QUE DIA, SANTANA LOPEZ! QUE DIA!
Desde que Santana se permitiu admitir que era gay para si mesma e para Brittany, as duas às vezes se pegavam brincando em imaginar como seria o relacionamento com as outras meninas do Glee Club. Com Rachel, o relacionamento seria extremamente físico porque Santana não suportava sequer conversar com a menina. A única solução seria manter a outra calada com beijos e afins. Não seria um sacrifício porque Santana achava Rachel atraente... mas não admitiria isso para outra pessoa nem sob tortura. Com Quinn, as coisas seriam complicadas ao extremo. Seriam duas fêmeas alfas que lutariam constantemente pelo domínio. O resultado final não seria bom. Poderia dar em morte. Santana não sentia atração física por Mercedes ou Lauren, ainda assim, caso acontecesse, também seria um desastre porque sobraria atitude bitch e faltaria amor. Com Tina? Santana tinha de admitir que a amiga de olhos asiáticos era a segunda opção.
Mas o coração de Santana pertencia a uma única pessoa: Brittany. Era a sua alma gêmea e ela não discutia mais isso nem com a razão e nem com o coração. Se existia uma pessoa perfeita para Santana, esta era a melhor dançarina no Glee Club. Aquela loirinha de lindos olhos azuis que podia não ser a pessoa mais esperta na escola, mas conseguia ler a alma de Santana como ninguém. Brittany era Yin; Santana era Yang. Brittany era a inteligência emocional; Santana era a inteligência convencional. Brittany era a segunda voz que harmonizava e dava equilíbrio ao poder vocal de Santana. Bom, você entendeu. Tudo que diz respeito a complementares poderia ser aplicado na relação das duas.
Santana sabia que o maior desejo de Brittany era ficar com ela às claras. Mas sair do armário não era tão simples assim. Poderia ser para Brittany, que era um espírito leve e puro, alheio às maldades do mundo. Santana sabia o que ser abertamente gay era uma barra dentro de uma sociedade conservadora como a de Lima, e ela não tirava isso só por Kurt, o exemplo mais próximo. Era preciso dar um passo de cada vez. Metade do Glee Club já estava ciente sobre a sexualidade de Santana. Era preciso se revelar para a outra metade do pequeno grupo primeiro. É que os colegas do coral formavam um ciclo protetor independente das diferenças entre eles. Depois, ela teria de se revelar para os pais. Era o grande teste. Se ela conseguisse sobreviver aos pais, McKinley High e Lima seriam fichinhas.
Mal acordei e já tenho vozes na minha cabeça. Isso é sinal de que devo estar maluca. Sair do armário para os meus pais... insensatez.
Bom dia, Santana Lopez!
Não disse! Eu vou para o hospício.
Não vai. Aproveite a oportunidade. Deus está aqui.
Tão certo quanto o ar que eu respiro?
E tão certo quanto o amanhã que se levanta!
Estou me sentindo como John Forbes Nash Jr. Exceto que não te vejo e que não sou um gênio da Física... só escuto a voz na minha mente. Que tipo de esquizofrenia é essa?
É sério Santana. Sou Deus... quer dizer, sou mais um narrador, mas eu tenho certos poderes, como te dar um pênis.
Sério? Brittany adoraria! Seria o melhor dos dois mundos para ela.
Santana Lopez! Agora você faz referência a Hannah Montana?
Minha irmã assistia a minha revelia... Mas vem cá, se você é Deus que pode me dar um pênis, será que você poderia fazer meus pais aceitarem?
Infelizmente esse não é o meu propósito aqui. Só estou aqui para narrar o seu dia. Existe uma regra sobre não violar o livre-arbítrio.
A gente não pode ter tudo, não é mesmo?
Você pegou as coisas mais rápido que os outros.
É porque eu sou melhor do que eles, mesmo sendo alguém que não se enquadra.
Essa é a bitch que eu conheço!
O que une a família de Santana Lopez é a religiosidade. Os Lopez são católicos apostólicos romanos. Eles são do tipo que defendem o filho gay do vizinho, mas deus me livre se a homossexualidade batesse à porta e deitasse na cama dos filhos. Outro ponto de união é a gorda pensão que o doutor Carlos Lopez paga a ex-mulher Manuela Martins (nome de solteira, claro) e para os dois filhos: Manolo e Natalia. Ambos são mais jovens que Santana. A menina tem 13 anos e começava a aflorar as chatices da idade. Manolo é só um garotinho de 9 anos. Os três vivem em Richmond, Indiana, que não é tão distante assim de Lima. Manuela é professora do departamento de História da Indiana University e pouco fala com a filha mais velha. Já costumava ser assim antes do divórcio e não foi difícil para Santana optar ficar morando com o pai em Lima. Mesmo sabendo que Carlos era um homem muito rigoroso e ocupado. Santana temia contar a opção sexual para o pai, ele ter um ataque e expulsá-la de casa. Ou pior: mandá-la para Indiana. Amava os irmãos, mas ela não conseguia estabelecer um diálogo de mais de cinco minutos com a mãe. Seria um pesadelo ter de voltar a viver com Manuela. Ela preferia mil vezes conversar com Penélope, a madrasta, que era estilista.
Pela manhã, Santana ajudava o pai com o café, comia rapidamente, pegava o carro e ia para a escola. Daí as coisas se sucederiam dependendo do dia. Mas a rotina mudou um pouco naquela manhã.
"Buenos dias, papi" – Santana sorriu para o doutor já arrumado para a labuta.
"Buenos mija. Hice $200 em el cajón de La cocina para usted".
"Viajará?" – Carlos viajava para Cleveland com alguma freqüência ou para algum compromisso profissional ou para acompanhar Penélope nos eventos sociais.
"Sí. Volveré el martes."
"Ok!"
Carlos deu um beijo na cabeça da filha antes que ela saísse em definitivo. Santana pegou o seu wolks beetle e seguiu aliviada por adiar o pronunciamento para o pai pelo menos em dois dias. Não havia uma desculpa mais adequada para Brittany do que dizer a verdade. E não havia presente melhor do que passar dois dias inteiros sozinha com a namorada secreta no casarão. Brittany era a única do Glee Club que sabia que Santana morava na parte nobre da cidade, não na periferia como a morena clamava pelos quatro cantos de McKinley High. Quem morava na periferia era o tio Fernando, que era um missionário. Ele passava a maior parte do tempo trabalhando em prol da população mais pobre do planeta. Era um idealista necessário que queria salvar o mundo. De toda forma, a casa era um endereço conveniente para Santana caso precisasse usar. Raciocinava da seguinte forma: ela era gay e uma das poucas meninas de origem latina que estudava em McKinley High. Só isso já seria o suficiente para fazê-la um alvo. Mas se ela reforçasse o estereótipo da bitch da periferia, embora incontestavelmente sexy, pronta a matar qualquer um, traria mais benefícios, aos olhos de Santana, do que a de pobre menina rica de pais divorciados.
E trás. Ninguém mexe comigo!
Não sei Santana. Esse disfarce era eficiente enquanto você vestia um uniforme. Até quando alguém não vai reparar nas suas roupas caras? Você é chique!
Sempre digo que roubei no shopping.
Seu alvo são sempre as lojas de roupas jovens mais refinadas, não é mesmo? Que lixo de segurança elas têm.
Os garotos de McKinley são estúpidos o bastante para acreditar em qualquer lorota.
Sem argumentos contrários aqui.
Ei! Você não contestou se eu era bitch ou não.
Bom, eu só contesto incertezas, não fatos! Você é uma bitch, só que está longe de ser uma de periferia.
Santana chegou à escola, colocou a caríssima mochila de couro nas costas. Brittany tinha igual, mas com detalhes em rosa – presente da namorada não-oficial. Respirou fundo. Havia chegado o dia D. Caminhou pelos corredores de McKinley com a espinha ereta, nariz empinado e a péssima atitude estampada no rosto. De cara, disse uma grosseria qualquer a um menino, chamou a atual capitã das cheerios de "cadela tipo 'b' no cio" e disse para tomar cuidado porque "quando a vulva está inchada, atrai todo o tipo de vira-lata". Aproveitou para chamar todo o time de xadrez da escola de múmias em estado de animação e disse que compraria sabonetes para o time de golfe para tirar a inhaca de gramado que feria o nariz dela.
"Oi San!" – Brittany chegou com o usual espírito leve.
"Oi" – se Brittany sorria, ela automaticamente sorria.
"Já podemos ficar juntas?" – o pânico voltou a rondar na mente de Santana.
"Brit" – sussurrou olhando para os lados – "Eu disse que falaria só para o Glee Club. Não para a escola... ainda" – e ofereceu o dedo mínimo – "Levo você até a sala".
"Bom..." – Britanny olhou Santana oferecendo o usual dedo mínino que ela segurou nos últimos dois anos – "eu só vou voltar a segurar a sua mão se for ela inteira, não só o dedinho! Te vejo no ensaio!"
Santana suspirou. Brittany não facilitava, não recuava. Mas convenhamos: se não fosse pelas pequenas pressões dela, Santana ainda estaria com garotos sem querê-los, usando o corpo para levar adiante uma mentira sobre si mesma. E foi um alívio não se sentir mais obrigada a fazer isso só para manter uma imagem. Santana passou por Puck e Lauren em pose de casal bad-ass da escola. Rachel estava recuada no armário enquanto observava Finn e Quinn. Sempre mais do mesmo! Na sala de aula, Mike e Tina faziam beijos de esquimó. Santana revirou os olhos. Todos os amigos em seus lugares e ela ali se sentindo miserável. Ela amava Brittany, mas também queria matá-la por chegar a esse ponto.
Santana chegou ao ensaio de coreografia no auditório conversando com Tina e Mike. Sam e Puck vieram logo atrás e o resto do grupo já estava no palco conversando sobre trivialidades. Santana olhou para Brittany fazendo Mercedes e Rachel rirem de qualquer coisa. O professor Schuester chegou junto com Brad, o pianista, já pedindo para os meninos se posicionarem. Santana e Brittany trocaram olhares. Era o momento.
"Professor Schue!" – Santana foi até o centro do palco junto ao educador e afundou as mãos nos bolsos das calças. Já vestiu a roupa com esse propósito porque não saberia nem onde colocar as mãos durante o fatídico anúncio – "Eu tenho algo a dizer para a turma..." – olhou mais uma vez para Brittany que tentava encorajá-la com o olhar – "... é algo que estou sentindo!"
"E você vai cantar sobre isso?" – Schue sorriu.
"Nem tudo precisa ser anunciado em uma droga de canção. Caia na real!" – expressões de choque para todos os lados, mas Santana não se desculpou – "Essa história de se ter música para tudo e se imaginar fazendo um número no meio do corredor usando toda a força dos pulmões é a coisa mais cafona que existe" – a essa altura, Rachel já estava ofendida – "Pior ainda quando essa fantasia estúpida envolve coreografia com um esquadrão de cheerios" – agora era a vez de Quinn ficar ofendida – "Ou de jogadores de futebol" – Artie se contorceu na cadeira – "Eu não! A única fantasia musical que eu tenho é sob efeito de algum tipo de alucinógeno!".
"Dá para você chegar ao ponto?" – Rachel reclamou.
"A carapuça serviu, anã?"
"É você que está nos fazendo perder tempo!"
"A porta de saída fica logo ali. Vai ser uma alívio ensaiar sem ter você interrompendo toda hora. Sem mencionar que isso chama a minha atenção e me faz olhar para a sua cara".
"Santana!" – Schue interrompeu – "Seja lá o que tem a dizer... vá logo!"
A menina olhou para os rostos dos colegas. Na verdade, das únicas pessoas que considerava serem algo próximos de amigos que tinha. Um minuto de silêncio. O suspense. Tambores rufavam dentro da mente de Santana. Expectativa. Olhos arregalados e batidas aceleradas do coração.
"Eu sou gay!" – anunciou com lágrimas nos olhos, de cabeça para baixo.
"Só isso?" – Santana olhou em direção a Rachel e depois aos demais colegas.
Os únicos que pareciam chocados com a revelação eram Puck e Finn.
"Cê ta de brincadeira!" – Puck olhou para a ex-namorada inseguro – "Por um acaso eu sou responsável... ou meu puckssaouro?"
"Não... o seu puckssauro só ajudou que eu ficasse mais tempo no armário!" – Santana sorriu.
"Isso não é verdade!" – Finn reclamou ainda chocado – "Eu... professor Schue... eu preciso sair..."
Alguns estranharam ver o colega sair do auditório meio atordoado. Santana não ligou. Sabia que o Tico e o Teco de uma mente imbecil como a de Finn entraria em conflito assim que soubessem que aquele corpo pouco atraente de gigante perdera a virgindade para uma lésbica.
E olha que Finn ainda nem sabe da pior parte.
Que você fingiu um orgasmo.
É saco conversar mentalmente com alguém que já sabe tudo.
Liga não. Amanhã ele vai falar cntigo todo arrependido pela cena e vai prometer de apoiar e te defender contra todo o mau. Você, naturalmente, vai sorrir, dizer "obrigada, Finn" e assim que ele der as costas, você vai revirar os olhos.
Não precisa ser Deus para adivinhar isso.
Brittany correu para abraçar Santana. Estava orgulhosa e mais feliz que nunca. As duas aproveitaram para trocar o primeiro beijo público. Um selinho rápido, mas emblemático para Santana.
"Até que enfim!" – Quinn revirou os olhos – "Agora a gente pode voltar ao ensaio?"
"Espera aí..." – Santana franziu a testa – "Eu sabia que alguns de vocês já sabiam... mas..."
"A pérola 'sexo não é namoro' que você soltou no ano passado seguida da confissão de Brittany que vocês transavam foi auto-explicativa" – Kurt desdenhou.
"Tina me contou" – Mike levantou o dedo.
"Você confessou sem querer quando tomou aquele porre dias antes da festa na casa da Rachel".
"Brittany disse que vocês ainda... quando terminamos" – Artie baixou a cabeça.
"Eu não disse isso!" – Brittany se defendeu chocada.
"Bom... você contou que vocês ainda conversavam com as línguas super-próximas..."
"Eu vi Brittany gesticulando que você não teria mais acesso aos peitos dela quando vocês brigaram naquela época que fizemos o dueto" – Mercedes riu.
"Você gritava o nome de Brittany quando a gente..." – Sam disse tentando conter o sorriso.
"Meu gaydar é perfeito" – Lauren disse orgulhosa – "E você cheira a campo de golfe" – Santana fechou a cara e apontou o dedo como se dissesse 'cuidado, bitch'.
"Você não era discreta nos vestiários das cheerios, San" – Quinn sorriu – "Já flagrei você agarrando a Brittany duas ou três vezes depois dos treinos da tarde."
"E não apenas você cantou Landslide como depois deu aquele abraço apaixonadíssimo em Brittany no final. Eu tenho dois pais gays. Embora seja claramente heterossexual, a minha experiência com os meus pais e com toda uma comunidade me fez desenvolver a sensibilidade de..."
"Cala a boca!" – Santana interrompeu – "Ninguém quer saber, hobbit!"
"Santana" – professor Schuester – "Quero dizer que estou orgulhoso por você finalmente ter tido a coragem..."
"Espera aí!" – interrompeu o professor – "Você também?"
"A sua comemoração com Brittany ano passado quando as cheerios venceram as nacionais não foi exatamente heterossexual."
"Oh!" – olhou para o professor em dúvidas, que valia para os demais colegas – "Se você e os outros já sabiam, porque nunca disseram nada? A não ser Rachel que me chantageou uma vez..." – olhares raivosos foram em direção a diva.
"Porque essa iniciativa tinha de partir de você, Santana. Ninguém mais teria o direito!" – sorriu para a aluna e voltou a atenção para o resto da classe – "Vamos voltar ao ensaio..."
Foi um dos melhores ensaios que Santana participou. Descobriu que os colegas mais próximos, exceto Finn, não começaram a tratá-la diferente. O medo que tinha antes sumiu e um peso enorme saiu das costas. Voltou para casa naquele dia em paz e com Brittany à tira colo. Elas iam comemorar oficialmente o primeiro dia como namoradas no quarto de Santana de mobílias caras e decoração de um designer. Sinceramente, e ela ainda diz ser pobre! Depois de curtir Brittany em paz num casarão vazio, as duas foram até a cozinha preparar um lanche e ver um filme. Haviam alguns porta-retratos ali. Em um deles, Santana e o pai posavam orgulhosos num campo de golfe. Ela segurava um troféu de campeã feminina infanto-juvenil.
...
Próximo capítulo:
Que dia Sam Evans, que dia!
