Capítulo 6 / Epílogo
Duas semanas se passaram até que Minerva, se valendo de sua astúcia felina e de um sem-fim de argumentos muito ligeiros, finalmente o conseguisse convencer. Estavam, pois, na menor das Torres, aposentos particulares do diretor, o mesmo ambiente onde assistimos Dumbledore, no início desta história, cometendo um dos melhores descuidos de toda a sua vida. Ele agora preparava a penseira... a mostrar-lhe, como podem imaginar, aquilo que ela queria ver. A vendo, ali, tão à vontade, tão próxima, tão curiosa, ele não podia deixar de achar graça. Duas semanas. Duas semanas apenas.
Nesse meio tempo, o relacionamento deles se estreitou e se modificou. Conversaram muito e decidiram por compartilhar as novidades apenas com os amigos mais chegados, e, ainda assim, pedindo segredo. O plano era deixar, pelo menos de início, que as coisas corressem sem muito barulho, e, principalmente, sem estresse ou riscos desnecessários. As implicações e inconveniências estavam muito claras, e, sinceramente, por que não evitá-las, sendo possível? Quando Minerva assentiu, Albus, de pronto, se sentiu muito aliviado. Não é que não tivesse vontade de gritar para o mundo que aquela mulher era a sua mulher, que a amava de todo o coração, não, mas... fazer isso faria dela um alvo. Queira ou não, todo homem público, sobretudo os bons homens públicos, os incorruptiveis, têm inimigos. E por à risco quem lhe era querido estava fora de questão. De qualquer forma, mesmo não podendo gritar lá fora, podia ali dentro. Quando estavam sós, podia mostrar todo o seu amor e devoção. Em pequenos gestos, como aquele que estava por fazer.
Aquela era, com certeza, uma prova de afeto, de confiança, de amor. Estava extremamente encabulado, não podia negar. E estava também receoso. E se ela, vendo a infame falsa-memória, se aborrecesse com qualquer daquelas imagens tolas? Se lhe parecessem impróprias demais, sujas? Eram só fantasias, não tinham sido preparadas para se compartilhar com quem quer que fosse. Só de pensar que, ao tê-las criado, sua maior preocupação era justamente que ela nunca as visse, ele riu, riu sentindo o rosto queimar como brasa. Estava prestes a abrir para ela algo extremamente íntimo. Algo só seu. Algo tão sincero e tão despreocupado...
Não era como compartilhar uma memória, mas... como abrir não só as portas da mente, mas também as de seu coração, a convidando para entrar e desvendar cada segredo. A nós é sem dúvida difícil mensurar, como também era a Minerva, o quanto aquilo significava a Dumbledore, mas... lá estavam eles, e entre eles a penseira prateada... os fiozinhos de luz girando e girando, à espera de sua expectadora especial.
Ela deu dois passos mais pra perto, o olhou nos olhos muito profundamente enquanto mordiscava o lábio, então se curvou e mergulhou o rosto na fantasia secreta que tão recentemente mudara a vida de ambos. Ainda do lado de fora, Albus prendeu a respiração. Seu coração começou a bater depressa e um arrepio de vergonha lhe cortou o estômago. Queria sair correndo e se esconder, para não ver a expressão do rosto dela quando tudo terminasse. E, ao mesmo tempo, queria desesperadamente ver a expressão do rosto dela quando tudo terminasse. Queria ainda, que não terminasse. E se ela achasse sórdido? Ele a tinha imaginado... ele... ele não... Oh, Merlin!
Com o cenho franzido, a ouviu soltar um suspiro. Não soube dizer se era um bom ou um mal suspiro. Correu os dedos pela barba longa, de modo tão pacato, que quem visse de nenhum modo poderia imaginar o quanto estava nervoso. Passaram-se minutos, e quanto mais nervoso se punha, mais tranquilo parecia. Piscou, olhando o tapete, olhando Minerva... pra beirada reluzente da penseira sendo ligeiramente apertadas entre os dedos dela... Suspirou lentamente, lá dentro o estômago dando piruetas.
Droga, achou que tinha sido uma péssima ideia. E de novo achou rasoável. E então boa ideia. E aí péssima ideia de novo. E por que tão longa falsa-memória? E por que ela queria tanto ver? E o que estava achando? A curiosidade o consumia, o queimando por dentro! Cruzou os dedos diante do peito, como se não tudo estivesse perfeitamente certo.
De repente, ela, bem devagar, emergiu. Não o encarou, num primeiro momento. Parecia chocada. As faces estavam positivamente rubras. Ele se sentiu terrificado. O que tinha feito? Merlin, não devia ter mostrado nada! Estremeceu quando ela levantou os olhos, o encarando muito séria, quase... fria. Estaria ela furiosa? Sentiria, talvez, repulsa? Ele mal podia respirar, o pavor de ter estragado tudo o sufocava. Por um instante, até mesmo se esqueceu de dissimular o nervosismo imenso que se debatia dentro de si.
E então? Os olhos dele imploravam!
E então... os canto dos lábios dela começaram a se curvar e se curvar... e um sorriso mui travesso se formou. Mal ele tinha computado essa informação, já a via andando em sua direção se-du-to-ra-men-te. Foi não menos do que empurrado para o sofá e beijado voluptuosamente sem um pingo de dó. O beijo mais quente e mais forte que já tinha recebido dela. Soube, naquele instante, que se aquela mulher não o matasse – oh, Deus! – certamente o levaria ao paraíso!
Depois de sentir os lábios dela descendo a partir do queixo, a deixar um caminho de beijos que cruzasse toda a extensão de sua barba... não demorou tanto assim a descobrir que ela podia sim ronronar, e que isso rendia – bom Deus! – sensações para muito, muito, muito além das algum dia imaginadas.
E a velha bacia prateada ganhou oficialmente uma nova utilidade. E assim foi usada ainda muitas e muitas vezes, ao longo de muitos anos, a revelar ideias tantas e tão criativas, que nós, de tão longe, poderíamos, quem sabe, só imaginar e supor... quais, quantas e como fossem. Uma engenhosa forma de conversar, não? Dumbledore era famoso, entre outros motivos, por suas ideias engenhosas. Pois é como eu digo, por vezes as boas ideias nos parecem tão, mas tão boas, que nos fazem esquecer de tomar certos cuidados... com os quais até mesmo a melhor ideia do mundo poderia não passar de uma boa ideia. Isso me leva a crer que o Universo de fato conspire, e por vezes nos conceda aquilo que chamamos de dias de boa sorte.
Esta história começou em uma tarde muito fria de inverno, que teria sido sucedida por uma noite ainda mais fria... fria como muitas outras... que nunca vieram. Porque, como todo homem, Dumbledore tinha anseios, desejos, sentimentos, vontades e... seus dias de boa sorte.
FIM
N/A: ai ai... *suspiro* quase saiu mais uma lasquinha de limão aqui no final, hein? hehehe, mas deixemos assim, sim? Sim. Muito obrigada a todos que acompanharam e um duplo obrigado aos que deixaram review, comentários, enviaram corujas e sinais de fumaça! Peço desculpas se demorei a concluir a história, gostaria de tê-la terminado mais cedo, mas, sabem como é... o Universo conspira... às vezes a inspiração foge, pra depois voltar...
Um grande beijo pra vocês e até a próxima fic!
E um beijo especial pra Pearll que me deu a maior força com esta história e que agora voltou a atualizar Incólume! AÊEE! :D Sério, caps novos deliciosos, não deixem de passar lá pra ver!
