adentrando a sala escura e medonha.

Não havia ninguém ali, a não ser a gata de Filch, sentada sobre a escrivaninha velha e gasta, observando os dois.

- Olha, Lily, eu sei que você ficou chateada... mas a culpa não é minha... você que se acusou... – disse ele displicente, levando uma mão aos cabelos bagunçados.

A garota respirava pesadamente, os olhos fechados, contendo fúria. Era verdade. Ele tentara salvar sua pele e assumir toda a culpa. Mas ela tinha se delatado. Não podia deixar o pobre rapaz levar a culpa de uma decisão sua sozinho. Burra! Mas é claro que podia!

- Eu sei. – disse entre dentes.

Pouco depois, Filch entrou, arrastando-se e rosnando como sempre fazia.

- Ah, os monitores detentos! Hehe! Essa noite vai ser interessante... mas é uma pena não poder usas os antigos equipamentos de tortura... o que estão fazendo parados aí? Vamos, me sigam!

Lily e James obedeceram e seguiram o zelador até o primeiro andar, na enorme galeria de troféus (N/A: ok, totalmente clichê. Mas eu vou inventar outras detenções mais legais, ok?). Lily nunca tinha estado ali antes. Já passara em frente, mas nunca tinha entrado – pelo o que sabia, não existia nenhum tipo de premiação por aluno-modelo, ou melhor monitor, ou algo parecido, apenas taças e troféus de campeonatos de quadribol e do campeonato de taças das casas. Nada que lhe interessasse.

- Ali tem produtos de limpeza – rosnou o zelador com a voz áspera, apontando para um balde no canto da sala – e flanelas. Limpem e lustrem todos os troféus das duas primeiras estantes, pelo menos. Eu saberei se não os limparem...

Lily reparou que todos os milhões de troféus empoeirados estavam marcados com pequenas manchas cinzentas, o que significava que o zelador os verificaria um a um para ter certeza que tudo estava limpo.

- Agora eu vou trancar vocês aqui.

- O quê?? – exclamou Lily, sobressaltada – Você não pode nos deixar sozinhos aqui! Não é o seu trabalho nos vigiar?

O rosto de Filch contorceu-se numa careta.

- O meu trabalho é impedir que alunos infrinjam as regras, e garantir que eles cumpram as detenções. Mas isso não significa que eu tenha que vigiá-los... contanto que fiquem trancados e não possam sair do lugar... hehehe...

E saiu rindo desdenhosamente, trancando-os na galeria. Lily ainda tentou argumentar, mas ele disse que tinha coisas mais importantes a fazer, como vigiar os corredores, já que os dois monitores-chefes estavam em detenção. Lily sentiu-se humilhada com essas palavras.

Soltou um grunhido de raiva, e se ajoelhou no chão, próximo ao balde com produto de limpeza e as flanelas, começando a limpar os troféus que estavam na prateleira de baixo. Durante todo esse tempo James permanecera calado.

- Lily...

- Não vamos perder nosso tempo com conversas, Potter. Temos muito trabalho pela frente, e eu não quero perder o jantar. – ela disse secamente.

- Se perdermos o jantar podemos passar na cozinha e comer alguma coisa depois... – ele comentou tentando ser simpático, aproximando-se e apanhando uma flanela também, começando a limpar a parte de cima da estante.

- E receber outra detenção? Não, obrigada. – e se calou, esfregando os troféus com movimentos bruscos, o rosto contorcido numa expressão mal-humorada. James revirou os olhos e bufou.

- Ah, Lily, qual é! Ta bom, foi uma idéia idiota, mas eu lembro muito bem que você não fez objeção!

- Porque eu achei que o seu plano fosse seguro e não seríamos apanhados! – replicou, irritada.

- Ora Lily, você... – ele largou a flanela, ela se ergueu do chão, largando a flanela e a taça que limpava.

- Potter, foi a primeira detenção da minha vida! – exclamou, nervosa.

- Ah, agora vai ficar fazendo drama? Vai ficar remoendo pra sempre que o 'idiota do Potter' te fez pegar a sua primeira detenção, e que vai ser uma mancha eterna na sua reputação perfeita? – reclamou, alteando a voz, com exagero nas palavras – E depois, Lily, não adianta negar, a culpa também é sua, eu não te arrastei para a cozinha, muito menos para os jardins!

Lily ficara ainda mais enraivecida pela revolta do maroto. Ela é quem devia estar revoltada!

- Potter... – começou a dizer que estivera num mau dia, fora de si, e que nunca tivera a intenção de sair com ele, e que tudo fora um erro, custando muito mas admitindo que a culpa também era sua. Mas não pôde dizer nada disso, já que o rapaz logo a interrompeu impaciente:

- E pára de me chamar de Potter!

James estava lívido. Lily o encarou, com o olhar duro. Naquela sala escurecida, iluminada apenas por umas poucas velas em candelabros de parede e uma lareira central, – o que explicava os troféus estarem coberto de fuligem e a necessidade constante de serem limpos - o rapaz parecia ainda mais bonito, a luz do fogo refletia nos óculos redondos do garoto, fazendo seus olhos castanho-esverdeados parecerem um pouco dourados, brilhantes, lindos... os cabelos negros bagunçados como ficavam sempre ao final do dia, as pontas espetadas para todos os lados, daquele jeito que a deixava louca, sempre querendo meter um pente ali... mas agora tudo o que queria era despentear mais ainda aqueles cabelos, se é que seria possível...

James pestanejou. Por mais que estivesse bravo, frustrado, a imagem de Lily sob a pouca luz o deixava louco. Ainda mais porque ela estava tão brava quanto ele. James simplesmente adorava vê-la brava. Furiosa. Ficava tão linda... os olhos firmes e penetrantes, as bochechas coradas, e os lábios avermelhados pareciam tão macios e prontos para serem beijados...

Sem hesitar aproximou o rosto do dela ainda mais, e ou era ilusão, ou ela se aproximava também... Ambos foram fechando os olhos pouco a pouco, o coração batendo acelerado, as respirações desreguladas encontrando-se...

Lily teve um ímpeto de consciência e deu um passo atrás, virando o rosto, voltando a esfregar troféus, sem dizer uma palavra. James permanecera no ar, os olhos ainda fechados, os lábios entreabertos. Recobrou a consciência também, e lentamente, voltou ao seu trabalho, respirando uma última vez o perfume que exalava dos cabelos de Lily.

Passaram grande parte do tempo em silêncio, falando apenas o necessário, como 'Me passa a flanela' ou 'Terminei esse lado, vou para o outro.'

Lily estava mal. Não por estar cumprindo a primeira detenção de sua vida. Pensara bastante durante aquele tempo e vira o quanto estava sendo infantil e egoísta. Estava sendo boba. Não estava chateada por causa disso. Estava chateada por ter aceitado dar uma volta com o Potter.

Mas não era isso que a aborrecia no momento. Estava envergonhada. Brigara com James por um motivo tão bobo... e vira o quanto ele estava chateado. Certamente devia ser uma cruz aturar uma garota cheia de não-me-toques e língua ferina como ela. Um peso se apossava de seu coração. Tinha um nó na garganta; eram as palavras que se embolavam para não sair. Aquelas palavras que quase nunca dizia. Evitava-as ao máximo, porque não poderia admitir que estava errada. Simplesmente não podia. Mas dessa vez era preciso. Porque alguém poderia acabar magoado. E o que Lily detestava era magoar as pessoas com seu orgulho estúpido.

- James... – disse finalmente, com uma voz tímida, após muito batalha com seu cérebro para proferir as tão difíceis palavras que vinham a seguir. O rapaz ergueu os olhos para ela, sem fazer som algum, e depois desviou, voltando a limpar troféus. Faltavam uns vinte apenas. Estava do outro lado da estante, podiam se ver pelo vão da prateleira. Lily decidiu continuar. – Eu... queria... hm... pedir...

A ruiva se embolava, e James fixou seu olhar nela, curioso para ouvir o que ela tinha a dizer. Quase ria da dificuldade da garota em pronunciar aquelas palavras, mas preferiu se manter neutro; se ela percebesse que ele zombava dela, poderia se irritar e não dizer mais nada.

- Me desculpe... – disse ela, a voz fraquinha, o rosto baixo, olhando seus pés. James sorriu. Já reparara o quanto Lily era orgulhosa e era difícil, quase impossível de ela admitir um erro. Achava-a tão graciosa naquele momento. Como uma criança que mente pela primeira vez e confessa a verdade, envergonhada.

Lily estava apreensiva por James não ter dito nada. Não conseguira erguer os olhos do chão, então não vira a expressão de admiração no rosto do maroto. Por fim, ele disse, para alívio dela:

- Está desculpada. – ela voltou o olhar para ele, que lhe sorriu e piscou um olho, voltando a limpar os troféus. A garota sorriu timidamente, e voltou ao trabalho também. – Sabe, eu quase achei que você não fosse pedir desculpas. Sabe, por ser uma característica do seu signo ¹; taurinos são muito cabeça-dura.

Lily logo ergueu a cabeça.

- Como sabe o meu signo? Aliás, como você sabe dessas coisas? Até ontem você nunca ouvira falar de astrologia!

- Acontece, ruivinha, – ela revirou os olhos. Detestava quando ele a chamava assim. Bom, talvez nem tanto. – que eu pesquisei na biblioteca...

- Uau. Estou impressionada. – ela disse, verdadeiramente – Achei que você nunca entrava na biblioteca...

- E não entrei. Mandei o Peter pegar o livro pra mim.

- Ah. – fez a garota. – Mas, o que mais você descobriu?

- Bom... descobri que você é do signo de Touro, teimosa e muito voltada para o trabalho, mas ainda assim amorosa; e eu, sou um escorpiano sociável, leal, conquistador... – Lily revirava os olhos, divertida – mas que no fundo tem uma alma romântica que não gosta de expor a ninguém... – essa última parte ele disse quase num murmúrio, inesperadamente tímido – Portanto... – e colocou um dedo sobre os lábios, pedindo segredo – E outra coisa... – ele acrescentou, terminando de lustrar os troféus do lado em que estava e passando para o mesmo lado de Lily, deixando a garota alarmada – Touro e Escorpião são signos opostos complementares... o que significa que nós dois fomos feitos um para o outro...!

Lily riu, entretida. O que acontecera com sua intolerância potteriana de antigamente? Agora mal conseguia ficar chateada com James por um dia inteiro... achava graça nas bobagens que ele dizia... nas cantadas que ele lhe passava... Merlin... o que estava acontecendo???

- Ah, James... só nos seus sonhos... – disse enfim, com um lindo sorriso.

- É... talvez... – considerou o garoto, falsamente decepcionado – Mas nunca ouviu dizer que "o que nunca foi sonhado, jamais será realizado"? Acho então que vou continuar a sonhar, por enquanto... até que se torne realidade...

Ficaram num silêncio aterrador. James olhava profundamente nos olhos verdes de Lily, fazendo-a corar, o rosto todo, até a boca. Desejava intensamente beijar aqueles lábios avermelhados, macios, e entreabertos de medo. O cérebro de Lily mandava mensagens para seu corpo sair dali o mais rápido possível, arrombar a porta daquela galeria, se fosse preciso! Precisava sair dali, antes que fosse tarde demais... Mas os olhos dele eram tão lindos àquela meia-luz... James não esperou que ela se aproximasse mais; rompeu a distância que os separava num impulso rápido, mas com delicadeza, tocando-lhe os lábios, assustando-a um pouco. Mas a garota não se moveu. Retesou o corpo, mas quando sentiu as mãos de James segurando gentilmente seu rosto, relaxou. Derreteu-se. Levou suas mãos para os braços dele, e segurou-os firmemente, apreciando o beijo. Mas assim que iam aprofundar o beijo, já presos num abraço apaixonado, ouviram um arrastar de pés e um tilintar de chaves. Se afastaram de imediato, e quando Filch entrou na galeria, os encontrou terminando de lustrar um último troféu.

- Terminaram as duas estantes inteiras? – rosnou. Os dois confirmaram. – Está certo. Amanhã voltem no mesmo horário, para limpar as outras. Agora vão, vão!

James e Lily correram dali e foram direto para o Salão Principal, sem dizer uma palavra durante o caminho. Já eram oito horas quando sentaram-se à grande mesa central da Grifinória. Lily foi para uma ponta, sentar-se junto de Marlene, Alice e Emmeline, dando uma última olhadela tímida para James, que sentava no outro extremo da mesa, com os outros marotos.

- E aí, Pontas, como foi a detenção? – perguntou Remus.

- Normal. – respondeu, observando Sirius remexendo uma ervilha no prato, visivelmente chateado.

- Troféus? – perguntou ele com a voz monótona, remexendo agora os grãos de arroz. James concordou com a cabeça, e disse em seguida.

- Cara... você ta horrível...

- Obrigado. – respondeu o outro, desanimado.

- Ainda é por causa da Marlene? – Sirius não respondeu, apenas virou para observá-la no final da longa mesa. Remus confirmou. – Cara, faz alguma coisa! Vai lá, fala com ela, pede desculpas, sei lá...! Mas faz alguma coisa! Não fica aí parado, com essa cara de morto-vivo, está me deprimindo! – Peter soltou um risinho. Os outros três se viraram para ele. Não havia motivo para riso. Peter olhou-os constrangido e meteu os dentes numa coxa de galinha, calando-se.

- James, não adianta. – disse Sirius, irritado, mas com a voz controlada – Eu já tentei. Já fui falar com ela, me explicar; não adianta. Ela não vai me perdoar. Acabou.

- Afinal, Sirius, por que disse que não estava namorando a Lene, se você estava? – perguntou Remus – Por que a fez acreditar que o que tinham era sério, se pra você não era? Ela deve estar muito magoada...

- Aluado... você não entende! – ele exclamou, fazendo um grande esforço para que Remus compreendesse seu lado, totalmente incompreensível e sem propósito. – Era uma legião de garotas... todas prontas para sair comigo a hora que eu quisesse... eu não podia simplesmente decepcioná-las e dizer que estava comprometido...!

- Então ela está melhor sem você. – Sirius olhou Remus escandalizado. – Falo sério. Você não a merece. Achei que gostasse mesmo dela, de verdade. Mas parece que ela foi apenas mais uma...

- Ah, Remus, não é bem assim... eu gosto dela... mesmo...

- Então encontre uma maneira de consertar o seu erro! Mostre pra ela que você quer ficar com ela e somente com ela! Não estou certo, James?

- Hum... Ahn, o quê? – perguntou ele, distraído; Estivera observando Lily durante todo o tempo. Remus o olhou repreensivo. – Ah, claro, claro. Mostra pra Marlene que você gosta dela e... que só quer ficar com ela. É, isso aí. – concluiu, voltando a observar a ruiva. Sirius revirou os olhos.

- Cara, Aluado... Eu não quero ficar assim! – apontou para James, que nem se moveu – Não quero ficar que nem um idiota apaixonado por uma garota! Eu quero curtir, sem compromissos... de preferência com a Lene...

- Bem, caro Almofadinhas. Eu tentei. Dei meus conselhos. Você que se vire agora. Mas um dia eu tenho certeza que você ainda vai se apaixonar e parecer um idiota, assim como o James.

- Ei! – exclamou o de óculos, finalmente prestando atenção à conversa. Sirius enfim soltou uma gargalha rouca como um latido, Peter o acompanhou sem entender, e Remus tentou prender o riso, sem efeito.

Os quatro garotos terminaram de jantar e subiram para o dormitório, desanimados; as garotas no outro extremo da mesa subiram pouco depois. Estavam todos muito cansados e mereciam uma boa noite de sono. Fora um longo dia...


¹Bônus

Como eu sou muito ligada em astrologia, logo tratei de pesquisar quais signos seriam melhor atribuídos para nossos protagonistas. Bem, depois de muita pesquisa, aqui está o resultado:

Touro(Lily – 20 de abril) e Escorpião(James – 31 de outubro):

Touro e Escorpião são signos opostos no zodíaco. Isso faz com que a atração entre os dois seja mágica e instantânea. O taurino será facilmente conquistado pela sensualidade e liberdade do escorpiano, que sempre terá a beleza de um cavalo selvagem para o taurino. A paixão tende a ser uma constante no relacionamento. O escorpiano não permitirá que a relação caia facilmente na rotina. Fará com que ela seja uma eterna descoberta para os dois. Isso certamente fascinará o taurino, que se desdobrará em amor pelo o escorpiano.

Por outro lado, se o relacionamento evoluir muito às pressas assustará ao taurino, pois ele prefere que as coisas sejam desenvolvidas aos poucos para que se sinta seguro dentro do relacionamento. Portanto, se o escorpiano for com muita sede ao pote, o que lhe é de costume, a tendência é fazer o taurino correr para bem longe.

(e é por isso que a Lily vive fugindo do James)


N/A: E então?

Caso vocês não tenham reparado, as coisas não têm ido bem para Lily, desde os capítulos passados... nem para suas amigas...

Mas as coisas vão mudar. Assim que ela perceber certas coisas...

É isso! Não falo mais nada! A não ser...

Cenas do próximo capítulo:

"Não sei o que tem acontecido comigo. Parece que a minha vida virou de ponta-cabeça. (...) Nada tem dado certo. Nem para as pessoas ao meu redor. É como se eu tivesse quebrado todos os espelhos do mundo, passado por debaixo de todas as escadas... o azar me persegue! Tudo está dando errado! Antigamente não era assim... até eu beijar o Potter na noite de ano-novo..."

Beijos e deixem reviews! ;D