Capítulo 3

– Saber... – estupefato, Dumbledore sentiu a própria voz esmaecendo. O rosto esquentou, o coração disparou em uma corrida louca... Albus somente supunha o significado que tivessem aquelas palavras. Se a circunstância fosse outra, ele não duvidaria de sua própria compreensão, no entanto certas coisas eram simplesmente difíceis demais de se assimilar. Saber... saber um pouco mais, ela tinha dito... Por Merlin, com isso ela queria dizer...

Virando de costas e andando na direção da lareira (esta, acesa e muito viva), Minerva seguiu dizendo:

– Você... faz isso sempre?

Ele piscou, imóvel, as faces muito rubras por detrás da barba branca, as orelhas quentes como brasa, pontadas estranhas em algum lugar ao pé do estômago. Se lembrou de respirar só depois de um instante.

Se ele fazia isso sempre? Isso? Isso o que? Pensar nela enquanto...? Ou, simplesmente...? …a vendo, quem sabe? Oh, não, usando a penseira tinha sido a primeira vez. No entanto, pensava nela muitas vezes, há muito tempo. Como se vê, não havia modo de responder simplesmente sim ou não, não sem saber exatamente o que "isso" significava, mas ele tampouco tinha forças para abrir a boca a formular uma resposta que não fosse monossilábica.

Engoliu a seco. Por que ela perguntava? Que resposta ela queria ouvir? Ele gostaria de ter a coragem de invadir-lhe os pensamentos e compreender melhor essa simples e assustadora pergunta. Mas não, ele jamais se atreveria. Então lhe restava supor. Ela podia querer ouvir um não, isso era muito provável. Talvez representasse algum tipo de alívio pra ela. Mas se assim fosse, qual a vantagem de não... esquecer, simplesmente? A menos que visse obliviatação como um tipo de violação, e, de certa forma, ele era obrigado a concordar com isso, de fato o era. No entanto, mesmo que essa possibilidade soasse muito plausível, havia também outra... a de que ela poderia, ainda que isso parecesse extremamente improvável... poderia querer ouvir um sim. Talvez saber um pouco mais significasse...

– Perdoe-me, não é da minha conta.

– Não!... Eu... – Ele fechou os olhos. E com "não" ele não queria dizer que não fazia isso sempre, mas... achou melhor não dizer mais nada, a não piorar ainda mais o entendimento – Você já...? – Pelas barbas de Merlin, o que ele tinha dito?

Por um milésimo de segundo, Albus teve a impressão de que ela fosse realmente responder, depois a expressão do rosto dela mudou, para o que já era de se esperar: um misto de choque e constrangimento.

– Não devíamos... não devíamos estar falando sobre isso, foi... uma péssima ideia...

– Me desculpe.

– Está tudo bem. Eu... – ela soltou um suspiro longo, e, de repente, o encarou de modo firme, cenho franzido, os olhos brilhantes – O que eu queria mesmo perguntar... e eu sei que não devia perguntar, mas... O que sente por mim? O que... o que realmente sente, Albus? Nós somos amigos, não somos?

Ele suspirou. Aqueles olhos verdes, aqueles olhos verdes tão expressivos, aquela era Minerva. Aquela era a sua Minerva. Ele deu um meio-sorriso triste. Incisiva, como de costume.

– Somos, nós somos amigos.

– E isso é tudo?

O homem sentia o coração doer de tão forte que pulsava. Estava prestes a por tudo a perder, e não podia evitar... não podia evitar... porque ele próprio já estava perdido, estava perdido por ela, então que fosse o que Deus quisesse.

– Não, não é.

– Não?

– Não. A verdade... a verdade é que te amo. A verdade é que, pra mim, é muito mais que uma amiga, ainda que... – as palavras lhe escapavam dos lábios sem que se desse conta... a voz soava rouca, como a de homem velho ou... a de um homem emocionado – ...ainda que essa verdade só possa se fazer completa dentro de um sonho, de um devaneio... é a verdade que me importa, é o que está em meu coração.

Albus tinha por tanto tempo fugido daquela situação, que encará-la, assim de repente... não era nada fácil. Via-se meio atordoado, meio encurralado. Sentia-se como que à beira de um precipício, com pedrinhas escorregando debaixo dos pés, o desequilíbrio o empurrando rumo à maior das quedas. Engolia a vontade de chorar que vinha sabe-se lá de onde, lá de dentro das profundezas de seu ser. Ela nunca o tinha visto chorar, e não seria agora... seria?

– Por que nunca me disse?

– Tive... medo. Eu sei o que esperam de mim, sei o que pensam, mas também sei que você, mais que ninguém, pode ver além do meu nome, além dessa estranha aura que alguns dizem que me cerca... você me conhece, Minerva. Por favor, entenda que sou... só um homem. E, como qualquer homem, sinto medo. É tão complicado... é tudo tão complicado. Se o que posso ter é sua amizade, então isso me basta, e é por isso que nunca lhe disse nada. Porque o que não posso suportar é uma vida sem você. Por favor, me diga que as coisas não vão mudar. Por favor.

Como ela não o encarava, ele, sentindo os ombros pesados, a cabeça pesada, o peito pesado... se aproximou do sofá e se sentou na beirada, devagar... Ela lhe deu as costas, caminhou de um lado para o outro, estava aflita, tensa, confusa, prestes a sentenciar sua decisão.

– E como poderiam não mudar?

Ele não soube responder. Passou-se um momento de silêncio. Sentiu então o peso de alguém se sentando ao seu lado, no sofá.

– Albus, olhe pra mim.

Ele, com o cenho muito franzido, olhou. E ali estava ela, tão próxima, tão distante. Tinha finalmente conseguido arruinar tudo, era isso? Depois de tanto cuidado que tinha tido... por um deslize tão... estúpido!

– Eu sinto muito. – ela disse.

Em resposta, ele deu um sorriso triste, sentindo uma lágrima quente cortar o rosto e se embrenhar na barba... Estava então tudo acabado? Tudo aquilo que nem mesmo tinha tido início... Ele merecia. Ele merecia, sabia que merecia. Minerva estendeu a mão, tocando o seu rosto, secando com o polegar a lágrima solitária... há quanto tempo não sonhava com esse toque, o pobre homem? E agora que o sentia... era o fim... Doía, doía dentro de sua alma. Como ele queria ter coragem de empunhar a varinha agora e apagar tudo isso! Por que ela não consentia?

– Sinto muito – ela repetiu – mas não posso ignorar algo como isso. Eu não posso fazer de conta que não aconteceu ou que não sei. Eu entendo que seja complicado. Mas talvez... talvez nós pudessemos... tentar...

Ao ouvir isso, ele inspirou forte, como alguém que, surpreso, é trazido de volta à vida depois de chegar a passos dos portões do além. Tentar! Tentar! A olhou nos olhos, surpreso, incrédulo. Tentar! Ela falava sério? Ela queria dizer que... ela falava dos dois...? Ela... queria tentar! Era inacreditável! O enorme sorriso que brotou nos lábios dele foi involuntário e bobo. Tentar!

– Você quer dizer...

– Eu... eu quero dizer...

Ambos riram de leve, encabulados. Que estranha cena! Com as bochechas róseas e um sorriso tímido, mas insistente, ele, muito sem-jeito, colocou a mão sobre a dela... devagar, se curvou em sua direção, como que para beijá-la nos lábios. Já estavam muito próximos quando disse, em meia voz:

– Você quer dizer...

– Eu quero, Albus.

E a beijou, colando os lábios nos dela muito desajeitamente. Depois de um momento, ela se aproximou mais, trazendo as mãos para o peito do homem, metendo os dedos entre os fios da barba alva... e ele, então, a abraçou forte, a trazendo para muito próximo de si. Novamente, lhe subiu uma vontade de chorar, mas já não era de tristeza...

– Eu nem acredito no que está acontecendo. – ele murmurou, parte para ela, parte para si mesmo. – Achei que, depois daquilo, não ia mais querer me ver... Achei que...

Ela sorriu de canto.

– Não seja tolo, eu também não poderia viver sem você.

Ele riu, um riso nervoso, um riso chocado... encantado.

– Não poderia?... – fechou então os olhos, encostando o testa na testa dela... tomando coragem para fazer a grande pergunta. Quando a fez, foi em um tom mais baixo, quase como se perguntasse um segredo – Minerva... você... você me ama?

Ela levou um momento para responder, e respondeu assim:

– Eu... acho que... esse é um bom nome pra descrever o que sinto.

Então sorriu. Sorriu o sorriso mais lindo que ele já tinha visto. Diante disso, Albus não poderia fazer mais nada além de tornar a beijá-la, agora com muito mais paixão.

Beijar é mais ou menos como andar de bicicleta. Quando se passa muito tempo sem fazê-lo, é estranho tentar de novo. Há sempre um momento de desjeito no início, mas não há como se esquecer de como se faz. Seu corpo se lembra. Ele faz por você. Beijar é mais ou menos como fazer amor. Quando se passa muito tempo sem fazê-lo... bem, parece estranho, parece distante, como se você só tivesse feito em uma outra vida. Mas seu corpo se lembra. Seu corpo faz por você.

– Eu vou dar o meu melhor para que dê certo. Eu lhe juro, Minerva. Fez de mim hoje o homem mais feliz deste mundo. Terá tudo de mim a fazê-la feliz também.

– Já me faz feliz, Albus. – Ela sorriu. – Acha... acha que podemos passar mais tempo juntos daqui em diante?

Dumbledore mordiscou o lábio. Ele, é claro, adoraria, mas... não seria exatamente fácil.

– Meus compromissos, meus deveres... ainda são os mesmos. Talvez não saiba, mas você já tem cada minuto livre de meus dias, todos, todos passo com você. Mas eu prometo fazer o possível e impossível para multiplicá-los, se esse é o seu desejo. A sua companhia, minha cara, é o que faz meus dias valerem a pena.

– Eu conheço seus horários, e seus comprissos, e seus deveres... não estava pensando em seus dias, mas em suas noites.

– Minhas... noites... – Sem saber se tinha entendido bem, ele tentou conter o sorriso. Dividir a cama com ela, dividir... acordar pela manhã ao seu lado... Deixou escapar um suspiro rápido. Fazer amor. Não queria assustá-la, atropelar as coisas, e só por isso, só por isso não se ajoelhava agora diante daquela mulher a pedir sua mão. Como queria isso! Queria, queria de todo o coração! Mas... ela devia estar falando sobre momentos como aquele, pensou, ao sofá, diante da lareira, conversando, talvez jogando xadrez... já faziam isso muitas vezes... e era sempre tão agradável! – Minhas noites, como... como agora?

Mas o sorriso dela, o modo como os olhos começaram a brilhar de repente... o suspiro estranho que deu, talvez tomando coragem...

– Sim, como agora.

Dito isso, Minerva se aproximou muito, passando os braços em torno do pescoço dele. Lhe subiu um arrepio engraçado, se sentiu diante daquela mesma Minerva que tinha visto na penseira, a Minerva de sua imaginação masculina. Nunca tinha conseguido imaginar como seria o desejo nos olhos dela, mas, trêmulo, constatou: lá estava, lindo, deliciosamente vívido. Onde tinha se escondido todo esse tempo? Ela se curvou na direção ele, o beijando voluptuosamente, os dedos finos metendo-se entre os longos fios de sua barba, lhe tocando a pele... o pescoço, os cabelos... os lábios se misturando, o gosto da boca um do outro se misturando... As mãos do homem envolveram a cintura dela quase que naturalmente, a lhe apertar de leve...

De repente, ela se desvencilhou dele, sorrindo... o tomou então pela mão e o fez levantar... o conduzindo a passos lentos na direção da porta que, ele sabia, dava para o quarto. Muito surpreso, ele soltou frouxamente, em meio a um suspiro:

– … Agora?

Agora.

.

Continua...


N/A: Gente bonita, eu confesso que, quando comecei a escrever essa fic, estava em dúvida sobre onde iria parar... mas... as coisas foram acontecendo, e... afinal, quem sou eu pra tentar conter o amor desse casal lindo? hehehehehe... o próximo capítulo vai ser mais curto que os demais, e em um tom um pouquinho diferente, já estou com ele quase pronto, aguardem, que logo logo posto, ok?

Como sempre, gostaria de lembrar que eu adoro reviews, hehehehe, e que ficaria muito feliz se me dissessem o que estão achando. De todo modo, agradeço que estejam lendo, acompanhando... e, é claro, torço pra que estejam curtindo!

Deia: Aaahhh, é uma pena! Bem, de qualquer forma, é um gosto tê-la por aqui. Muito obrigada pelo review, guria, e, claro, pelos elogios, hehehe. Beijão procê!