QUE DIA, SAM EVANS! QUE DIA!
Nem só de música para elevar o espírito vive Sam Evans. Ou da caridade de seus amigos. Uma boa dose de imaginação também ajudou no período em que a família passou num quarto de hotel barato. Sam gostava de brincar com os irmãos mais jovens que eles se mudaram para uma daquelas casas japonesas de um cômodo só que se transformavam de acordo com a hora do dia. De noite, se estendia as esteiras para dormir. Pela manhã, se enrolava as esteiras e montava-se a sala e a cozinha. Eles viram em um filme uma vez e nos desenhos animados. Mas ali não tinha esteiras finas. Tinha uma cama de casal velha que ocupava mais da metade do espaço, camas dobráveis desajeitadas e inúmeras caixas com os bens mais inestimáveis da família. Coisas como fotos e objetos de valores sentimentais. Às vezes essa brincadeira de imaginar dava certo com duas crianças que não tinham noção da realidade que as cercavam. Isso era satisfatório para Sam, até certo ponto.
Mas a realidade mudaria em breve. Em vez de motel, a família estava empacotando tudo para se mudar para um apartamento alugado de dois quartos que ficava na periferia da cidade. Ao menos os pais teriam um espaço reservado e os filhos teriam a sala para ocupar. As camas dobráveis disputariam lugar com um sofá velho. Era uma mudança bem-vinda enquanto a família pensava se voltava para o Tennessee, que não tinha emprego, mas havia o resto da família para apoiar. Seria uma humilhação para um homem orgulhoso como o Sr. Bryan Evans. Uma segunda possibilidade é permanecer em Ohio e uma terceira é considerar uma oferta de trabalho no Alaska. Seis meses de sol e seis meses de escuridão. Muito tentador. Ao menos, depois de um mês de miséria, Bryan havia conseguiu trabalho no depósito de um supermercado enquanto Lilian Evans conseguiu o trabalho de garçonete num restaurante mexicano da cidade. Desses que se ganha mais com as gorjetas do que com o salário propriamente dito. Pelo menos o dinheiro combinado era suficiente para pagar o aluguel do novo lugar.
Se fosse um garoto com condições financeiras razoáveis, a miséria que Sam ganhava entregando pizzas seria gasto em cinema, roupas e nos passeis com namoradas. No caso dele, o salário risível ajudava a comprar comida para cinco bocas. Uma diferente da pizza que Sam levava para casa ou da marmita de burritos e arroz que a mãe trazia. As crianças ainda precisavam de roupas lavadas e de comer legumes, certo? Então Sam abriu os olhos e enxergou a rachadura espetacular no teto pela última vez. Na chuva da semana anterior, ele dormiu abraçado a um balde por causa da goteira, ouvindo o som ritmado das goteiras.
Deus há de nos ajudar.
Assim seja meu garoto.
Quem está falando?
Deus?
Eu enlouqueci?
Não. Você agora virou Joana D'arc e escuta vozes do além: a verdade era eu falando em tons diferentes. Sabe? Que nem quando se dubla uns três personagens diferentes em desenho animado. Bom, você deveria saber disso. Não é você que adora fazer vozes diferentes nos desenhos animados para entreter os seus irmãos menores?
Como sabe?
Você sabe fazer perguntas mais elaboradas?
(...)
É. Às vezes eu também fico sem palavras. Mas a questão é a seguinte: pedir ajuda de deus faz um bem danado ao psicológico. Só que não adianta nada se você não movimentar o traseiro e trabalhar.
Então você não vai nos ajudar?
Cara, você é legal, mas é lento. Eu não interfiro. Apenas observo e escuto. Às vezes eu falo. Mas o lance é que o cara que procura superar dificuldades, com certeza vai conseguir o mérito por meio do suor. Claro que isso é uma questão filosófica que você não vai entender.
Quer dizer que...
Enfim. Hoje eu vou te acompanhar. Não quer dizer que vá fazer qualquer intervenção na história ou fazer um milagre acontecer. Apenas viva o seu dia!
Sam ficou sem entender o diálogo, mas seguiu com o dia. O pai já estava de pé para trabalhar. A mãe já tinha um copo de café pronto com algumas bolachas em um saco de papel e o entregou ao marido. Lilian não tinha condições de cozinhar um almoço para a família na cozinha do hotel. Eles já haviam violado regras demais por ali. A mãe só entraria no restaurante no turno da noite. Enquanto isso, ela ficaria ali ajudando na boa mudança. Sair do quarto de hotel já era um grande avanço. Finn chegou com a camionete, acompanhado de Puck. Os integrantes do coral haviam se organizado para ajudar a família de Sam. Finn e Puck com a mudança em si. Quinn se comprometeu em pegar as crianças e levá-las até a casa de Brittany. Como ela tinha uma irmã com idade aproximada dos outros meninos, seria um ganho para ambas as partes: a menina usualmente sozinha teria amigos para brincar e os outros dois um lugar divertido para aproveitar. Mercedes e Rachel iriam fazer o almoço para a família e trabalhadores. Os outros Gleeks ficariam de sobreaviso: só entrariam em ação caso houvesse necessidade.
"Bom dia..." – Finn olhou com cara de abobado para a mulher de cabelos claros, madura e bonita que atendera à porta – "Eu achei que esse era o quarto dos Evans... desculpe!"
"Meu nome é Lilian Evans" – a mulher sorriu sem-graça para o adolescente alto demais.
"Oh!" – Finn sorriu no canto da boca – "É que pensei que você fosse muito jovem para ter um filho da idade do Sam".
A mulher sorriu constrangida. Ela tivera Sam aos 15 anos de idade. Por outro lado, era o que muita gente pensava toda ver que a via, só tinha a prudência e o tato de guardar a opinião para si. Ela abriu mais a porta, revelando os três filhos e, ao mesmo tempo, permitindo o acesso dos dois que virou as costas, Puck deu um tapa na cabeça de Finn.
"O quê?" – ficou ofendido.
"Nada, seu idiota!".
As caixas já estavam organizadas. Na verdade, muitas delas sequer foram abertas desde a primeira e dolorosa mudança. Sam, Puck e Finn trataram logo de começar a carregar a caminhonete enquanto as crianças atrapalhavam e a mãe terminava de arrumar o quarto. Seria preciso entregá-lo limpo, pelo menos. Meia hora depois, quando os meninos estavam prontos para a primeira leva, Quinn apareceu buzinando. Apesar da menina saber bancar a desentendida dissimulada, era difícil não ignorar os olhinhos apaixonados de Sam.
Olhinhos é sacanagem.
Melhor os olhinhos do que a mordidinha nos seu já notável lábio inferior.
Santana?
Não... Eu falei com Santana semana passada, a propósito.
Quinn sorriu amigavelmente para o ex-namorado para em seguida dar um beijo nos lábios do atual namorado e potencial garanhão que catapultaria o sonho de ser a rainha do baile. Afinal, ser rainha de baile de uma escola tão "importante" quanto a Mckinley High, que é uma das três públicas que existe em Lima entre sete no geral, entre as 570 que existem em Ohio, entre as cerca de 30 mil escolas que existem em todo território norte-americano. Então era de importância vital para Quinn ser igual a outras 30 mil adolescentes... só naquele ano... e só naquela série. Mas os olhinhos apaixonados e resignados de Sam não enxergavam o quadro geral. Quinn, com todos os anseios fúteis de quem não conseguia vislumbrar um futuro melhor para si, usava um idiota popular apaixonado por outra menina para conseguir tal grandioso objetivo. Sam era um cara de sorte neste sentido. À parte as bobagens, pelo menos Quinn era sincera quando dizia que gostava de ficar com os garotos. As crianças a abraçaram. Estavam ansiosas para passar o dia na casa da coleguinha que eles não conheciam, mas que tinha um pula-pula no quintal.
"Oi Quinn!" – Lilian cumprimentou a ex-nora – "Obrigada por mais essa ajuda!"
"Não há de quê! Devo trazê-los de volta a que horas?"
"Creio que a gente desocupa o quarto antes do meio dia... será que sua amiga não acharia ruim se eles ficassem por lá até as quatro?"
"Brittany? Acho que não! E qualquer problema, eu busco eles de lá e os levo até a minha casa, onde eles poderão ficar até a hora que for necessário!"
"Obrigada mais uma vez" – Lilian abraçou os filhos menores.
Três cabeças loiras saíram do local dentro de um carro obviamente mais conservado do que a caminhonete de Finn. Mas era um carro perfeito de quem vivia o sonho caipira de cidade pequena. Eram em caminhonetes como aquela onde se passavam as melhores histórias de sacanagem envolvendo adolescentes. Finn já havia dado vários amassos em Quinn naquele banco alongado e sonhava em repeti-los com Rachel. Sam invejava o amigo nesse sentido, mas era mais sofisticado. Em vez de uma caminhonete velha, pensava em uma crossover. Puck era mais experiente e sofisticado. No carro só quando não dava para fazer no banheiro. Puck sabia o valor de um bom colchão, de um bom carpete e de uma boa poltrona. Era como naquela história: ninguém vai a uma churrascaria comer asa de franco de existe a picanha.
No carro é sexy! Ponto.
Qual a sua experiência no assunto?
Zero. Quinn era linha dura e Santana pagava motel. Mas...
Caso encerrado.
Sem mais, Finn, Sam e Puck dirigiram parte da mudança até a periferia da cidade. Sam já visitara o local quando o pai fechou o aluguel, Puck circulava por ali de vez em quando. Finn sempre passara longe do bairro pobre.
"Tem certeza que é aqui?" – Finn olhou pela janela os olhares atentos ao movimento do carro.
"É no prédio de esquina que tem a padaria" – Sam disse com naturalidade.
"Acho melhor eu subir com você com as caixas enquanto Puck vigia".
Sim, era um plano racional e previdente, embora não necessário. A periferia de Lima estava longe de ser um local cheio de crack houses, prostitutas de dez dólares e ladrões estupradores. Existiam lá seus vilões e o dono da padaria fazia contrabando de charutos cubanos e um terço dos produtos que vendia no mercadinho dentro do recinto não tinha nota-fiscal. Havia um traficante de maconha que morava na esquina à frente e um falsário três lotes depois na rua ao leste. Mas eram pessoas do tipo: "não se mete comigo que eu não me meto contigo". Se essa única regra fosse cumprida, era garantia de paz na região. O resto da vizinhança era formado por famílias pobres que viviam de salários mirrados. Claro que existia o marido que batia na mulher, a mulher que bebia demais, o poeta melancólico que acredita ser um gênio e outros clichês. Mas eram pessoas e elas estavam ali convivendo e sobrevivendo. Os Evans seriam apenas mais uma família transitando por ali entre centenas de outras que usaram aquele bairro nos tempos difíceis.
Os apartamentos do prédio pertenciam ao dono da padaria. Era uma construção de quatro andares, fora o subsolo, com dois apartamentos pequenos em cada, sendo que o último andar era uma moradia confortável usufruída pela família do padeiro. O alugado pelo pai de Sam era o 202. Não havia nada de especial. Havia algumas mobílias deixadas por inquilinos anteriores. Um dos quartos tinha uma cama de casal. O outro menor tinha apenas o armário e um criado mudo vazio. O sofá verde desbotado ocupava a sala e a cozinha era equipada de geladeira e fogão. Os móveis pediam aposentadoria, o carpete estava gasto, mas o apartamento em si era bom e se podia viver ali com dignidade.
"Pode ir deixando as caixas aqui na sala mesmo" – Sam agradeceu ao colega e ocasional adversário – "Meus pais e eu vamos arrumar tudo depois".
"Tem certeza?"
"Bom, Finn, acho que eu e os meus pais vamos saber onde melhor colocar as coisas do que você!" – Finn não entendeu.
"A gente sempre pode chamar as outras meninas para ajudar! Sua mãe ficaria feliz."
Sam pensou em Tina, Santana, Mercedes, Rachel e Lauren por lá arrumando e criticando coisas. Objetos que são da conta da família dele e de mais ninguém. Nem pensar. Depois, as meninas tinham vida própria. A família dele tinha vida própria e, sinceramente, ele achava que os gleeks se metiam demais em assuntos que não dizem respeito. E quem era Finn para ordenar um grupo a fazer isso ou aquilo, mesmo sabendo que os outros atenderiam? Sam poderia não ser tão esperto para certas coisas, mas ele ainda tinha algum bom senso. Então ele encarou o amigo, agradeceu e sabiamente recusou a oferta.
Mais algumas viagens e as caixas estavam na segurança do cômodo. Seriam precisas mais duas viagens entre o hotel e o apartamento. Na última delas, Rachel e Mercedes apareceram com embalagens do almoço.
"Olá meus honoráveis trabalhadores" – Rachel sorriu já dentro do quarto esvaziado e colocou as embalagens sob um balcão dobradiço que existia no quarto – "Eu trouxe algumas delícias da culinária vegan para saciar as necessidades calóricas básicas dos nossos corpos".
Todos olharam o rizoto com milho e brócolis, além de uma salada de folhas bem diferentes da usual alface picada. Tinha rúcula ali também. Os trabalhadores braçais se olharam confusos. Nada contra a comida, claro, mas aquela comida era leve demais para o dia pesado.
"Eu trouxe frango frito e purê de batata!" – mostrou Mercedes, bem mais direta e confiante.
Sorrisos apareceram nos rostos. No final, todos os pratos foram degustados juntos nos pratos de cada um, para horror de Rachel e satisfação dos demais.
"Ei, dona Evans..." – Mercedes apertou os olhos em uma expressão intrigada – "Tem certeza que você não é a mãe do Harry Potter?" – a mulher quase cuspiu a comida que estava na boca.
"Tenho sim!" – ela tentou conter o riso. Piadinhas do tipo não eram incomuns, especialmente na época em que ela trabalhava como professora do primário no Tennessee – "Se eu fosse, estaria morta e Sammy teria uma cicatriz em forma de raio na testa... mas ele parece mais com Macaulay Culkin".
"Pois é... como isso é possível!" – a menina ainda estava inocentemente intrigada.
"O pai dele de verdade é o Macaulay Culkin?" – foi a vez de Sam quase cuspir a comida.
"Mãe!"
"Lenda urbana!" – Lilian abriu um sorriso genuíno – "Tão verdadeira quanto dizer que Marilyn Manson era aquele garoto do seriado Anos Incríveis!"
"Que seriado é esse?" – Finn sussurrou para Rachel, que revirou os olhos.
Na última viagem até a nova moradia, Lilian Evans ajudou com os últimos caixotes e ofereceu algum dinheiro para Finn e Puck pelos custos com a gasolina. O menino recusou apesar de toda a insistência da mulher. Os dois estavam mortos de cansados, mas ainda era preciso se arrumar para o trabalho. Lílian vestiu-se para o restaurante e Sam se preparou para mais uma noite entregando pizzas. Neste meio tempo, o pai chegava do serviço do supermercado e não demoraria até Quinn trazer as duas crianças de volta, já no novo lar.
Agora existia uma fantasia que povoava a mente do garoto quando ele conseguiu emprego. Assistiu em mitos filmes adolescentes que o entregador de pizza era sempre atacado pelas mocinhas no cio das fraternidades. E que era bom evitar o endereço da tia velha que cuidava de 20 gatos porque seria difícil se livrar dela. Tinha também a lenda do cozinheiro nojento que passava a comida nas partes íntimas. Geralmente era um chinês gordo com uma barba imensa. Não era bem assim. A pizzaria em que Sam trabalhava todas as noites das 18h às 22H em cima da moto da empresa era um tanto quanto careta. Os pizzaiolos trabalhavam de avental e toca na cabeça e passavam metade do tempo contando piadas que Sam não entendia. O chão era sujo de farinha de trigo e alguns temperos que escapuliam ao balcão. A cozinha era limpa todos os dias pela manhã por uma moça chamada dona Judite que Sam nunca viu, mas todo mundo contava alguma história tenebrosa.
Dizem que ela pega toda a farinha do chão e peneira de volta para os latões!
E você pensa ser verdade?
O Juanez jura de pés juntos que já viu ela fazer isso!
O patrão, senhor Collins, este sim, era um personagem de quadrinhos. Se fosse jornalista, seria o editor J. J. Jameson, do Homem-Aranha. Collins era um sujeito magro demais que deixava o cabelo do lado crescer só para ser jogado para o outro e não disfarçar a careca. Não era uma figura que alguém desse moral à primeira vista, mas o homem tinha um pulmão que era coisa de louco.
"Evans!" – o grito dele do escritório era ouvido por todo recinto.
"Sim senhor!" – o menino correu para pegar a primeira lista de endereços com os sabores e valores a cobrar.
"Quero isso concluído em vinte minutos!"
"Sim senhor!" – Sam aprendeu a não discutir. No fim, não fazia diferença se ele se atrasava cinco ou dez minutos. Havia mais um entregador de pizzas que trabalhava junto com ele e um terceiro era chamado em noites de muito movimento. Sam sempre se surpreendia o quanto uma cidade pequena como Lima podia consumir tanta massa.
Esperou até o lote de sete embalagens ficarem prontas antes de colocá-las na caixa térmica da moto e disparou rumo à primeira entrega: sempre do lugar geometricamente mais perto para mais distante. O primeiro lote era uma casa alugada por estudantes estrangeiros. Eles eram clientes freqüentes. Sam não teve problemas em levar as duas pizzas grandes, mas o chato é que os garotos raramente davam gorjeta. Os dois endereços seguintes eram casas de famílias regulares (que significava gorjetas decentes) e a última pizza para o seu Arnold. O cara era um tipo estranho com alguma síndrome do pânico qualquer. Sempre recebia os entregadores pelo interfone, passava o dinheiro e a gorjeta debaixo da porta e mandava deixar a pizza em cima de uma mesa que ficava ao lado da porta. Um dia Sam se atreveu a olhar para trás e se demorar um pouco mais para subir na moto. Mas arrancou de lá assim que ouviu a ameaça que ele levaria um tiro se permanecesse mais cinco segundos na frente da casa do sujeito.
O segundo lote de entregas foi só em casas de famílias comuns e Sam estava feliz por ter acumulado 30 dólares em gorjetas. No último lote, quando faltava entregar o último pedido da noite: duas pizzas grandes quatro queijos com alcaparras. Começou a chover forte e a moto pifou. Típico. Ele imediatamente ligou para a central e avisou do problema. Mas o J. J. Jameson, ou melhor, senhor Collins disse que era melhor ele entregar a pizza ou a cabeça dele seria cortada. Porque na pizzaria dele, todas as entregas eram feitas não importa como! Sem o que fazer, Sam encostou a moto em frente a uma garagem de uma casa da rua, tirou a caixa térmica e saiu correndo com o objeto incômodo e o plástico com o troco para uma nota de 50 dólares. A rua ficava no bairro nobre da cidade. Ele chegou na casa, ensopado, exausto e ofegante por causa da corrida que envolveu um escorregão na lama. Quando foi atendido...
"Senhor Flint?"
O cara que demitiu o pai de Sam estava diante dele trajado de mulher com maquiagem completa no rosto. Sam olhou por cima do ombro do sujeito e tinha uma mulher loira de biquíni (e peitões) com jeito de dominatrix.
"Você me conhece? Quem é você?" – o homem disse apavorado.
"O entregador de pizza..." – Sam não estava certo se deveria revelar ou não a identidade. Senhor Flint era só um cara em um escritório que cortou cabeças sem ao menos saber de quem se tratava. Foi tudo motivado a cortes de gastos e nada mais. Ele não tinha nada contra o pai dele e Sam também não deveria ter nada contra o homem trajado de mulher em sua frente. Mas não deixava de ser satisfatório ver o rosto de pânico e constrangimento do homem que causou o infortúnio da família – "são 27 dólares e 37 centavos com a taxa de entrega" – e mostrou o saquinho – "aqui está o troco para 50, como o solicitado".
"Ok" – o homem disse mortificado com a carteira em mãos – "fique com o troco para você!" – deu duas notas de 50. Sam acenou e entregou as embalagens.
"Foi um prazer, senhor Flint".
Sam virou as costas, mas voltou-se rapidamente para falar com o homem contrangido.
"Ah, espero que o senhor se torne um cliente nosso" – aí sim, virou as costas e foi caminhando alegremente na chuva.
Entrou em contato com o patrão e comunicou que estava dando um jeito de voltar agora que tinha conseguido fazer todas as entregas com clientes devidamente satisfeitos. Voltou à rua onde deixara a moto e viu duas pessoas em capas e guarda-chuvas olhando para o veículo, achando, naturalmente, tudo muito suspeito.
"Desculpe!" – Sam se aproximou e viu que se tratava de um homem pai de família e uma menina adolescente que devia ser da idade dele. Era uma menina muito bonita – "Essa moto é minha!"
"Por que deixou ela aqui, rapaz?" – o homem disse bravo.
"A moto é da empresa e quebrou, mas precisei ir fazer a última entrega andando... desculpe pelo incômodo senhor!" – foi puxando o veículo e voltando para debaixo da chuva pesada.
"Que pizzaria é?" – o homem perguntou.
"Monviso Pizza. Fica na rua W Market".
"É longe!" – a menina disse admirada.
"Me ajude a colocar a moto na carroceria da minha caminhonete, rapaz... te deixo lá".
"Senhor..."
"Seria desumano deixar um jovem como você andar todo esse caminho com uma moto quebrada".
Sam agradeceu ao bom samaritano e os dois colocaram a moto em cima da carroceria. Ele não sabia ainda, mas estava falando com o futuro sogro.
Sério! Porque a menina é mesmo bonita!
Não nego e nem confirmo...
Bom, então esse foi um grande dia, não é mesmo?
Sim, foi bom dia! E você ganhou um dinheiro extra.
Posso ajudar mais em casa.
Ou pode cortar o cabelo
O quê?
Nada não...
...
Próximo capítulo?
