Era terça-feira, enfim. Nublado.
Acordou de madrugada, se apoiou no parapeito da janela e fumou um cigarro ouvindo vinis velhos de jazz. Saint-Dié tinha sombras e fumaça, e às vezes ele se perguntava se realmente havia saído da ilha.
Estalou as costas, fez café. Não iria voltar a dormir agora. Eram três da manhã, e o chão frio estalava debaixo dos acordes de baixo. Passou a mão pelo cabelo, pensou em cortá-lo, pensou de novo, desistiu. A música o acalmava, e o tom das batidas o acordava, porque música não precisa fazer sentido.
Era um novo dia, como todos os outros.
Passou algumas horas, que poderiam ter sido alguns dias, entre jazz, café e cigarros. Mas ainda era terça, e as olheiras faziam seus olhos parecerem mais claros. Às oito e meia, colocou uma camiseta branca e os All-Star vermelhos desbotados, pegou as chaves e saiu.
A faculdade de Artes já lhe era familiar essa semana. Os cravos, as luzes, os tijolos escuros. Era um tanto estranho andar por ali, porque não era a França, não podia ser.
Sacudiu a cabeça. Pensar sobre o passado nunca lhe fizera bem.
Desenho. Sala M. A porta estava destrancada, as janelas abertas. Monsieur Remus estava sentado sobre sua mesa, um livro velho em seu colo e os pés descalços pendendo para fora do tampo. Cheiro de café.
"Dostoyevsky?"
"Nabokov. Bom palpite."
Literatura russa combina bem com o cargo de professor de Artes, mas ele ainda parecia demasiado jovem e jovial para qualquer dos dois.
"Não sei de sua história, Monsieur Remus, mas acho que não pode ter sido muito melhor que a minha."
Ele tinha olhos expressivos, possivelmente a única parte de sua fisionomia que não media emoções. E eles riam, mas não estavam felizes.
"Eu não sei de sua história também, Monsieur Sirius, mas sei que definitivamente tem uma. Talvez possamos compará-las, um dia."
O grupo de hoje trabalhava expressões faciais. Por sorte, Sirius conseguia conjurar quaisquer emoções em qualquer situação, mesmo não tendo certeza se possuía alguma delas. Talvez sim. Provavelmente não.
"Gosta de café?"
Ele era deveras interessante. Parecia novo, mas parecia ter mais história do que se tivesse mil anos de idade.
"Bastante."
Começava a garoar na rua, mas ainda era mais quente que um verão londrino. O café pequeno, numa esquina comum de Saint-Dié, tocava músicas de artistas que ele não conhecia, mas tampouco fazia questão.
Não descobriu muito sobre o jovem artista naquela tarde. Sabia apenas que era de Nice, que gostava de chuva, e que tinha sete dobras na mucosa do céu da boca.
Era uma terça-feira quase comum, mas a quarta que a seguia tinha prospectos de ser extraordinária.
