Capítulo 2

Quando, naquele dia mais cedo, a professora Minerva McGonagall, tendo decidido fazer uma visita a Dumbledore, seu mais querido amigo, não o encontrou em seu escritório, tinha pensado, logo de início, em simplesmente voltar em outro momento. Onde quer que estivesse, provavelmente estava ocupado. Por ajudá-lo muitas vezes com as obrigações burocráticas da diretoria, ela, mais que a maioria, sabia muito bem o quanto havia para fazer dia após dia, quantas corujas chegavam, quantos relatórios se faziam necessários, quantos formulários havia para se preencher... contas, dados, arquivos, horaŕios, e mais uma série de coisas que normalmente deixavam Albus completamente exausto. Isso para não sa falar das circustâncias que o obrigavam a se fazer presente em uma série de lugares diversos a cada hora do dia. Pobre homem, sempre tão cheio de obrigações, responsabilidades! Como se não bastasse, haviam as reuniões do Conselho, havia Wizengamot e o Ministério tirando dele cada segundo livre, como verdadeiros sangue-sugas. Por vezes Minerva se irritava com o Ministério, com a Suprema Corte, com todos aqueles malditos burocratas que não podiam dar dois passos por conta própria... ela gostaria que ele tivesse mais tempo livre, e que pudessem jogar xadrez mais vezes, tomar o chá juntos mais vezes ou simplesmente conversar... talvez por isso se oferecesse tantas vezes para ajudá-lo com a contabilidade, ajudá-lo a responder corujas ou o que quer que fosse... apenas para ter a oportunidade de passar mais tempo com ele. Ela não gostava muito de pensar nisso dessa forma, se sentia quase... egoísta...

Enfim, como eu ia dizendo, Minerva, não o tendo encontrado, já ia deixando o gabinete do diretor... pensando em aproveitar o tempo adiantando a correção das tarefas do terceiro ano, que tinha recolhido naquele mesmo dia. Não estava nos planos fazer isso agora, mas, podendo-se resolver mais cedo, por que não? No entanto, antes que saísse, Dilys Derwent, de sua moldura, a chamou, dizendo:

– Minerva, Albus subiu para os aposentos privativos...

– Oh... Obrigada, Dilys. Acha que ele está ocupado? Talvez tenha decidido ir... descansar... – isso era de fato estranho. Dumbledore, por mais que já fosse ancião, tinha muita energia. Ela nunca antes o tinha imaginado tirar um cochilo no meio da tarde.

– Minha querida, ele não parecia nada cansado. Por que não vai até lá?

– Não seria inconveniente?

– É claro que não... ele deve apenas ter ido escolher algum livro de sua coleção particular ou, o mais provável, ido buscar outro saco daqueles docinhos verdes dos quais nunca se cansa...

– Drops de limão.

– Sim, sim, exatamente esses. Acabou com todos que tinha nas gavetas, mais cedo. E você sabe que tem as gavetas cheias dessas coisas. O homem parece uma formiga.

Minerva riu e, assentindo com a cabeça, agradeceu mais uma vez... pôs-se então a subir as escadas que levavam ao andar superior da menor das torres do castelo. Ao chegar lá, encontrou a porta fechada. Bateu uma vez... duas... e considerou mais uma vez que ele pudesse estar dormindo. Estaria, talvez, se sentindo mal? Por mais que Dilys tivesse garantido que ele parecia bem disposto, a Minerva era estranho que Albus tivesse deixado de lado o trabalho para meter-se em seus aposentos... talvez resolver algum assunto pessoal? Mas por que diabos ele não deixaria para fazê-lo fora do horário de trabalho? Simplesmente não parecia ser do seu feitio. Bateu mais uma vez.

– Albus?

Ele não respondeu, mas ela teve a impressão de ouvir algum tipo de ruído indistinguível.

– Albus, você está aí?

Aquele ruído de novo. Só então ela associou o ruído a um... gemido. Sentiu gelar a espinha. Estaria ele com... alguém? Não, não, impossível! Completa e indiscutivelmente impossível! Sentiu nausea só de imaginar. Ele não tinha ninguém, não podia ter. Além de impossível, não fazia sentido que, em um caso como esses, se esquecesse de selar a porta contra a saída de sons... Mas... Mas... Por Merlin! E se tivesse subido e tido um mal súbito, caído no chão, desfalecido, não tendo podido chamar ajuda? Preocupou-se e tornou a chamá-lo, agora um pouco mais alto.

– Albus?

– Minerva...

Assombrada, ela tentou abrir a porta... trancada... nem mesmo com magia...

– Albus!

Deus! E se ele estivesse tendo um ataque do coração? Se estivesse morrendo? Devia chamar ajuda? Poppy? Filius, para a que porta fosse aberta?

– Hm, Minerva!...

Santo Deus, ele estava chamando por ela, precisava de socorro! Fosse o que fosse que estivesse acontecendo, ele precisava urgentemente de ajuda. De outro modo, jamais chamaria por ela, especialmente naquele tom choroso de voz. Em pânico, ela se pôs a tentar um feitiço após outro, até que a porta se destrancou. Suspirou, aliviada. Rapidamente, pôs a mão sobre a maçaneta e girou-a, e um segundo depois...

– Aaah!

A exclamação foi involuntária, bem como o desviar de olhos.

Ela já tinha se visto em algumas situações constrangedoras antes, mas nenhuma como aquela... nenhuma tão constrangedora assim. Mais que constrangimento, e substituindo o desespero e impotência de antes, o choque tomava conta de si. Não, não, não... ela não tinha visto o que tinha visto... ele... BOM MERLIN! Abriu a boca a dizer algo, mas as palavras lhe fugiram todas. Todo o sangue do corpo depositou-se nas faces, a fazendo assumir uma estranha cor de tomate maduro. Ele... ele estava... e não só, ele estava, enquanto... Céus, ele chamava por ela! Vendo... vendo sabe-se lá o que com a cara metida na penseira... ele... Pela primeira vez na vida, ela quis dizer algo grosseiro, extremamente grosseiro, para o grande Albus Dumbledore. Ele a tinha posto naquela situação constrangedora e ele usava a imagem dela para algo... sórdido, algo que... algo que ela jamais esperava dele. Subiu-lhe raiva a misturar-se com o constragimento. De modo que ela só pôde cuspir desculpas e sair o mais rápido possível.

Não ouviu mais nada, nem ele pedindo que ela esperasse, nem os quadros fazendo um ou outro comentário surpreso por conta do modo como ela se apressava a sair... apenas... ela apenas correu pra fora, desceu as escadas e as outras escadas, saiu para os corredores, e, se sentindo horrível, deu graças por não ter mais nenhuma outra aula naquele dia. Não teria cabeça para enfrentar uma classe, não depois de... depois daquilo. Foi direto para seus próprios aposentos então, trancou-se lá dentro e jogou-se sobre o sofá, cobrindo o rosto com as mãos. Queria morrer. Morrer, ou ao menos voltar no tempo e... não ouvir Dilys. Não subir. Não ver.

Passou o resto da tarde sozinha, metida em seus livros, se batendo para vencer mesmo uns poucos parágrafos. Se recusava a abandonar as páginas de pergaminho, com medo de que os pensamentos acabassem correndo soltos. Infelizmente, por mais teimosa que fosse, era impossível fugir do inevitável. Era preciso encarar os fatos. E quando o fez, deixando de lado um grosso volume de capa de couro e se pondo a encarar as chamas crepitantes da lareira... só pode suspirar, se encolher e passar as mãos pelos cabelos...

Há quantos anos eram amigos? Ela nunca antes tinha considerado a possibilidade de que ele pudesse... de que ele pudesse ter algum tipo qualquer de... interesse... interesse romântico... sexual... nela... mais uma vez o sangue lhe subiu às faces, colorindo as bochechas de vermelho forte. Era estranho pensar em si mesma, a essa altura da vida, como... desejável. Já fazia muito tempo desde que ela tinha estado com outra pessoa. Não que não tivesse sido bonita quando jovem. Linda talvez não, mas... bonita, elegante quem sabe. Por que estava pensando nisso justamente agora? Não é como se... não é como se estivesse pensando em... em... não. Ela, é claro que ela não tinha nenhum tipo de... intenção. Ela e Albus... eram amigos. E colegas. Ela suspirou longamente, tirando os óculos e esfregando os olhos. Então... riu. Riu, se sentindo tola.

Bem, que fosse interessante a ele. Isso não era... quer dizer... ainda assim, ainda assim... Ela tornou a colocar os óculos. Isso não desculpava tê-la posto naquela horrível situação. O fato em si já não lhe parecia tão horrível ou absurdo quanto antes. Estranho, sim, estranhíssimo, flagrar um homem de mais de 100 anos como a um adolescente. A verdade é que, de certo modo, havia até mesmo algo de... lisonjeiro. Chocante, é claro, mas... ainda assim, lisonjeiro.

Ele não era um homem qualquer. Era Albus Dumbledore. E... ele, Albus Dumbledore, por algum motivo, se sentia atraído por ela, e isso, por mais surpreendente que fosse, impensável... era agora também inegável. Ele a tinha conhecido jovem, pensaria nela ainda como naquela época? Teria se sentido assim já naquela época?

Quanto bem jovem, e agora ela era obrigada a admitir, tinha tido uma espécie de... paixonite... não, não paixonite, mais que isso, algo que ela não se atrevia a nomear... algo por Albus. Isso com o tempo tinha se convertido em admiração, respeito profundo, amizade... uma grande amizade... Tinha mesmo se convertido? Ou somente... somente...

Estava tudo confuso agora, essa era a verdade. Minerva jamais tinha imaginado que em menos de dois minutos tudo podia mudar tão radicalmente. A relação que tinham... a amizade, a amizade e companheirismo... Ah, ela tinha que ser sincera, já não fazia mais sentido algum negar isso a si própria: ela entendia. Ela entendia perfeitamente. Também se sentia só às vezes, também sentia falta... de companhia, de carinho, de... amor... e talvez pela amizade que tinham, talvez pela proximidade, às vezes realmente pareciam um casal. Já tinha lhe ocorrido antes. Quer dizer, tinha lhe ocorrido que... talvez... só talvez... não seria nada mal se houvesse lá algo mais. Havia nele um tipo estranho de magnetismo, um charme, talvez, um... um algo que ela sempre tinha tentado ignorar, manter sem nome e sem registro, mas... nunca, jamais, lhe tinha ocorrido que ele pudesse também se sentir assim, inclinado para ela de alguma forma. Talvez, só talvez, isso fizesse dela... especial... especial pra ele. Ou talvez só fosse uma... fantasia, uma tolice... Ela sorriu de canto. Ele definitivamente não fazia o tipo pervertido. A essa altura, Minerva não pode deixar de se perguntar, e foi com uma espécie de frio na barriga que o fez, se ele... se ele tinha por ela... sentimentos. Se sentir atraído... fisicamente... por alguém, bem, isso é uma coisa, mas... como poderia? Ela não tinha nenhuma ilusão quanto a seu poder de sedução, ora, é claro que não! Será então que... que aquilo... aquilo poderia representar algo mais, talvez? Algo... algo importante... algo...

Exatamente nesse momento, quando divagava perigosamente pelos vales do "e se", sentindo lhe brotarem tímidas borboletinhas no estômago, alguém bateu na porta. Ela deu um salto, sentando-se muito reta. Não por ter um visitante, mas... por ter esse visitante. Parte de si amaldiçoava o fato dele estar ali, parte... apenas entrava em pânico. Teria de encará-lo, depois de todas aquelas considerações. Depois de tê-lo flagrado em momento tão íntimo e de ter considerado... novas possibilidades... E era ele, é claro que era. Minerva jamais confundiria aquele modo de bater à porta.

Paralizada, ela o ouviu bater de novo, e então... chamar por ela. Ela teve um arrepio ao ouvir a voz do homem, inevitavelmente se lembrando de mais cedo. Pela terceira vez, ruborizou.

– Minerva, sei que está aí... E... eu entendo se não quiser me receber, mas... eu não podia deixar de vir... precisamos conversar. Eu... eu sinto muito pelo que viu mais... – a voz dele soava rouca e fraca através da grossa porta de carvalho... a maçaneta foi girada e porta aberta, então, quando ele completou a frase, agora a voz sumindo-se entre os lábios, o cenho muito franzido, os olhos transbordando de constrangimento, o fez de frente pra ela, olhos-nos-olhos. – ...cedo.

Então se calou. E, por quase três minutos, ficaram em silêncio um diante do outro. Uma eternidade de sem-saber-como, que pôs a ambos muito angustiados. Ele procurava desesperadamente pelas palavras de desculpa que tinha ensaiado, e ela, com o coração batendo depressa, tentava juntar o burburinho de pensamentos em uma única frase coerente.

Quanto finalmente decidiram falar, o fizeram juntos, em uníssono, de modo que ambas as frases se misturaram, tornando-se incompreensíveis. Um "Eu lhe devo desculpas, jamais deveria..." com um "Sinto muito por ter entrado naquele momento, pensei que...". Tornaram-se a se calar.

– Por que não entra?

Albus levantou os olhos, a encarando surpreso, quase aliviado, ou ao menos assim pareceu a Minerva. Ela lhe deu espaço e ele entrou. Fechou-se a porta, ela pensou em oferecer um chá ou qualquer coisa (ela, como ele, tinha pulado o jantar sem nem se dar conta), mas antes que pudesse fazê-lo, antes até mesmo que pudesse convidá-lo a se sentar, Dumbledore respirou fundo e disse:

– Talvez seja esperar demais, mas... Minerva, não sabe o quanto... não sabe o quanto é importante para mim, o quanto nossa amizade me vale. Eu passei a tarde toda pensando em como me desculpar, e ainda não sei como fazê-lo, então... – ele se pôs a fitar os próprios sapatos – O que você viu hoje, eu sei... é claro... que foi chocante, talvez repulsivo, e me é insuportável pensar que aquilo possa mudar tudo que... construímos... a amizade que construímos nos últimos... 15, 20 anos... eu não posso suportar a ideia de que arruinei uma das melhores coisas que tenho, por isso eu vim...

Minerva se surpreendeu com o modo como ele falava. Nunca antes o tinha visto tão receoso, tão preocupado... tão nervoso. Nem parecia ele, nem parecia... o homem tranquilo, de humor leve e espírito alegre e confiante com o qual almoçava todos os dias.

– ...eu... gostaria de saber se... – ele finalmente a encarou nos olhos, com aqueles dois profundos oceanos muito azuis que podiam afogar quem quer que fosse, especialmente a ela, que sempre tinha se permitido se afogar secretamente ali com tanta facilidade... – Minerva, eu não suportaria saber que arruinei tudo. Você não prefere esquecer o que viu? Eu... eu nunca, em nenhuma outra circunstância pensaria em... mas...

Ela não pôde deixar de se surpreender mais uma vez.

– Veio até aqui para me obliviatar?... Como se atreve?

– Não, por favor, Minerva, não me entenda mal. Eu apenas... eu... eu preciso consertar o que fiz. Eu sinto muito. Não tem ideia do quanto. Eu jamais... jamais devia tê-la exposto àquela situação, eu... eu lhe juro, se pudesse voltar atrás... por isso é que lhe pergunto, não prefere esquecer o que houve? Não lhe é preciosa a nossa amizade? Eu não quero que as coisas mudem... eu não quero que olhe para mim e se lembre de algo que nunca devia ter sido obrigada a ver...

– Eu não fui obrigada a ver, você não tem culpa. Foi apenas... um mal entendido.

– É claro que tenho, pelo simples fato de... – ele não conseguiu completar a frase. – Eu sinto muito.

– Quando chamou pelo meu nome...

Ele franziu muito o cenho, envergonhado.

– …achei que estivesse passando mal, pedindo ajuda. E só por isso... invadi seus aposentos. Foi intromissão, não devaria tê-lo feito, e por isso peço desculpas.

Silêncio novamente, novamente ambos sem se encarar. Silêncio que foi quebrado por ela, quando, ruborizando, disse:

– Eu não devia ter visto nada... mesmo assim... talvez... eu não queira esquecer.

Surpreso, ele levantou os olhos rapidamente, a procurando. Os lábios se entreabrindo, como que a falar algo... sem saber o que...

– E talvez... – ela disse ainda, corajosamente – eu queira ainda saber um pouco mais.

Continua...


N/A: Hoooooooohoho, e que tal essa, hein?

Pearll, minha amiga, é tudo culpa dessas ideias malucas que me cerceiam, kkkkkkkk, que bom que tu gostou, de verdade! Sabe que humor não é meu forte, mas fico contente em conseguir escrever algo um pouco mais engraçado, pra variar.

Deia, fiquei contente em ver um review seu aqui, e, muito obrigada! que bom que tu gostou! Você tem razão, eu fui cruel, não fui? Mas vou recompensá-lo por essa lástima, eu prometo! heheheheh... e fics suas, quando é que vamos ver, hein? Chegue mais, junte-se ao clube! :D

Danny: heheheheheh, obrigada pela review e pela força, menina! Essa história é bem doida, e talvez por isso esteja me deixando tão animada, heheh, espero que tu tenha curtido esse cap também, logo logo vem o terceiro!