QUE DIA, QUINN FABRAY! QUE DIA!

Algumas pessoas acreditam que, faça chuva ou faça sol, Quinn Fabray acorda deslumbrante e bela em seu quarto de princesa. Dois esquilos colocam as pantufas no lugar certo para ela calçar. À janela, um casal de passarinhos azuis e adoráveis estão à espera da bela para iniciar um dueto sinfônico de assobios e cantos. Então a princesa Quinn Fabray escolhe o vestido do dia, escova rapidamente o cabelo deslumbrante e sai para a escola, lugar onde sempre é desejada pelos homens e invejada pelas mulheres. Há outra versão mais interessante que Quinn Fabray na verdade é uma integrante da família Adams. Ela acorda no quarto escuro, sempre está chovendo e trovejando lá fora. Então ela vai diante do espelho, olha a sua imagem grotesca refletida e renova o feitiço diário de beleza. Claro que nada é eterno, o feitiço termina à meia noite, quando ela volta a ter a forma grotesca original. Obviamente, o primeiro grupo viu muito o desenho "Branca de Neve", da Disney. O segundo grupo misturou a mesma Branca de neve com o princípio do sapatinho de cristal da Cinderela em uma inversão de sentido bizarra. Ou seria Shrek?

Quinn sabia vagamente dessas versões de admiradores e detratores. Ela nunca deu muita atenção a essas histórias. Na real, ela simplesmente acordava como qualquer outro ser humano: cabelos bagunçados, rosto amassado, alguma baba no travesseiro...

Opa! Baba no travesseiro não! Quem é você para afirmar tal coisa?

Deus. Mas você não vai acreditar e ainda vai dizer que é uma blasfêmia.

Isso é uma blasfêmia!

Depende do ponto de vista. Há religiões que afirmam que há um deus dentro de cada um de nós. Sendo assim, eu sou deus tanto quando você é ao seu modo.

Blasfêmia!

Quem é você para afirmar que a sua crença, o seu modo de pensar, a sua roupa, a sua casa, o seu corpo, a sua posição social é o mais certo? Logo vindo de um mero ser humano entre bilhões que habitam um planeta ridículo que circula em torno de uma estrela pequena entre outras bilhões que compõe uma única galáxia dentre as outras bilhões de galáxias que existe no universo? Então dentro de toda essa grandiosidade, você, um mero micróbio, está certa a ponto de dizer o que é blasfêmia e o que não é?

Desculpe é que eu...

Não esquenta Fabray. Minha função não é te julgar. Nunca foi. Vim para narrar o seu dia.

Por quê?

Para as pessoas terem a oportunidade de te conhecer melhor, talvez. Que acima de tudo você é um ser humano pensante, normal, que baba no travesseiro com todos os outros. Isso parece razoável para você?

Parece justo. Mas vá com calma.

Irei com a mesma calma com que fui com os outros dois.

Então eu não sou a primeira a ter um diálogo com... é... vejamos... você?

Não é a primeira e nem será a última.

Quinn baba no travesseiro como todo ser humano. Ela acorda com a camiseta tamanho "G" retorcida, assim como a cueca samba-canção. É assim que gostava de dormir. A não ser, claro, que ela vá para casa de alguém ou vice-versa. Nesse caso, ela guarda camisolas bonitas que não tem o mesmo conforto. Quando era uma cheerio, o dia começava cedo por causa dos treinamentos matinais. O hábito não mudou, só a rotina ficou diferente. Depois que levanta, Quinn veste a calça de ginástica, uma camisa antiga das equipes esportivas da escola, um casaco e sai para correr pela vizinhança. São 3 km cumpridos diariamente. Ela morava próxima a Brittany e a Mercedes e as casas das companheiras de Glee Club ficavam no trajeto. Não tinha certeza se alguma delas já a viu correndo entre o fim da madrugada e o nascer do sol. Os locais sempre estão quietos quando passa correndo. Quando retorna para casa, faz um alongamento bem feito no quintal antes de subir para o quarto tomar um banho, escovar os cabelos, usar um vestido impecável e incorporar a outra personalidade de Quinn Fabray: manipulativa, bitch, poderosa, mas sem perder (muito) a ternura.

Quinn não tinha uma agenda especial para o dia. Ela até desejava que o dia fosse tedioso. Iria para as aulas, faria educação física, tomaria uma ducha e depois Glee Club. A tarefa da semana era pesquisar músicas feitas exclusivamente para filmes e, sobre tal assunto, ela pouco entendia. Como uma pessoa comum, ela gostava de assistir filmes. E como uma pessoa comum, não prestava atenção em detalhes técnicos – só queria saber se a história satisfazia ou não – e se levantava da poltrona ou voltava ao menu inicial para ver os extras tão logo começavam a subir os créditos. Então ela nunca prestou atenção em música feita exclusivamente para filmes, mas sabia que os desenhos da Disney ganharam vários Oscars. Ensaiou, no entanto, Take My Breath Away, de Top Gun, porque era clichê, fácil, casava com a voz dela. Quinn também não estava muito afim de esforço para esse tipo de cena. Ninguém sabia, mas Quinn tinha uma coleção respeitável de jazz em casa. Uma vasta discografia de Ella Fitzgerald, Billy Holiday, Nina Simone, Sarah Vaughan e a sempre subestimada Julie London. Ninguém do grupo cantaria "Cry Me a River" como ela poderia cantar. Nem mesmo Rachel Berry.

"Estou impressionado com vocês, pessoal!" – professor Schuester aplaudiu tanto os que se apresentaram quanto os que trouxeram uma pesquisa. Quinn se apresentou, assim como Tina, Mercedes e Kurt – "Agora, para o nosso próximo encontro, quero algo mais elaborado. Vocês vão se reunir em trios e vão produzir um número original com base em músicas que marcaram o mundo do cinema. O trio vencedor ficará responsável pela performance em grupo que vai ser o show de abertura do concurso anual de talentos".

Quinn revirou os olhos. Ela adorava estar no Glee Club, adorava os ambientes das competições, a preparação, os ensaios... mas as humilhantes apresentações acumuladas para os colegas de escola estava dando nos nervos, eram sempre as melhores coreografias para no final alguma coisa dar muito errado. Ou por causa de uma sabotagem da treinadora Sue, ou como da última vez em que Brittany e Santana vomitaram. Olhou para as duas com certa irritação. Santana já estava articulando alguma coisa com a melhor dançarina do grupo e Tina. Ela suspirou. Houve um tempo em que ela fazia Santana e Brittany a seguirem para onde fosse. Bastou tirar o uniforme das cheerios para que as suas amigas voarem livres. Quinn olhou para os colegas. Kurt, Mercedes e Artie formaram um trio. Parecia que Puck e Lauren ia chamar Sam.

"Quinn?" – Finn sorriu e pegou em sua mão – "Que tal se a gente combinar um número com Mike?"

"Parece bom!" – ela forçou um sorriso.

No fundo, ela não estava interessada em fazer qualquer número que fosse com Finn. Com Mike talvez. Ele era um sujeito criativo, característica que Quinn apreciava nas pessoas, em especial em seus aliados.

"Senhor Schuester" – Rachel levantou o braço – "Embora eu acredite que o senhor poderia ter em mente um grupo de quatro pessoas para essa tarefa, no qual eu poderia naturalmente ingressar..."

"Não no meu time, bicuda".

"Como eu ia dizendo antes de Santana me interromper" – Rachel cruzou os braços, indignada – "O que estava prestes a propor era em fazer o meu número sozinha, pois já tenho em mente um número maravilhoso com a música Cry Me a River".

"O quê?" – Quinn surtou – "Professor Schuester, isso não me parece justo!"

A turma direcionou os olhares de surpresa para a ex-cheerio. Basicamente, as únicas que escancaravam suas opiniões contrárias a Rachel com tamanha energia eram Mercedes e Santana. Só quando sentiu tantos pares de olhos em cima dela, não da maneira que ela estava acostumada, Quinn percebeu que ela estava de pé. Era tarde demais para desfazer a pose e o orgulho, então ela colocou as mãos na cintura, recolocou no rosto a expressão de neutralidade usual e ponderou o tom de voz sem deixar de lado o usual tom imperativo.

"Se o professor Schue passou um trabalho em trios, quer dizer que o propósito do trabalho é trabalhar em grupos menores, certo?" – encarou o orientador à frente que acenou afirmativo, mas sem muita convicção, como se ele não tivesse pensado muito à respeito – "Nossos trabalhos são basicamente individuais, em duplas, meninos contra meninas, ou com todo o grupo. Dificilmente desenvolvemos qualquer ensaio com um grupo menor, mas que pode proporcionar outras possibilidades de apresentação. Todos sabemos que cantar sozinho é mais fácil nos ensaios. Então por que Rachel Berry vai ter esse privilégio?"

"Quinn tem um ponto aqui Rachel. Por que você não escolhe um dos grupos já formados?"

Santana já havia cortado qualquer possibilidade de trabalhar com ela. Uma vez que a rival estava praticamente fora do armário, não havia mais como chantageá-la. Punk, Lauren e Sam não era um grupo muito atraente. Kurt, Mercedes e Artie tinham lá o seu equilíbrio. Quinn, Finn e Mike seria como uma auto-tortura. Mas seria a chance dela observar mais de perto a dinâmica do casal.

"Ótimo! Fico no grupo da Quinn! Podemos encolher o repertório hoje à noite lá em casa?"

Quinn saiu da sala de ensaios primeiro que todo mundo. Ela correu até o campo de futebol onde pôde gritar com toda força dos pulmões.

"A CULPA É SUA!"

Minha?

Você!

Mas eu não fiz nada.

Você sabia que eu gostava da música! Você deve ter dito pra Rachel me atormentar.

Não mesmo! Rachel gostava da música e o fato de ela ser uma fanática por musicais a faz gostar naturalmente de jazz. Mas é claro que isso não passou pela sua cabeça.

Acha que vai me convencer? Pensa que eu não sei que você interferiu.

Quinn, se eu tivesse interferido em alguma coisa, você teria amanhecido o dia com um pênis e se apaixonado à segunda vista por Rachel Berry. Que tal isso?

Você não faria!

Para a sua sorte... não!

Ótimo. Ficar apaixonada por Rachel Berry seria o fim do mundo.

Você ouviu a parte do pênis?

Enfim... O grande problema entre Quinn Fabray e Rachel Berry era de perspectivas. Quinn foi criada com a idéia de que beleza e poder eram garantia de posições melhores no futuro frente à sociedade. Sobretudo numa pequena e conservadora como a de Lima. A família de Quinn freqüentava a igreja aos domingos, votava nos candidatos republicanos (de preferência os indicados pelo Tea Party), cultivava valores suburbanos, se preocupavam com aparências. A frase "o que os vizinhos vão pensar" era real e recorrente. Os alunos de McKinley, sobretudo os colegas do Glee Club tinham ideais e criações mais ou menos próximas. Santana, por exemplo: esperta, inteligente, cheia de si, mas em comum com Quinn tinha a preocupação com status social e nunca teve planos concretos para sair de Lima, embora pudesse fazê-lo.

Santana é uma bitch e você está dando mais crédito do que ela realmente merece.

Santana é o anti-herói do grupo. Durma com essa.

Agora vejamos Mercedes: ela queria ser uma diva, ser uma estrela e brilhar. Mas onde? A diva local sempre falou muito em carreira, mas sem demonstrar objetividade ou trabalhar duro para isso. E quanto aos meninos? Eles seriam mais ou menos sucedidos dentro da sociedade de Lima. Tirando Kurt, por uma questão de sobrevivência, não havia material interessante suficiente para sair daquela cidade ou de Ohio.

Rachel era diferente porque ela vinha de uma família não-convencional, era judia, eleitora democrata, embora tivesse sim vontade de ter melhor status social por uma questão de auto-estima e vaidade. Mas o que mais angustiava Quinn era o fato de Rachel ser objetiva o suficiente para conquistar o que desejava com carisma e, principalmente por causa do talento. Quinn poderia eventualmente sair de Lima de pela força das circunstâncias. Rachel sairia de Lima pela vontade. Quinn estava conformada com um destino que lhe fora traçado. Rachel traçava o próprio destino. Era por isso que Quinn invejava e antagonizava a colega de coral. A presença física da pequena diva de voz monumental a incomodava principalmente por todo simbolismo que Rachel, sem querer e nem ao menos se dar conta, carregava.

Mas você pode resumir tudo isso com uma simples frase: eu acho Rachel um saco.

E porque todos os seus homens sempre gostaram muito mais dela.

Isso é mentira.

Talvez, mas é o que você pensa.

Contrariada, Quinn pegou o celular e mandou uma mensagem de texto a Rachel. Ela estaria na casa da colega às quatro da tarde para ficar o menor tempo possível na casa dos Berry e evitar de ser convidada a jantar comida vegetariana. Taí outra força oposta entre ela e Rachel: nutrição. Quinn não acreditava que um ser humano inteligente pudesse sobreviver sem carne e derivados. Imagina ir a Paris para comer queijo de soja. Ou ir para Buenos Aires e saborear um "delicioso" hambúrguer vegetariano. Não mesmo!

Decidiu não ir para casa. Precisava passar na farmácia para pegar os remédios de Judy Fabray. Só havia um carro para ela e a mãe. As duas revezavam A mãe estava fazendo um tratamento homeopático e outros tratamentos alternativos contra stress e ansiedade. Quinn era cética com esse tipo de medicina, mas ela tinha de reconhecer que Judy fumava e bebia menos depois que começou a tomar a tal "aguinha rotulada" e fazer Tai-Shi-Shuan. Quinn dava mais crédito a arte japonesa pelo bom resultado. Na saída da drogaria, começou a chover. Nada mais do que uma garoa por hora. Quinn colocou os medicamentos no carro e seguiu viagem rumo a casa de Rachel. No meio do caminho, a chuva começou a apertar e quando Quinn chegou ao destino, a garoa havia se transformado numa tempestade. Ela parou o carro em frente à casa, correu em direção à porta e começou a praticamente espancar a porta. Estava escuro por causa do tempo muito fechado, ventava forte e só o pouco tempo que ficou esmurrando a porta foi o suficiente para deixá-la ensopada.

"Quinn?" – Rachel abriu a porta e parecia surpresa.

"Deixa eu passar, Rachel" – empurrou a menina menor e fechou a porta.

Ainda bufando, tirou o casaco ensopado, tirou o excesso de água do rosto e depois encarou a colega que ainda a olhava admirada.

"Não vai me dar uma toalha?"

"Claro!" – Rachel correu até um dos armários e tirou de lá uma toalha limpa.

"Por que está me olhando assim, como se não me esperasse?" – Quinn disse irritada.

"Eu deixei uma mensagem no seu celular cancelando o encontro por causa da tempestade. Não viu? Respondi 10 minutos depois que você mandou a mensagem marcando o encontro aqui"

"O quê?" – Quinn procurou o celular na bolsa. A mensagem estava realmente lá, mas Quinn se esqueceu de tirar o toque do silencioso. Por isso não ouviu.

"O serviço de previsão de tempo alertou a tempestade e quando eu vi a mensagem imediatamente mandei te retornei cancelando tudo. Mas já que você está aqui, podemos adiantar algum trabalho. Pelo menos antes que acabe a luz."

"Acabar a luz?"

"É uma possibilidade apenas" – Rachel olhou para a colega ainda ensopada – "Posso te oferecer roupas secas?"

Quinn olhou para si ainda pingando em frente à porta de entrada de Rachel Berry.

"Seria..." – Quinn Fabray olhou para o teto (o céu) e para o chão (o inferno) e depois para Rachel (o purgatório). Forçou um sorriso – "Claro! Seria muito gentil de sua parte".

Rachel logo indicou o banheiro do térreo, um lavabo, onde Quinn pôde descartar as roupas ensopadas. Pouco depois, ouviu batidas à porta. Ela se enrolou à toalha antes de abrir. Rachel entregou roupas perfeitamente passadas e dobradas. Sério? Quem passava roupas comuns, de ficar em casa, em território norte-americano? Só os Berry. Quinn vestiu a calça de moletom vermelho e a camiseta preta com o escrito "New York City" que eles usaram para a apresentação fiasco do pátio da escola no início do ano letivo. Duas coisas: a camiseta ficou mais justa ao corpo e a calça levemente curta. Ela olhou mais uma vez para o chão.

Você deve estar brincando comigo.

Está convencida que eu sou o diabo agora?

E não é? Só pode ser obra sua, capeta!

Uma pena que eu não seja o diabo. Até que ele pode ser um sujeito divertido às vezes.

Quinn saiu cabisbaixa do banheiro. Viu que Rachel estava na cozinha fazendo qualquer coisa. Pegou a direção contrária, para a sala, e olhou pela janela. A chuva ainda estava torrencial. Era possível ver galhos caídos pelo asfalto e as copas das árvores envergadas.

"Estavam anunciado a tempestade deste ontem. Mas previsão do tempo, infelizmente, não é algo que prende a minha atenção, ou dos meus pais. Pelo menos pude ver a tempo os alertas do celular" – Quinn revirou os olhos com a informação repetida, então se voltou para a colega.

"Onde estão seus pais?"

"Meu pai está na agência" – Quinn lembrava vagamente de saber que um dos pais de Rachel era publicitário. Não tinha certeza quanto ao outro – "Papai está no escritório. Eles mandaram mensagens para que eu ficasse tranqüila, que eles estavam bem e iriam para casa tão logo a chuva desse uma trégua. Presumo que o mesmo aconteça contigo... aqui. Então, enquanto você se trocava, pensei em preparar algum lanche. Não tenho certeza como você se sente em relação a nutrição vegan, mas posso garantir que o tofu temperado e os biscoitos estão uma delícia. Eu preparei os biscoitos ontem, para dizer a verdade, mas eles foram conservados de forma adequada, por isso você não precisa se preocupar com a validade dos alimentos. E eu suco".

Queijo tofu era o fim da linha para Quinn, mas ela estava com fome e os biscoitos pareciam uma boa alternativa.

"Suco de quê?"

"Uva".

E Quinn que planejou jantar em casa e fugir da comida de coelho da casa dos Berry acabou engolindo o "delicioso" biscoito seco vegan e experimentando o tal do queijo tofu. Comparou o gosto com comer papel. E sim, ela se lembrava de comer papel na infância e, depois, na gravidez, num dia esquisito que ela teve os desejos mais estranhos que se pode imaginar.

Poderia ser pior! Eu poderia ter desejo de comer terra, como a minha mãe teve.

Depois você critica a alimentação vegan dos Berry.

Quinn terminou por apreciar de verdade uma maçã. E nem era a fruta favorita dela. A tempestade lá fora não parecia tão feia quanto o clima glacial dentro de casa. Rachel e Quinn faziam muitas perguntas genéricas uma para a outra, mas a fluência de uma conversa normal não existia.

"Como está a sua relação com Finn?" – Rachel tentou ser o mais casual possível.

"Isso não é da sua conta!"

"Certo... Você tem conversado com Sam?"

"S ou Sam?"

"Sam. Se eu quisesse me referir a Santana, teria dito o nome dela inteiro".

"Ok... isso também não é da sua conta".

"Existe alguma coisa que seria da minha conta?"

"Assuntos relacionados ao Glee Club são da sua conta, e da minha. Não acha isso suficiente?"

"Por que você surtou quando eu disse que queria fazer o trabalho sozinha?"

"Isso..."

"É da minha conta, Quinn! Você nunca surtou com qualquer coisa que eu pudesse fazer ou falar. Muito pelo contrário, você sempre evitou olhar pra mim. Acho que é justo saber a razão do seu surto".

"Foi a música."

"Que música?"

"Cry me a River".

"O que tem de mais?"

"É a minha música"

"Por quê? Tem o seu nome escrito nela? Você a fez? Acho que não!"

"Se existe uma canção no mundo que eu posso interpretar melhor do que você é essa. Eu não ia deixar você roubar mais isso de mim. Já me basta ter de engolir você ficar com tudo na escola. Logo você!" – Quinn estourou.

"Oh!"

A luz acabou! O silêncio reinou. Nem Quinn ou Rachel se atreveram a sair da cozinha por alguns minutos. Quinn mortificada pelo desabafo e Rachel por puro constrangimento.

"Eu poderia cantar outra música... era só você ter pedido" – Rachel disse depois de minutos de silêncio ensurdecedor.

"Você, sinceramente, teria atendido a um pedido meu?" – Quinn estava descrente.

"Eu não sou tão ruim assim, Quinn. Ou orgulhosa. Se você me explicasse o que a música significava para você, eu ia deixar para lá. É só um ensaio, não uma competição."

Rachel saiu da cozinha enquanto Quinn ainda permaneceu mortificada sentada à pequena mesa. Agora ela estava com vergonha de toda a situação. A casa já estava escura e o barulho do vento forte batendo contra a janela era assustador. Rachel retornou à cozinha com duas lanternas e ofereceu uma a Quinn.

"Meu laptop está com bateria recarregada. Se quiser ver algum filme..."

"Não sendo um musical..."

"Eu tenho V de Vingança".

"Você, Rachel Berry, gostar de um filme inspirado numa revista em quadrinhos?" – sim, Quinn estava genuinamente impressionada.

"Embora eu não seja fã dos quadrinhos, apesar de gostar de Peanuts, admiro a arte do cinema. Depois da Broadway, almejo ser afortunada com a oportunidade de atuar em um filme. Daí a necessidade em estudar o maior número de estilos possível para ter boa noção, de antemão, quais são os melhores profissionais do mercado e como reconhecer um bom roteiro em sua realização na tela".

"Eu até que gosto de ver Natalie Portman careca!"

"E isso também! Podemos ver o filme comendo os biscoitos e o suco."

"Ou não..."

"Você odiou tanto assim a comida vegan?"

"A maçã estava ótima!"

"Papai não é vegan" – Rachel suspirou – "ele compra sempre caixas de chips, biscoitos recheados e chocolates ao leite... e tem queijo mussarela na geladeira!"

"Só agora você fala isso?"

"E perder a oportunidade de apresentar a algumas maravilhas da culinária vegan?"

"Pão com queijo seria um sonho".

"Pão com queijo pra você então".

Quinn achou gozado ver Rachel vasculhando a geladeira com a lanterna em punho enquanto ela vasculhou o armário indicado pela diva em busca do pão de forma. Pareciam até uma dupla de ladrões que tinham tempo de sobra para fazer um lanche na casa roubada. Ela viu isso num filme, certa vez. Só não se lembrava mais de qual. Quinn não sabia qual Berry, mas dinha de dizer que o estoque de junk food que ele guardava no armário era de primeiríssima categoria. Ela ficou tentada em pegar um pacote de biscoitos que custavam o olho da cara no supermercado, mas não seria apropriado. Pegou o saco de pão de forma enquanto Rachel ofereceu o queijo fatiado, manteiga de amendoim, margarina, geléia e cream cheese. Quinn não achava graça em manteiga de amendoim. Sem falar que aquilo lhe causava acnes. Fez um sanduíche simples com margarina e queijo e outro de geléia. Ela e Rachel subiram para o quarto da pequena com as bandejas com os lanches em mãos. Rachel foi na frente iluminando o caminho.

Claro que Quinn achou o quarto da colega abismal. A luz da lanterna revelava o papel de parede amarelo e cartazes de musicais pendurados nas paredes como quadros. Incrível. A casa de Rachel tinha uma decoração extraordinária. Ela podia afirmar que a casa dos Berry era uma das mais legais entre os colegas de Glee Club. Então como era possível os pais não intervirem naquela atrocidade de decoração amarela? Quinn se acomodou em cima da cama, pegou uma almofada e se fez confortável contra a cabeceira enquanto Rachel foi pegar o filme e ligar o laptop. Nesse tempo, Quinn aproveitou para passar algumas mensagens de texto para a mãe a fim de avisar que estava em segurança. A tempestade não dava trégua lá fora.

O filme começou. Quinn descobriu que Rachel tinha o irritante hábito de comentar durante o filme, ao passo que ela preferia assistir em silêncio e reservar os comentários para momentos mais apropriados. E várias outras diferenças foram aparecendo ao longo da exibição na tela do laptop. Quinn fingiu que estava dormindo quando o filme acabou para evitar conversar com Rachel. Com certeza a pequena diva iria tagarelar mais que a mulher da cobra. No truque, por causa da escuridão e com o barulho da chuva, ela dormiu de verdade.

Acordou meio desorientada no final da madrugada, mais ou menos na hora em que estava habituada em fazer a corrida matinal. Lembrou que ainda estava no quarto e na cama de Rachel, com as roupas de Rachel e coberta por uma manta de solteiro. Rachel dormia ao lado de costas para Quinn, enrolada em outra manta. Quando Quinn tirou a manda em cima dela, se deu conta de uma protuberância e pressão que não existia antes debaixo da calça. O coração dela disparou e começou a suar frio. Depois de minutos sentindo pânico e falta de ar, tomou coragem e, hesitante, olhou por debaixo da calça. Seus olhos ficaram arregalados.

Era apenas um par de meias emboladas!

Você quer me matar do coração?

Desculpe! Não resisti em fazer a piada.

Está vendo? Deus coisa nenhuma! Você é o capeta.

Quinn, olha para Rachel dormindo ao seu lado!

Ela olhou receosa da outra parte da "maldição" em "se apaixonar pela colega à segunda vista". Bom, nem tanto. Rachel dava sinais de que acordaria em breve, mas não era essa beleza toda de se fazer apaixonar. Mas Quinn tinha de admitir que Rachel era uma boa pessoa. A questão era que elas eram separadas por um abismo de gostos, forma de se pensar e hábitos. Se elas poderiam vir a ser amigas de verdade, não apenas colegas? Claro! Por que não. Mas havia muitos antagonismos a serem superados antes. Quinn e Rachel ainda seriam adversárias. Mas não inimigas.

...

Próximo capítulo:

Que dia, Tina Cohen-Chang. Que dia!